Notas iniciais
Tentando postar com mais frequência agora

Meu trem para em frente a plataforma, me convidando para entrar. Minha mente era um amontoado de pensamentos fervorosos que tornou o vermelho uma coloração natural para meu rosto. Após a baldeação finalmente chego em casa. Felizmente meu "irmão" não estava hoje, então podia estudar para as provas em paz, mas quem disse que eu consegui? O belo rosto envergonhado de Karine não saía da minha mente nem por um segundo. Meu rosto queimava cada vez que lembrava de suas mãos entrelaçadas na minha. Parecia que eu me encontrava nas nuvens. Desço para o jantar e aproveito para me desculpar com minha mãe por ter chegado muito tarde ontem e não ter lhe avisado. Ela ouve atentamente e apenas acena com a cabeça, como se já tivesse esquecido do assunto e me chama

– Pode comprar um pouco de detergente pra mim? O que tinha em casa acabou agora à pouco — Minha mãe sempre aparentava um imenso cansaço. Não era pra menos, pois desde pequena ela já trabalha como costureira chegando até a arrebentar o pulso com os movimentos repetitivos. Sempre dava meu máximo para deixar a casa arrumada, e tentar ajudar na limpeza quando eu tinha um tempinho livre do colégio, enquanto meu querido irmão só fazia ficar sentado no sofá jogando e bebendo o dia todo. Quanto ao meu pai, raramente eu via ele em casa, pois não parava de trabalhar nem por um minuto. Nos dias que ele estava em casa, eu estou na escola então sempre nos desencontramos. Volto do mercado, ponho o detergente na mesa e vou para o meu quarto dormir. No dia seguinte, estava distraído o bastante para perder meu trem e ainda por cima descer na estação errada. Para minha infelicidade, não vi Karine hoje no colégio. Em compensação, acabei encontrando a caloura Annie sentada na parede onde eu costumo ficar quando estou com o pessoal da minha sala. Me aproximo dela e a cumprimento

– Bom dia, Annie! — Ela demonstra surpresa, mas não pensa em disfarçar o sorriso quando me vê

– Saywer disse meu nome, não foi? Desculpa não ter me apresentado antes...

– Sem problemas — respondo balançando os braços enquanto me sento do seu lado — Também não cheguei a me apresentar também, né? — Annie apenas sorri e concorda. Enquanto ela começa a puxar seu lanche da mochila, eu continuo puxando conversa — Porquê você não veio ontem? — Ela acaba de pôr um pedaço de maçã na boca e acena pedindo para que eu espere ela terminar de mastigar, depois responde

– Eu fiquei um pouco doente. Já estou acostumada — Ela pega uma bolsinha azul e abre ela, descobrindo algumas seringas, pequenos frascos e um aparelhinho que não sei bem o nome — Eu sou diabética -Diz Annie forçando um sorriso no rosto. Acho que ela não se sente a vontade dizendo isso para as pessoas envolta. Eu fico um pouco surpreso, pois nunca havia conhecido alguém diabético antes. Eu tento esconder meu olha surpreso e pergunto carinhosamente

– Você comeu algo que não devia e passou mal?

– Não é bem assim — responde ela com um sorriso ao perceber minha ignorância no assunto — Eu calculei mal e exagerei na porção de glicose ontem, foi isso — Ela continua sorrindo e pega umas fatias de pão integral junto a um pote de requeijão light e uma garrafinha com que parecia ser abacate batido. Ao perceber meu olhar vazio, ela aperta meu nariz e diz com seriedade — Não precisa ficar com pena de mim ou algo assim, viu? — Ela abre o pote e passa o requeijão no pão e arranca um pedacinho com a boca e prossegue após mastigar — Por isso eu evito falar sobre isso, mas não tem como eu esconder, sabe? Um exemplo disso é o fato de eu não comer o almoço da escola, o que causa estranheza por parte das pessoas já que a comida daqui é muito boa — É formidável como ela comtinuava sorrindo ao dizer coisas tão melancólicas. Que vontade de abraça-lá agora, mas não quero arrumar confusão com seu namorado. Eu tento entrar no assunto, para não deixar ela mais desconfortável

– Você se importa de me dizer como funciona esse aparelho aí? — Digo apontando para a bolsinha. Ela sorri e o remove da mesma

– É um glicosímetro

– Hein? — Ela continua rindo bastante e explica

– Um medidor de glicemia ou glicose. Quando eu terminar o lanche, eu vou usá- lo pra você ver

O tempo parecia voar quando eu converso com Annie. Ela termina o lanche e me mostra passo a passo como ela utilizava o tal medidor de glicose e depois voltamos para parede e conversamos mais. Eram onze horas da manhã e minha próxima aula era apenas às treze, então tinha tempo suficiente para falar com Annie e conhecer ela um pouco mais. Enquanto conversávamos, um grupo de garotos se aproxima da gente. Eles não aparentavam ser boas pessoas, então evito encarar seus rostos. Um deles chama Annie, dizendo que um tal de Saywer estava a sua procura, provavelmente seu namorado. Ela abaixa a cabeça e deixa escapar um olhar triste seguido de um sorriso e depois olha para mim se despedindo silenciosamente. Ela se levanta e vai embora junto com os garotos, enquanto eu ficava sozinho novamente. Pego minha mochila e decido ir para casa, matando a aula de treze horas ,quando ouço alguém me chamando

–Rooooy!! Espera! — Aquela doce e sublime voz não era de ninguém menos do que ela

– Karine! — Exclamo, demonstrando espanto e felicidade. Ela se aproxima ofegante

– Vai embora agora? Vamos juntos? — Como sempre, ela ficou vermelha

– Sim, vamos! Quero falar com você sobre ontem — Ao ouvir tais palavras, ela curva o rosto com vergonha, lembrando do momento. Depois de um tempo, volta a olhar nos meus olhos e responde

–Também preciso -Depois dali, saímos do colégio e chegamos na estação. No caminho, comprei pipoca para nós dois e enquanto comíamos em silêncio à espera do trem, sentia um embrulho no estômago e a chamo

– Vamos devagar? — Idiota! Eu queria falar tanta coisa, mas só consegui dizer isso. Hoje seria o último dia que veria ela, pois semana que vem não teríamos aula e eu vou ter que trabalhar com meu pai durante essa semana. Antes que ela respondesse, eu completo — No sábado, você quer se encontrar comigo no parque? — Ela se vira envergonhada pra mim e susurra

– Um encontro comigo, Roy? — Ela segurava seu cabelo em frente ao rosto, tentando esconder o rubor. Eu ponho minha mão no rosto para o mesmo objetivo e pergunto

– Não quer? — Ela solta o cabelo e grita

– Eu quero! — Começamos a rir, sem perceber que o trem havia chegado na plataforma. Ela entra primeiro e eu fico do lado de fora, deixando-a confusa. Estendo minha mão até ela, e com vergonha faz o mesmo. Entrelaçamos os dedos e sorrimos um para o outro quando eu pulo no trem até sua direção e sussuro

– Eu também gosto de você — Ela fica muito vermelha e sorri meio sem graça. Ficamos olhando nos olhos do outro até o trem ganhar movimento, quando alguém se aproxima da gente e abraça nós dois.

– Que lindo casal eu acabo de ver, hein?

– Kayo? O que faz aqui? — Ele sorri enquanto apertava a gente cada vez mais forte

– Eu fui atrás de você, mas já tinha ido embora — Disse, nos soltando de seus braços e sentando no chão do vagão se apoiando a porta e completa — Parabéns ao novo casal!! — Karine e eu rimos bastante com vergonha e depois trocamos olhares novamente, sem perceber que estávamos de mãos dadas todo esse tempo. A estação em que ela descera enfim havia chegado, quando me despeço timidamente. Na estação seguinte, seria Kayo a descer, mas antes eu precisava saber o que ele queria falar comigo ontem

– O que você queria falar? — Ele olha para o lado como se não quisesse tocar no assunto e depois se levanta

– Eu levei um fora daquela garota que te falei — Sua voz hesita e ele prossegue — Deu um rolo lá em casa e fui expulso dela. Agora estou morando num quartinho alugado com minhas economias — Bastante trêmulo e com a voz embargada, ele segura meu ombro e me encara — Minha vida tá uma merda, cara! Nem meus pais me querem mais! — Ele se apoia em mim me fazendo desequilibrar. As pessoas que estavam no vagão começam a nos encaram e eu tento amenizar

– Se acalma, Kayo. Me explica melhor — Ele se solta, quando o trem para na estação. Se vira de costa e responde

– Deixa pra lá — E sai do trem logo após. Os dias foram se passando, e eu sempre trocava mensagens com Karine durante a semana em casa. Estava ansioso pelo encontro com ela. O dinheiro que ganhei trabalhando com meu pai era mais que suficiente para ir no cinema com ela e outras coisas mais. Finalmente chega o grande dia e não sabia que roupa eu deveria usar. Estou longe de ser bonito e estiloso como Kayo, porém penso em pegar uma camisa polo simples e calsa jeans. No caminho até a praça, passo em uma floricultura e compro um ramo de rosas para ela. A multidão na rua olhava para mim, me deixando envergonhado ao fazer aquilo. Estava prestes a chegar trinta minutos mais cedo que o horário marcado, então aproveito para passear no parque botânico que tinha do lado da praça para diminuir meu nervosismo, o que não deu muito certo. Se passaram cinco minutos apenas e decido ir ao ponto de encontro, quando vejo que Karine já havia chegado. Como ela está linda, senhor. A maior mudança que vi em seu visual, foi o cabelo que ela havia cortado até a altura do ombro. Ela fica linda de cabelo curto, e ainda com uma franjinha. Com um vestido listrado azul e branco acompanhado a uma jaqueta jeans por cima. Sapatilhas brancas com detalhes floridos e unhas pintadas em cor rubi. Por um instante, me senti inferior a ela. Me aproximo, e com vergonha a elogio

– Linda — Minha voz saiu estranha, mas eu não liguei muito. Ela sorri e retruca

– Você está fofo — Rio sem graça, pois seu elogio me pegou desprevenido. Nunca fui chamado de fofo por uma garota antes. Evitando que ficássemos em silêncio, pergunto

– Aonde você deseja ir? — Ela dá um tímido pulo e mira meu olhar

– Aquário! — Eu também gostava de ir lá. Aceno com a cabeça concordando e fomos até lá.Eu queria tanto segurar sua mão agora... Chegamos no aquário e Karine demonstrava um amplo conhecimento sobre a vida marinha, assim como eu. Trocamos diversas curiosidades e informações sobre as espécimes do aquário. Em um momento de distração, Karine e eu observamos atentamente algumas anêmonas, quando nossas mãos que estavam apoiadas ao vidro do aquário acabam se encontrando. Pensei em recolher minha mão, mas Karine entrelaça seus dedos nos meus e olha para mim sorrindo

– Assim é bem melhor — Diz, com um brilho no rosto. Eu sorrio de volta. Não sabia como reagir muito bem, então tento ser o mais natural possível. Depois dali, fomos até o cinema. Fiquei na fila do ingresso, enquanto pedi para ela comprar a pipoca. Depois de comprar o ingresso e a pipoca, entramos na sala e nos acomodamos no assento dos fundos, já que a seção estava bem vazia. Nesse momento, bate um nervosismo em mim pois era a primeira vez que ia com uma garota ao cinema e o clima estava propício suficiente para um beijo... O filme estava para começar, quando me dá vontade de ir no banheiro

– Eu vou no banheiro e já volto — Digo a Karine que acena a cabeça enquanto abria a latinha de coca — Eu te espero — Termina dando um belo sorriso. Saio rapidamente da sala e vou ao banheiro. Após sair dele, recebo uma ligação do meu "irmão" pelo celular

– O que foi? — Pergunto rudimente

– Enquanto você está se divertindo, sua mãe está tendo um AVC agora mesmo

– Como é? Explica direito isso!! — Ele ignora e termina dizendo

– Estamos no hospital do leste. É bom que venha até aqui — Não sei se estava irritado com a forma que ele me disse ou preocupado com a situação da minha mãe. Não penso duas vezes e saio correndo do shopping até lá, mas antes mando uma mensagem para Karine dizendo " Estou saindo do shopping. Me espere " Espero que ela me entenda. O hospital não era muito longe daqui, então consegui chegar rápido. Entro nele, e vou até a recepção para perguntar em qual quarto minha mãe estava.

– Bom dia, senhor. O que deseja?

– Minha mãe teve um AVC e está internada aqui. Naomi Tsukimu

– Ela está se recuperando no quarto 201. Vire a direita e siga em frente até avistar a placa com o número do quarto — Responde a recepcionista. Pego o caminho que ela disse e chego até o quarto. Bato na porta e ouço uma voz fraca do outro lado

– Entre, por favor

– Mãe!! Você está bem? — Ela estava deitada na cama ao lado de uma enfermeira que depois se retira para ficarmos sozinhos

– Estou me recuperando, não se preocupe com isso — Ela olha pra mim e sorri — Hoje foi o pior dia pra sua mãe dar defeito, né? Justo no seu encontro com sua amiga

– A senhora é mais importante, mãe — Ela sorri e discorda

– Ela está te esperando agora. Vai logo — Eu saio da sala para beber um copo d' água e me encontro com meu irmão. Ele puxa a gola da minha camisa e começa a reclamar

– Era você que deveria estar de olho nela, mas não, estava roçando com uma vadia por aí, não é?

– Dobre a língua ao falar da Karine!

– Esse é o nome dela? Não acha muito tarde e inconveniente querer virar homenzinho agora não?

– Qual o seu problema, cara? Estou me sentindo péssimo por não ter estado ao lado dela quando ela teve o AVC e você ainda quer piorar as coisas?

– Você não tem moral pra falar nada, pois não era você que estava com ela quando desmaiou né? Para de fingir que se importa com a mãe, cara. Ninguém irá te julgar por isso

– Parece até que você está falando isso para você mesmo. Quando foi que você decidiu agir como filho dela? Não passa de um desnaturado!

– O que você disse? — Antes que eu percebesse, recebo um soco no rosto e acabo caindo no chão. Me levanto furioso e devolvo o soco, derrubando ele em um vaso de plantas que estava ali ao lado. Alguns médicos e um enfermeira vem até nós e tenta separar o embate. A enfermeira me leva até um corredor e me dá um copo de café. Eu aceito e agradeço, depois me desculpo

– Me perdoe por ter perdido o controle desse jeito — Ela balança a cabeça em negação e responde

–Você está tenso por causa da sua mãe. É normal extrapolar um pouquinho — Ela se senta em uma cadeira de ferro que tinha ao meu lado e prossegue — Porquê você não volta pro encontro? Sua mãe está se sentindo péssima por ter feito você vir aqui justo hoje. Será melhor pra ela se você for — Termina e acena com a mão em sinal de positivo. Jogo o copinho no lixo e ergo-me, agradeçendo a enfermeira

– Obrigado pelo conselho. Eu vou pra lá agora! — Ela sorri e faz o sinal de vitória com os dedos

– Anda logo, menino! — Eu sorrio e aceno de volta. Na saída do hospital, reencontro com meu irmão. Ele me ignora e eu faço o mesmo. Vou correndo até o cinema, torçendo para que eu não seja atropelado no caminho como nos mangás shoujo. Enfim chego no cinema e vou até a sessão, onde todos já estavam saindo dela, sinal que o filme havia terminado. Entro na sala da sessão e a vejo sentada a minha espera. Ainda tinha um pouco de pipoca, que talvez ela tivesse deixado pra quando eu voltasse. Chego sorrateiramente pela fileira atrás da nossa e abraço-a bem forte. Ela se vira e seus olhos pareciam brilhar diante as luzes de LED do cinema. Seu cabelo era bem perfumado e seus dedos que se encontram apoiados em meus braços, enquanto ela devolvia o abraço estavam gelados devido à temperatura glacial da sala.

– Desculpe

– O filme acabou, bobinho. Ele nem era tão bom — Responde, apertando meu braço

– Então, aproveite que estamos nos créditos e me conte como foi — Ficamos sentado nas poltronas da sala até os créditos terminarem, enquanto ela contava o filme. Após isso, saímos dela e fomos até uma lanchonete de mãos dadas, quando ouço uma voz passando por mim.

– Ei, Hiro. Esse filme é muito chato! Escolhe outro! — Essa voz...

– Eh? Pensei que gostava de comédia, Misa — Acabo soltando a mão de Karine e me viro em direção a garota, mas ela não estava mais lá. Sinto uma mão se aproximando da minha e era Karine preocupada

– O que houve?

– Não foi nada...

Notas finais
Comentem o que acharam!!!