Notas iniciais
O intervalo já havia terminado, então retorno até minha sala. Quando chego nela, estava Hina me esperando na porta com um olhar preocupado. Me aproximo e dou um leve soco em sua cabeça, dizendo que estava tudo bem. Ela acena e se dirige até sua turma. Ao entrar na sala, deparo-me com todas as garotas da classe olhando para mim, como se quisessem me estrangular a qualquer instante. Fingo que não é comigo, e me sento na cadeira, que era ao lado do assento de Kayo. Fixo meus pensamentos em sua carteira e recrimino meu ato estúpido de alguns minutos atrás. Kayo deve estar arrasado e furioso comigo. Como sou idiota! As aulas terminam e arrumo minha bolsa na velocidade da luz para finalmente ir embora e escapar daquela aura assassina que pairava na sala pelas meninas. Na saída, encontro-me com Hina novamente, sentada em um pequeno degrau próximo a rampa da saída do colégio. Percebendo minha presença, esbanja um largo e inocente sorriso e se levanta rapidamente enquanto arrumava a saia que havia amassado um pouco. Aceno para ela, quando a mesma corre estabanada até mim. Parecia uma criança ao ver o pai vindo buscá- la da creche. Perguntei como foi seu primeiro dia de aula e ela parecia bastante animada. Enquanto ela exclama tímida sobre suas colegas de turma, meus pensamentos voavam longe tentando encontrar o rosto ferido de Kayo. A única coisa que vinha a minha mente era me desculpar por ser tão idiota. Sou puxada com força por Hina, que me faz acordar para a vida. Ela me olha irritada, pois percebera que eu não estava lhe dando atenção.
— Você não está me ouvindo, Veterana! O que ouve? Está pensando no seu namorado?!
— Ergh? Eu não tenho nada disso não!! Só..briguei com um amigo meu. — Desde quando eu passei a considerar o Kayo um amigo? Hina suspira aliviada por alguma razão e continua.
— Você deveria se reconciliar com ele. Por acaso... — Ela dá uma leve hesitação na voz e pigarra- Essa briga tem algo a ver com sua mão machucada? — Eu tinha até esquecido que minha mão havia se ferido devido ao soco que eu dei em Kayo. A Hina reparava muito em mim, e isso me fazia sentir bem. Não sei explicar, mas deixava-me mais feliz. Eu olho para meu punho com um pouquinho de sangue e meio roxo e passo-lhe a mão esquerda sobre ele. Dou um leve suspiro e viro o olhar para o semblante de Hina, que demonstrava anseio por minha resposta. A única coisa que consegui responder foi uma frase pronta e que demonstrava que eu não queria tocar no assunto.
— É, foi sim...
—Puxa! Vamos passar na sorveteria que eu cuido do seu machucado? — Hina se esforçou o suficente para não permitir que sua curiosidade lhe dominasse e me propõe esse plano. Apenas aceno com a cabeça em concordância e seguro em sua mão, dando um sorriso raso. Eu não queria pensar no Kayo, agora que estou ao lado de Hina. Não quero preocupa-lá, até porquê nos conhecemos hoje. Chegamos na sorveteria e pelo horário, estava bem vazia. Nos sentamos e escolhemos nossos pedidos. Eu peguei um Milk Shake de maracujá, enquanto Hina havia pedido uma casquinha de Baunilha. Meu deus!! Ela é tão fofa comendo sorvete! Seu nariz acabou se sujando um pouco, mas ela não havia percebido. Eu me sentia sua irmã mais velha a levando para um passeio após a aula. Quando terminou sua casquinha, ela pega sua mochila e retira de dentro dela um kit de primeiros socorros. Porque diabos ela anda com isso na mochila? Ela se manteve em silêncio mútuo enquanto passava um band-aid na minha mão. Eu fingia não perceber, mas ela deixava escapar umas alisadas em minha pele, tentando esconder seu sorriso travesso. Eu estou confusa quanto a isso, mas não quero perguntar nada. O tempo passou e saímos da sorveteira. Por incrível que pareça, aquele maldito Milk Shake além de me deixar sonolenta, ainda me deu uma baita dor de barriga!! Droga! O resto do percurso até o ponto de ônibus que era de uns quinze minutos indo a pé, enfim havia terminado. Hina olha para mim com tristeza e sussura.
— Desculpa, mas eu vou até a estação de trem....
— Ah, para de ser boba menina! Amanhã a gente se vê! — Percebendo as lágrimas começando a se formar em seus belos olhos castanhos, eu prossigo com tom entusiasta- Ei! Vamos trocar nossos números? Assim poderemos nos falar em qualquer lugar! — O semblante de Hina muda por completo. Um rosto triste se torna um olhar enaltecido pelo brilho dos seus olhos de tamanha empolgação. Ela não parava de pular em alegria, e com seu jeito fofo e estabanado, tentava pegar o celular da mochila, mas acaba derrubando seu material no chão. Tento esconder o riso, mas não me resisto. Ela fica cada vez mais nervosa e reclama comigo.
— Para de rir e me ajuda, veterana!! — Ela era tão fofa quando ficava brava. — Eu me agacho e respondo
— Tá bom, desculpa. Vou ajudar. — Depois de arrumar tudo e trocarmos os números, nos despedimos.
— Até manhã, Hina. Vou pro trabalho agora. Se cuida no caminho e volte com cuidado, tá?
— Uhum. Bom trabalho,Veterana! Desejo o mesmo. — Acenamos uma para outra até que Hina se vira e segue seu caminho. Eram quase duas da tarde e eu estava no meio de uma pequena multidão de pessoas à minha volta esperando o ônibus no ponto. Do me lado, havia dois caras da minha idade fofocando sobre a Hina, dizendo coisas como "Nossa, como ela é fofa!" e "Ela parece ser do primeiro ano" Me dá vontade de espancar estes tipos de garotos, mas quando penso em fazer isso, me vem à mente o rosto de Kayo. Nunca pensei tanto nele quanto hoje. O ônibus enfim chega e por sorte consigo ir sentada, assim como na vinda. Ponho meu headphone e começo a ouvir minhas músicas clássicas. Desço no ponto que ficava alguns metros da livraria em que trabalho e recebo uma mensagem da minha irmã.,
" Hey, mamãe chegará tarde do trabalho, então tem como passar no mercadinho e comprar alguns ovos para comermos? Brigadinha!! Bjs. ♥
( ^ o ^ ) "
Putz, que saco!! Na volta eu passo. O dia no emprego foi bem tranquilo. O horário do espediente termina e me arrumo para ir embora. Compro os benditos ovos e vou para casa. Chegando lá, me deparo com a poluição sonora que era meu irmão mais novo tocando guitarra no seu quarto. Ponho os ovos na mesa e me preparo para o banho. Não estava com paciência para dar sermão naquele pivete. Saio do banho e simplesmente desabo em minha cama. Ligo o computador e entro em um blog de fanfics no qual eu costumava acompanhar boa parte delas. Recebo uma notificação alertando que havia sido postado um novo capítulo da minha fic favorita. "Angel Pain" de alguém que utilizava o nome AloneTenshi22. Ninguém sabia se era um homem ou uma mulher. A história era de uma anjo chamada Kamila que teve suas asas retiradas ao perder seu grande amor. Agora ela foi forçada a viver como humana até que recuperasse suas asas novamente. As frases e os diálogos eram bem dramáticos, mas eu gostava. Teve um deste capítulo novo que despertou minha atenção.
"Enquanto ninguém notar sua falta, você fechará os olhos para não perceber a indiferença diante dos próximos a ti. "
Essa frase resumia exatamente o que eu fazia na minha vida. Ninguém no colégio notaria minha falta se eu sumisse,mas quem disse que eu quero chamar a atenção deles? Aproveito e dou uma olhada na minha página de uma rede social na qual sou dona e depois desci para jantar.
Chegando na cozinha, estava minha irmã preparando uma farofa de ovo para comermos. Nossa família era muito pobre, então não tínhamos dinheiro para comer do bom e do melhor. A casa estava em frangalhos e não tinha sequer televisão. Com muito custo, conseguimos contratar um plano de Internet, graças ao meu emprego na livraria. No meio disso tudo ainda tem um ser que complica ainda mais nossa situação. Era meu irmão adotivo Itany. Ele pouco se importa com a situação financeira da família, e vive gastando sua maldita mesada com cigarro e bebidas, mas tentava esconder de nós até que um dia, July, minha irmãzinha, viu ele bebendo no quarto e falou para mim. Neste dia nós brigamos muito feio, e desde então, Itany evita falar comigo e muito menos olhar para mim. Como July é uma menina muito inocente, ela sempre leva um pratinho de comida e deixa em frente à porta do quarto dele. Isso me deixa irritada, pois ele sequer pensa em agradecê-la por seu ato bondoso. Um completo desnaturado. Converso naturalmente com ela, até o término do jantar, depois escovo meus dentes e me preparo para dormir. Quando deito em minha cama, ouço alguém bater na porta. Digo para entrar e era minha irmãzinha.
— Posso me sentar ao seu lado, Mi?
—Claro, Jô! Venha, venha! — Respondo entusiasta. Jô era o apelido que dei para ela.
— Hehe. — Um inocente sorriso percorre seu rosto, enquanto se acomodava, sentando-se na cama à minha direita. Ela agarra meu punho e indaga — O que houve com sua mão? Está enfaixada!! — Sua feição era de preocupação comigo. Talvez ela tenha pensado que foi as meninas da minha turma.
— Ah, isso aqui? Eu briguei com um amigo meu. Foi nada demais não, viu? — Digo-lhe forçando um sorriso.
—Eh?! Você brigou com um garoto, Mi?! Porquê? — Ela se aproxima do meu rosto com os olhos arregalados.
— Bem, isso não é assunto para crianças!!- Uma resposta bem manjada pra escapar do assunto.
— Mas eu tenho onze anos. Hmpf!! — Ela fica bem irritada quando eu digo isso.
— Eu sei, eu sei, mas não posso te contar agora. Desculpa, tá?
— Hm, tá bom então!
—Ei, ei. Eu conheci uma garota hoje que me lembra você, Jô!! Ela se chama Hina.
— Eh? Sério mesmo? — O resto da noite nós apenas jogamos conversa fora até cairmos no sono. Hoje eu sonhei com dois garotos. Um deles estava de capuz e estava dormindo em um gramado, enquanto chorava bastante ao lado de um gato, enquanto o outro estava sentado de costas e , quando percebe que eu estava ali, se vira em minha direção. Era o Kayo!! Quando eu penso eu chamá- lo, o despertador toca. Acabei perdendo meu ônibus e chego atrasada no colégio. Durante a aula, as meninas não paravam de cochichar, enquanto olhavam para mim. Que droga!! Odeio fofoca! No horário do intervalo, sou chamada à direção pela representante de turma. Quando chego lá, o diretor me indaga com perguntas desconfortantes:
—Senhorita Misa, por acaso você se encontrou com o Senhor Kayo durante o intervalo de ontem?
— Eh, porquê pergunta, diretor?
— Fui informado que o Senhor Kayo agiu com vandalismo ao arrombar a porta do depósito de educação fisica, e ainda por cima, ouviram ele tentando lhe abusar sexualmente. Isto é verídico?
— Claro que não! Ficamos presos no depósito e ele tentou nos tirar de lá quebrando a porta! Foi apenas isso.
— E o que explica o seu ferimento no punho? Por acaso você reagiu aos abusos do Senhor Kayo?
— Não teve nehum abuso! Nenhum mesmo!
— Então explique o ferimento da sua mão e aproveite — ele interrompe a fala e puxa o notebook para minha direção me mostrando um vídeo — e explique essas gravações da câmera do depósito!! — Eu fiquei sem chão naquela hora. Não havia como ajudar Kayo naquele momento. O que eu poderia fazer? A porta da direção se abre e surge Hina, com respiração ofegante.
— Veterana! O que está acontecendo?
— Ei! Por acaso eu te chamei aqui? — Pergunta o diretor, bastante irritado.
— Estou aqui para defender o Veterano Kayo! Ele é namorado da Veterana!!!
— O quê disse menina???? — Eu berro de forma que as professoras que conversavam ao lado da máquina de café acabaram se assustando. Como ela pôde dizer isso??
— Eles entraram no depósito para se pegarem como os casais fazem!!
— FICA QUEITA POR DEUS!! — Alguém cala essa menina! Quero enterrar minha cara em um burraco como um avestruz!
— Então me explique o empurrão e o soco, Senhorita Hina!
— O Veterano Kayo é masoquista!! — O diretor estava tentando ao máximo manter o semblante sério, enquanto indagava a Hina cada vez mais.
— Isto não justifica o fato dele ter destruído a porta!! Terei que suspende-lô por alguns dias, enquanto ele não vier até aqui e esclarecer tudo.
— Desculpe, diretor. — Respondo. No fundo queria realmente ajudar Kayo, mas não consegui. No fundo, estava me desculpando com ele em voz alta, ao invés do diretor. Queria vê- lo novamente e esclarecer tudo. Hina e eu saímos da sala e antes que ela tentasse falar algo para mim, o sinal tocou dando início as aulas do dia. Vou subindo as escadas para minha classe quando sou chamada por um professor.
— Ei, Senhorita Misa, poderia levar estes livros até a sua sala?
— Ah, certo. — Pego os livros e com muito esforço tento subir as escadas. Como era pesado! Após chegar à metade das escadas, os livros são roubados da minha mão por um garoto que passava por ali. Ele esbanja um belo sorriso enquanto olhava para mim e sussura.
— Meninas frágeis não devem carregar livros tão pesados. — Não demorou muito e ele tenta voltar atrás. Meu coração havia disparado um pouco quando ele disse isso.- Esqueça o que eu disse!! Estava apenas brincando! — Exclama, de forma envergonhada. Admito que ele era uma gracinha. Braços finos e osudos. Tinha uma voz fina e que me deixava confortável ao ouvir. Seu cabelo era curto, porém bem bagunçando. Seus olhos castanhos lembrava aqueles cachorrinhos carentes por atenção. Antes que eu pudesse perguntar seu nome, ele saí correndo ainda vermelho de vergonha. Será que ele era do primeiro ano? Continuei subindo as escadas até minha sala, quando o mesmo garoto retorna.
— Desculpa!! Esqueci que estava com seus livros e levei eles juntos! — Que cara tapado gente!!
— He, não foi nada não, minha sala é logo à frente também.
— Sendo assim, eu lhe acompanho até lá. Se importa?? — Seu tom de voz era tão baixo que me deixava um pouco incomodada.
— Nem um pouquinho.- Realmente não me importava, mas as meninas da sala achariam que eu tinha algo com ele, porém estava me lixando para o que elas pensavam. No caminho até minha sala, ele se manteve calado e eu fiz o mesmo. Nunca havia o visto antes, então não tinha muito o que falar com ele. Enfim, chegamos à minha classe e o garoto me entrega os livros. Mostrando um semblante tristonho, se despede de mim.
— Bem, vou indo então. — Disse o menino.
— Muito obrigada pela ajuda. Me chamo Misa, e você? — Seu olhar enaltecia um brilho que chegara à me cegar. Parece que ele estava esperando que eu perguntasse.
— Me chamo Hiro!! Um prazer te conhecer, Misa. Boa aula para você.- Ele era muito educado.
— Haha, te digo o mesmo. Até mais ver. — Respondo, meio sem jeito diante de tanto entusiasmo vindo dele. Ele saí correndo como fez antes, mas dessa vez parecia feliz. Entro na classe e me deparo com minhas amiguinhas me olhando. Finjo que não é comigo e me sento. Passo a aula toda observando a janela e mexendo no celular, até que Karou começa a me cutucar com a caneta. Finjo que estava tão concentrada fazendo a lição que não percebi ela me chamando, mas acabo me irritando com a maldita e decido ouvir o que ela tem a dizer.
— O que foi? Estou estudando!
— Quem era o garoto que você estava falando? Já não basta o que ouve com o Kayo ontem?
— Não é da sua conta e seria bom se você vigiasse seu namorado também, viu?
— O que você disse?? — Eita, a novinha pistolou!! A professora pede gentilmente que ela calasse a boca e prestasse atenção na aula, enquanto eu tentava esconder meu riso maléfico. Enfim, termina as malditas aulas do dia. Passei o intervalo deitada na grama como sempre fiz, esperando a Hina aparecer para irmos embora juntas. Bem, ela não apareceu. Pensei em ligar, mas achei que seria inconveniente. Talvez ela esteja com o pessoal da sua turma agora e não quero interromper. Pego minha coisas e vou embora. Desço do ônibus e vou andando até o meu emprego distraída, quando acabo avistando a razão dos meus problemas deitado em um muro com um cigarro na mão. Começo a correr em sua direção gritando seu nome.
— Kayo!!!! -Ele olha assustado para mim e pula do muro. Eu me aproximo ofegante, enquanto ele me observa surpreso. Ele estava vestido com o uniforme do colégio, então porque ele não foi para aula? O rosto dele estava inchado por causa do soco e ele aparentava estar bem cansado. Seu olhar era fundo e tinha olheiras. O que aconteceu com ele?
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