Notas iniciais
Estou um pouco mais velha agora, então façam uma aniversariante feliz e deixem reviews para esta pobre escritora atrasada com suas histórias ? :3
Anyway, voltando ao que interessa, vamos ao capítulo de hoje o
Quando a garotinha abriu os olhos, percebeu que suava. Era um suor grosso, misturado à maresia e areia. Quando percebeu onde estava – não mais se afogando no mar furioso – lembrou-se da queda de Sieghart do topo do monstro.
Não esperava que justo seu herói fosse ceder tão fácil. Ainda sem abrir os olhos ou se mexer, chorou. O som rompeu sua garganta arranhando, como se ela houvesse bebido baldes de sal durante toda a tarde. E, então, percebeu que estava deitada em algo que não era areia. E também não se lembrava de ter nadado até a praia – desconfiava se tinha essa capacidade, já que não sabia nadar.
Quando abriu os olhos chorosos, molhados por lágrimas, teve que expulsar os fios ruivos da frente de seu rosto, puxando os fios desgrenhados de qualquer maneira. Deitado na areia, segurando-a fortemente estava Sieghart.
Aquele que havia cedido para o monstro. Aquele que deveria estar morto – até mesmo ela sabia disto.
Sem saber como, ou por que – e sem se importar na verdade – ergueu-se, vendo que ele não se mexia, mas respirava. Seu corpo tinha machucados de todos os gêneros: queimaduras, arranhões, hematomas. Mas ele mostrava-se sereno dormindo.
A ruiva chegou a conclusão que não seria uma boa ideia deixa-lo embaixo do sol dessa maneira. Olhou ao redor e só encontrou um caixote grande que boiara até a praia, em uma madeira úmida e meio chamuscada. Procurou com os olhos a espada do moreno – já que a sua provavelmente residia no fundo do oceano.
Encontrou-a a beirada do mar, com as ondas lavando-a. Elesis se aproximou e retirou-a de lá, levantando o aço com certa dificuldade. – Vamos, eu preciso só um pouquinho da sua ajuda. – Falou baixinho, mais para a espada do que para ela mesma. – Eu preciso salvar o Sieg. – Outro sussurro. Como que respondendo à ela, uma pequena chama negra enrolou-se por seu braço, sem em momento algum queima-la.
Subitamente a espada pareceu uma pluma. A ruiva, sem entender, mas já tanta coisa não compreendera naquela tarde, caminhou em direção ao caixote e cortou uma das beiradas, na pretensão de abrir o caixote.
A madeira cedeu como se fosse uma folha de papel. Ela cortou as laterais, deixando como se fosse um meio quadrado – somente duas das laterais e a madeira superior – e então soltou a espada, ao lado do moreno, para tentar arrastar a semi-caixa para cobrir o corpo deste.
A areia não ajudava, tampouco seu cabelo desgrenhado que esvoaçava e tampava-lhe a visão. Mas depois de muito esforço, conseguiu posicionar a madeira de maneira que fizesse sombra na parte superior do corpo dele. Quando conseguiu, desabou na areia, sem forças e com a respiração acelerada.
Quando se sentou novamente, reparou que estava coberta de areia, suas roupas rasgadas deixavam a pele branca exposta ao sol de uma maneira quase dolorosa. Então, de olho no corpo desacordado do gladiador, ela aproximou-se do mar, meio desconfiada, e lavou a sujeira, o suor e a areia. Também tentando organizar os fios rubros de alguma maneira. Quando voltou, ainda molhada, ficou um tempo parada olhando para o mais velho, esperando secar, para não ficar repleta de areia de novo, e esperando que Sieghart acordasse a qualquer momento.
Enquanto analisava o rosto do moreno, esperando que ele abrisse os olhos, notou que pequenas gotas caiam e escorriam pelas bochechas machucadas. Elesis se afastou levemente, temendo que a água acordasse o moreno.
Mas ela mentia para si mesma ao dizer que era apenas água.
Secou as bochechas de qualquer maneira e depois, quando percebeu que já estava seca, sentou-se à sombra do caixote, fazendo uma companhia silenciosa. Estava muito quente e muito quieto. Ela também estava exausta.
Então, aos poucos, seus olhos fecharam, dando espaço para a escuridão de um sono sem sonhos.
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“Elesis!” A garotinha olhava ao redor, tentando encontrar a voz que lhe chamava. Ao longe podia ver a sombra distante, meio disforme, que se afastava continuamente. Outra vez seu nome foi chamado, cada vez mais insistente.
“Abra os olhos, ruivinha.” A voz era conhecida. Sua mente avisava e apitava. Seus pés continuavam correndo, tentando chegar até a sombra, era como se periodicamente o vulto fosse diminuindo o passo, cansado. “Elesis!”
Quando pode, finalmente avistar, de relance, o brilho vermelho que provinha da sombra, chorou. Não era só um vermelho, era o ruivo dos cabelos, cobertos pelo opaco do sangue velho, viscoso.
-PAI! – Gritou com todas as forças de seus pequenos pulmões e retrocedeu os passos, tentando agora achar a voz que lhe chamava. – Alguém, por favor, eu preciso de ajuda! – E o silêncio a respondeu, outra vez, completamente mórbido. Elesis se desesperou. – Sieghart, você disse que estaria aqui!
Ao longe, o tom inconfundível se fez ouvir novamente. “Eu estou aqui, Elesis.” Ele era manso, quase em um ronronar tranquilo.
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A garota abriu os olhos, encontrando o rosto aflito do gladiador. Quando o imortal vislumbrou o brilho dos olhos vermelhos, suspirou aliviado. A ruiva o abraçou, chorando outra vez.
-Você disse... – Ela teimava em repetir suas ultimas palavras no sonho, precisando confirmar a verdade. – Você prometeu.
-Eu estou aqui, ruivinha. – A mesma voz, o mesmo jeito arrastado das palavras que a acalmava de um jeito único. O braço dele envolveu as costas dela, a protegendo de encontro ao seu tórax. Elesis permanecia sentada em seu colo, enquanto o gladiador a abraçava, apoiando a cabeça de encontro aos cabelos ruivos. – Eu fiquei preocupado.
Ela ergueu o rosto, o fazendo desapoiar de si. Os olhos estavam ainda mais brilhantes graças às lágrimas. – Eu vi você cair no mar, como...
-Isso não importa. – Ele a interrompeu e permaneceu a abraçando, agora passando seu outro braço atrás dela, ignorando os machucados que o infernizavam. – Eu voltei, não foi?
Sieghart tinha chegado à conclusão que evitaria o máximo que pudesse seu próprio passado. Pelo menos enquanto estivesse com a ruiva, já que dali a alguns dias provavelmente chegariam à base dos Cavaleiros Vermelhos.
A única coisa que a garota fez foi afirmar, com toda a convicção que tinha. Balançando os fios ruivos. – Vamos achar uma cidade próxima agora, precisamos descansar um pouco. – Ele sorriu, passando os dedos por cima dos fios embaraçados.
Ela ergueu-se e esperou ele se erguer também, o gladiador pegando sua espada. Assim, deixaram para trás a praia quente e o mar avermelhado pelo por do sol, aventurando-se pela floresta escura.
Não demoraram muito caminhando pela trilha e logo chegaram ao vilarejo mais próximo. Era uma pequena cidadela, com casebres extremamente pobres e uma população meio desconfiada. Quando chegaram à entrada, logo veio um guerreiro, com a lança apontada e gritando.
-Quem é você? E por que vem às nossas terras? – O tom era áspero. Sieghart subitamente lembrou-se que muito provavelmente essa era uma das vilas que eram constantemente atacadas apenas em busca de mão-de-obra escrava e alimentos.
-Nosso navio naufragou, estamos apenas buscando estadia. – Foi o mais ameno que pode, considerando o estado cansado de seu corpo e toda a preocupação que corria por seu sistema nervoso. Se não fosse imortal, teria morrido do coração.
-E o que me faria acreditar em você? – Ele outra vez foi hostil. O imortal sentiu a tendência de puxar a highlander e simplesmente corta-lo em fatias. Mas aquilo não era de seu feitio.
-Você acha mesmo que algum soldado de Cazeaje chegaria, no estado em que cheguei, em um vilarejo junto à uma criança?
O homem hesitou. Em seguida abaixou a lança. – Perdoe meu comportamento. – Murmurou. – Épocas de guerra.
Sieghart se conformou com aquela explicação. A ruiva seguia ao lado do moreno, olhando atentamente para as pequenas expressões de dor que ele soltava, enquanto segurava com força a lateral de seu corpo.
Por mais que o moreno fosse imortal e suas feridas se curassem em uma rapidez invejosa, ainda sentia dor, sua mente lembrava. Quando passaram pelos baixos muros que se escondiam atrás das árvores, ambos os náufragos puderam ter um perfeito vislumbre dos casebres malcuidados.
-Indicarei o melhor estaleiro para que você possa ficar com sua... – Ele parou e analisou ambos por um momento, em seguida deu de ombros. – Filha.
Elesis soltou um muxoxo, o moreno se perguntou qual era a fonte da indignação, pela memória do pai ou se era por, simplesmente, ser ele. – Ele não é meu pai.
-Não me interessa a relação de vocês.
Elesis se calou. – Não precisava respondê-la desta maneira.
O homem suspirou e depois deu as costas, voltando a andar na direção da única casa grande que havia no vilarejo. Ela era feita todo de reboco e pintada de qualquer maneira, uma tinta branca encardida, descascada pela chuva e maresia. O estaleiro tinha três andares e janelas com vidros sujos.
Assim que o guerreiro da cidade os deixou em frente a construção, deu as costas e voltou ao seu posto, na entrada da cidade. A ruiva se adiantou e empurrou a porta pesada e escura, dando passagem aos dois para o hall de chão quadriculado.
Um homem encontrava-se atrás do balcão, limpando a madeira deste com uma dedicação impecável e um pano sujo. Quando viu o guerreiro e a pequena criança, seus olhos brilharam e ele passou os dedos com as unhas cheias de porcaria pelo bigode grosso que cobria seu lábio superior.
-Em que posso ajuda-los? – A ganância transbordava pelas palavras.
Sieghart repentinamente lembrou-se que estava sem dinheiro algum. – Queremos seu melhor quarto. – Pensou que talvez depois de uma ótima noite de sono pudesse resolver esse problema.
-Desconfio se poderão pagar. – Ele coçou o queixo.
-Temo discordar. – O imortal se aproximou do balcão e pode reparar a fina camada gordurosa de um produto de limpeza qualquer por cima da sujeira encrustada na madeira. – Ou será você que não quer nos acolher?
-Desculpe-me. – Ele ergueu as mãos, em desistência e pegou um dos chaveiros que havia pendurados em um grande quadro de chaves atrás do balcão. Entregou-lhe a chave. – Tenham uma boa estadia. O quarto é no último andar.
Sieghart foi o primeiro a andar na direção da escada e, assim que Elesis o viu se mexendo, se apressou à correr atrás, para não se afastar muito. Todo o local fedia à um azedo estranho, ela não gostava muito de lá.
-Vamos ficar mesmo aqui? – Ela perguntou baixinho, olhando para o moreno.
-É a única opção. – Ele resmungou também meio inconformado. – De qualquer maneira não respire muito forte ou toda essa sujeira pode se entranhar nos seus pulmões. – A garota tapou o nariz, instantaneamente, o moreno riu.
Quando chegaram ao quarto, preparados para o pior, o cômodo era estranhamente – e impecavelmente – limpo. A cama estava arrumada e o chão limpo e encerado, fazendo o quarto ter um leve toque cítrico, cheiro de limpo.
Sieghart assobiou. – Quem diria? – Comentou realmente impressionado. Dessa vez a garotinha riu. Assim, fecharam a porta e acomodaram-se. Nos armários, o moreno rapidamente achou algumas mudas de roupas – talvez esquecidas por outros hóspedes –, porém todas adultas. – Ruivinha, venha cá.
Elesis se aproximou e viu o guerreiro segurar uma blusa na sua frente, como que medindo seu tamanho. O tecido deveria ir até a metade de suas coxas, era uma blusa adulta feminina. – Se lavarmos o seu short, você poderá usá-lo junto à essa blusa, até comprarmos roupas novas.
Ela assentiu. – Mas as roupas não são de alguém?
-Quem quer que tenha deixado aqui, provavelmente não sentirá mais falta. – Entregou a blusa à ruiva e em seguida continuou vasculhando, encontrando uma calça e blusa pretos. – Eu irei tomar banho e tentar fazer meus machucados pararem de sangrar. – Anunciou.
-Se quiser, eu sei fazer curativos. – A garotinha sorriu, sentindo-se útil. – Só algumas coisas, mas sei.
-Adoraria sua ajuda, ruivinha. – Ele entrou no banheiro e com cuidado se despiu, para então entrar no chuveiro. A água era deliciosamente morna, seus músculos agradeceram àquela boa sensação. Enquanto o moreno tomava banho, Elesis empurrou timidamente a porta, olhando as roupas destruídas jogadas de qualquer maneira pelo chão gelado, então se aproximou do gabinete, procurando a caixa de primeiros socorros.
Assim que a encontrou, virou-se e deu de cara com o moreno de toalha, olhando a cena se divertindo. Sieghart terminou de amarrar o pano na cintura e desligou a água translúcida. Elesis pode ver a extensão dos cortes ao longo de suas costelas, que aos poucos começava a dar sinais de que ia cicatrizar, e as queimaduras nos ombros e braços. Também poderia ver os grandes hematomas que se espalhavam esporadicamente por suas costas, em um tom arroxeado.
-Sente-se em algum lugar para eu poder fazer o curativo. – Ela comentou, corada, apertando a caixa fortemente entre os dedos, tentando concentrar-se em outra coisa, olhando para os próprios pés sujos de areia e maresia.
-Sim senhora. – Respondeu, divertindo-se. Não precisava dos curativos, os machucados não eram tão feios assim, mas não teria coragem de retirar, da garotinha, aquela sensação de utilidade. – Cuidado com essas coisas, ruivinha, ainda pretendo ter minha pele no lugar.
Ela fez bico. – Se eu não cuidar, as feridas vão infeccionar! – Ela comentou, andando atrás dele para fora do banheiro. Ele sentou-se em uma cadeira, sentindo as gotas de seu cabelo molhado escorrerem pelos ombros. – Imagina se você tem uma infecção séria!
Certamente não morreria, sua mente sádica ainda anunciou e ele preferiu guardar o pensamento para si mesmo, mas não evitou sorrir. – Certo, então manda brasa ruiva.
Ela abriu a caixinha e armou-se de antissépticos, gazes, soro e água oxigenada, bem como algumas bandagens mais resistentes e, claro, esparadrapos. – Talvez doa um pouquinho. – A voz infantil lhe dizendo isso foi quase cômico, mas o guerreiro nunca admitiria o quanto aquele maldito líquido branco ardia suas costelas.
Terminados os curativos nos ferimentos mais “graves”, a ruiva guardou as coisas de volta na caixinha, ainda meio encabulada, enquanto o moreno finalmente se erguia e voltava ao banheiro para vestir a roupa que acidentalmente “encontrara”.
As antigas e chamuscadas, depositou em um cesto ao lado, ignorando as peças lá. Quando saiu foi a vez da garotinha se aproximar para tomar banho, sem demora Elesis tomou um banho quente, esfregando sua pele para retirar o cheiro de maresia e tentar desembaraçar os fios ruivos.
Sozinho no quarto, Sieghart se aproximou do vidro sujo no exterior, embaçado pela maresia, qual ele quase fingia ser uma janela. – Nada melhor do que um por do sol, à beira da praia e com uma ótima companhia.
E riu, baixinho e sozinho. No que estava pensando? A mente dedurava, sem dó. Uma garotinha? Onde já se viu um imortal cair de amores por uma garotinha? E, sem esperar mais um segundo sequer, quase pode ouvir seu coração responder. Qual seria o problema, afinal? Uma garotinha geniosa e amável. Nada melhor do que se deixar levar.
Notas finais
Bom, até a próxima atualização :D
Beijos ~
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