Notas iniciais
Os próximos capítulos vão demorar um pouquinho

Cheguei mais cedo que o normal para aula, então me sento em frente à uma parede onde não batia tanto sol, comparado com as pilastras do pátio. O tempo até o início das aulas passa bem rápido quando você está lendo algo. Vou para sala e me encontro com o pessoal. Ontem teve a tal celebração pelo aniversário do Smith, que no caso eu nao quis ir, então eles só estavam falando sobre isso. Antes da aula começar, um representante do Conselho Estudantil veio nos avisar que as inscrições para a Educação Fisica estavam abertas. Não fazia idéia do que eu iria fazer este ano. Talvez eu faça xadrez ou tênis de mesa, qualquer coisa que não me canse muito. Sado exclama que está em dúvida entre vôlei e capoeira. O resto do pessoal combinou de entrar para o basquete, enquanto eu não fazia idéia nem do que irei comer no almoço. Esta indecisão era um tanto incômoda para mim. Hoje eu não vi a caloura, para que ela possa devolver meu guarda-chuva. Passo o resto da tarde, na qual não terei aula, para estudar na biblioteca da escola. Por descuido meu, esqueço de deixar o celular no modo de vibração e ele acaba notificando uma mensagem, e sou recriminado por um dos professores.

" [Kayo Fubuki] 02/03/2015, 14:38

Hey, que horas você sai do colégio hoje? Tenho que te contar uma coisa. "

Parece ser algo importante, então respondo logo em seguida dizendo que após terminar os estudos, me encontraria com ele na estação de trem. Enquanto me concentrava na matéria de História, uma garota se aproxima de mim e sussusa, evitando fazer barulho.
— Ei, não tem mesa sobrando então se importa de eu me sentar aqui?
— Não, sente-se. — Respondo cordialmente. Ela se acomoda na cadeira que esta à minha frente e retira alguns livros de Química da pequena bolsa que ela carregava. Não seguro minha curiosidade e tento descobri qual matéria ela estava estudando. Percebendo minha tentativa, ela reclina o livro com um leve rubor no rosto, marcando alguns trechos de um pequeno texto com uma caneta. Alguns minutos se passaram e sinto um leve encosto em meu antebraço, fazendo com que eu perca a concentração. Viro-me e vejo que era a garota sentada à mesa que estava me chamando.
— Ei, você sabe um pouco de Química?- Aceno concordante e pergunto o que ela quisera saber. Apontando com a ponta da caneta à uma questão cujo a introdução dela estava poluída por diversas anotações e algumas contas em volta. Explico calmamente para que ela pudesse entender da melhor maneira.
— Oh, muito obrigada!! — Parando para observar, ela era muito bonita. Um cabelo castanho escuro e longo, aparentava ser da minha altura, ou talvez mais alta que eu. Tinha covinhas no rosto e algumas sardas também. Usava um cordão com uma pedrinha enrolada a corda. Seus brincos tinham uma pequena esfera branca que lhe dava um certo charme. Na verdade, eu já conhecia ela, mas queria ver se ainda se lembrava de mim, por isso evitei falar. Eram cinco e meia da tarde quando decido arrumar minhas coisas e ir embora. A garota observa um tanto surpresa e indaga
— Já está indo embora?
— Sim, tenho que me encontrar com um amigo ainda. — Ela desvia o olhar e mira em seu celular encima da mesa. Após isso, se levanta cautelosamente para não fazer ruído e começa a pôr seus livros na bolsa.
— Nesse caso, também irei. Posso ir junto com você? — Ela parecia ter dito aquilo com naturalidade, mas eu havia notado seu rosto corado. Aceno com a cabeça e dou um leve sorriso.
—Claro! Você vai para a estação? — Eu não gostava de ir até a estação sozinho e não tinha porquê rejeitar o pedido.
— Sim, sim! — Seu rosto volta a cor normal e ela termina de arrumar suas coisas. Pego minha carteira de identificação que estava na recepção da biblioteca e em seguida pego a minha mochila que havia deixado em um compartimento de ferro, onde fica um amontoado de bolsas. Me retiro da sala com a garota me seguindo logo atrás.
— Bem, eu não cheguei a me apresentar. Me chamo Karine, e você? — Por algum motivo ela estava escondendo o riso
— Sou Roy. Muito prazer Karine. Espera! Não te conheço de algum lugar? — Não queria mais fingir que não me lembrava dela, mas por um instante havia mesmo esquecido seu nome
— Sim! Já tinha conversado com você antes, se lembra?
— Claro que me lembro! Quanto tempo, hein?- Ano passado, quando fui me inscrever para o basquete, estava completamente perdido de onde eu deveria entregar o formulário e tudo mais. No meio disso tudo, veio uma menina em minha direção pedindo para que procurassemos juntos. Assim, fomos correndo por toda a escola procurando informações até que encontramos o lugar onde devia se entregar o formulário. Enquanto esperávamos na fila de inscrição, descobri que ela queria fazer basquete também. Ficamos conversando sobre isso até chegar a nossa vez na fila. Desde aquilo, vi ela algumas vezes nos arredores do colégio mas nunca a chamei para conversar. Pensei que havia acontecido com ela, o mesmo que acontece com muitos alunos do primeiro ano. Quando entram aqui, ficam como ratos assustados procurando por ajuda e tentando fugir dos trotes, mas é só se acostumaram com o cotidiano da escola que começam a soltar as asas e voar. Esquecem de quem os ajudou quando precisavam, formar seus grupinhos e se tornam ignorantes, mas quem sou eu pra dizer isso se fiz o mesmo? Mas parece que Karine era diferente mesmo. Ao menos, parece que é.
— Ah, quem bom que lembrou!! Pensei que tinha se esquecido de mim. Não conversávamos desde aquele dia, não é mesmo?
— Verdade, me desculpe. Pensei que você estava me evitando ou algo assim.
— O quê? Porque pensou isso de mim? Jamais faria isso com você, Roy. Até porque eu go--- Enquanto ela falava, surge um garoto que aparenta ser do primeiro ano, que acaba esbarrando em Karine enquanto passava. O rosto dela tinha um leve rubor, mas não sei o porquê dela estar envergonhada. Eu a seguro para que ela não caia no chão.
— Está tudo bem, Karine?
— Sim, estou. Obrigada. — Seu rosto está muito vermelho. Será alguma febre? Eu a equilibro para que ela possa ficar em pé depois encaro o garoto. Ele era muito alto, provavelmente da mesma altura do Kayo. Tinha um cabelo loiro e havia passado a máquina nos lados dele, deixando um visual de quem gostava de fazer baderna. Seu olhar era agressivo e era possível enxergar alguns nervos em sua pupila. Ele parecia irritado. Seu uniforme estava todo amarrotado, seu sapato estava mais sujo que o meu e suas calças estavam rasgadas. Estava um pouco nervoso, pois penso que ele talvez esteja querendo arrumar briga comigo. Odeio violência, seja verbal ou corpórea. Pigarro a garganta e tento esconder o tremor da minha voz.
— Desculpe. Estávamos no meio do caminho e Karine acabou esbarrando em você. Nos perdoe. — Karine estava completamente fora do ar. Seu rosto ainda estava vermelho por alguma razão, enquanto o jovem continuava a me ouvir. Ele ergue sua mão até o meu ombro e começa a aperta-lo. Parecia que meus ossos estavam prestes a se partirem com tanta força!
— Eu que me desculpo. Acabei esbarrando na sua amiga — Ele era educado até demais — Aproveitando, tenho que te entregar isto aqui — ele abre sua mochila, que diferente dos seus trajes, estava impecável e retira um guarda-chuva — Annie pediu para te entregar. Ela não veio hoje pois ficou doente — Annie? É a caloura que emprestei o guarda-chuva? Eu nem tive oportunidade de perguntar seu nome. Estendo minha mão e o pego.
— Puxa, muito obrigado, mas você se refere à caloura não é? — Tento certificar, por preocação.
— Sim, eu sabia que era você pela pulseira do seu braço. Ela te deu por algum motivo, mas não me importo, pois você parece ser um cara legal- Nossa, ele era o oposto do que eu imaginava, mas o que ele era da Annie? Será quê....
— Você é namorado dela? — Karine voltou a si e dispara. Ela fez a pergunta que eu não teria coragem de fazer.
— É... sou sim, mas não espalhe pra ninguém, viu? — Ele fica corado ao responder e não parava de olhar para os lados. Ele se curva se despedindo e segura no meu ombro novamente. Ele reclina o seu rosto até meu ouvido e fala bem baixinho
— É bom que esqueça a Annie e não volte a falar com ela novamente — Eu tento fingir que não ouvi aquilo e demonstro ironia
— Deseje melhoras para ela por mim — Tento manter um sorriso cínico
— Pode deixar! Irei avisar a ela — Ele me encara novamente e desce as escadas. Ele é realmente o que sua aparência condiz.
Karine e eu continuamos o nosso caminho até a saída do colégio. Cumprimentamos o zelador e fomos a caminho da estação. Antes que eu me esqueça, mando uma mensagem para Kayo avisando que eu estava chegando. Enquanto ainda estávamos longe da estação, penso em esclarecer uma dúvida que surgiu em mim. O que Karine estava querendo dizer antes do namorado da Annie, que sequer disse seu nome, esbarrasse nela. Aproveito que ainda estamos esperando o semáforo ficar verde para passarmos e pergunto
— Ei, Karine. O que você estava querendo dizer para mim naquela hora?
— Não era nada demais- Responde automaticamente. Não penso em insistir, pois se ela diz que não era nada,então não precisava me preocupar. Percebo que suas costas estavam envergadas e ela parecia incomodada com o peso dos livros na bolsa em seus ombros. Percebendo aquilo, decido propror ajuda
— Quer que eu leve a bolsa?
—Gasp! Não precisa! Estou bem assim! — Não conformado, continuo insistindo.
— Deixa que eu carrego. Não tem nada de mais
— Mas vão pensar que estamos- Sua voz acaba hesitante e ela desiste de falar, me entregando a bolsa. Eu ponho ela no meu ombro direito, enquanto apoiava a mochila com apenas uma das alças no esquerdo. Não demorou muito e ouvi alguns berros de umas garotas do outro colégio que passavam por ali.
— Kyah! Você viu aquilo?
— Sim! Queria que meu namorado fissese isso comigo! — Não consigo esconder o rubor do rosto e Karine menos ainda. Ela olha para mim, com a feição avermelhada e estende a mão para pegar a bolsa de volta.
— Eu tentei falar!! Deixa que eu levo
— Nem pensar! Eu disse que levava, esqueceu? Eu não ligo para o que os outros pensam da gente. Se você está se sentindo incomodada com isso, eu lhe devolvo a bolsa — Ela deve sentir vergonha de andar comigo, deve ser isso.
— Eu não estou! Não ligo mesmo!
Suas palavras me fizeram sentir bem melhor. Não sei explicar, mas eu estou muito feliz agora.Chegamos na passarela que dava para o outro lado da rua, onde ficava a estação. Em uma banca de jornal, no qual eu já era íntimo dos donos, que ficava próximo à passarela, estava Kayo a minha espera, sentado nos degraus da entrada da banca, enquanto tentava convencer a moça à vender um maço de cigarros. Eu não fazia ideia que ele fumava. Ao notar minha presença, demonstra um largo sorriso e fica acenando alegremente. Diferente do namorado da Annie, o Kayo era uma pessoa emproada. Bem vestido, perfumado, com o cabelo quase sempre arrumado e sempre capitava as coisas mais rápido que eu. Quando ele vê que uma garota estava comigo, seu jeito muda um pouco.
— Hey, Roy!! Quem é sua amiga?
— Olá, Kayo. Está é a Karine- respondo estendendo os braços em direção a ela, depois repito o processo com Kayo — Karine, este é meu amigo Kayo
— Oi, Kayo
— Olá, Karine. Prazer em conhecê-la. Cuide bem do meu amigo — Kayo pigarra um pouco, suspira e depois põe a mão sobre o rosto, demonstrando cansaço — Olha Roy, parece que mudei de idéia. Preciso comprar uns remédios, pois estou sentindo muita tontura e dor de cabeça. Deixa pra outro dia, okay? — Ele disfarça um olhar para Karine e começa a limpar o olho com a manga da camisa enquanto dava algumas piscadas para Karine.
— Puxa, que pena. Deixa pra depois então. Melhoras, tá? — Digo
— Pode deixar, até depois — Ele dá uma última olhada em Karine e começa a andar na direção contrária a nossa. A mudança súbita de Kayo me deixou incomodado e confuso, mas o rosto dele realmente aparentava cansaço. Parecia que ele ia desmaiar a qualquer instante. Acho que a saúde dele não é das melhores, e pelo que vi ele também não faz por onde, procurando se cuidar. Atravessamos a passarela e passamos pela roleta quando Karine exclama com um semblante desapontado.
— Ah, droga! Esqueci que tenho que ir pro trabalho da minha mãe hoje. Não vamos no mesmo trem — Surge reticências em sua fala que demonstra tristeza. Eu também não gostei, pois queria ir para casa junto com ela. Escondo minha frustação e digo que ainda podemos esperar o trem juntos. Devolvo sua bolsa e ficamos em pé na plataforma à espera do trem. Não sei explicar,mas estava muito nervoso e Karine parecia bem inquieta. Antes que o silêncio dominasse de vez a gente, ela me chama com um pouco de vergonha
— Desculpa por não falar com você direito ano passado — Ela começa a olhar para o chão enquanto fica arrastando o pé — Eu pensei que você não queria mais falar comigo, pois estava rodeado de amigos, sabe? — ela silencia sua voz um pouco e percebo que ela queria dizer algo, mas voltou atrás — Eu sempre reparei em você, Roy. Desde aquele dia. Sempre que eu te via, me dava um aperto no coração — Enquanto ela falava, o trem que ela irá pegar estava se aproximando da estação- Eu queria te dizer que..... eu gosto de vo------
— O quê? Eu não consigo ouvir! — O trem estava passando na hora que ela havia terminado a frase. Quando ele para e abre as portas, liberando alguns passageiros que estavam dentro dele, Karine balança a cabeça em negação e com o rosto avermelhado ela suspira e diz
— Não era nada. Desculpe — Ela entra no trem e continua me olhando nos olhos. Impulsivamente, eu ergo minha mão direita na sua direção e ela põe sua mão esquerda na minha. Seus olhos estavam lacrimejados, então penso em encoraja-la. Essa era a chance para ela me dizer o que queria.
— Pode dizer. Eu prometo que irei ouvir — Entrelaço meus dedos nos seus enquanto espero sua resposta. Sua mão começa a suar enquanto sua respiração parecia ofegante. O alarme da porta do trem começa a tocar, sinalizando que ela se fecharia naquele instante. Karine ainda se mantia hesitante, então eu lanço o ultimato.
— Se você não falar, eu te puxo para fora deste trem. Não precisa ter medo.
— Eu gosto de você! — Puxo minha mão para fora, segundos antes da porta se fechar e percebo qu estava trêmulo. Mesmo com as portas fechadas o trem ainda estava parado, então eu ponho minha mão no vidro da porta. Karine tenta esconder o rubor do rosto pondo a mão no outro lado do vidro. Meu rosto deve estar muito vermelho agora. Foi a primeira vez que recebo uma declaração, então não sabia como reagir. Tentei ser natural, mas agi feito um idiota. Forcei ela a falar,pensando que não era algo mais simples. Agora não sei como agir e qual resposta dar a ela. O trem começa a ganhar movimento e retiro minha mão da janela, porém meus olhos seguem os de Karine. O trem some no horizonte e eu me agacho na plataforma tentando esconder o sorriso. Não tinha como negar que eu não estava feliz com isso, pois lá no fundo eu também sentia algo por ela.

" Quando chego em casa eu olho para as estrelas no céu e me pergunto se a estrela que escolhi estará brilhando para você também"

Notas finais
Obrigado por ler!! Comentem o que estão achando da história até aqui!!