A Metade Que Nunca Irei Conhecer
15 Perdido
Notas iniciais
Hoje estava chovendo desde cedo. Eu não sei ao certo se amo ou odeio a chuva. Ela é ótima para ficar em casa e fazer nada, mas é complicado sair de casa no meio dela. Do meu quarto era possível ouvir o som da faca cortando legumes na cozinha. Levanto-me um pouco sonolento e vou até lá. Antes disso, pego meu celular que estava jogado na almofada e vejo ligações perdidas da Karine. Ontem foi um dia um tanto cheio para nós dois. Se me fosse possível, eu tentaria esquecê-lo o mais rápido que puder. Desço as escadas, passei pela sala e enfim chego à cozinha onde Kayo estava preparando mais uma de suas iguarias. Ele sempre parece tão feliz quando está cozinhando algo... Ele percebeu que eu observava e me deseja bom dia com um belo sorriso no rosto.
— Pensava que não acordaria mais, princesa! – forço um sorriso, enquanto ele continua falando – O dia ontem foi bastante cheio, então compreendo seu cansaço – ele aponta para o banco de madeira com a faca e completa – Senta lá que o café-almoço está pronto!
Eu mal conseguia concentrar meu paladar na comida. Minha cabeça só conseguia lembrar o inferno na noite anterior e os momentos que havia vivido com a Karine até então. Aquele dia na biblioteca, sua declaração na estação de trem, nosso primeiro encontro e primeiro beijo... Tudo aquilo me torturava e me fazia sentir cada vez pior. “Se você não falar, eu te puxo para fora deste trem! Não precisa ter medo.” Será que estou me arrependendo de ter dito essas palavras para ela? Eu decidi não ir para o colégio hoje. Desejaria sumir do mundo por um bom tempo.
— Kayo – o chamo. – Acho que não irei para o colégio hoje. Não estou me sentindo bem... – ele se levanta do banco de madeira e me acerta com um soco no rosto.
— Pare. Apenas, pare com essa palhaçada. Eu espanquei aqueles idiotas na festa por você! Eu tentei limpar sua barra para Karine por você! Eu evitei ao máximo do máximo que alguém dissesse um pio para você e agora está aí se lamentando, se achando culpado por tudo? – ele pega o banco que acabou caindo no chão e prossegue. — Eu realmente não esperava que a Karine fosse esse tipo de gente e tenho a certeza que ela não é. Não consigo acreditar nisso.
— Mas você mal conversou com ela para saber! Eu me senti traído, mas foi porque eu não fui bom o suficiente para ela! – ele se aproxima e me acerta com outro soco. Meus lábios não param de sangrar. – Cala essa boca agora! Não me faça te bater de novo, seu infeliz! Esqueça o que aconteceu na festa, certo? Deixe que eu resolvo agora, como eu havia dito ontem. Eu sou seu amigo e irei te proteger, mesmo que isso custe minha vida! – eu me levanto meio cambaleante por causa dos socos e me aproximo do Kayo para abraçá-lo.
— Obrigado por existir, Kayo! Muito obrigado! – Ele sorri e responde
— Não há de quê, amigo. É para isso que estou aqui – ele reclina meu corpo para me olhar nos olhos e diz com um tom doce – Agora você irá esquecer aquela Karine, entendeu? Tem aquela bonitinha da Annie que é uma florzinha. Tem tanta menina legal por ai, mano! Não se deixe abater por uma que não te valorize, bicho! – ele põe suas mãos em meus ombros e pergunta – Você promete?
— Prometo – respondo com uma voz chorosa. Agora um novo Roy vai surgir a partir de hoje. Não há nada mais que eu possa fazer em meu relacionamento com Karine. Tudo virou apenas cinzas. Somente cinzas e nada mais que isso. Cinzas que se tornarão lembranças, das quais não conseguirei esquecer nem tão cedo…
Arrumo-me para ir para o colégio, mesmo com a cara arrebentada graças ao Kayo. Ele diz que vai me dar uma carona na garupa da sua bicicleta. No caminho, conversamos sobre várias coisas que me distraíram bastante. Enfim chego ao colégio e vou em direção à sala de aula. Assim que me sento no meu lugar, recebo uma mensagem do Kayo dizendo que iria me buscar. O tempo voa e não me importo com uma sílaba que sai da boca das pessoas que estavam na sala de aula. No mesmo instante que o sinal toca, corro imediatamente até a pilastra onde Annie costuma ficar e me alivio ao ver que ela estava ali. Dessa vez estava lendo outro gênero de livro, mas que eu não soube reconhecer pela capa. Aproximo-me sorridente até ela, quando ela me vê e não consegue fingir sua felicidade. Quase que repentino, vem a imagem do Kayo espancando Sawyer até ele perder os sentidos na festa. Minhas pernas travaram no mesmo instante. Qual deve ter sido a reação dela ao saber disso?
Naquele momento eu passo a conectar todos os acontecimentos. Sawyer e Karine sempre tiveram um caso e me puseram no jogo ao ver que havia me aproximado de Annie para me ridicularizar na festa. Todo esse tempo eu estava sendo controlado por dois seres podres. Agora eu não me arrependo nem um pouco ao ter pedido para o Kayo aquilo. Imaginar que as lágrimas de Karine naquele dia eram pura farsa, que suas palavras significavam nada, que meus gestos de carinho eram motivo de piada... Meu coração estava completamente destruído e não havia mais como repará-lo.
Kayo havia dito que o real motivo dele ter me convidado para a festa, era para me apresentar a garota que o rejeitou. Provavelmente a mesma da sua foto no celular e a mesma que avistei naquele dia. A garota da cafeteria que adora estou nutrindo um ódio absurdo por ela. Quero muito que essa menina vai para.....
Minhas pernas voltam a si e consigo me aproximar de Annie. Ela estava usando uma nova pulseira que, coincidentemente combinava com a antiga dela.
— Bom dia, Roy! Como foram as aulas? – diz com um leve sorriso e um tom fofo em sua voz.
— Mal prestei atenção nelas para ser bem sincero – confesso – Minha cabeça está uma bagunça ultimamente, sabe? – ela sorri enquanto fecha o livro.
— Eu te entendo. Eu sou assim todos os dias – sinto melancolias em suas palavras e decido ir direto ao ponto.
— Ficou sabendo de ontem? – ela mantém silêncio e balança a cabeça confirmando – Eu sinto muito por tudo isso. Não queria que chegasse a esse ponto – ela levanta o rosto em minha direção e me recrimina.
— Eu soube que você fez aquilo por mim. A culpa é toda minha por isso. Desculpe-me por viver, Roy – eu acaricio seu cabelo e digo.
— Jamais diga isso novamente. A culpa é nossa e está encerrado. Agora vamos esquecer tudo isso – pego o livro de sua mão – E me diga do que se trata este livro que você está lendo – ela sorri e acena concordando. E assim o intervalo foi se passando sem eu perceber.
Antes que o alarme tocasse, vem Suho andando em nossa direção. Ele se aproxima e me diz que não teria aula para nossa turma a tarde.
— Os professores nos liberaram, então podemos ir embora – ele suspira e pergunta meio acanhado – Você vai embora agora? – eu respondo que não e completo.
— Quero ficar um pouco mais aqui – eu encaro Annie e Suho logo em seguida e concluo – De preferência conversando com vocês. Se importariam? – ambos respondem que não e lá ficamos conversando por boas horas. Descobri que Suho sabe tocar piano e que Annie escreve poemas. Suho foi tricampeão em um campeonato de xadrez. Descobri tantas coisas... Ao entardecer, Kayo veio me buscar. E assim os dias foram se passando, repetidamente.
*O amor é tão doloroso, não é mesmo? As despedidas são ainda mais dolorosas. Eu não consigo continuar se você não está aqui. Dentro de mim algo grita “Me ame, me ame” e clama para que volte para os meus braços. Infelizmente, não será possível. Nunca mais.
Havia percebido que Karine não ia mais às aulas e ninguém mais conseguia entrar em contato com ela. No fundo eu estava preocupado com ela. É estranho alguém sumir assim.
Enquanto conversava com Suho, ele diz que Karine sempre teve um psicológico muito fraco e era facilmente manipulável. Ele havia estudado no mesmo colégio que ela e ambos eram amigos, até que ela passou a andar com uma turma bem problemática. Semanas se passaram sem qualquer notícia dela no colégio. Maldosos levantaram rumores de que ela havia morrido.
Infelizmente, os rumores haviam se confirmado. Karine aparentemente havia se suicidado ao se jogar de uma ponte três dias após a festa.
Fale com o autor