A Missão
58 Capítulo 38
Encontrei com Júlio logo depois do almoço, na base de treinamento. Nos cumprimentamos e passamos a treinar. Primeiro tiro ao alvo.
Essa era uma matéria que eu me dava bem e gostava. Conseguia acertar uma boa porcentagem de balas no alvo. Mas é claro que Júlio me superava. Como era de se esperar ele era bom nisso também. Ele não errava nenhuma das balas e quase todas iam exatamente para o centro do alvo.
Conforme mais eu praticava, mais minha mira melhorava. Júlio percebeu meu progresso e me elogiou:
– Você é boa.
– Tive um professor bom. — respondi sorrindo para ele. Júlio foi quem ensinou tiro ao alvo durante o treinamento.
Ele sorriu de volta para mim e depois voltou ao exercício e eu fiz o mesmo.
Passado um longo tempo, resolvemos treinar as técnicas de luta:
– Você quer começar pelo saco de pancadas ou comigo? — perguntou Júlio, sério em seu tom de professor.
Pensei um pouco. Era melhor começar devagar.
– Com o saco de pancadas. — eu disse. E ele concordou.
Fomos para o lado dos sacos de pancadas e começamos a bater neles. Depois de algum tempo, eu já estava ofegando e toda suada, mas continuava com o exercício. Aquele era uma das minhas coisas preferidas. Todo dia eu vinha ali bater nos sacos de pancada. Era como uma terapia para mim.
Percebi que Júlio havia parado e me olhava atentamente.
–O que foi? — perguntei, continuando meus movimentos.
– Estava me lembrando do começo do seu treinamento, quando você não conseguia nem dar um soco corretamente. E agora está aí, fazendo tudo muito bem. Nem parece a mesma.
E era verdade. Eu havia melhorado muito com o passar dos dias. Com o treinamento diário eu havia aprendido a ser cada vez mais rápida nos movimentos e a usar todo o meu corpo para dar força aos golpes.
– Obrigado. — agradeci, parando e secando o suor da testa, enquanto falava com ele. — Mas também devo isso a você. Acho que se não tivesse me ajudado eu continuaria do mesmo jeito.
Ele deu de ombros e não disse nada. Fomos pegar nossas garrafinhas com água em um canto e sentamo-nos lado a lado em um colchonete para descansar um pouco.
– Porque você me ajudou? — essa era uma questão que me deixava curiosa seguidamente – Até hoje não entendi isso.
– Eu vi você treinando sozinha, tentando melhorar. E aquilo me deixou surpreso.- Júlio começou, olhando fixamente para um outro soldado que treinava nos sacos de pancada – Você tinha força de vontade e determinação e apesar das suas limitações físicas, como tamanho e força, tentava ser como os outros. Aquilo me comoveu. E eu quis muito ajudar você. Eu disse pra mim e pro Cadeado que iria lhe ajudar porque você tinha que ser boa nisso. — entendi que ele se referia a missão. Que eu tinha que saber lutar bem para me juntar a eles –, mas não foi bem isso. Foi porque eu não podia te ver daquele jeito, tentando ser melhor e não obtendo sucesso. Meu lado solidário e bom clamava para que eu lhe ajudasse. E foi o que acabei fazendo.
– Obrigado. Fico feliz que tenha me ajudado. — disse eu sorrindo, e coloquei minha mão em cima da dele.
No momento em que minha pele encostou na dele, como um choque, ele virou a cabeça e olhou para mim. Em seguida levantou em um pulo, e me alcançou a mão para me ajudar a levantar:
– Vamos treinar mais um pouco?
– Vamos. — concordei e segurei sua mão, enquanto ele me puxava para ficar de pé. — Podemos tentar lutar um contra o outro no ringue?
– Tem certeza que quer isso? — Júlio parecia meio preocupado.
– Tenho. Vai ser bom. Mas temos que lutar de igual para igual. Você não pode me poupar.
– Não sei se consigo – e ele parecia sincero ao dizer as palavras – É difícil pra mim te machucar.
– Você consegue sim. E estará, na verdade, fazendo um favor para mim. — argumentei. Precisávamos treinar aquele tipo de luta. Se não, na hora da invasão, um guarda vinha pra cima de mim, para lutar e eu cairia em seu primeiro golpe.
Fomos para o ringue e com um pouco de relutância da parte de Júlio, começamos a luta. Eu era quem mais atacava. Júlio tentava só se defender, e dar algum golpe quando eu deixava minha guarda em aberta enquanto o atacava. Várias vezes ele prendeu meus braços, me imobilizando. E como ele não perdia a vocação de professor, ia me ensinando algumas coisas e dando algumas dicas. Se alguém me imobilizasse pelos braços como ele estava fazendo, era pra mim usar minhas pernas para chutar e me soltar do agressor. Se meu adversário fosse um homem, era para mim dar apenas um chute forte no meio das pernas dele, que ele me soltaria facilmente.
Júlio queria que eu treinasse aquele golpe com ele. Mas dessa vez era eu quem não conseguia. Se eu desse um chute a onde ele estava pedindo, tinha certeza que iria provocar uma grande dor, e achei melhor evitar isso. Aquele não era um golpe difícil, e eu conseguiria fazê-lo sem ter nenhuma prática.
Outras várias possibilidades de coisas que poderiam acontecer comigo, foram encenadas por Júlio e ele sempre me explicava o que eu devia fazer em cada situação.
Certa vez, ele me empurrou para o chão e deitou em cima de mim. Me imobilizando com seu corpo inteiro. Naquele momento aquilo pra mim não era mais um treinamento. Eu tinha consciência de todo o seu corpo sobre mim, o calor que ele transmitia, o seu cheiro. E ainda tinha seu rosto a alguns centímetros do meu, aqueles olhos negros me olhando, sua respiração se misturando com a minha.
Aposto que Júlio não estava indiferente àquela sensação também. Ele devia estar sentindo a tensão e a atração entre nós. Mas mesmo estando sozinhos na base de treinamento, ele não deixou se abater e tentou explicar o melhor jeito de sair daquela situação.
– Se você tiver uma arma, a solução é simples. Pegue-a e mire no seu adversário, fazendo o recuar. Mas se não tiver, aí é um problema. — sua voz era baixa, devido a proximidade entre nós. — Se estiver com os braços e as pernas presas como agora, não poderá chutar e sua única opção será usar a cabeça. E eu digo isso literalmente. Dê uma cabeçada no adversário. Isso irá bastar. Agora tente....
Eu estava pronta para cabeceá-lo quando escutei uma voz perto de nós. Parecia alguém rindo. Uma risada grossa e sem graça, mas uma risada. Olhei para o lado e vi Alexandre ali nos observando. Júlio percebeu que eu estava olhando alguma coisa e acompanhou meu olhar.
– Ora, ora... O que temos aqui? — disse Alexandre zombeteiro.
Eu tinha que concordar com Alexandre, por mais que não gostasse dele. Aquela situação era estranha para quem estava olhando de fora. Júlio em cima de mim, e nós sozinhos na base de treinamento. Eu também ficaria surpresa se visse uma cena daquelas.
– Estamos treinando um pouco. Algum problema? — Júlio perguntou, se levantando e me ajudando a me levantar também.
– Tem certeza que é isso que estão fazendo? — não tinha reparado antes, que Alexandre estava vestido casualmente, com uma calça jeans e uma camiseta preta e larga. — Pra mim pareciam que estavam se comendo.
– Nós estávamos treinando. Somente isso – Júlio permaneceu firme. Fiquei feliz por ele não ter explodido e gritado com Alexandre pelo seu comentário.
– E porque você e ela, sargento? Não tinha mais ninguém para treinar com você?
– Porque eu e ela somos namorados. — ele soltou, e eu abaixei a cabeça corando de vergonha. Júlio já estava colocando o plano em prática. — E ambos gostamos de lutar, por isso viemos aqui essa tarde. Algum problema?
–Imagino o porque vocês gostam de lutar um contra o outro. — Alexandre riu descaradamente e eu corei ainda mais. — Seria bom se lembrassem de treinar desse jeito em seus quartos, a quatro paredes e não em uma área pública como essa. Não quero ver esse tipo de cena.
– Não estávamos fazendo o que você imagina. Temos pudores. Mas com licença, acho que já chega de treinamento por hoje. — Júlio pegou em minha mão me puxou para fora da base de treinamento.
Ele continuou segurando minha mão enquanto andávamos pelo quartel. Vários soldados passaram por nós, e ficaram nos olhando juntos, surpresos. As fofocas sobre nós dois, com certeza iriam aumentar.
Júlio me levou pro meu dormitório e quando chegou na frente da porta, soltou minha mão e disse, olhando para mim:
– Imagino como deve ser difícil para você tudo isso... Mas é que...
– Eu sei, eu sei... — me apressei em cortá-lo.- Não se preocupe. É que só não estou acostumada com tantos olhares e com aquele tipo de comentários do Alexandre. Mas não tem problema.
– Tudo bem. Qualquer coisa me avise. Amanha de noite, nos vemos de novo lá na base de treinamento.
– Certo. — concordei.
– Então tchau. — ele se aproximou mais de mim e colocou a mão em minha cabeça, segurando meu rosto e meu cabelo. Por um milésimo de segundo achei que ele fosse me beijar na boca, mas ele me deu um carinhoso beijo na testa e se foi.
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