Notas iniciais
Este capítulo vai ser meio longo hehe. E a partir desse vou colocar um pequeno poema que terá um significado importante para a história.

Aquele foi o dia mais chuvoso do mês de fevereiro, deixando alguns lugares completamente alagados, incluindo um colégio perto do meu, onde tiveram até mesmo que suspender suas aulas. Em uma quadra de basquete em Bonsucesso, um lugar estupidamente longe da minha casa, estava um garoto com o rosto inchado por ter levado um soco, enquanto jogava embaixo daquela chuva. Eu o observei por alguns minutos até que decido chama- lo. Acho melhor não. Não o conheço e talvez ele não queira ser incomodado. Todos nós precisamos de um momento sozinho com nós mesmos. Sejam horas, dias, meses e até mesmo anos. Todo ser humano precisa se conhecer. Ninguém se conhece por inteiro, pois lá no fundo de nós, existe uma fina camada que encobre nossos sentimentos mais límpidos e puros. Lá se resguarda também, o nosso instinto selvagem, que sobressai pela pele, demonstrando a real intenção do nosso ser por alguns segundos. O que estava diante do meu olhar nada mais era que um instinto selvagem e solitário, se banhando com a chuva, sua única e fiel companheira. Noiva nos aquece com suas gotas gélidas seja o dia que for. Sabe quando necessitamos dela, e surge como mágica se formando no céu e escondendo nossas lágrimas. Pego minha mochila e saio da quadra, quando pressinto algo vindo em minha direção. Rapidamente o seguro com uma das mãos, e nada mais era que uma bola de basquete. Desvio o olhar dela e miro para a direção em que ela viera. Ninguém menos que o jovem que estava a jogar em meio à chuva, havia lançado a bola em minha direção, provavelmente para que eu lhe concebesse atenção. Aproximo-me até ele e lhe entrego a bola.

— Não faça mais isso, por favor. É perigoso. — Digo-lhe com semblante sério, mas como se houvesse ignorado minha advertência, dispara com som despojado.

— Você tem ótimos reflexos! Faz parte de algum clube? -Ele lança seus cabelos molhados com a mão para escorrê-los até o início de sua nuca, obtendo-o visão por completo de minha silhueta. Em seguida, pega a bola da minha mão e começa a gira-la em seu indicador, esperando minha resposta.

— Já fiz parte antes, mas tive que sair. — Minha voz diminuía a cada sílaba que eu pronunciava. Este assunto ainda me causa desconforto. Eu já me preparava psicologicamente para a aglomeração de perguntas, como por exemplo, "Por quê?", "O que aconteceu?”, entre muitas outras. A chuva começou a apertar de maneira que mal conseguia ouvir meus pensamentos, devido ao forte som das gotículas se debatendo ao solo. Canso-me de olhar para o chão entre estes segundos intermináveis esperando pela resposta dele e me viro ao seu semblante. Como se não se importasse tanto, apenas direciona o olhar para o lado e diz:

— Entendo. Você teve seus motivos.

— Hã? — Deixo meu tom confuso escapar pelos lábios. Era a primeira vez que alguém não insistira em saber sobre a razão da minha saída do clube. Melhor dizendo, acho que ele havia percebido que eu não havia dito sobre este ocorrido para ninguém. O garoto, que havia parado de girar a bola com seus dedos e aconchegou-a em sua cintura apoiada a seu braço direito, se demonstra confuso com minha reação e prossegue:

— Que houve? Pensou que eu perguntaria o motivo? Eu mal lhe conheço e sua vida está longe de ser da minha conta. — ele demonstra uma feição de indiferença e continua a dizer — Sabe, eu estava voltando para casa hoje e vi essa quadra pela janela do trem e desci no mesmo instante. Eu pensei "É uma boa quadra!" e vim jogar um pouco. Você não acha que este é bom lugar para refletir em seus erros enquanto joga? — eu hesito em responder por um instante, ainda pondo em ordem suas palavras em minha mente, quando ele decide prosseguir. -Acho que só o fato de está quadra não ser usada por ninguém a um bom tempo e termos nos encontrado neste lugar, já significa bastante, não é mesmo? Acho que você deve ter vindo até aqui pelo mesmo motivo. — ele acertou em cheio. Eu costumo vir até essa quadra quando saio mais cedo das aulas e só volto para casa à noite. Desde que me lembro, nunca vi mais ninguém utilizando esta quadra além de mim. Acho que esta foi a razão que me forçou a observa-lo jogar, mesmo embaixo desta forte chuva. Eu não tinha palavras para retrucar sua afirmação. Apenas acenei com a cabeça em concordância e olhei em seus olhos logo após. Com uma voz trêmula e hesitante, pergunto-o sobre o sangue no canto da sua boca.

— O que houve com seu rosto? — ele arregala os olhos demonstrando surpresa e põe a mão sobre o ponto onde estava sangrando.

— Isso aqui? Foi uma amiga, quer dizer, uma garota. — diz enquanto limpava o sangue com o tecido do seu blazer escolar fazendo um movimento de fricção com o antebraço e prossegue — Ela está longe de ser um poço de doçura. — Após dizer isso, começa a rir até demonstrar um olhar sério. Seus olhos verdes se inundaram em tristeza por um breve momento. Impulsivamente, o jovem se joga no chão da quadra encharcada e exclama enquanto escorria lágrimas em seus olhos.

—Eu estraguei tudo! — Sem hesitar como das outras vezes, pergunto na mesma hora.

— Está tudo bem com você? O que aconteceu? — Foram perguntas clichês, mas foi o que veio à minha mente naquele instante. No fundo da minha alma, havia algo que dizia que eu deveria ajudar. Ele continuava a olhar fixo para o céu nublado enquanto suas lágrimas eram encharcadas pela chuva. Soltando um leve suspiro, começava a falar.

— Em toda a minha vida, só me apaixonei por duas pessoas. — Dá uma leve pausa e se levanta, sentando em posição de lótus. Abaixo-me ao seu lado para ouvir sua história. Ele suspira e prossegue. — Uma delas foi minha professora de literatura do cursinho. — Diz, esperando que eu esbanjasse alguma reação indiferente, mas aquilo não me soou surpresa. Ao perceber, ele desabava. — Você foi o único que não esbravejou quando eu disse isso. É um xará estranho. — Eu esbanjo um leve sorriso e respondo.

— Eu acredito que o amor não é restrito a esses detalhes. — Ao ouvir minha resposta, ele dá um leve sorriso, pigarra e continua.

— Você é realmente estranho, cara. Nem me apresentei. Me chamo Kayo Fubuki, e você? — Eu não era muito chegado a apresentações, por não gostar do meu sobrenome.

— Me chamo Roy Tsukimu. Prazer em conhece- ló, Kayo. — Apresento-me em tom educado. Ele sorri enquanto fecha os olhos e estende à mão para fazer um cumprimento. Eu estendo a minha e a aperto, então ele suspira e decide prosseguir com a história. Mas antes, nos levantarmos e fomos até um banco onde estava coberto da chuva e nos sentamos. As nossas roupas estavam bastante encharcadas a ponto que em algumas horas estaríamos gripados. Em minha mochila havia umas toalhas de rosto que serviriam para amenizar o estrago. Entrego uma para Kayo se secar, enquanto eu uso a minha para limpar a lente dos meus óculos. Kayo passa a toalha em seu cabelo, deixando-o com uma aparência folclórica. Parecia que o furacão Patrícia havia passado em sua cabeça. Antes que a chuva se tornasse monótona, Kayo começa enfim a falar. Termino de secar meu rosto e cabelo após limpar a lente dos óculos e me preparo para ouvir Kayo atentamente.

[...]

Eu Kayo Fubuki, quando estava em uma primavera qualquer há uns dois anos atrás se não me engano,eu entrei para um cursinho barato que me preparava para as provas de admissão para os colégios federais. Nele, eu poderia aprimorar meu conhecimento de redação e matemática, que por sinal, eu já era impecável nessas matérias. No cursinho, havia dois professores. Um homem que lecionava Matemática e Física e uma mulher que nos lecionava Português, Literatura e Redação. Como eu já era um aluno excepcional em exatas, vivia cagando para o reforço das matérias deste ramo, isto quando eu ia para essas aulas. Entretanto, eu fazia o máximo possível para ir a todas as aulas de Literatura e Redação, até porque a primeira era uma matéria que me fascinava cada vez mais, isto graças à professora que irei comentar melhor depois. Quanto à segunda matéria, era de extrema importância para me sair bem nas provas de admissão, mas o que realmente me fazia desejar estar naquela sala de aula até mesmo nas tardes chuvosas, era minha Professora Maria. Ela jamais havia revelado sua idade para seus alunos por vergonha, creio eu. Atenciosa e sempre com um belo sorriso no rosto, ficava corada quando alguém enaltecia sua beleza em meio aos alunos, isto é, os próprios alunos costumavam dar encima dela, deixando as garotas que faziam parte da turma, um tanto incomodadas. Porém, havia um único aluno que não ficava cantando ela, e este nada mais era do que este que vos fala. Não era porque não me sentia atraído por ela, pelo contrário. Na verdade, esta era a razão de eu não tentar nada com ela. Eu estava simplesmente apaixonado por aquela mulher. Porém, além da idade, ainda havia diversas barreiras nos separando. Boa parte das garotas do reforço gostava de mim, o que era um incômodo, pois elas não passavam de um bando de idiotas que não chegavam ao meu nível. Gritavam feito gralhas esganadas e montavam encima de qualquer bonitinho que brotava na turma. Chega a ser ridículo, mas a Maria não era assim. Ela era culta, falava baixo, olhava nos seus olhos e sempre esbanjava um belo sorriso. Era alta, vivia usando umas sapatilhas vermelhas, com uma decoração florida. Na maioria das vezes com uma saia na altura do joelho com uma cor vinho. Camiseta branca devidamente abotoada, evitando que seus bustos sejam vistos por olhares indesejados. Unhas perfeitamente bem feitas e mãos lisas.

Um cabelo castanho claro bem curto na altura do ombro e uma pequena franja que tenta escorrer seu lindo rosto, que tinha o ápice de sua beleza sendo protegido pelos seus óculos vermelhos. Usava um leve batom rosado, e possuía uma pinta acima da bochecha e outra abaixo dos lábios. Antes das aulas acabarem, ela sempre passava um tema de redação para fazermos e à medida que entregávamos, podíamos ir para nossas casas. Eu sempre era o último a entregar, e fazia isso propositalmente, apenas para continuar observando-a. Tinha vezes que ela puxava uma cadeira e se sentava ao meu lado para tentar me ajudar com a redação, mas eu sempre usava a desculpa que estava apenas passando a caneta. Ela esbanjava um sorriso e dizia "Posso esperar do seu lado?" Toda vez que ela dizia aquela frase, meu coração parecia ser esmagado dentro de mim. Eu ficava prendendo ela de ir embora por no máximo meia hora, pois não queria atrapalhar sua vida pessoal, apenas ter a certeza que de que eu poderia ir embora junto com ela. Ambos morávamos longe dali, mas ela precisava pegar trem para chegar em casa. No meu caso, eu poderia ir até de bicicleta, mas eu preferia ir de trem com ela. Conversamos sobre coisas triviais e sobre algumas histórias de pessoas que fizeram as provas de admissão. Eu perdia as contas de quantas vezes eu a fiz rir feito uma criança no meio do trem. Quando ela percebia o escândalo que estava fazendo, ficava completamente corada, escondia o rosto e sussurrava desculpas. Passado alguns meses de reforço, faltava apenas três semanas para as provas de admissão. O estudo se tornava cada vez mais intensivo, mas ambos os professores aconselharam que evitássemos estudar dias antes da prova. A aula estava prestes a terminar, quando uma das garotas me chama para sair, mas eu a rejeito. Ela insiste, perguntando se poderia me esperar para irmos embora juntos, mas eu nego novamente. Irritada, ela pega o caderno em que escrevia a redação e percebe que eu já havia terminado a um bom tempo e exclama que eu estava enrolando para poder ficar sozinho com Maria e diz "Bem que eu suspeitava que essa professora não passava de uma pedófila safada!" Completamente fora de si e de cabeça quente acabei desferindo um tapa no rosto da menina e a seguro pela camisa, grunhindo coisas como "Lave essa sua boca de merda antes de falar dela, sua vadia escrota!" Como desforra, ela cospe em meu rosto e me empurra, dizendo que aquele tapa não ficaria impune. Maria pede para que todos os alunos se retirem da sala e fossem mais cedo para suas casas, com exceção da garota e eu. Ela diz para eu esperar do lado de fora da sala para que ela conversasse com a desbocada. Passaram alguns minutos, quando Maria me chama até sua sala para conversarmos. Sento-me em uma cadeira à frente de sua mesa e abaixo minha cabeça ouvindo seus sermões. Ela diz que a menina estava disposta a iniciar um processo contra mim e que eu teria que pagar uma indenização bem salgada. Eu não me importava com nada disso, pois o que mais me doía naquele momento era a feição de reprova de Maria enquanto olhava para mim. Pela primeira vez ela evitava olhar em meus olhos. Quando ela havia terminado de falar, dá um leve suspiro e acaricia minha cabeça, e termina com "Você deveria repensar melhor em suas ações, Kayo. Antes que eu começasse a chorar naquele instante, levanto minha cabeça, fazendo com que Maria reclinasse sua mão em meu cabelo, e miro meu olhar para ela e estava obstinado a dizer tudo o que sentia. Não consegui, pois antes que as palavras saíssem, ela lacrou meus lábios com seus finos dedos e sussurra com um olhar de melancolia e pena “Não precisa dizer mais nada”. Você já falou muito por hoje." Depois daquilo, ela se levanta, pega suas coisas e saí da sala. Antes que ela fechasse a porta, senti sua hesitação em voltar atrás e refazer suas palavras, mas ela segue caminhando até a saída, apagando-se de minha vista. Fico algumas horas na sala chorando sem parar, até que decido voltar para minha casa. No caminho, quase fui atropelado por um caminhão, enquanto pilotava a bicicleta, então penso que será melhor ir andando. Chego em casa e corro para o meu quarto. Enclausuro-me nele por vários e vários dias. Minha mãe não se cansava de me visitar, perguntando se estava tudo bem comigo, mas eu não respondia. Tudo que vinha à minha mente era o medo e a certeza de que nunca teria Maria para mim. Faltava apenas três dias para as provas de admissão, e eu não me lembrava de nada da matéria. Passei mais um dia em meu quarto, até que relembro que hoje seria o último dia do reforço e decido ir a encontro dela mais uma vez. Não queria sair da vida dela, sem que ela soubesse tudo que eu sentia. Pego minha bicicleta e vou até o pequeno prédio do reforço. Já eram umas cinco da tarde, o horário de saída do curso, mas dirigi-me até a sala mesmo assim. Ao entrar, me deparo com Maria arrumando suas coisas, enquanto lia atentamente a uma redação. Por descuido, deixa escapar uma pequena lágrima de seu alvo rosto. Quando percebe minha presença, tenta limpar o rosto e esconder a redação sem sucesso. Me aproximo até ela e levo minha mão até seu rosto, secando suas lágrimas calmamente, enquanto ela fixava seu olhar no meu. Estava tentando ao máximo me segurar para não acariciar a pele de seu liso rosto, mas acabo não resistindo. Em nenhum momento ela recriminou minha ação, pelo contrário, ela pôs suas mãos sobre a minha e cerrou seus olhos, enquanto deixava escapar um pequeno sorriso. Alguns segundos depois, ela puxa minha mão e olha diretamente para mim e sussurra "Eu sempre soube, Kayo." e completa "Mas não podemos. Você sabe disso." Estava entorpecido por enfim poder tocar em sua pele e registrar em minha mente aquele seu semblante de preocupação. Em imediato eu revido dizendo "Eu sei, mas só o fato de poder lhe ver já me é suficiente." Ela abaixa a cabeça e sua mão parecia trêmula. Tentava sussurrar algo, mas seu nervosismo não lhe permitia, mas quando enfim havia lhe retomado fôlego, ergue seu olhar até mim novamente e se levanta da cadeira. Ela pega a redação que estava lendo e entrega a mim, mas antes a embrulha e põe em um envelope. "Não irei pedir que me esqueça, pois não sou uma pessoa assim. Sei como você está se sentindo, portanto fique com esta carta que fiz para você. Leia sempre que quiser se lembrar de mim." Após isso, ela beija minha testa e me abraça. Me inundando em pedidos de desculpas, ela se despede de mim, pega suas coisas e abre a porta para sair da minha vida em definitivo. Não vou permitir que acabe desse jeito! Não dessa forma! Antes que ela saísse da sala, agarro seu braço e puxo-a em minha direção. Antes que ela pensasse em hesitar, me aproximo e encosto meus lábios nos seus. Ficamos unidos daquela forma por longos segundos. O tempo parecia ter parado em nossa volta. Eu até havia esquecido de como era respirar. Ah! Ela beija tão bem, que eu estava sem forças. Queria me jogar em seus braços como uma criança carente, mas sabia que após terminasse, jamais a veria novamente. Em nenhum momento passou pela minha mente o fato de que eu a estaria forçando a me beijar, ou que poderia surgir algum aluno entrando na sala e vendo aquela cena. Nada disso importava nada mesmo. Ela me empurra levemente com suas mãos em meus ombros e reclina seu rosto, encontrando sua testa na minha e sussurra "Obrigada por tudo" e por fim, sai da minha vida por completo. Quanto à carta, nunca sequer pensei em abri-la. Queria deixar a última lembrança que eu tinha dela, ali dentro, lacrado junto ao selo do envelope. Quanto às provas, não passei em nenhuma delas e acabei sendo matriculado em um colégio público qualquer. Como o ensino do primeiro ano era fraquíssimo, passei o ano todo matando aula e comparecendo apenas nas provas. Gabaritava a maioria delas, o que causava irritação aos caras da turma e afeição as meninas. Tentando preencher o buraco que Maria havia deixado em mim, tentava me afogar em meio às garotas do colégio que viviam me dando uma chance. Essa fase da minha vida se estendeu por alguns meses até que conheci uma garota. Depois de Maria, ela fora a primeira a me rejeitar. O jeito dela me causava desconforto. Essa garota era ninguém menos que Misa, mas isso eu não irei contar pro Roy ainda.

(...)

A chuva cessara aos poucos e Kayo parecia hesitar em terminar o resto da história. Creio que seja algo que ele não sente confiança em contar para mim. Pelo que entendi, ele parece enxergar essa garota, uma espécie de espelho de Maria. O que Kayo não percebeu que Maria nada mais era que sua metade que ele nunca iria ter. Sua alma gêmea na qual nunca irá lhe completar, pois tem uma poderosa barreira os impedindo de se amarem. No caso de Kayo, a barreira se denominava "Idade" e "Status”, "Professora" e "Aluno", "Adulto" e "Criança". Na minha interpretação, Maria nunca quis alimentar os sentimentos de Kayo, pois ela obtida uma visão do mundo muito mais madura do que ele. Ela sabia das consequências daquilo, e não permitiu que a situação se agravasse. Ela aguentou o máximo que pode. Maria também amara Kayo. Dando um pequeno suspiro e se despreguiçando após se levantar do banco, ele clama com tom voraz.

— Bem, outro dia eu ainda pretendo lhe contar sobre essa garota, mas hoje não! Está muito tarde para dois homens virtuosos estarem juntos em um local como esse! — Pausa seu discurso e mira minha feição de indiferença por suas palavras e prossegue — Ai, ai. Você é meio desanimado hein, Roy? Haha! — Após aquilo, ele pega suas coisas e se dirige ao portão da quadra. Eu o sigo e antes que eu pudesse me despedir dele, Kayo se vira em minha direção com um sorriso comum em seu rosto apontando para o bolso direito da minha calça.

— Vamos trocar os números! — Diz, com tom empolgante e completa — Assim poderemos conversar por mensagens! — Meu silêncio perturbador o fez pensar que eu havia hesitado em trocar os números de celular, mas na verdade eu não havia processado sua frase da melhor forma.

Eu aceno com a cabeça em concordância e lhe peço para anotar o meu número e Kayo repete o processo. Ele fica exclamando "Oba, oba!" enquanto nomeava meu número em suas centenas de contatos. Antes que nos despedíssemos, queria expressar minha opinião sobre sua história, mas ele parecia estar com pressa.

— Bem, nos vemos novamente Roy!

— Espere! Você não irá para a estação? — Naquela hora da noite em que lugar ele poderia ir? Já eram quase dez e meia da noite e no meu celular se encontravam algumas chamadas perdidas dos meus pais. Kayo demonstra um semblante arredio e decide me responder

— Preciso passar em um lugar antes, por isso irei na direção contrária. — Notando que eu demonstro preocupação com sua resposta pronta e gélida, ele usa todo seu esforço para forçar um sorriso para mim dizendo — Não se preocupe, vou ficar bem! Até mais ver, Roy! — Antes que eu pudesse lhe responder, e até mesmo sumir da minha vista, ele se vira ao longe e exclama — Quero que saiba que agora você é meu melhor amigo! — Impulsivo, respondo

—Espera! Você ainda não ouviu minha opinião sobre a história.

—É verdade! Conte, conte

—Você precisa encontrar sua metade. Você precisava ter certeza se ela é Maria ou esta garota. Quando o momento chegar, você e sua metade se tornaram um só. Até mais ver, Kayo!- Ao invés de responder, acena com as mãos e continua correndo até eu não poder mais vê-lo. Naquele dia de chuva, conheci meu único amigo. Aquele que eu poderia lhe contar sobre meus problemas e vitórias. Mal podia esperar para o ver novamente. Chego em casa, eram quase meia noite e lá estava minha mãe dormindo no sofá à minha espera. Antes que eu pudesse chegar ao meu quarto, sou recriminado por meu "irmão mais velho”, já que ele era fruto da primeira relação da minha mãe e eu não gostava dele, por uma gama de razões. Ele se aproxima de mim e dispara com tom superior.

— Onde esteve esse tempo todo? Sarrando com alguma vadia?

— Estava com um amigo meu. Acabei perdendo a noção do tempo. -Revoltado com minha resposta, me joga contra a parede e diz.

— Nem pra mentir você presta! Até quando vai continuar bancando o virgem? — Eu sou uma pessoa que sempre evita discutir com alguém, e aquela era uma situação propícia para que eu perdesse a linha, porém, como já estava acostumado com injúrias, não me importava com aquelas palavras. Tudo que fiz foi abaixar minha cabeça e dizer educadamente.

— Desculpe por desaponta-lo, irmão. — Ele engole saliva a seco e me solta, permitindo que eu fosse até o meu quarto. Quando chego nele, recebo diversas mensagens, já que eu estava sem 3g. Estava cansando demais para ler todas elas, então apenas me joguei na cama e caí no sono. No dia seguinte, receberia uma notícia que mudaria minha vida.

Notas finais
Obrigado por ler até aqui. Continue acompanhando