Notas iniciais
Desculpem pela demora, mas estou mega ocupado com as provinhas e a faxina da casa, sem contar que estava pondo minhas leituras de mangás em dia

Em uma tarde que mesclava um calor escaldante somado à intensas ventanias que ajudavam a me refrescar, vejo a silhueta de Kayo em seu uniforme escolar olhando para mim. Ele tinha uma aparência de cansaço, estava com um odor intragável de álcool e um forte cheiro de tabaco. Seu cabelo estava bagunçado e sua camisa estava muito suja. Ele pôs sua mão em minha bochecha e começa a flexiona-la me deixando mais zangada ainda. Dou um leve tapa em sua mão e exclamo

— Onde você esteve? Desde quando você fuma? — Minha voz demonstrava bastante irritação com ele.

—Ah, isso? — Ele olha para o maço em sua mão e joga-o no chão- Não é nada.

— Porque não foi pra escola? — Ele evitou responder minha pergunta. Enquanto suspira disfarçadamente, ele encontra meu olhar nos seus e decide responder

— Recebi uma ligação do diretor dizendo que eu estava suspenso e que não precisava ir hoje. Então fiquei aqui neste muro pensando na vida. Foi isso. — Ele mentia tão mal. Seguro firme em seu uniforme e encosto minha cabeça no seu peito e começo a disparar tudo que esteve embaralhando minha mente durante o dia inteiro.

— Desculpa... Por eu ter lhe batido e por tudo mais. Não consegui dormir direito pensando nisso. Me desculpa, Kayo!! Eu fingia gostar de garotas no ano passado para que as meninas não se afastassem de mim. Fingi ser algo que não sou e me odeio por isso. Mas eu te odeio mais ainda. Eu odeio muito você. Por ter entrado em minha maldita vida.Tudo que eu queria er---

— Fica quieta e me ouve — Ele tapou minha boca com sua mão e começou a desabafar — O que fiz com você foi muito errado e não irei fazer com mais ninguém nunca mais. Me desculpe de verdade. Eu também não consegui dormir pensando nisso tudo e fiquei me culpando por minha impotência- Ele pausa por um instante e me solta — Eu gosto de você, Misa, e quero que você me rejeite de vez e pare de me prender no seu coração- Ele mexe no cabelo bagunçado para esconder seu rosto vermelho de mim. Apesar da sua aparência hoje, ele está tão fofinho agora. Eu agarro sua camisa e o abraço, mesmos com este odor insuportável de bebida

—Kayo, eu não sabia... Mas eu não sinto o mesmo por você. Desculpa — Nunca senti tanta pena de um garoto como agora. O Kayo realmente gostava de mim, mas eu não estava pronta para me relacionar com alguém agora, ainda mais com as provas chegando. Precisava estar focada. Kayo levanta seu rosto exausto e demonstra um belo sorriso pra mim. Meu coração estava sendo esmagado agora. Ele olha para mim e tenta continuar falando. Eu o rejeitei de uma forma tão fria...

— Espere, ainda não terminei. Eu conheci um cara genial ontem. Ele é meu melhor amigo! — Nunca vi o rosto do Kayo tão feliz como agora. Ele mente tão mal — Ele me disse que eu deveria encontrar minha "metade" no mundo. Disse também que eu pensei que havia à encontrado, mas eu estava enganado. "Quando sua metade surgir em sua vida, você saberá" foram as palavras dele, e é por isso Misa, que estou feliz por ter me rejeitado, mesmo estando sofrendo muito agora e engolindo as lágrimas, estou muito feliz por você ter me ouvido até o fim. Você sempre me bate ou me xinga quando tento falar com você, mas dessa vez você veio até mim e me ouviu até o final. Obrigado, Misa. Estou muito feliz! — Ele agacha no chão e tenta engolir seu orgulho para não chorar na minha frente. Ele segura minha calça e pede, com uma voz tremida

— Por favor, me deixa sozinho agora?

— Só se me disser onde e o que estava fazendo!

— Argh! Eu falo então. Eu fui expulso de casa e estou morando na rua agora

— Como? Porque?

— Coisas de família, sabe? Quando minha suspensão acabar, eu volto pra escola — Ele tenta disfarçar que estava enxugando o rosto e se levanta. Pega sua mochila jogada no chão e põe suas alças nos ombros.

—Bem, preciso ir agora — Ele passa a mão em meu cabelo acariciando-o com zelo. Admito que adoro quando ele faz isso, mas creio que está será a última vez. Eu ponho minha mão sobre a sua e o encaro

— Não fica assim, podemos ser amigos, certo? — Ele abaixa a cabeça e olha sério para mim, enquanto agarrava minha mão

— Sim, acho que podemos... — A hesitação em seu tom de voz fez meu coração dilacerar. Ele puxa sua mão e vai embora. Eu continuo meu caminho até a livraria, sem cabeça para trabalhar. O expediente termina e vou para casa. Quero apenas dormir e chorar muito. Hoje estou me sentindo tão estranha. Não pareço ser a Misa que eu costumo ser. Os dias foram se passando de forma monótona, ainda mais que eu não vi Hina desde a briga com Kayo. Onde ela deve estar agora? No intervalo, estou deitada no gramado como sempre faço, quando percebo uma sombra se aproximando. O sol não me permitia ver o rosto da pessoa, mas pela silhueta podia prever que era um garoto. Ele se agacha e senta ao meu lado, apoiando suas pernas em seus braços. A luz do dia permitia que seus longos cílios brilhassem mais radiantes que o próprio sol.

— Você sempre fica aqui nos intervalos, Misa?

— Oi, Hiro. Fico sim.

— Então vou passar a vim pra cá todos os dias também, isso se você deixar — Ele esconde seu rosto envergonhado entre suas pernas

— Hehe, eu até que gostaria, desde que divida seu lanche comigo — Penso em me descontrair um pouco com ele

— Está decidido então — Ele volta a esconder o rosto entre suas pernas, depois abaixa a cabeça sobre os joelhos. Ele parecia incomodado com alguma coisa

— Soube que seu namorado está suspenso. Que pena

— Ah, o Kayo não é meu namorado!

— Eh? Pensei que ele fosse!

— Hehe, depois daquela confusão, todos acabaram pensando isso- Eu me sento e espreguiço-me — Eu estou solteiríssima! — Hiro suspira alivado

— Puxa! Que bom!

— Porque, "Que bom"?

— Eh? Eu disse "Kibom"? Estava me referindo ao sorvete! O sorvete, sabe? — Que desculpa mais cara de pau!

— Ahn? Tá certo então

— Então... Se eu te chamar para sair, não vai ter problema? —

— Eh? — Fiquei surpresa agora —

— Meu rosto deve estar muito vermelho agora, mesmo assim — Ele parecia um pimentão- Misa, aceita sair comigo? — Eu tento esconder o rubor do rosto, enquanto penso em uma resposta. Pensei bem e decidi que é só um encontro. Nunca fui em um, mas era apenas um encontro! Apenas um encontro!

— Apenas um encontro! — Merda! Pensei alto, porém serviu pra aliviar a tensão do momento, pois o Hiro deu uma tímida gargalhada — Eu estou livre... no sábado que vem. Está bom pra você?

— Certo, no sábado! Te pego as três!

— Okay... Aonde vamos?

— Droga! Fiquei tão animado que nem pensei nisso! — Esse lado idiota dele é tão fofo! Eu não consigo parar de rir, deixando ele envergonhado — Pode ser no shopping? Podemos ir no cinema, se quiser

— Gostei. Eu te espero na pracinha em frente à entrada do shopping

— Certo... Eu vou pra sala agora, tá? Até mais tarde, Misa

— Tá bom! A gente se vê depois — Gente! Um encontro! Não estou acreditando nisso! Passo o resto ds aula brisando na batata, que até mesmo o professor me dá uma chacoalhada para eu prestar atenção na aula. O sinal toca, mostrando que era hora de ir para casa. Hoje eu não tenho trabalho, então posso estudar e descansar um pouco quando chegar em casa. Passando pelo corredor, me encontro com Hina sentada na sua sala sozinha e chorando. Entro sorrateiramente e me aproximo dela. Ela estava estudando enquanto chorava bastante. Antes que ela me visse, a puxo para mim e abraço ela bem forte

— O que aconteceu? Estava preocupada

— Veterana, o que está fazendo aqui?

— Eu vi você aqui dentro e decidi entrar. O que houve? -Ela puxa seu caderno que estava embaixo de alguns livros e começa a contar. Ela soluçava muito!

— Snif! As meninas da sala brigaram comigo porque nao quis aceitar que você e o Kayo estavam juntos

— Só por isso? Vou quebrar a cara delas!

— Não é só isso! — Ela continua soluçando bastante — Elas disseram que eu não tinha chance. Hic!

— Chance? Que chance, Hina? Fala pra mim! — Estava ficando um pouco aflita

— É que.... eu gosto — Ela bate as mãos sobre a mesa e puxa minha camisa a ponto de um dos botões saírem. Eu acabo reclinando a cabeça surpresa e acabs sendo beijada por ela — Eu estou gostando de você, Misa...

— Hina... Como assim?

— Disseram que eu teria chance contra o Kayo! Ela viram isso — ela aponta para uma das páginas do seu caderno, onde estava escrito meu nome envolto por um círculo — Por um momento, achei que eles estavam certos, então evitei te ver esses dias, mas só fiz torturar a mim mesma! — Ela berrava tanto que mal conseguia processar o que ela estava dizendo, sem contar que ela não parava de tremer — Quando ouvi dizer que você havia rejeitado ele ano passado por gostar de garotas ,eu me senti muito feliz. Pensei que ainda havia um fio de esperança e devia agarra-lá com unhas e dentes, mas aí eu vi você conversando com outro garoto naquele gramado, e me coração quebrou — Eu tento segurar suas mãos trêmulas, mas estava completamente patalisada — Quero ouvir da sua boca, Veterana! Você realmente está com o Kayo? E aquele garoto? Você sente algo por ele? Me conta, por favor! Não me faça ficar mais angustiada do que já estou!

— Hina, se acalma! Você está tremendo muito! Eu não sei o que te dizer agora. Seu emocional não está nada bom! Vai para casa e a gente conversa com mais calma depois, certo?

— Não! Eu quero saber agora! Não tem coragem de me rejeitar? — Não é isso! — Me conta, por favor!

— Eu não estou com o Kayo — acho melhor não contar sobre o encontro com Hiro no sábado — E não estou gostando de ninguém atualmente, agora tenta se acalmar um pouco. Você é minha querida Hina. Nunca irei te machucar, mas preciso pôr meus pensamentos em ordem para poder lhe esclarecer as coisas, viu?

— Hic, tá bom. Vou pra casa — Ela arruma suas coisas e sai da sala sem olhar para trás. Nunca me senti tão culpada em toda minha vida. No fundo, fui eu que aticei os sentimentos dela. Fui para casa com a cabeça quase explodindo, e tudo que fiz foi perder o meu sono pensando em tudo que aconteceu. Os períodos das avaliações enfim se iniciam e sinto que havia estudado o suficiente para me dar bem nas provas, é o que eu espero que aconteça. Durante toda a semana, não avistei Hina uma vez sequer, enquanto Hiro sempre me esperava na saída para irmos embora juntos. O caminho era envolto por conversas fúteis mas que ajudavam a aliviar meu coração um pouco. Ele me acompanhava até o ponto de ônibus, que de lá eu iria direto para o trabalho. Quando sobrava um tempinho, estudava no intervalo do serviço ou quando não tinha nenhuma prateleira para arrumar. Os dias pareciam monótonos, mas estava bom para mim que continuassem desse jeito. Hoje completa quatro dias que vi o Kayo pela última vez, três dias que Hina se declarou para mim e amanhã será o dia do encontro com Hiro. Estava muito nervosa e não parava de pensar nisso. Se eu for realmente amanhã, não estarei rejeitando Hina indiretamente? E se eu não for, estarei aceitando seus sentimentos? Não consegui pregar o olho pensando nas respostas para minhas indagações, então decido me levantar e ir para o colégio mais cedo que de costume. Eram quatro e meia da manhã quando desisto de dormir e fico revirando minha mente com essas dúvidas por uma hora, quando decido pegar o ônibus para ir pro colégio. Ver a cidade acordando lentamente era tão romântico que me ajudava a confortar meus pensamentos. Enfim chego até lá e não tinha quase ninguém. Sento-me no gramado onde costumo ficar e a paisagem que eu obtinha naquela manhã era bem diferente do habitual. Os prédios com as janelas ainda fechadas e sem a luz do sol refletindo-as em minha direção. O céu que costuma ser límpido no início da tarde, dá lugar a um repleto por nuvens deformadas e esbeltas. Uma estranho tom alaranjado misturado a um azul bem fraquinho que coloria um pouco das nuvens era o inverso daquele azul claro cotidiano da tarde. Me deito no gramado e acabo pegando no sono. Quando acordo, haviam se passado apenas meia hora. Enquanto estava bem sonolenta, sinto mãos grandes e macias escorrendo em meu cabelo. Viro-me e vejo o sereno rosto de Kayo me observando. Não sei explicar, mas seu semblante combina perfeitamente com o céu dessa manhã. Nessa altura do campeonato, a pessoa mais próxima a mim e que seria capaz de me aconselhar era ele. Apoio minhas mãos sobre minhas coxas, enquanto dou o meu último bocejo. Dou uns tapinhas no rosto do Kayo e brinco

— É você mesmo ou um sonho ruim? — Com bom humor ele corresponde

— É um pesadelo — Me senti aliviada por perceber que podíamos conversar normalmente agora. Ele segura meu braço com delicadeza e murmura — Me conte o que houve para você vim tão cedo pra cá? — Eu arrasto meu corpo um pouco mais para perto dele e decido desabafar

— Um cara me chamou para um encontro e minha amiga me beijou e se declarou para mim — Eu abaixo minha cabeça envergonhada com o que acabei de falar, ainda mais que para ele isso podia ser considerado algo tolo, pois ele já está acostumado com declarações e pedidos para encontros. Em nenhum momento ele pensou em rir de mim, pelo contrário, ele pôs sua mão em meu cabelo e sorri

— E o que você acha de tudo isso? — Pergunta enquanto brincava com minhas tranças

— Me sinto confusa. Não sei como reagir a tudo isso — Entro na brincadeira e ergo minha mão até seus cabelos que estavam cheios de grama, e passo a mão nele carinhosamente — Não quero magoar minha amiga e não quero voltar atrás com o encontro — Kayo suspira e indaga

— Porquê não quer desmarcar o encontro? Você gosta desse cara?

—Bem... eu não sei ainda, mas ele é legal — Ele sorri e acaba predendo seus dedos no meu cabelo

— Eu também sou "legal" e você me rejeitou — Diz com tom irônico

— Desculpa por isso, mas o que eu devo fazer? — Tento não mudar o foco da conversa

— Não faça nada que você não queira. Se quer ir ao encontro, dependendo da situação, vá!

— Enquanto a Hina?

— É entre vocês duas. Ela precisa de uma resposta — Kayo sorri e fica penteando meu cabelo com sua mão gigante. Cheguei no colégio umas sete da manhã e dormir até as sete e meia. Conversei com o Kayo até o início das aulas, às oito e meia. O fato de estarmos juntos no gramado ajudou a reforçar os rumores de que estamos juntos. Kayo ajudou a desmentir os boatos, me deixando mais aliviada. Mais um dia de prova se passa e estou apta para conversar com Hina olho a olho. Foram cinco dias sem ver ela e quando nos encontramos ela me beija assim? E desde segunda quando começaram as avaliações não a vi novamente e hoje era véspera do meu encontro com Hiro. O dia se passa e não encontro ela em lugar algum. Peço ajuda a Kayo para procurar por ela, mas não obtivemos sucesso algum. Tomada pelo nervosismo, Kayo me agarra e exclama

— Sabe de uma coisa? Acho que ela está se escondendo de você, se demonstrando fraca e imatura. Vá para o encontro. Será um baque e tanto para ela — Eu tento respirar fundo e pensar em outra alternativa, mas acabo concordando com ele. Estava disposta à me encontrar com Hiro amanhã!