Notas iniciais
A manhã começou calma, algo como o suave balançar do navio e pouquíssimos raios de sol que entravam pela escotilha que simulava algo como uma janela. Sinceramente, o moreno nada se importava da janela em questão ser minúscula. Pelo menos ele se deu o direito de dormir até um pouco mais tarde naquele dia. Descansar e recuperar as forças. Elesis também não dava sinais de que ia se mexer e aquilo o alegrou.
“Mais algumas horas de sono, então.” E assim que fechou os olhos, quase que por ironia do destino, os olhos vermelhos da garotinha se abriram. Ela se remexeu e sentou-se na cama, se espreguiçando, olhou então para o dono dos cabelos negros e chegou à conclusão de que ele estava dormindo – por mais que na verdade não estivesse.
Ela tentou se erguer, mas o braço do moreno – possessivo e sem vontade de ficar sozinho – a impedia de levantar, então se conformou em ficar sentada, olhando para ele e as paredes. Não demorou muito para que perdesse a paciência e deitasse de novo, para tentar dormir outra vez.
Depois de tanto se virar e se remexer, o moreno abriu os olhos para fitar a garotinha praticamente de ponta cabeça na cama. Ela sorriu instantaneamente. – Bom dia!
O gladiador ergueu uma sobrancelha e não evitou sorrir, mas em seguida virou-se para o outro lado na cama e liberou a garotinha para se levantar. – Eu vou voltar a dormir, não arranje confusão.
Depois disso não ouviu mais nada além do trocar de roupa ágil e a porta batendo. Suspirou então em seu silêncio para poder voltar a dormir.
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A menina resolveu começar sua aventura pelo convés do barco. Alguns marinheiros a olharam meio desconfiados por ela não estar acompanhada, mas deixaram passar. A ruiva correu até a beirada, apoiando-se no parapeito para poder ver as ondas do mar. Pelo que Sieghart dissera, ainda iriam ficar mais alguns dias no mar, então ela teria a chance de ver um polvo gigante! Ou até mesmo uma hidra!
Elesis sorria encantada pelo mar, mas logo percebeu a monotonia qual as ondas se chocavam no casco e o azul permanente que estava crespo pelo vento. Suspirou e desapoiou-se do parapeito e voltou seu olhar para dentro do navio. Não era mais do que um grande barco – ela não sabia disto –, mas não chegava nem a ser um pequeníssimo navio, com algumas poucas cabines e um tosco acabamento de madeira em todo o convés.
A tripulação ria e conversava, havia alguns passageiros meio enjoados com o balanço das ondas então ela suspirou mais uma vez, já entediada. Não era possível que não houvesse nada para se fazer naquele barco. O moreno ainda dormia e ela desconfiava que se fosse incomodá-lo, o gladiador a mandaria voltar a dormir também.
Revoltada, voltou seus olhos para o mar – outra vez – estendendo os braços sobre as grades protetoras, a fim de se esticar. Parecia um gato preguiçoso ao sol, esticando-se e apoiando-se nas grades, deixando o calor esquentar sua pele. Foi quando ouviu breve, a voz masculina, mas ainda assim meio fina – graças à época de mudança.
-Ei, ruiva! Abaixa!
Ela não teve tempo para fazê-lo. Na verdade apenas conseguiu desviar seu rosto por sorte. A lâmina passou zunindo perto de seu ouvido e perdeu-se no oceano, em um espirrar de água minúsculo.
-O que foi aquilo? – Acabou colocando seus pensamentos em palavras, fazendo o garoto rir baixinho. Percebeu então que ele se aproximava, tentando se desculpar. O garoto tinha a pele alvíssima e os cabelos claros, em um cinza desbotado. Aparentemente não mais que treze anos, todo aquele poço de tons monocromáticos era quebrado apenas pelo azul dos olhos expressivos. Era como se fosse premeditado chamar toda a atenção para o profundo dos olhos claros.
-Uma kunai. – Respondeu, como se fosse óbvio. A verdade é que para ele era perfeitamente óbvio. Assim, sorriu. Quase amável. A ruiva enrugou a testa, com raiva. – Acho que lhe devo desculpas.
-Desculpas? – Ela resmungou, irada. – Você tentou me matar! – Afirmou, sem pensar nas consequências. O garoto deixou o sorriso morrer.
-Você que simplesmente apareceu na frente.
-Eu já estava aqui antes! – Ela rebateu, ainda possessa. Ele suspirou, resmungão.
-Não estava aí quando eu olhei. – Cruzou os braços, como se houvesse ganho a discussão. A ruiva deixou de lado e fez um bico, aparentemente magoada por ele não a ter notado.
-Tá, desculpas aceitas. – Ele fez uma cara de “Não era você quem me devia desculpas, agora?”, a ruiva simplesmente ignorou o assunto. – Tome mais cuidado.
Ele quase riu. – Como se uma garotinha fosse me dar ordens.
Elesis quis enforca-lo. Suas mãos estavam perigosamente perto do pescoço albino com pequenas pintas, se as pessoas olhassem demais, poderia atirar o corpo na água e fingir que nada acontecera. Sacudiu a cabeça, tentando afastar os pensamentos. – Eu tenho oito anos e dez meses, para sua informação! Já sou uma mocinha.
O mais velho não resistiu e riu, rendendo-se completamente às gargalhadas. – Gosto de você, qual seu nome ruiva?
-Se apresente primeiro sabichão. – Ela parecia especialmente respondona naquele instante, talvez por estar ressentida. Talvez por que não a tinha levado à sério – ela era perfeitamente responsável com seus quase nove anos! Por que ninguém acreditava nela?
Outro pequeno riso. – Meu nome é Lass. E você pequena encrenqueira?
-Elesis. – O orgulho transbordou sua voz.
-Ótimo te conhecer, Elesis. – Respondeu, simplório e acenou, afastando-se.
Ele caminhou alguns poucos metros e aproximou-se da mulher – não jovem, nem velha – sorridente. Ela era ridiculamente linda. Assim como o garoto, a pele dela também era excepcionalmente clara, porém os cabelos brilhavam em um tom prateado líquido, como se o brilho da lua houvesse sido capturado naqueles fios lisos e compridos.
Por um momento Elesis sentiu-se meio deslocada, olhando para seus comuns fios ruivos. Então ela percebeu que “seus-comuns-fios-ruivos” era sua característica mais forte e, frustrada, armou outro bico.
Quase pulou de susto quando ouviu a voz conhecida. – Eu aqui me preocupando com você e você fazendo amiguinhos. – Ele riu, baixinho e depois comentou, ainda mais baixo. – Até mesmo me arrastei para fora da cama cedo.
-Ele não era meu amigo! – Elesis sentiu a necessidade de afirmar aquele fato. – E você não estava dormindo?
Por um momento Sieghart não quis admitir que se arrastara da cama por medo da ruiva se meter em confusão. Na melhor das hipóteses, a ruivinha era como um imã para acidentes. – Perdi o sono.
A garota deu de ombros, o moreno virou-se para ver o mar, disfarçando um bocejo. Assim, deixou que a brisa do mar bagunçasse os seus, já bagunçados naturalmente, cabelos e a maresia tomar conta de seus pulmões.
A ruiva, ainda entediada, resmungou de uma só vez. – Não há nada para fazer aqui!
Ele quase riu. Quando se tem uma eternidade inteira a encarar, era preciso ter uma extrema paciência. Havia ocasiões em que alguns minutos arrastavam-se como séculos, mas essa calmaria contagiosa e tranquila não era uma delas. – Não seja tão impaciente, ruivinha.
Ela olhou para o guerreiro, este por sua vez mantinha os olhos no mar. Virou-se para olhar o horizonte junto com ele. – Você acha mesmo que minha maior característica é ser ruiva? – Elesis ainda estava indignada.
Ele a olhou por breves instantes, tentando entender a indignação dela – ele adorava os cabelos de fogo da garotinha, dar um toque de liberdade à sua imagem – e depois de passar um tempo sem ainda conseguir compreender completamente, murmurou. – É, assim como seus olhos decididos, seus cabelos são sua maior característica.
-E por que todos só me chamam de ruiva? – Ela resmungou, ainda com o bico.
Sieghart curvou-se para olhar a garotinha mais de perto, não entendia necessariamente qual fora a conclusão que aquela cabeça confusa chegara, mas resolveu findar o assunto de uma vez só. – Primeiro, eu te chamo de ruivinha, não ruiva e eu não sei quem são esses ‘todos’ qual você se refere. Segundo, chamar você de ‘olhos decididos’ é grande demais para tão pouca garotinha. E terceiro, eu gosto do vermelho.
A ruiva apenas soltou um muxoxo envergonhado, enquanto ele voltava a olhar o mar.
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Já estavam há quatro dias em alto-mar – Sieghart mentira para a garotinha quando dissera que seriam poucos dias de viagem, ela reclamou três vezes mais quando descobriu – nada além de azul para todos os lados podia ser visto. Tanto o azul do céu que se encostava com o oceano, qual era crespo pelo vento e tingia o azul escuro com pequenos pedaços brancos de espuma, tal quais as nuvens.
Nada de terra ou portos, levariam mais dois dias para atracar no próximo porto, na península de Ellia, antes de a embarcação seguir rumo à Xênia. De qualquer maneira, era somente água até onde os olhos conseguiam alcançar e nada além do céu claro e o sol forte por horas e horas, até a noite cair.
Nada fora do planejado havia acontecido até agora. A mente do moreno avisou, sádica, quando sentiu o solavanco abaixo de seus pés, o fazendo desestabilizar. Procurou a ruiva com os olhos. O que diabos estaria acontecendo?
Olhou para as laterais do navio, procurando uma explicação lógica para a ação incomum. Encontrou como resposta a popa do barco fora da água e algo como uma fortíssima corrente puxando a embarcação pelo lado. Assim que encontrou a pequena garota, ela já estava grudada em sua mão, puxando-o.
-Eu preciso da sua ajuda! Ele precisa da sua ajuda! – Ela murmurava rápido, entrecortado pela respiração agitada. O moreno demorou um pouco a entender.
-Quem precisa de ajuda, ruivinha? – Perguntou, tentando acalmá-la. Colocou a mão sob seus ombros e curvou-se, para olhar aquelas duas piscinas vermelhas temerosas.
-O Lass! Ele caiu no mar! – Antes dela terminar a sentença, Sieghart já era puxado de encontro a multidão desorganizada, por parte os marinheiros que tentavam soltar o barco do agarre desconhecido. E por outro lado todos os passageiros curiosos que se aproximavam da beirada, tentando achar alguma explicação. Quando alcançou o outro lado do convés, procurou na água agitada a cabeça cinza.
Elesis apontou primeiro. – Ali, olha! – Sieghart seguiu a direção do dedo e encontrou à poucos metros do navio o garoto que lutava contra as ondas – e estava perdendo.
Quando o moreno olhou para o lado, encontrou com os cabelos pratas da mulher. – Lass! – Um grito angustiado rompeu-lhe a garganta, fazendo uma voz soprano ecoar contra as ondas fortes. Sua mente acusou que já houvera escutado esta voz, assim como reconhecia o brilho prateado que refletia o sol, mas não dignou-se a pensar muito mais.
-Espere no barco, arranje uma corda. – A ruiva fez um pequeno sinal de entendimento e o moreno entregou-lhe a sua espada, pois ficaria pesado demais para nadar junto a sua arma, sem a verdadeira necessidade. Assim, pulou na água, recebendo de volta o frio que o fez tremer até os ossos.
Nadou meio desajeitado até o garoto, já que sua blusa branca de mangas agora grudava no corpo de uma maneira incomoda e não permitia certos movimentos. Como pode, resgatou o garoto da água, acalmando-o antes que ambos tivessem que se afogar – não que ele realmente fosse.
-Lass, segure nas minhas costas, vou tirar a gente daqui. – Ele acenou com a cabeça, segurando firme nos ombros do mais velho. Assim, Sieghart refez o percurso até o barco, notando que, gradualmente a velocidade qual o barco se movimentava pela lateral aumentava.
De cima do navio, Sieghart pode ver a ruiva esperando com uma corda e dois marinheiros, para erguê-lo da água, ela apertava firmemente sua highlander entre as mãos e aquilo o deixou meio perplexo.
Subiu ao convés com um pouco de dificuldade, sentindo o vento fresco esfriar ainda mais seu corpo, assim como o sol quente queimar o topo de sua cabeça. Quando colocou o garoto meio desfalecido no piso de madeira, a mulher qual estava até o momento parada, correu até Lass, seus passos tão leves que ela parecia flanar.
Sieghart desconfiou se ela não estava realmente flutuando.
-Lass, você esta bem agora. Mamãe está aqui. – Sua voz soprano outra vez incomodou o imortal e ele pode ver de canto de olho a garotinha ainda segurando firme a espada em sua bainha. Foi quando finalmente compreendeu.
Os olhos prateados chocaram-se com os arroxeados.
-Cazeaje. – A mínima menção do nome fez um círculo abrir-se entorno deles. Em um pulo o moreno estava na frente de Elesis e puxou sua espada com uma certa delicadeza, para não machuca-la – a Elesis – deixando a bainha vazia apenas para que a garota segurasse.
A risada cristalina tornou-se uma meio maquiavélica. A highlander pulsou em seu punho, sedenta pela batalha. – Quanto tempo, gladiador. – O imortal não ousou responder. Elesis sentiu algo como uma aura empurrar seu corpo, forçando-a a temer a situação. – Uma pena que terei que deixar nosso reencontro para um outro dia. Como pode ver, acabei de quase perder minha cria, se não fosse por você herói. – Ela satirizou, acompanhando as palavras por outra risada estranha.
O imortal se maldisse por ser tão estúpido. Não pode deixar de salvar uma criança, mesmo ela sendo a cria de Cazeaje – como a mesma dissera. Percebeu agora que ela pronunciava uma sequência de palavras arrastadas, quase incompreensíveis, e reconheceu o significado.
Impulsionou o corpo para frente, tentando quebrar a onda de temor que acometeu todas as pessoas ao redor, avançou um passo de cada vez e se perguntou o por que de esta técnica estar funcionando contra ele.
As palavras agora se repetiam em um mantra baixo e, com delicadeza a mulher pegou seu filho nos braços, por algum motivo ela parecia excepcionalmente frágil naquele momento e, quando a espada do imortal finalmente alcançou o corpo dela, a imagem se desfez no imaterial.
Era uma mágica de teletransporte.
Os corpos foram cedendo, um a um, caindo no chão exaustos. O imortal fora o único que permanecera de pé. Enquanto enfrentava Cazeaje – e ainda não entendia o porquê de sua fonte de poder estar incerta, ocasionando sua miserável derrota – as águas os arrastaram cada vez mais velozmente para perto da costa, de onde já poderia se ver as praias paradisíacas de Ellia.
Chamou pelo capitão. Um homem fardado apresentou-se. O gladiador deu uma rápida olhada na garota que ainda mantinha os olhos fixos no centro de onde tudo ocorrera. – Você vai precisar evacuar o navio.
-Não há a necessidade, estamos prontos para qualquer eventualidade. – Ele respondeu meio trôpego, sem ainda acreditar que estavam abrigando a poderosa bruxa.
-Não, você não entendeu. O que está nos puxando é um dos bichinhos de Cazeaje. – Ele pausou. O capitão arregalou os olhos. – É a enguia-dragão.
Enguia-dragão era algo como uma adaptação de termos, a verdade é que se tratava de um dragão aquático, daqueles azuis e sem asas, apenas com barbatanas. Alguns cuspiam ácido, outros geravam descargas elétricas incompreensíveis. Foram desses que a cultura acabou gerando um nome ‘impróprio’ para o ser bestial.
-É-é impossível! – Sua voz vacilou. O moreno girou os olhos.
-Estou te dizendo, você tem que confiar em mim. – O capitão hesitou no primeiro momento, mas dentro dos olhos prateados só encontrou determinação e uma incomum jovialidade. Sem ter como recusar a ordem, deu seus próprios comandos, para que evacuassem o mais rápido possível o barco.
Finalmente, o moreno abaixou-se, ficando na altura da ruivinha, estática. Ela não hesitou quando o viu e pulou em um abraço. Ela chorava.
-Você vai deixar o navio com a tripulação. – Ele afirmou. – Eles vão protegê-la e leva-la até a base dos cavaleiros vermelhos.
Elesis negou. Com todas as forças que ainda possuía ela negou veementemente. – Meu pai disse isso antes de desaparecer, eu não quero perder você também!
Ele sentiu um aperto no coração. Algo como uma palpitação rápida. Subitamente compreendeu que ela estava sendo a falha de seus poderes. Ele tinha alguma coisa para se preocupar, por isso algumas coisas simplesmente estavam incertas, como a súbita phobia que sentiu quando Cazeaje se revelou – assim como todos os mortais – e a perfeita calma qual a ruiva segurava a highlander, qual simplesmente não aceitava toques estranhos.
O moreno sem ter como revidar, apenas abraçou a ruiva. Sabendo todo o abismo que separava os dois, mesmo assim sem querer parar de tentar atravessar por cima da corda bamba. – Então você terá que me prometer que ficará no navio, a salvo.
Ela afirmou. O capitão aproximou-se, corrido, tentando não cair com os solavancos cada vez mais violentos. – Há um ultimo bote esperando por vocês.
-Nós não vamos. – O imortal ergueu-se, convicto, e apertou com um pouco de força sua companheira de antigas batalhas. Em uma mão ele carregava a espada, a outra ele mantinha segurando a pequena mão da garotinha. – Vou tentar ganhar um tempo para que vocês possam fugir.
O capitão tentou sentenciar uma frase para o fazer desistir, mas ali estava estampada a decisão dele. No fundo dos olhos claros assim como nos músculos retesados. – Que os deuses o protejam.
-Irão.
Como que ouvindo os passos desajeitados do capitão que agora se afastava entrando no bote, a criatura aproximava-se cada vez mais do raso, deixando agora suas barbatanas amareladas visíveis, bem como sua espinha dorsal, dobrada de maneira certamente incomoda apenas para que pudesse carregar o barco até onde lhe apetecesse.
O moreno soltou a mão pequena e apontou para um lugar seguro. Ela escondeu-se lá, ainda carregando a bainha da espada firme entre os dedos. Subitamente o ser parou e deixou o barco flutuar na água, meio avariado. Estavam a poucos minutos da costa.
Da água, a cabeça escamosa surgiu, gigante, trazendo junto dela o pescoço azulado e as presas de tamanhos inconcebíveis para a boca irregular. Os olhos amarelos fixaram-se em sua imagem e, através do reflexo escamoso deles, o imortal pode se ver, empunhando a highlander e avançando, sem pensar, contra a criatura.
Fincou a espada como pode no pescoço liso, fazendo algumas escamas soltarem-se e a pele rígida da enguia-dragão rasgar, sangrando. Não que houvesse sido fatal ou mesmo feito algum estrago útil, apenas um pequeno incomodo para o ser monstruoso.
Escalou como pode o corpo úmido da besta e postou-se na cabeça dela, pronto para dar o ataque final, mas o que não esperava era que realmente era uma enguia-dragão, não só um dragão aquático comum.
A descarga elétrica subiu pelos seus membros, criando-lhe uma dor inconcebível, como um ultimo esforço, cravou a lâmina no olho amarelado, fazendo a criatura gritar tão alto quanto a dor que rasgava-lhe o pulmão. Quando a descarga acabou, o corpo do imortal caiu na água, afundando alguns metros, até que recobrasse a consciência.
Era imortal, verdade. Mas toda vez que morria, por assim dizer, era como se dormisse. Por alguns poucos segundos. Quando retornou a superfície, encontrou apenas a besta se remexendo, angustiada pela dor e o sangue verde manchando o oceano.
E, como em um ultimo ato vil, sua calda acertou e destroçou o navio.
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Àquele dia ficaria na memória de muitos por muitos anos, a história seria contada e recontada ao redor de fogueiras e para seus netos, em um futuro próximo.
Em como o nobre guerreiro ficara para trás, para enfrentar uma vil fera gigantesca, e depois de uma estrondosa batalha, qual dela a única prova era alguns pequenos pedaços de madeira, um redemoinho de chamas negras subiu aos céus e dissipou as poucas nuvens, bem como tocava a água do mar com uma violência se igual, queimando e destruindo a própria água.
E, a temível fera, tombou diante da fúria impenetrável daquele que, sem dúvidas, estava a serviço dos deuses.
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Quando finalmente chegou a praia, estava completamente chamuscado, seu corpo exigia descanso e os trapos de sua roupa deixavam evidente toda a dificuldade que tivera para chegar até ali.
Quando suas costas tocaram a areia fofa, sentiu os olhos pesarem e olhou uma ultima vez para o pequeno embolado de fios e cabelos que mantinha estreito nos braços.
Ela poderia até mesmo ser sua maior fraqueza, mas também era sua maior fonte de felicidade e força. E apenas com esses pensamentos e a certeza que o pequeno embrulho ainda respirava entre seus braços, desfaleceu abaixo do sol quente e sob a areia da praia de Ellia.
Notas finais
Beijos ~
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