A Menina que Pintava Bolos
2 O gato que some
Outro dia chegou, Beatriz acordou, e logo tudo começou novamente. Sentiu que havia algo estranho quando não sentiu o peso de Tom, seu gato preto, em suas pernas, ele provavelmente estaria debaixo da cama. Não se deu ao trabalho de procurar. Olhou seu quarto sem muita mobília, com apenas sua escrivaninha, sua cama, a mesinha de canto, o espelho que ficava na parede, as próprias paredes coloridas. Depois de muito pensar ali, acordada na cama, olhou pela janela e viu a luz do dia, mas não conseguia distinguir se estava amanhecendo, ou se era de manhã. Foi ao banheiro e jogou água no rosto, olhou o espelho e viu Beatriz, seu cabelo parecia um ninho de ratos. Ainda sentia que estava dormindo, mas aquilo era normal. Penteou os cabelos com certa dificuldade e saiu do banheiro. Tirou seu pijama e colocou sua calça e sua camiseta, aquelas mesmas roupas velhas, pensou. Não gostava de ir comprar roupas, pincéis sim, tinta também, mas roupas eram muito sem graça. Saiu do banheiro e olhou para sua escrivaninha, o desenho em que estava trabalhando na noite passada. Mas que horas são? Beatriz estava atrasada? Tinha acordado cedo ou não? Só saberia quando visse o relógio em sua parede. Viu que o relógio havia parado exatamente as 3 da manhã e o pegou, o olhando muito chateada com o fato dele ter quebrado. Aquele relógio nunca havia parado, mas sempre havia uma primeira vez para tudo. No entanto, lembrou que alguma coisa estranha tinha acontecido durante a madrugada, só não sabia o que era. O pegou e o tirou da parede, o levaria para consertar, mas quando desceu estranhou sua mãe segurando o relógio que tinha levado para os Akira concertarem a pouquíssimo tempo atrás, o relógio da área de serviço também havia parado, não conseguia se agarrar a ideia de que aquilo poderia ser uma mera coincidência.
—Bia, o relógio parou novamente... –Disse olhando aquele relógio como se também estranhasse-
—Impossível – Disse Bia- Kira e o senhor Akira nunca fariam um serviço de má qualidade... Meu relógio também parou –Mostrou o relógio a sua mãe, com certa tristeza no olhar
—Ah, querida, eu sinto muito. Pode levar os dois para consertar?
—Claro, mamãe.
—Então vá tomar seu café da manhã. Fiz bolo de coco
—Certo –Disse Bia, faminta pelo bolo, sorrindo e já pensando no sabor doce e suave daquela fruta em formato de uma massa fofa.
Enquanto comia, Beatriz pensou no que fazia. Nada. Era só uma jovem adolescente mas sentia a necessidade de ajudar a mãe em mais do que apenas comprar algo que falta e levar o relógio para consertar. Se lembrou de seu pai, o homem que das cinzas fez surgir a melhor confeitaria da cidade. Infelizmente o mesmo tinha morrido num trágico incêndio que deixou a confeitaria, mas o levou as cinzas. A mãe de Beatriz ainda tinha cicatrizes pelos braços e palmas das mãos, já a própria Beatriz tinha as cicatrizes em sua alma. Se lembrava de ter acordado aquele dia tossindo e ver fumaça entrando por debaixo da porta. Aquele foi o dia em que teve que sair pela janela. A última vez que tinha visto o pai foi com noventa por cento do corpo queimado numa maca, ao lado da mãe, que chorava horrores. Naquela época era apenas uma criança, sua irmã mais velha ainda morava em casa e ficou a consolando enquanto ao mesmo tempo a tentava fazer entender que o papai não sentia dor, mas que também não voltaria tão cedo. Tentou parar de pensar naquilo e terminou o café da manhã. A manteiga havia acabado mas não mencionou nada para sua mãe.
Depois do rápido café da manhã, Beatriz pegou aquele mesmo relógio, sentia que havia algo de muito, muito estranho naquele dia, mas não se importou e seguiu saltitante pela cidade tão bonita e povoada em que vivia, com o céu com algumas nuvens de algodão, até a relojoaria de seu grande amigo. A cidade estava menos povoada do que Beatriz se lembra. Felizmente, ao chegar perto da relojoaria Beatriz reencontrou parte da população da cidade. Infelizmente, a população estava totalmente enfurecida e vaiava a relojoaria, gritando com relógios na mão, talvez enfurecida pelos relógios quebrados, talvez porque ainda não fora atendida. Tudo o que Beatriz pôde fazer foi olhar incrédula aquela multidão que quase forçava as portas fechadas da relojoaria. Logo foi surpreendida por um enorme puxão, que a tirou do meio da multidão. Levou um grande susto e sentiu um enorme frio na barriga achando que cairia para trás, mas logo foi segurada
—Bibia –Ela reconheceu a voz de seu grande amigo Akira
—Akira?! –Ficou brava, detestava ser assustada daquele jeito, seus grandes olhos se arregalaram em raiva
—Shhhhhhhhhhh –pediu silêncio com urgência, usava um capuz para não ser reconhecido, não haviam muitos garotos de olhos puxados pela cidade.
—O que está acontecendo?
—Eu não faço a mínima ideia –Disse tão surpreso quanto a própria Beatriz- Acho que os relógios pararam
—Mas todos juntos? –Beatriz olhou seu próprio relógio
—Sim, todos, até o relógio da cidade
—Espera, até o –Olhou para o grande relógio na não tão grande torre e notou que o mesmo também havia parado às três da madrugada, Então se lembrou de que durante a manhã, não havia escutado sequer uma badalada do relógio- Mas afinal, o que aconteceu?
—Eu não sei. Ao que parece todos os relógios da cidade pararam de funcionar ao mesmo tempo.
—Então ninguém sabe as horas?
—Não. E o pior é que acho que meu pai vai ter que sumir por uns tempos para não ser atacado. A cidade anda muito estranha desde a hora em que acordei, ou até mesmo antes.
Beatriz sentiu medo de repente, algo ruim poderia acontecer. Pediu para que Kira a acompanhasse ao menos até em casa e ofereceu um pedaço de bolo quando chegassem lá. Kira não recusaria, com bolo ou sem.
Ao chegar no centro da cidade, o local mais movimentado que não estava tão movimentado assim, onde morava na confeitaria, Beatriz sentiu cheiro de bolo queimado. Notou que as pessoas que ainda circulavam por ali conversavam como se sentissem pena e olhavam na direção da confeitaria. Beatriz arregalou os olhos e pensou que o pior podia ter acontecido. Infelizmente, ela estava certa.
A confeitaria estava destruída, com muita fumaça saindo pelas janelas, com suas paredes ficando escuras por causa da fuligem causada pela madeira. Ainda havia alguns focos de incêndio. Arregalou seus olhos enormes como nunca antes e parou no tempo.
Em sua cabeça, via seu quarto, repleto de desenhos e rabiscos felizes, de suas lembranças naquela casa queimando aos poucos, pegando fogo e se transformando em papel escuro, que se desmanchava em cinzas. O chão daquela madeira bonita estava irreconhecível. Seu quarto pegava fogo lentamente, seus lençóis laranjas queimavam assim como o travesseiro branco. Tudo parecia tão inflamável e instável do nada. A estante de livros caiu de repente com livros em chamas, mas seu caderno de desenhos em cima de sua escrivaninha parecia a última coisa que iria queimar. Seu caderno de desenho tinha em sua capa um desenho de Beatriz, sua mãe, seu pai e Lizzie, havia um pedaço de papel que acrescentou com Tom desenhado quando o adotou. Aquilo representava sua família ficando em chamas. Primeiro seu pai foi queimado até se dissolver em cinzas, depois sua irmã, Lizzie, Tom simplesmente desapareceu, o próximo alvo era sua mãe, mas de repente o caderno de desenhos explodiu numa bola de fogo que consumiu toda a confeitaria.
Seus tímpanos haviam sido quase que esmagados, havia um barulho fino que não permitia Beatriz escutar quase que mais nada com clareza, sua visão ficou distorcida, a confeitaria havia realmente explodido e Beatriz estava perto demais, por pouco não sofreu danos muito graves. Estava em transe, pôde ver seu pai queimando vivo com sua mãe logo ao lado, quando seu pai foi gritar no meio de todo aquele barulho causado pela explosão, Beatriz escutou:
—BIBIA –Mas aquela não era a voz de seu pai e muito menos como seu pai a chamava.
—BIBIA –Ouviu novamente, nem sequer vinha daquela cena, seus pais queimando vivos eram apenas uma grande ilusão.
Sentiu alguém segurando em seus braços e a sacudindo e então começou a voltar a realidade, ainda com seus sentidos bem embaçados. Olhou para o rosto de seu amigo Kira, ele quem havia gritado por seu apelido. Finalmente recuperou os sentidos. Olhou para o rosto de Akira, seus olhos puxados e seu cabelo liso que parecia palha. Se desmanchou em lágrimas, começou a chorar de forma muito desesperadora. Caiu no chão e quis morrer enquanto assistia a confeitaria em que vivera por toda sua vida cair aos pedaços, ainda mais com sua mãe lá dentro. Tudo o que Kira pôde fazer foi abraçar ela e a ouvir chorar e gritar em seu ombro enquanto os olhos enormes de Beatriz pareciam mini cachoeiras. O que faria agora? Estava definitivamente sem família.
—Ah meu Deus...
Quando Beatriz ouviu aquelas palavras e conseguiu reconhecer a voz, quis chorar ainda mais, mas de alegria. Se virou para ver quem era mesmo e pôde confirmar. Era sua mãe, ela não estava na confeitaria, carregava uma sacola, provavelmente foi ao mercado comprar algum produto que faltava. Beatriz jogou Kira no chão e voou em sua mãe, a agarrando e quase a derrubando no chão. Ela realmente estava viva, o fogo não havia a consumido. Beatriz falava muito, muito rápido, com sua voz engasgada em choro e felicidade. A mãe de Beatriz a olhava extremamente surpresa com tudo aquilo enquanto Beatriz quase a rasgava o vestido e a deixava sem respirar num abraço.
—Bi-Bia! Calma! –Disse a mãe de Beatriz enquanto tentava respirar e não deixar sua pequena compra cair no chão.
—Mãe, mmmãe –tosse e chora de felicidade enquanto fala coisas incompreensíveis.
—Eu fui comprar manteiga, mas não deixei nada ligado... –Olha a confeitaria totalmente destruída enquanto alguns vizinhos combatiam o incêndio. Tinha expressão de tristeza, mas então lembrou que sua filha poderia estar lá dentro se não tivesse a pedido para levar os relógios para arrumar- Ah, Bia –A abraça forte enquanto Kira observava com um pequeno sorriso pois pelo menos as duas estavam ali, sãs e salvas.
Durante o resto do dia as duas ficaram sem saber o que fazer, mas então combinaram de que Beatriz poderia passar alguns dias na casa dos Akira, enquanto sua mãe ficaria na casa de um de seus amigos. A mãe de Beatriz teve a sorte de depositar seu dinheiro no banco poucos dias antes do incêndio. Depois daquilo tudo o que Beatriz queria era dormir um pouco. O resto daquele dia por mais que confuso não foi de grande importância, pois as duas estavam ao menos vivas para contar a história.
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