A Mensagem Do Mestre
1 Prólogo.
A Mensagem do Mestre.
Roberto Machado
Prólogo
A sensação térmica na barreira alfandegária da humilde cidade de Modnar era de 40° Célsius. Os cinco guardas do magistério responsáveis pela cobrança do pedágio no local, estavam sofrendo juntos em uma cabine abafada que ficava junto a uma pequena cerca de madeira, impedindo os viajantes mais malandros de passar sem pagar. Enquanto um dos guardas reclamava do calor, e da falta de água no calorento estabelecimento, um colega avistou ao longe duas figuras estranhas vindo em sua direção, o mesmo saiu para ver do que se tratava e os outros guardas derrotados pelo calor que fazia na cabine, sequer repararam sua falta:
–Alto lá! – Gritou o guarda se identificando enquanto levantava uma das mãos para chamar a atenção das duas pessoas que vinham ao seu encontro.
As duas figuras estranhas já podiam ser identificadas a certa altura: uma delas era um homem alto e magro de meia idade, ele usava uma diversidade de panos azuis sobre seu corpo -algo assustador em vista do calor que estava no local- e junto deste homem, uma criança de mais ou menos oito anos. Diferente do senhor de trajes azuis que acompanhava, o garotinho parecia exausto e caminhava quase se arrastando pelo chão, enquanto o outro homem sequer prestava atenção nele.
–Saudações meu bom homem! – O homem mais velho exclamou quando chegou ao encontro do guarda. – Algum problema?
–Vocês dois são viajantes? – O guarda logo fez questão de saber.
–Sim, por quê? Algo errado? – O homem perguntou mantendo a calma.
–Senhores, o magistério comprou este terreno da cidade Modnar há tempos atrás, se quiserem passar, terão de pagar uma pequena tarifa de dez moedas de ouro por viajante – Explicou o guarda enquanto pegava de seu bolso um símbolo de prata, cujo qual mostrava o desenho de uma grande nuvem branca ofuscando o sol, este era o símbolo que o magistério usava para exibir seu poder em diversos povos.
O magistério era uma espécie de associação mundial, que tem como objetivo a dominação de terras em várias partes do mundo. Eles dizem que trabalham para melhorar o estilo de vida das pessoas, mas muitos discordam disso.
O menino olhou para o senhor mais velho que o acompanhava, e viu-o cruzar os braços estranhando a situação:
–Que coisa, viu? Esse pessoal do magistério fica mais folgado a cada dia que passa! – Resmungou o homem indignado sem mais delongas.
Ainda na sala, um dos guardas deu falta da presença de seu companheiro e o mesmo, estranhou a sua demora. Por isso eles decidiram que mais um deveria ir para saber o que estava acontecendo, entretanto todos estavam com tanto medo do calor que fazia lá fora, que ficaram enrolando por alguns minutos, até que um dos guardas mais experientes finalmente saiu.
Um guarda do magistério, ao iniciar sua missão em seu respectivo cargo de trabalho, recebe um número de identificação para ser reconhecido e chamado nas horas em que estiver de serviço. O primeiro guarda que estava conversando com os dois viajantes há alguns minutos, era chamado entre eles de número 89, e o outro que havia acabado de sair para dar suporte ao seu companheiro, era o número 56.
–Problemas aí 89? – Perguntou o guarda 56.
–Ahn? – O guarda 89 se espantou enquanto virava para falar com o número 56. – Este senhor se recusa a pagar o pedágio, ele afirma que já fez muitos favores para o magistério, mas creio que isso não seja desculpa.
O sonolento guarda 56 finalmente identificou o homem de trajes azuis e num salto estrondoso se jogou na frente do guarda 89:
–Idiota! Não sabe quem é ele? – Ele gritava olhando fixamente os olhos do outro guarda. – Este homem é o famoso mestre da magia branca: o mago Ichiibar!
Naquele local, mesmo com vestes esfarrapadas e aparência despreocupada, estava alguém que teria muita história para contar. Um homem com poderes indescritíveis que durante anos esteve a serviço do magistério. Ichiibar já esteve em lugares, já tocou em itens e enfrentou criaturas que só eram descritas nas lendas! Foi discípulo de mestres importantes e com anos na estrada, aprendeu lições valiosas, assim como posteriormente ele teve discípulos, cujo quais ele ensinou vários de seus segredos. Naquele momento o grande e conhecido mestre estaria em uma viagem com o seu mais novo aluno.
O guarda 89 não entendeu direito, ele nunca havia visto, ou sequer ouvido falar sobre aquele homem, e também jamais imaginaria que haveria alguém que estivesse acima das regras do magistério.
–Ichiibar é um dos maiores percursores de magia branca de todo o país! Ele já esteve diversas vezes em missões perigosas a serviço do magistério! – 56 explicava eufórico. – Não temos direito de cobrar nada dele!
O guarda 89 estava confuso, mas preferiu não contrariar o seu companheiro, até por que ele não via a hora de poder sair do sol e voltar para sua cabine -mesmo que não houvesse muita diferença entra as temperaturas dos dois locais-.
–Meu mestre é muito forte, sabia moço? – O garotinho menor que havia ficado calado durante toda a conversa indagou com tom de superioridade sobre o guarda 89.
–Eu estou em uma viajem até Sarcália com meu jovem aprendiz, estamos perdendo tempo aqui, e este calor está de matar. Será que poderíamos seguir nosso caminho agora? –Ichiibar perguntou com mesma calma de quando eles haviam chegado à alfandega.
O guarda 56 pediu mil desculpas pela gafe do seu colega de trabalho, além de se sentir envergonhado por ele, 56 ofereceu comida, mapas e até mesmo a água, que eles não tinham, como pedido de desculpas, a sorte deles é que nenhum dos dois viajantes aceitou nada. Ichiibar e seu aluno, simplesmente passaram pela barreira e seguiram seu caminho rumo a aprendizado mestre e aluno.
Os guardas já estavam voltando para dentro da sua cabine, quando o guarda 89 avistou depois de alguns metros de distância percorridos, o garotinho que andava junto de Ichiibar, ele estava fazendo uma careta com as mãos e a boca, zombando dele. O guarda não podia nem levar a sério a provocação do garoto, “deveria ser preso por desacato” ele pensou, mas uma vez que o menino estivesse sendo o aprendiz do grande mago Ichiibar, ele decidiu que era melhor deixar para lá.
Seis anos depois, na mesma barreira alfandegária, muita coisa havia mudado, o magistério havia aumentado àquela cabine onde os guardas repousavam, eles armaram um caminho de pedras para o conforto dos muitos viajantes que por ali passavam todos os dias, até a mobília daquele gabinete fora renovada. A única coisa que não poderia mudar era o calor marcante do local. Aquele local onde o grande mago Ichiibar havia passado anos atrás tem um clima típico, -típico do inferno, propriamente dito- e isso é algo que não mudaria tão cedo. A maioria dos guardas já havia sido demitido pelos superiores que atuavam dentro do magistério, e outros foram repostos em seus lugares, entretanto os antigos 56 e 89 conseguiram manter seus postos de trabalho, mas agora eles já haviam sido renomeados como números 102 e 504 respectivamente.
Uma cena familiar se repetia, ao longe era possível ver uma silhueta vindo em direção ao gabinete dos guardas, como sempre o número 504 -antigo número 89- seguiu até a porta para ver do que se tratava.
–Alto lá! – Número 504 se identificou fazendo um gesto padrão dos guardas da fronteira.
Quem estava vindo não era um homem, mas também já não era uma criança, esta pessoa já havia passado por ali antes acompanhada de uma grande celebridade no mundo dos magos. Era a criança que andava junto do formoso Ichiibar, mas depois de seis anos aquele garotinho estava diferente, ele já estava tinha aparência mais adulta, vestia uma camisa azul presa no seu corpo por dois cintos que se atravessavam um ao outro, e que tinham algumas argolas de metal presas nele. Usava uma calça típica dos ferreiros da longínqua cidade de Redano, mas o que realmente chamava atenção era algo em seus olhos, tinha a determinação de uma besta Leonina, não dava para acreditar que a criança que se escondia atrás dos mantos de seu mestre poderia se tornar alguém tão distinto e que irradiava uma energia tão madura.
–Algum problema? – Perguntou o rapaz.
–Desculpe senhor, mas este terreno foi comprado pelo magistério há anos atrás, se você quiser passar por aqui terá de pagar uma pequena tarifa de dez moedas de ouro. – O guarda 504 repetia as mesmas palavras para todos aqueles que passavam por ali.
–Pedágio? Por acaso... Eu estou na Barreira alfandegária de Modnar? – O rapaz disse olhando pros lados tentando identificar o local.
–Sim, você está aqui! – O guarda 504 respondeu apontando para uma placa de madeira em cima da cabine dos guardas colocada recentemente, na placa dizia aos viajantes que eles haviam acabado de chegar à alfandega.
O rapaz tirou um pequeno bloco de anotações da mochila que carregava em suas costas, e rabiscou com uma caneta pena um item que já estava escrito no meio das páginas: “Barreira alfandegária de Modnar”. O guarda estranhando a situação perguntou o quê ele estava fazendo, e o jovem respondeu sem tirar os olhos do bloco em nenhum momento:
–Estou tendo que refazer os meus passos, voltar tudo mesmo! – Ele enfatizou a última parte para mostrar seriedade.
–Voltar? Que estranho, é algum tipo de treino? – O guarda perguntou de novo.
O jovem garoto guardou as suas coisas na mochila enquanto procurava um pequeno saco de pano onde guardava suas moedas de ouro para pagar o pedágio, ele acabou não prestando muita atenção na pergunta do guarda 504:
–Bem, de certa forma é uma espécie de treinamento sim, é uma missão que meu mestre deixou para que eu cumprisse, mas eu sei que há algo bem maior do que isto também. – Ele respondeu entregando as dez moedas que foram pedidas para o pedágio pelo guarda.
–Bem, então só tenho a te desejar boa sorte! – Ele agradeceu contando as moedas que o rapaz havia lhe dado.
O guarda 504 se virou e gritou a atenção de dois outros guardas que estavam dentro da cabine deles, para que eles liberassem a passagem para o viajante, dois guardas obesos saíram da cabine para a direção do portão. O rapaz assistiu de longe os dois guardas fazerem um esforço imenso para abrir o portão, quando finalmente conseguiram ele passou e se despediu formalmente dos guardas que estavam lá fora.
Alguns metros a frente, aquele jovem virou-se e olhou para trás novamente, será que ele estaria a zombar dos guardas como fizera anos atrás? Não... Afinal desta vez ela não estava na companhia de seu respeitado mestre, e aquele rapaz já era maduro o bastante para fazer tais travessuras. O jovem olhou para trás e avistou na alfândega um garotinho de oito ou nove anos sendo parado na barreira pelos guardas, pois, aparentemente não tinha dinheiro para pagar a taxa de pedágio. O garoto usava uma camisa velha que mais parecia um pano de chão todo esburacado, mas ainda não era como se ele fosse um mendigo ou algo do tipo, ele segurava seu braço esquerdo como se tivesse um grave ferimento, e estava visivelmente cansado, pois havia uma faixa vermelha presa em sua cintura que fora colocada para que pudesse carregar uma pedra em suas costas com mais facilidade.
Os guardas insistiam que o garoto não passaria da barreira se ele não pagasse a taxa de pedágio, mesmo assim o garoto continuava a se debater contra os guardas que o agarravam e o lançavam ao chão repetidas vezes. Com certa distância, o jovem que já havia ultrapassado a barreira não conseguia escutar direito a discussão entre eles, mas sabia que se tratava de gritos e berros constantes um contra o outro, ele continuou ali para tentar saber do que se tratava. Quando o garoto que estava quase desistindo de discutir com os guardas percebeu a presença do outro jovem ao outro lado da barreira resolveu apelar com gritos para ele:
–Ei! Cara! Me ajuda aí! Eu tô sem a grana! – Gritava o menino saltando através dos homens de armadura que protegiam a barreira. – São só 10 moedas de ouro, eu te pago quando chegar em casa, meus pais te darão o dinheiro, mas por favor me leva!
O jovem escutou o apelo do garoto sem pronunciar nenhuma palavra, os guardas estavam usando seus corpos como apoio para impedir que o garoto tentasse pular a cerca que teria mais ou menos um metro de altura, — e não seria muito mais baixa que o garotinho em si.
–Não adianta moleque! – Ele não tem nada a ver com você! Um dos guardas exclamou para o garotinho que insistia em passar.
O jovem aprendiz de Ichiibar estava assistindo tudo, “Droga, acho que bobeei em ficar olhando” ele pensava ainda sem tirar os olhos da alfandega. Anos atrás ele havia passado por ali e teria consigo o auxílio de seu mestre, já aquele garoto além de estar com um corte em seu braço estava com uma pedra amarrada a sua cintura, o quê deveria o degastar bastante. O jovem só pensava que os pais daquele garoto deveriam ser uns animais para praticar tal selvageria.
Ele levantou a mão e fez um sinal rodando os dedos para que levantassem o portão.
–O quê? Algo errado senhor? – Perguntou um guarda confuso enquanto segurava o garoto que ainda se debatia para tentar atravessar a alfandega.
– Bem parece que não tem jeito – Resmungou pondo as mãos sobre os olhos para tentar se esconder da luz do sol.
–Soltem o garoto! – Gritou o rapaz que já havia pago o pedágio – Ele está comigo!
Notas finais
Eu sou Roberto Machado, autor de A mensagem do Mestre. O primeiro livro desta história já está pronto, mas ainda me sinto um pouco inseguro para leva-lo a uma editora... Peço a opinião de vocês para que possam me dizer se ela é boa o suficiente para tal.
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