A Missão
51 Capítulo 34
Acordei no outro dia um pouco antes do nascer do sol, ainda com Júlio agarrado a mim. Me mexi um pouco e olhei pra ele, que continuava acordado. Seus olhos se iluminaram ao me ver o olhando e ele sorriu:
– Bom dia, princesa...
– Bom dia. — Me levantei de pé, e ele fez o mesmo, esticando seus braços e pernas. Me senti culpada por ter feito ele continuar na mesma posição durante toda a noite, com os braços em volta de mim. — Qual a primeira coisa que vamos fazer hoje?
– Se não estiver com muita fome, poderemos partir e encontrar alguma coisa comestível pelo caminho. — sugeriu ele. Achei que depois da noite ele pudesse voltar a ser o Júlio sargento, mas ainda estava me tratando muito bem.
– Certo, então vamos. — alcancei minha mão pra ele num impulso, e ele a pegou sem olhar para mim.
Começamos a andar de mãos dadas, e quando ele começou a manquear um pouco, percebi o que eu havia esquecido:
– Como está seu pé? — parei de andar e me virei de frente pra ele.
– Ta bem melhor. Quase nem dói mais. Eu consigo andar – ele disse a última frase porque viu meu olhar preocupado.
Prosseguimos caminho e encontramos algumas frutas que pudemos comer. Não conversávamos muito, mas nossas mãos continuavam unidas. Era um gesto simples, mas pra mim tinha um significado enorme. Dizia que estávamos juntos, um dando força pro outro, que nos importávamos um com o outro também.
Pela altura do sol, passava do meio-dia quando eu pedi pra fazermos uma parada para descansar. Já tínhamos andando muito, mas parecia que tínhamos mais do que o dobro de caminho pela frente. Achamos uma clareira na mata, e sentamo-nos lado a lado, olhando pro céu enquanto descansávamos.
Percebi um movimento estranho no céu, parecia um avião. Mas eu não tinha certeza. Apontei para Júlio:
– O que é aquilo?
Ele olhou na direção do meu dedo e espremeu os olhos pra tentar identificar melhor:
– Parece um avião. Mas não tenho certeza.
– Foi o que achei. Será que é alguém nos procurando?
– Não sei. — ele parecia confuso e parou pra pensar – Tenho uma ideia: mesmo se for um avião que não está nos procurando, pode ser nossa melhor chance de conseguirmos voltar – aquilo me provocou um arrepio. Existiam chances de não conseguirmos voltar ao quartel? — Vamos fazer uma grande fogueira aqui. A fumaça pode chamar a atenção deles. Mas temos que ser rápidos.
– Certo. — concordei – eu vou achar alguns gravetos.
Corri para o meio da floresta e sem dificuldades achei gravetos o suficiente, quando voltei para a clareira com eles, Júlio já estava quase terminando de fazer o fogo. Arrumei todos os gravetos com algumas palhas, como Júlio havia ensinado durante o treinamento, e ele colocou as brasas já feitas lá. Assoprando até que os gravetos começassem a pegar fogo.
– Eles estão molhados com a chuva de ontem, precisamos de mais. — Júlio ordenou e fui rapidamente procurar mais.
Quando voltei, já tínhamos uma fogueira de tamanho memorável. Coloquei os outros gravetos nela e rapidamente a fogueira aumentou ainda mais de tamanho.
– E agora? — perguntei.
– Sentamos e esperamos.
Foi o que fizemos: sentamos e ficamos cuidando o céu com esperança que aquele avião ainda estivesse por perto e visse a fumaça. Após uma meia-hora, parecia que nosso plano não havia dado certo, e Júlio acabou falando frustrado:
– Só perdemos tempo. Isso não adiantou, temos que continuar andando.
Não fiz objeções a aquilo. Eu também estava decepcionada e irritada por não ter dado certo. Prosseguimos nosso caminho, e dessa vez foi ele quem pegou na minha mão.
Eu estava distraída com todo o meu cansaço, quando de repente, Júlio me deu um puxão e se colocou em minha frente de uma forma protetora. Ele pegou o revólver do cinto e ficou apontando para a mata. Mas mesmo assim não soltou a minha mão.
Ouvi alguns sons na floresta, e entendi o porque daquela reação dele. Tinha alguém ou algum animal, se aproximando de nós. Puxei a faca que ele havia me dado, também e fiquei com ela empunhada na minha mão livre.
Os barulhos começaram a aumentar e vimos alguns vultos se aproximando de nós. Júlio apertou mais ainda a minha mão e colocou o dedo no gatilho de sua arma, pronto para atirar.
Ele já tinha a mira preparada, para onde a coisa iria sair e nos encontrar. Estava pronto para atirar, mas recuou. Viu que era uma pessoa, quando ela deu um passo para frente, e sem hesitar abaixou a arma.
Com mais um passo dessa pessoa, percebi o porque Júlio havia abaixado a arma e tinha relaxado: era Danilo. Na mesma hora em que eu percebi quem ele era, ele nos reconheceu.
Danilo saiu correndo em nossa direção e veio direto para mim, me abraçando. Soltei a mão de Júlio e o abracei também, me sentindo aliviada por ser ele ali e não um animal selvagem.
– Ai Liss... Eu fiquei tão preocupado com você – ele suspirava, com os meus cabelos em seu rosto, enquanto me abraçava apertado.
– Ta tudo bem. Estamos bem – eu o tranquilizei passando a mão em seu cabelo curto.
Quando ele me soltou e passou para abraçar Júlio, percebi que não estava sozinho. Mais três homens estavam com ele. Todos fardados como militares. Um desses caras, um negro que parecia estar na meia idade, falava em uma espécie de celular, parecendo indiferente:
– Nós os encontramos. Estão bem. Já estamos indo.
Eles nos levaram até uma clareira muito grande, perto de um rio, onde estava pousado um avião maior que o que tínhamos, e exatamente igual ao que tínhamos visto no céu. Entramos e nos sentamos. Eu e Júlio lado a lado e de frente para Danilo e os outros três militares. Depois mais oito soldados entraram e se sentaram ali também. E o avião decolou.
Eu não conseguia falar nada. Queria algumas explicações, mas não conseguia pedir. Só conseguia ficar calada observando tudo. Foi Júlio quem começou a perguntar:
– Como nos encontraram? — ele não estava mais com o tom de voz gentil. Já tinha assumido o seu papel de militar.
– Achamos o avião caído e descemos para investigar. – foi Danilo quem se atreveu a explicar – Quando não encontramos nenhum sinal de vocês, voltamos para o nosso avião e ficamos sobrevoando as redondezas, na esperança que não tivessem ido muito longe. Foi quando vimos aquela fumaça e tivemos certeza que eram vocês. Só que quando descemos lá na fogueira não havia mais ninguém, de novo – ele bufou olhando pra nós – Tivemos que nos dividir e começamos a procurar por perto.
– E como vocês sabiam o que tinha acontecido com nós? Ou alguém avistou o avião no rio? — Júlio olhou sério pro irmão.
– Eu fiquei preocupado ontem quando Liss não dormiu no quarto, aí fui te procurar hoje cedo pra falar dela e também não te encontrei. Minha preocupação aumentou mais ainda e eu sabia que tinha acontecido alguma coisa. Fui avisar Alexandre, mas ele nem deu bola. Mas enquanto eu ainda estava lá, alguém do palácio do governo ligou querendo saber porque Liss não tinha ido trabalhar, Alexandre disse que não sabia e que ela estava sumida. Avisaram Margareth disso e ela deu ordens para que lhe procurássemos por todo canto. Acho que ela gosta de você – Danilo deu uma piscadinha pra mim – Revirando o quartel, descobrimos que estava faltando um avião. Quando comunicamos isso a ela, ela mandou que saíssemos em missão com algum outro avião para procurar vocês, e aí saímos e encontramos seu avião caído no rio. O resto vocês já sabem...
Ninguém falou mais nada por tempo, Danilo devia ter percebido que nós não estávamos andando de avião juntos por diversão. Deve ter concluído que tinha alguma coisa a ver com a missão e não fez pergunta nenhuma sobre isso. Mas um outro soldado acabou perguntando:
– Sargento, o que vocês estavam fazendo com aquele avião monomotor?
Júlio nem pestanejou, calmamente usou a desculpa que havia me contado:
– Estávamos dando uma volta. Eu faço isso de vez em quando. E dessa vez acabei convidando a soldado Liss para ir comigo. Mas o avião acabou apresentando problemas e eu perdi o controle dele em certo momento. Quando consegui controlar ele de novo, já estávamos lá perto de onde vocês nos encontraram. Só me restava, então, pousar o avião com segurança ali mesmo.
A mentira tinha saído perfeita, ninguém nunca questionaria aquela história se ouvisse Júlio falando. Ele foi muito convincente. Não acho que eu conseguiria falar tudo isso tão bem. Júlio era um bom ator. Interpretava muito bem as mentiras e o seu papel de sargento. Isso me fazia questionar se ele não estava interpretando quando estava lá sozinho comigo, também.
Quando chegamos no quartel, descemos do avião e Júlio fez questão de apertar a mão e agradecer um por um dos soldados que tinham ido nos resgatar. Depois de feito isso, ele olhou pra Danilo e mandou:
– Leve a soldado Liss para a clínica. Para fazer alguns exames. — ele nem me olhou. Falou somente com Danilo, o que fez eu questionar se ele estaria me evitando.
– Tá. — concordou Danilo, já me puxando pelo braço.
– Você precisa ir pra clínica também. Você tá mais machucado do que eu. Precisa ver este pé. — eu tentei dizer para Júlio, mas ele nem me deu ouvidos.
– Eu vou depois. Agora tenho algumas outras coisas para resolver. — ele finalmente se virou para mim e me olhou, com a expressão séria – Com licença soldado. — e saiu andando.
Fui pra clínica acompanhada de Danilo. Que toda hora queria saber como eu estava, se tinha me machucado muito, se eu estava com medo, e esse tipo de coisa. Aquela preocupação toda me irritava, mas eu me controlava e respondia a ele sempre calma.
Depois de alguns exames e uma consulta com um médico, ficou claro que eu não tinha nada além de alguns arranhões. O médico me dispensou, pedindo que eu passasse o resto do dia descansando e disse que amanha já podia voltar ao trabalho.
Fui para o quarto e passei o resto do tempo dormindo. Acordei quando já era noite.
Danilo estava na sala do nosso dormitório, e logo que viu que eu tinha acordado, foi correndo pra minha cama, carregando uma bandeja com comida:
– Eu peguei lá no refeitório. Achei que estaria com fome e sem vontade de ir comer lá. — ele me alcançou a bandeja.
– Obrigado – aceitei e comecei a comer. Estava louca de fome mesmo.
Enquanto eu comia, ele continuava ali sentado na minha cama, de frente pra mim, me olhando atentamente. Fiquei um pouco envergonhada com aqueles olhos cravados em mim.
– Quer um pouco? — ofereci a comida para ele, pra ver se mudava sua atitude.
– Ah não. Obrigada, eu já comi – ele dispensou. Depois pareceu que engoliu em seco, tomou fôlego e falou – Eu queria conversar com você Liss.
– Sou toda ouvidos...
Ele parou um pouco, e abaixou a cabeça constrangido e nervoso. Nunca tinha o visto daquele jeito. Pra mim ele era sempre confiante e divertido, não importava o que acontecesse.
– Eu... eu... — ele gaguejou e eu parei de comer e fiquei o fitando, esperando ele tomar coragem pra continuar – Quando você sumiu eu quase tive um surto. Fiquei muito preocupado com você. Não sabia o que podia ter te acontecido. E quando avistamos o avião caído, então... Eu não consegui imaginar.... não conseguia imaginar que você pudesse estar morta. Me preocupei muito mais com você do que com Júlio. Percebi que você é muito especial e importante pra mim. E é isso que eu quero te dizer... não sou bom nisso, em usar as palavras. Mas quero que saiba que eu... eu estou apaixonado por você!
Ele soltou aquela bomba de uma vez, falando rápido. Até achei que tivesse entendido errado, mas olhando pra ele percebia que era aquilo mesmo que ele quis dizer. Seus olhos brilhavam olhando para mim, um sorriso bobo estava estampado em seu rosto.
– Eu nem sei o que dizer. — respondi. E não sabia mesmo. Não estava pronta para aquilo. Eu sabia que ele tava a fim de mim. Vivia flertando comigo e tal, mas eu nunca correspondi. E achei que fosse mais uma brincadeira, nada sério. Talvez uma atração por mim e só. Não que estivesse apaixonado. Isso era complicado!
– Não precisa dizer nada. — ele me agarrou e me puxou agressivamente para perto dele, e tocou seus lábios nos meus. No início não tive reação nenhuma. Depois voltei a mim e não o beijei de volta, me empurrei para longe dele.
Aquilo não estava certo! Como eu poderia beijar os dois irmãos num intervalo de menos de 24 horas? Eu não era nenhuma vadia. Não queria fazer aquilo com eles. E se retribuísse ao beijo de Danilo tudo se tornaria mais complicado ainda.
– Você não devia ter feito isso. — briguei com Danilo. Ele abaixou a cabeça arrependido e constrangido. Não era confiante o suficiente para continuar bem, depois de ter levado um fora. — Vamos fingir que isso não aconteceu, ok? Somos apenas amigos e nada mais, não confunda as coisas.
– Ok. Me desculpe. — ele parecia muito chateado. Saiu de perto da minha cama, sem falar nada, com a postura encolhida, e foi pros corredores do quartel me deixando sozinha.
Quando ele se foi, não pude deixar de comparar os dois irmão. Júlio tinha começado a me beijar delicadamente, e a intensidade havia aumentado durante o beijo. Calor e outras sensações tinham passado por nós. Eu havia retribuído o beijo imediatamente e achado uma coisa de outro mundo. Com Danilo foi completamente diferente. Ele me beijou rudemente, me agarrando e me puxando, eu não retribui ao seu beijo, nem senti nada especial. Talvez porque não queria beijá-lo como queria com Júlio. Ou porque não achava certo. Não sei.
A única coisa que sei é que tenho um grande problema nas mãos. Danilo está apaixonado por mim e Júlio também demonstrou sentir alguma coisa. Os dois irmãos gostando da mesma garota. Isso é péssimo. Ainda mais porque essa garota sou eu e os dois irmãos são eles. Não sei se estou interessada em algum deles, eles são maravilhosos e tal, cada um no seu jeito, mas não quero arrumar confusão com eles. Queria apenas suas amizades, nada mais que isso. E não queria que nenhum saísse machucado. Odeio magoar as pessoas.
Ai Deus! Seria tão bom se nenhum gostasse de mim. Evitaria tanta coisa. Mas não é assim, tenho que aceitar isso. Vou fazer o possível para não causar confusão alguma entre eles. Não quero uma briga entre irmãos, acho a amizade e o companheirismo dos dois tão bonita. Isso tem que continuar. Não posso ser capaz de mudar isso.
Eric entrou no quarto, me tirando da minha crise e fazendo eu voltar ao presente. Quando me viu veio rapidamente pra perto:
– Como você tá? Fiquei sabendo o que aconteceu.
– To bem – não sei se minha cara mostrava isso. O estresse com aquele drama familiar parecia já estar acabando comigo.
Eric não pareceu reparar em meu estado:
– Você tava mesmo perdida com Júlio na floresta? — ele pareceu em choque com aquela possibilidade.
– Sim. Ele tinha me convidado pra ir andar de avião com ele. Mas nosso avião acabou caindo. Por quê? — perguntei.
– Nem sabia que vocês eram amigos. E sei lá, passar um dia inteiro sozinha com aquele homem não foi estranho pra você? Se eu estivesse em seu lugar teria ficado assustada, ele é tão imponente.
Eu ri, mesmo sem achar muita graça. Ainda estava pensando nos dois irmãos gostando de mim.
– Não foi, não. Nós estamos nos aproximando ultimamente, nos tornando amigos. E ele é um cara legal. — senti a necessidade de defender Júlio.
– É o que Danilo sempre diz sobre o irmão. — Eric me olhou com cara maliciosa – E amigos...hummm... sei muito bem dona Liss. Não consigo te imaginar amiga de Júlio. Me parece que tem algo mais ai.
Eu corei e tentei negar o melhor possível:
– Não tem nada. Nós somos amigos sim. E só.
– É espero que sim. Pelo bem de Danilo – ele refletiu. Eric já tinha percebido o interesse de Danilo por mim, e como eu, preocupava-se em magoá-lo.
Não disse nada e me apressei em mudar de assunto. Já estava atormentada demais com aquela história. Não precisava de mais ninguém me lembrando que eu poderia magoar Danilo ou Júlio. Eu já sabia disso.
– E você anda saindo com alguém também. Um namorado ou namorada? — fiquei em dúvida se usava a palavra no feminino ou no masculino. Sabia que ele era gay, mas ele nunca havia me contado diretamente.
– Um namorado – ele não pareceu se incomodar com minha dúvida. Apenas abriu um sorrisão de orelha a orelha quando falou em namorado.
– E posso saber quem é? — pedi, curiosa.
– Infelizmente não. É segredo. Mas quando eu puder, te conto.
– Tudo bem.
Eric olhou pra mim bem e percebeu meu estado:
– Vou deixar você descansar. Boa noite.
E saiu, me deixando novamente com as confusões dos meus pensamentos. Não conseguia tirar da cabeça Júlio e Danilo. Cheguei até a derramar algumas lágrimas pelos dois e pela enrascada em que nós três estávamos.
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