A Mensagem Do Mestre

2 Capítulo Um - A estalagem da Cobiça.


Notas iniciais
Aos que se acham malandros, não pensem em plagio, já tenho os direitos autorais de "A mensagem do mestre" reservada em minhas mãos. Aos demais espero que gostem.

Capítulo Um

A estalagem da cobiça.

O Aprendiz de Ichiibar estava cansado e acabava de perder mais dez moedas de ouro para a passagem de um desconhecido, mesmo assim ele continuava a caminhar adentrando as ruas da cidade de Modnar, aquela pitoresca cidade era um tanto quanto um refúgio para pessoas que não tinham muita condição financeira, ela era totalmente dominada pelo magistério, por isso, mensalmente os guardas da cidade cobravam impostos para os moradores. Fazendo assim, com que os habitantes da cidade tenham de trabalhar todo santo dia, para ter uma vida simples que nunca chegaria aos pés da refinada vida dos superiores do magistério levavam. Raramente, alguns cidadãos se rebelavam, mas os resultados nunca foram muito positivos. Na maioria das vezes acabava em execução, nas outras, quando as ameaças eram menos significantes aos guardas, eles remediavam à prisão perpétua do indivíduo.

Mas essas ocasiões eram raras, dificilmente alguém ousava e quase todos os habitantes de Modnar viviam conformados com a vida que tinham, e pagavam seus impostos sem hesitar, pois com isso, eles mantinham a presença dos guardas vigiando e protegendo seus lares diariamente.

Valeu a pena ao ver o sorriso infantil que a criança exibia em seu rosto. E nesse instante o jovem de azul se lembrou de quando ele tinha aquela idade.

Os dois caminharam até o centro da cidade sem trocar muitas palavras, o local estava movimentado, ou ao menos, não estava tão desértico quanto a alfândega- e à medida que eles andavam parecia que cada vez mais casas iam aparecendo ao redor, além de pequenos mercados e lojas de poções, armaduras e espadas.

O garoto que carregava a pedra em suas costas já sabia o caminho de cor e salteado até sua casa, mas já o outro rapaz estava um tanto perdido para onde deveria ir. Ele sabia disso, e para não passar por nenhum tipo de apuros resolveu tentar puxar assunto com o garoto cujo qual havia gasto as moedas de ouro:

–O que houve com seu braço? – O rapaz mais velho perguntou tentando ver como estava o ferimento do garoto.

O menino que segurava seu braço o tempo todo não prestava muita atenção no aprendiz do mago Ichiibar, respondeu a pergunta com tom de derrota:

–Isso aqui? – Ele disse mostrando um corte que corria do meio do antebraço até o seu pulso – Foi uma droga de um escorpião selvagem do deserto, ele me atacou em plena luz do dia.

O garoto estava com raiva, mas era uma ação meio idiota ir ao deserto desarmado e esperar não ser atacado por nenhum animal.

Escorpiões são bestas vermelhas, ou seja, são aquelas criaturas que atacam mesmo que você não demonstre nenhuma ação ofensiva contra ele, bestas vermelhas sentem vontade atacar as pessoas por instinto próprio, por isso, são o tipo de criatura que não podem ser domesticadas de jeito nenhum. Essa foi a denominação dada pelo magistério.

–Mas o que você foi fazer sozinho no deserto? Sem falar que você não está carregando nenhuma arma para se proteger.

–Eu estava sim! – O garotinho se defendeu apertando cada vez mais o seu braço. – Sempre que saio da cidade eu levo minha faquinha para me proteger de qualquer coisa que aparecer.

–Sua faquinha? Você quer dizer sua adaga? – Deduziu o garoto mais velho, que caminhava junto do outro menino, pelo que seria um longo caminho.

O garoto menor nunca fora muito habituado a andar sozinho, ainda mais com tantos perigos fora da cidade de Modnar. O aprendiz de Ichiibar conseguiu depois de muito perguntar, entender que a faquinha que o garoto se referia era uma adaga de ferro padrão, feita pelos ferreiros do sul da cidade, sua mãe sempre deixou a que era de seu pai com ele para quando fosse para fora da cidade. O menino estava cansado de tanto andar então as palavras saíram com muita dificuldade de sua boca, por isso demorou até o aprendiz de Ichiibar entender tudo.

–Antes que eu esqueça de perguntar... –Disse o menininho limpando um pouco do suor que por pouco não alcançava seus olhos. – Qual é o seu nome, moço?

O aprendiz de Ichiibar fez certo suspense antes de responder a pergunta, eles deram mais alguns passos e ele não disse o seu nome, até que o garotinho repetiu a pergunta:

–Hein, Qual é o seu nome?

–Por que você quer saber? Eu paguei sua passagem, te trouxe em segurança, sem pedir nada em troca – Resmungou o rapaz num tom um tanto quanto hostil. – Por que você procura saber mais sobre mim ao invés de simplesmente ir embora?

O garotinho percebeu que ele não iria se identificar por alguma razão, só não sabia qual era ao certo, sentiu medo de estar andando com um possível mercenário e se arrependeu, pois o dinheiro usado para pagar o pedágio poderia ser dinheiro do mundo do crime. Entretanto, ele não demostrou nenhuma reação, e respondeu friamente:

–Minha mãe me ensinou que educação é tudo, sabe moço? – Ele disse em um tom arrogante. – Se não quiser me dizer tudo bem...

O rapaz se sentiu um pouco ameaçado perante a resposta voraz e imediata da criança, nunca tivera sido confrontado tão diretamente, ainda mais por alguém tão pequenino:

–Duncan, eu me chamo Duncan. –Revelou o jovem mais velho.

–Duncan? – O menino se perguntou, tentando esconder o espanto pela resposta tão inesperada. – Duncan... Duncan... Duncan, eu já ouvi este nome em algum lugar.

–Eu fui aprendiz do grande mago Ichiibar... – Duncan afirmou sutilmente. – Talvez você já tenha ouvido falar de mim em outra situação.

Ao ouvir as palavras “grande” e “mago” na mesma frase, o garotinho se assustou, e deu um típico grito infantil no meio da rota 19 da cidade de Modnar.

–Você foi o aprendiz de Ichiibar?! Fala sério cara! Que incrível! Você é o máximo!!! – Disse o garoto menor, feliz por saber que não estava andando com nenhum mercenário e sim com alguém que tem um mestre muito respeitado.

–Eu? Não sou não... – Ele riu envergonhado, enquanto colocava a mão sobre sua nuca. – Sou apenas o aprendiz dele, Ichiibar é quem é digno de sua atenção...

–Mas se você é aluno dele deve estar na frente de qualquer outro guerreiro na sua idade! É quase um prodígio! – Sonhava o pequeno menino contente.

Por alguns minutos, Duncan rebateu dizendo que ele não era nenhum tipo de gênio ou prodígio de batalha, mas o garotinho insistia no assunto e ficava supondo as aventuras que ele teria percorrido junto com Ichiibar em suas viagens de treinamento. Até que Duncan desistiu de continuar com aquela conversa, e ficou admitindo que era um prodígio usando seu tom de sarcasmo, para que ele conseguisse fechar a boca do menino que o acompanhava.

–E você? – Duncan perguntou.

–O que tem eu? – Ele respondeu instantaneamente. – Nunca tive um mestre, nem ninguém disposto a me ensinar. Garanto que se tivesse, nenhum escorpião do deserto teria disposição para fazer este estrago em mim.

Duncan ria do jeito que o menino, mesmo que fosse sem querer, caçoava de si mesmo:

–Você disse que educação vem em primeiro lugar... – Duncan lembrou. – Mas ainda não me falou o seu nome.

–Ah é, tem razão... – O garotinho sorriu encabulado. – Eu me chamo Dhastan, da família Loghaar.

Cada vez mais Duncan se surpreendia com aquela conversa, um tanto esclarecedora:

–Família Loghaar? A família da cobiça? Não pode ser... – Ele disse girando um pouco a cabeça para observar o garoto, que na verdade, mesmo depois de tudo não havia prestado muita atenção em seus detalhes. – São vocês os ancestrais dos famosos Vikings Loghaar?

Há anos percorrem boatos que uma antiga tribo Viking percorreu os quatro cantos do globo caçando as maiores riquezas perdidas e travando várias batalhas contra diversos povos. Pelo fato de sempre quererem mais e mais, os Vikings Loghaar foram intitulados de “A família da cobiça”. Os boatos contam que uma vez a família da cobiça foi atrás de uma joia com poderes psíquicos que estava encravada no fundo de uma caverna subaquática, e o povo de guerreiros acabou sendo surpreendido por uma fera marinha com poderes desiguais. Aquele ataque foi o último dos Vikings Loghaar que acabariam sendo mortos pela besta. Duncan se assustou, pois parecia que Dhastan era um dos últimos da família, senão o último.

–Meu pai foi um dos Vikings Loghaar... –Dhastan afirmou com pesar, pois sempre se sentia mal quando citava seu pai em alguma conversa. – Ele faleceu para as presas do monstro Tiburiano no ataque para conquistar a Pedra de Polídes, junto dos outros Loghaar.

–Caramba, você é que é incrível sabia Dhastan? Aposto que todos da cidade devem morrer de medo de você por causa do título que possui! – Disse Duncan tentando ignorar o fato do pai de Dhastan estar morto, pois não queria se arrepender e pedir desculpas por fazer o menino tocar no assunto.

Dhastan fez um sinal com as mãos para que eles virassem para a rua de sua casa:

–Não se iluda tanto. Tudo isso só nós ajudou a dar o nome do estabelecimento que minha mãe ainda consegue manter sozinha para nos sustentar: A estalagem da Cobiça! – Dhastan explicou apontando para uma casa no fim da rua.

A alguns metros da dupla Duncan e Dhastan, havia uma casa humilde feita de tijolinhos com uma pintura gasta na cor marrom, janelas velhas com pesadas grades de ferro, estava cercada por algumas pessoas que saiam um tanto embriagadas do local. No topo do telhado havia um grande letreiro que já estava quase caindo, ele anunciava em grandes letras vermelhas “Estalagem da cobiça” e pouco mais a baixo, alguns papéis colados nas paredes e janelas mostrando as promoções especiais e pratos do dia que o local concedia.

“É como uma espécie de restaurante com comidas típicas... ”deduziu Duncan a medida que se aproximava:

–Aquela é a sua casa Dhastan? – Duncan perguntou.

–Minha mãe cuida do negócio da família a anos, nós somos os donos da estalagem...

Duncan já havia notado isso, mas preferiu não comentar. Ele reparava em alguns detalhes da estalagem lotada:

–Está cheia mesmo! – Afirmou Duncan. Acho que não conseguiremos entrar desse jeito, observando o quão de pessoas que estavam ali.

Dhastan seguiu para uma rua paralela a em que eles estavam. Duncan o acompanhou sem perguntar nada quando acabaram chegando a um pequeno beco com uma porta no final. Essa era a entrada dos fundos da humilde estalagem. Eles entraram discretamente, com receio de serem vistos pelos clientes, e Dhastan imaginou estar voltando de uma grande aventura e como se ali fosse passagem um tanto quanto... secreta.

A estalagem da cobiça não fazia jus ao nome que tinha. Mesmo que tivessem muitos clientes bebendo e comendo a vontade, a decoração era pobre: castiçais empoeirados com velas já gastas em alguns cantos da casa, mesas cobertas por toalhas que mais pareciam panos velhos improvisados e perto do balcão um rádio antigo que tocava músicas de piano bem agitadas, estava quase no nível de um bar de bêbados decadentes. Duncan esperava mais de um lugar que exibia o nome dos Vikings Loghaar:

–Bem... Tem um astral legal! – Disse ele tentando desviar sua opinião sobre a estalagem.

Dhastan não correspondeu a observação feita pelo seu companheiro, correu em direção ao balcão e foi logo para os braços de uma mulher que tinha a aparência cansada. Enquanto recolhia as canecas sujas de vinho no balcão, fazia o troco para um freguês já bêbado que berrava sem parar. Dhastan escondia seu braço ferido por de trás das costas, e foi entregar a pedra que havia adquirido no deserto. A mulher não pôde prestar muita atenção nele, a coitada parecia estar sozinha ali para atender todas aquelas pessoas. “Esta deve ser a dona da estalagem!” Deduziu Duncan que continuava perto da porta, observando tudo aquilo.

–Mãe! Eu consegui! – Dhastan anunciava alegre. – Tá aqui a pedra que você queria!

Duncan se vidrou ao ouvir Dhastan se referindo aquela mulher como sua mãe. Ela por sua vez quando notou a presença de Dhastan no recinto se aliviou de maneira como se tivesse tirado um peso da consciência.

–Dhastan Filiep Loghaar! Por onde você andava e por que demorou tanto? – Ela gritava transformando a face de alívio em uma de raiva, pronta para dar uma chuva de sermões em seu filho. – Eu estava muito preocupada!

Era verdade, ela era mesmo a mãe de Dhastan. Ao ver a preocupação da mãe dele, Duncan mudou de opinião quando se referiu aquela mulher como uma má pessoa por mandar seu filho sozinho para fora da cidade, “Com certeza eles devem passar por dificuldades financeiras constantemente.” Duncan imaginava. Dhastan gaguejou um pouco ao ver sua mãe brava daquela maneira, ele explicou que havia conseguido a pedra que ela havia pedido, ela por sua vez, o instruiu a colocar a pedra em um balde e depois enche-lo de água.

Em alguns dos desertos e cavernas mais raros do mundo, podem ser encontradas pedras minéricas. São rochas especiais e que com o passar do tempo acabam criando crostas de metais que valem alto no mercado. Alguns viajantes mais habilidosos, quando precisam de dinheiro, recorrem ao metal das pedras minéricas, eles a extraem das rochas e vendem tais metais para comerciantes por quantias razoáveis.

–Ah, mãe... eu preciso de dez moedas de ouro. – Dhastan lembrou.

–O quê!? Não basta me matar de preocupação, você quer levar meu dinheiro também?

–Não é para mim... – Ele afirmou apontando para Duncan.

A mãe de Dhastan jogou um pouco o corpo para o lado para tentar avistar Duncan que estava afastado do balcão, ninguém havia percebido a presença dele desde o momento que ele e Dhastan haviam chegado.

–Quer alguma coisa garoto? – A mãe de Dhastan perguntou a Duncan empinando o nariz.

–Não é isso mãe, ele pagou o meu pedágio, e eu prometi que daria o dinheiro de volta. – Dhastan respondeu por Duncan.

A mãe de Dhastan não estava entendendo nada, ao seu redor os berros dos clientes bêbados aumentavam e os pedidos acumulavam-se sobre o balcão e ela já nem mais prestava atenção neles. Ela secou as mãos molhadas da água da pia em uma toalha, e muito curiosa parou de trabalhar perguntando o quê havia acontecido com as moedas que ela tinha dado para ele pagar o pedágio do magistério.

Dhastan respondia gaguejando enquanto mostrava seu braço com o ferimento feito pelo escorpião:

–Eu perdi as moedas, é que um escorpião apareceu e...

–Aaaaaaaaaaaaaaahh!! – Ela gritou tanto que quase ficou roxa ao ver o ferimento de seu filho. – Pelo amor de Askaryun! Até onde você foi garoto?

A mãe de Duncan perguntou batendo a mão com a toalha molhada na testa:

–Dhastan, eu não te avisei para não passar da fronteira do círculo de cogumelos? Aquilo é o máximo que alguém como você poderia ir!

Duncan sabia do que a Mãe de Dhastan falava: Depois que o magistério comprou aquele lote de terras do fim da cidade Modnar até o meio do deserto, um grupo de guardas dividiu o deserto em duas partes distintas com um círculo de cogumelos que abrangia grande parte do local. A parte de dentro do círculo era segura, pois as bestas vermelhas não costumavam ir ali, elas são sensíveis ao cheiro deles. Duncan havia percebido que Dhastan teria atravessado o círculo de cogumelos, só não sabia o porquê ele teria feito isto.

–Mas não tinhas pedras minéricas por lá, eu tive de ir mais a fundo para encontra-las! –Dhastan afirmava, explicando o motivo que o levou a ultrapassar os limites que o magistério havia imposto.

–Ora, não grite comigo mocinho! Leve esta pedra para cima agora mesmo! E você e eu teremos uma conversa no fim do expediente! – A senhora gritava em tom maternal.

Dhastan preferiu não contrariar, pegou a pedra com seus dois braços, abaixou a cabeça e seguiu para as escadarias rumo ao segundo andar, onde ficava o tanque no qual ele mergulharia a pedra.

–E o quê eu faço com ele? – Preciso pagar as moedas que lhe devo – Dhastan disse enquanto cuidadosamente largava a pedra em um dos degraus da escada e apontava para o que permanecia quieto e silencioso Duncan.

A mãe de Dhastan já estava irritada com todas aquelas pessoas berrando em seus ouvidos, sem falar que as músicas do rádio estavam começando a agarrar de maneira estressante. A pobre senhora pegou algumas moedas da sua caixa registradora e deu para Duncan.

–Olha aqui rapaz! Só estou te dando este dinheiro, pois você ajudou meu filho! – Ela berrava chamando sem querer a atenção dos clientes, que não desviavam seus olhares da cena. – Agora, por favor, não atrapalhe! As coisas aqui já estão bem caóticas!

Duncan pegou as moedas sem dizer nada, os clientes assistiam ele ir embora, até que Dhastan se exaltou para proteger alguém que havia acabado de conhecer:

–Calma mãe! O Duncan é o aprendiz do mago Ichiibar! Ele pode rogar uma maldição em você se continuar falando deste jeito! – Disse o menino de palavras tolas.