A Menina que Pintava Bolos

3 Pintando o Incendiário


Beatriz não teve um sonho muito bom na primeira noite em que dormiu fora de casa. Sonhou que havia acordado no meio da noite e um homem de feições muito estranhas que usava uma túnica preta estava parado a vigiando na sala onde estava deitada em seu futon, no qual estava dormindo depois do terrível acidente na confeitaria. O homem para piorar de minuto a minuto acendia e apagava um isqueiro. Ficou “acordada” naquele sonho tão realístico por quase meia hora antes de “voltar a dormir”. Acordou na manhã seguinte cheia de ideias para desenhar, mas então se lembrou de que estava dormindo em um futon da casa dos Akira. Olhou para o local onde tinha visto o homem a noite e ele não estava mais lá, mas ouviu conversas vindo da cozinha.

—Ela ainda tá dormindo? –Perguntou uma voz feminina infantil, era com certeza a irmã de Kira, Millenni.
—Sim... Gabriel, não acha melhor acordar a Beatriz? Ela vai acabar perdendo o almoço também.
—Acho melhor acordar ela mesmo. Mas que pena, ela estava dormindo tão bonitinho... –Disse Kira.
—Bonitinho? Aquilo parecia um ogro em hibernação –Disse a Millenni, que nunca foi muito com a cara de Beatriz mesmo, provavelmente por puro ciúme.

Foi então que Beatriz lembrou que não era nenhum anjo dormindo ou acordando, e percebeu que todos já estavam praticamente almoçando. Deu um pulo de seu futon em que estava deitada na sala e sentiu o chão de madeira avermelhada, não era aquele chão de madeira tão acolhedor do qual se lembrava ter em sua casa. Tentou não pensar muito naquilo. Foi ao banheiro antes que qualquer um pudesse vê-la. Utilizou-o, lavou seu rosto, mas então se arrependeu, pois começou a se lembrar dos acontecimentos do dia passado e começou a chorar. Muito. Kira foi correndo na direção do choro, mas quando viu a porta do banheiro fechada parou ali mesmo.

—Ahm, Bia? –Chamou um tanto baixo quase indo bater na porta-

Tudo o que Kira ouviu foi Beatriz chorar mais alto. E então se afastou da porta. Millenni veio de cara feia, naquele vestidinho, toda emburrada por causa da hóspede indesejada por ela.


—Afasta –Quase que ordenou para Kira.
—Por quê? –Não iria ser reduzido agora, tinha que ao menos questionar.
—Você não pode entrar lá dentro. Deixa que eu resolvo.
—Tá bom. –Disse se afastando, mas ainda querendo escutar algo.

A irmã de Kira entrou no banheiro como se não estivesse nem aí com o estado de Beatriz. Viu ela chorando debaixo da pia e achou muito ridículo.

—Para de chorar, moça. Olha a sua idade.
—masuuahhuuhconfeituriuah –Fala em meio ao choro.
—PRESTENÇÃO –Disse imponente quase dando um tapa na cara de Beatriz.

Beatriz olhou rapidamente para Millenni, com seus olhos inchados e vermelhos.

—Eu sei que aquela era sua casa e tudo o que você tinha. Mas você já parou pra pensar na sua mãe? E se ela estiver chorando agora porque não sabe nem se vai conseguir um lugar novo para vocês morarem? –Era muito realista para uma criança daquela idade.

Beatriz começou a pensar. Depois de seu pai ter morrido sua mãe assumiu toda a confeitaria. Aquilo passou a ser a vida dela. Se ela, assim como Beatriz, presenciou a morte de seu marido, viu a confeitaria queimar até os pedaços, deveria estar tão mal quanto a própria Beatriz senão pior.

—Ficar chorando aí não vai ajudar a reconstruir nada. Você não pinta? Kira diz que você é muito boa. Se isso é verdade por que não vende pinturas e desenhos? Ajude sua mãe ao invés de ficar chorando aí debaixo da pia.
—T-Tem razão –Disse Beatriz.
—Não seja tão dura com ela –Disse Kira do lado de fora.
—Cala a boca –Disse a irmã de Kira para a porta fechada- A vida é dura. Sinto muito. Agora, vai, menina, vai fazer algo de bom, vai ver a sua mãe.

Beatriz parou para pensar que realmente quase não falou sério com sua mãe depois do desastre. Depois de comer alguma coisa, claro, pois estava morrendo de fome.

—Vai antes que o Gabriel come tudo, porque aquilo come. –Disse muito sincera e saiu do pequeno banheiro onde as duas estavam.

Beatriz saiu debaixo da pia, se olhou no espelho e fez cara de má, tentando ganhar alguma confiança. Fez o possível para arrumar o cabelo, estava bem grande, sempre teve vontade de cortar curto como sua mãe, mas nunca coragem suficiente. Saiu do banheiro, pegou suas coisas, voltou, se trocou e por algum motivo sentiu vontade de pôr uma calça, mesmo com o certo calor. Decidida, foi até a cozinha. Nada poderia dar errado agora. A menos que... ela tropeçasse e caísse na frente de todo mundo, o que acabou acontecendo, abalando sua confiança. Pareceu cair em câmera lenta, dando tempo de todo os outros olharem para aquela queda estúpida. Beatriz pôde ver a senhora Akira colocando um prato na mesa, o senhor Akira com dor de cabeça a olhando pelo canto do olho, Kira abrindo um sorriso, porém logo fazendo expressão de pena e Millenni surpresa antes de Beatriz bater no chão.

—Ai –Soltou um grunhido de dor e logo tentou se recompor antes que qualquer um notasse

Seria impossível porque Kira estava tentando não rir, a irmã dele gargalhava muito e os pais dele abriram um pequeno sorriso. Ao menos não tinha quebrado nada. Ao menos ela conseguira animar aquela casa tão desanimada. A cozinha dos Akira era muito diferente do que se lembrava da sua, tinha detalhes um tanto orientais, eles não tinham cadeiras para se sentar e a mesa era muito baixa, todos se ajoelhavam para comer. A comida era basicamente arroz, algas e peixe cru. Beatriz se ajoelhou e tentou comer como se fosse a coisa mais deliciosa de sua via, mas encontrou seu primeiro obstáculo, os hashis. Ela tentava pegar algo desajeitadamente com eles e agradeceu muito Kira quando ele a deu uma colher. Não era um garfo e uma faca, no entanto, já era o suficiente. Durante a refeição procurou agradecer os Akira.

—Eu queria muito, dizer obrigado a vocês que me acolheram e que me tratam tão bem.
—Disponha –Disse a senhora Akira, que era gentil.

Depois disso não deram nem mais um piu durante aquela refeição, o senhor Akira parecia estar muito deprimido. Beatriz não conseguia se lembrar o porquê, mas quando estava prestes a perguntar as horas se lembrou dos relógios parados e então percebeu, o senhor Akira estava quase sendo linchado da cidade e não podia nem sair nas ruas. Beatriz quis tentar o animá-lo de alguma maneira, mas não pensou em nada de bom.

Depois que todos terminaram o almoço Beatriz pediu licença e disse que precisava ver sua mãe.

—Quer que eu vá com você? –Se ofereceu, Kira.
—Não, acho que tenho que fazer isso sozinha.
—É isso aí, menina –Encorajou, Millenni.

Beatriz sorriu e logo foi procurar sua mãe. Sabia que ela tinha dito que ficaria na casa de um dos vizinhos, mas nem sequer perguntara qual. Foi em ambos os vizinhos da confeitaria. O primeiro disse que sentia muito pelo o que aconteceu com a confeitaria, e chegou a culpa a mãe de Beatriz e ela mesma pelo incêndio que destruiu a confeitaria, que acabou causando alguns danos nos vizinhos, mas também disse que não iria cobrar nada. Aquilo enfureceu Beatriz, nem sequer se despediu e foi tentar o outro vizinho.
O outro vizinho da Confeitaria Tavares era uma doceria, a doceria Doces Sonhos. Se lembrou que sua mãe e a dona da doceria eram grandes amigas e se perguntou por que diabos havia tentado na oficina do outro lado. Entrou na doceria e ouviu o sino da porta tocar. Imediatamente foi atendido pela caixa, sua vizinha.

—Ah, olá Bia. Veio ver sua mãe?
—Vim sim.
—Então entre por favor –Disse a vizinha com seu sorriso doce e sua gentileza amável. – E como está seu gato? A adaptação deve ser tão difícil. –Disse com uma expressão um tanto preocupada.
—Ah não! –Beatriz parou antes de entrar- Eu esqueci do Tom! Onde será que ele foi?
—Ele deve ter voltado pra confeitaria, não?
—Eu vou buscar ele. –Disse sem nem pensar duas vezes-
—Ah, não vai não –Disse a vizinha, segurando o pulso de Beatriz sem a menor intenção de a ferir- É perigoso demais.
—Mas eu tenho que salvar o Tom! –Disse Beatriz, olhando com seus olhos enormes e tristes para a vizinha.
—Ah, bem –Não conseguiu resistir àquilo, faria o mesmo se o gato fosse seu, também era amante de felinos- Tenha cuidado, por favor. –Disse a soltando e logo se perguntando se tinha feito a coisa certa.

Beatriz entrou na confeitaria destruída, olhando muito triste para tudo o que via queimado. O que teria causado aquele incêndio? Beatriz ainda não sabia. Talvez investigasse depois, mas voltou a se lembrar de Tom e passou a chama-lo enquanto começou a subir as escadas para o segundo andar, onde morou.

—T-Tooom! –Deixou escapar um gemido de tristeza. Não iria chorar novamente, não aqui, não agora- Onde você tá, seu bichano?! –Disse e quando pisou no próximo degrau ouviu ele quebrar e sentiu sua perna entrar até o joelho dentro da escada- A-Aaah –Se assustou e sentiu alguns arranhões por baixo de sua calça, se estivesse usando shorts os ferimentos seriam bem piores-........ –Suspirou e tirou a perna dali, que doía um pouco. Suspirou e passou a ser mais cuidadosa- T-Tooom, eu tenho sardinha. –Começou a barganhar mesmo sabendo que Tom não entenderia.

Quando chegou ao seu quarto, viu Tom deitado em cima da escrivaninha, que estava estranhamente intacta, assim como alguns livros, tintas e papel.

—Então você tá aí –Disse indo até Tom e o pegando- Qual o seu problema? Não viu que já era, tudo pegou fogo? –Disse com algumas lágrimas saindo de seus olhos.
—Miau –Disse comumente Tom-

Beatriz olhou a escrivaninha e viu seu caderno de desenhos ileso, assim como algumas tintas e seus pincéis e lápis. Ela paralisou quando viu que em cima da escrivaninha havia um isqueiro, dos mais simples e medievais. Ela pegou o isqueiro e o analisou. Ele havia sido usado. O incêndio não tinha sido um acidente, pensou Beatriz. Alguém havia incendiado a confeitaria e se aproveitado do gás disponível na cozinha. Beatriz guardou o isqueiro medieval no bolso e pegou seu caderno de desenho. Tentou carregar o máximo de coisas que sobreviveram possível. Quase caiu da escada, mas conseguiu sair ilesa e com Tom.

Beatriz retornou à casa da vizinha e novamente bateu na porta. Pediu ajuda para carregar tudo e mostrou Tom à vizinha, que gostava de gatos e logo o acolheu e começou a mimá-lo. Beatriz ignorou aquilo e foi ver sua mãe. Subiu ao segundo andar, era comum naquela cidade os donos de lojas morarem em cima das próprias lojas. Antes de chegar ao quarto Beatriz passou pela sala e viu a filha da vizinha lendo um livro no tapete. Sabia que seu nome era Natália.

—Oi –Disse Natália.
—Oi –Respondeu Beatriz.

E o assunto morreu ali mesmo. Beatriz então continuou em direção ao quarto onde sua mãe que sempre acordava cedo estava deitada.

—Mamãe? –Disse baixinho como se tentasse descobrir se sua mãe estava acordada ou não.
—Oi Bia –Nunca escutara sua mãe tão desanimada.
—Você tá bem? –Perguntou para sua mãe, ela nem a olhava nos olhos.
—Tô.
—Diga a verdade.
—Tô.
—Mamãe...

Então a mãe de Beatriz começou a chorar. Beatriz ficou muito surpresa, mas aquilo só acrescentou em seu desespero e então ela começou a chorar com a mãe. Ficaram as duas chorando por meia hora abraçadas antes de Beatriz começar a falar novamente.

—C-Calma, mãe. Vai dar tudo certo.
—Não vai não –Disse a mãe de Beatriz caindo totalmente na realidade quase chorando novamente- N-Não temos mais a confeitaria, Bia. O dinheiro que tenho só vai conseguir nos manter por alguns meses, e você sabe como é d-difícil abrir um comércio novo...

Bia teve que ser forte, não queria deixar sua mãe cair em depressão, tinha que tomar alguma atitude, vencer aquilo.

—Eu vou vender meus desenhos –Disse ela muito firme- E você pode pedir para a vizinha deixar usar o forno dela, pode trabalhar na doceria, podemos juntar dinheiro e reconstruir nossa casa...! –Disse tendo um ataque de confiança.
—Acha que conseguiríamos? –Perguntou a mãe de Beatriz, a olhando nos olhos.
—Sim, sim! Nós podemos fazer tudo! Só não podemos desanimar e não fazer nada...!

Depois de mais meia hora conversando com sua mãe, Beatriz conseguiu a fazer e animar, se levantar e comer alguma coisa, porque ela estava precisando. Durante o almoço atrasado de sua mãe, Beatriz se lembrou do isqueiro que achou em sua escrivaninha, pensou em contar para sua mãe mas achou que aquela não era uma boa hora. Enquanto ela almoçava contou que conseguiu recuperar algumas coisas de seu quarto, mas que poderia haver mais coisas. Foi surpreendia por um sermão, em que sua mãe a dizia que não era mais para ela voltar até que estivesse tudo seguro, mas convenceu sua mãe de a deixar entrar lá novamente, para pegar qualquer coisa de valor. Verificou Tom, que estava agora sendo mimado por Natália e saiu para voltar a confeitaria queimada e pegar o resto de suas tintas, pincéis, lápis e desenhos, a maioria estava toda queimada. Teve que comprar papel, mas logo começou a trabalhar. Foi para a doceira novamente e perguntou se poderia usar a sala para desenhar. Natália apenas balançou a cabeça e deixou a grande sala livre, ficando mais no canto.

—Vou ter que comprar papel –Pensou alto e deixou as coisas ali.

Pegou toda e qualquer economia que tinha, pouca, pois não guardava dinheiro, e foi comprar papel. Conseguiu jornal velho, mas quando estava voltando para casa viu que em um antiquado haviam alguns isqueiros em exibição. Entrou na loja, todas as lojas da rua eram similares, foi direto ao atendente.

—Hm, desculpe incomodá-lo, mas eu preciso de uma informação. Isso aqui é um isqueiro mesmo? –Disse e enfiou a mão no bolso desajeitadamente, dando o isqueiro para o homem averiguar.
—Uhm hm, isso é um isqueiro. É um dos mais velhos e rudimentares que eu já vi. Vê? É uma pederneira ligada a um pedaço de metal, quando você risca um no outro com certa velocidade consegue provocar uma faísca.
—Ah, certo. Muito obrigado, fico te devendo.
—Não deve nada, só olhei e falei o que é. –Disse e devolveu o isqueiro rudimentar.

Agora, quem? Pensou Beatriz. Quem seria capaz de fazer uma atrocidade dessas? Sabia que sua mãe não sairia da confeitaria sem trancar as portas. Talvez alguém tivesse invadido. Voltou para a casa da vizinha muito pensativa. Tentou, mas não conseguiu se distrair enquanto desenhava. Estava sem ideias, mas quando viu Natália e o gato Tom pediu para os desenhar. Natália imediatamente deu um sorriso similar ao de um gato e ficou imóvel. Tom colaborou até bem demais.

Depois de algumas horas, pausas e muita concentração, o rascunho estava terminado. Ficou excelente até para um rascunho. Beatriz começou a pintá-lo e nisso ficou mais algum longo tempo. Ao terminar, se despediu de sua mãe, que conseguiu um emprego de sua vizinha.

—Tchau mãe. –Disse e a abraçou- Não fique triste, vamos conseguir voltar a ser o que era antes, senão até melhor. Não desanime.
—Certo, Bia. Se comporte na casa dos Akira. Eu te diria pra levar o gato daqui mas parece que ele tá sendo um hóspede muito desejado. –Disse brincando pela primeira vez depois do desastre.

Beatriz sorriu junto com a mãe e foi voltando para a casa dos Akira, queria chegar lá antes do completo pôr do Sol. Beatriz não sabia que horas eram, mas não se importava, estava feliz de novo.

Ao chegar na casa dos Akira, contou a Kira e a sua irmã tudo o que fizera no dia.
—Puxa, você voltou na confeitaria mesmo? –Perguntou Millenni.
—Sim! –Disse Beatriz, se sentindo muito corajosa e confiante.
—Viu, eu disse que você conseguiria.
—Você disse que ela ia chorar até secar. –Desmentiu Kira.
—Cala a boca, Gabriel –Disse rosnando Millenni.
—Não importa agora. Eu achei algo muito estranho na minha escrivaninha.–Disse e tirou do bolso o isqueiro rudimentar.
—O que é isso? –Perguntou Millenni.
—É uma pederneira e um pedaço de metal. –Disse Kira como se fosse muito óbvio.
—Eu quero saber o que faz, imbecil. –Disse brava com Kira, mas era daquele jeito mesmo.

Beatriz riscou o Metal na pederneira e com facilidade conseguiu uma faísca.

—É um isqueiro. –Disse Kira normalmente, então percebeu no que Beatriz poderia estar pensando.
—Acho que o incêndio não foi um acidente. –Disse Beatriz.
—Mas quem ia queimar a confeitaria? A concorrência? –Perguntou Millenni
—Não temos concorrência, nem inimigos. –Disse Beatriz.
—Então quem? –Perguntou Kira, curioso.
—Eu não faço ideia. Alguém deve ter invadido, enquanto minha mãe saiu...
—Ou, quem incendiou já estava lá dentro quando sua mãe trancou. –Disse Millenni
—Que boba--- -Foi dizer Kira quando foi interrompido por Beatriz.
—Não! Espera! Pode ser verdade! E se alguém se escondeu na confeitaria quando minha mãe foi fechar e ela não percebeu?
—E se ela percebeu? –Disse Millenni.
—Não acho que ela teria fechado a confeitaria com alguém que ela não confia dentro. Você acha que pode ser um amigo? –Perguntou Beatriz, não era muito familiarizada com traição.
—Não sei. –Disse Millenni.

O silêncio durou por tempo demais entre os três antes de Kira voltar com ouro assunto.

—Você vai vender seus desenhos e pinturas?
—Vou. Espero que alguém queira comprar, mas acho que a melhor maneira de conseguir um cliente é indo atrás deles. Assim que terminar desenhos suficientes vou sair vendendo de porta em porta, com o dinheiro compro quadros e pinto. Não quero pedir nada à minha mãe. Pelo menos meu material de pintura não queimou junto com a casa e a confeitaria...
—Você consegue, eu acredito em você. –Disse Millenni, era chata quando queria mas sabia fazer alguém se sentir confiante.
—Obrigado. –Disse Bia meio sem graça, sorrindo.
—Acho melhor tomarmos banho logo e nos arrumarmos para o jantar. Hoje minha mãe comprou sobremesa pra você, Bibia. –Disse Kira.
—Era pra ser uma surpresa, seu idiota! –Reclamou Millenni.
—Vou tomar banho primeiro. –Ameaçou Kira.
—Não se eu chegar antes! –Disparou Millenni, entrando no banheiro primeiro e batendo a porta.

E ficaram apenas os dois ali. Sem fazer nada, sem falar nada um ao outro. Os grandes olhos de Beatriz nos apertados olhos de Kira. Aquilo persistiu por muito tempo antes de Beatriz perguntar outra coisa.

—Os relógios voltaram?
—Não, meu pai está muito preocupado com isso também. Não diga nada a ele, mas ele está com medo do que o povo da cidade pode fazer. Ninguém mais sabe a hora pra nada, mas meu pai já deu um jeito de construir um relógio de Sol grande para expor no centro da cidade. Os relógios estão muito estranhos, tentamos arrumar, mas é como se o tempo simplesmente não passasse pra eles...
—Eu senti que tinha algo de muito estranho mesmo. Ah, achei meu gato.
—O Tom? Nossa, já tinha até me esquecido dele. Ele estava onde?
—Tava na confeitaria. Agora tá sendo mimado infinitamente pela vizinha e a filha dela.
—Que gato sortudo, escapou e agora tá numa boa... –Disse Kira.- Eu até te convidaria a deixar ele aqui, mas a Millenni é alérgica. Não queira ver ela alérgica, é uma coisa feia que dói.
—Que bom que a vizinha gosta de gatos então.
—Você me dá um abraço?
—Ahm, claro! –Disse e abraçou Beatriz.

Beatriz ficou naquele abraço acolhedor por um longo tempo até perceber que a senhora Akira, ou Ema, estava os observando. Soltou Kira imediatamente meio envergonhada e inventou de que precisava ir ao banheiro.

Depois de Millenni ter saído do banheiro, Beatriz pôde se banhar. No jantar, insistiu em tentar comer com hashis, viu que o senhor Akira era bem tradicional e pensou que se ela continuasse insistindo em utilizar talheres como garfos, facas e colheres ele poderia se irritar. Na sobremesa, a senhora Akira surpreendeu Beatriz. Era um bolo que ela mesma fizera. Beatriz se sentiu meio triste mas entendeu aquilo como uma esperança. Todos pegaram um pedaço do bolo que parecia muito bonito. O problema foi na hora de comer. Millenni foi a primeira a fazer cara feia, depois Kira, o senhor e a senhora Akira pareceram fazer a cara de desgosto juntos. Beatriz não entendeu nada, mas quando mordeu o bolo sentiu. O bolo não estava tão horrível assim, mas a senhora Akira havia errado na quantidade de alguns ingredientes.

—Ahm, mãe, eu acho que tem alguma coisinha assim, meio errada com o bolo... –Disse Kira tentando não chatear a mãe.
—Está horrível –Disse Ema, com dificuldade para engolir o bolo que ela mesma tinha feito.
—Que tal se comermos noutra ocasião? –Sugeriu o senhor Akira.
—Eu topo. -Disse Millenni
—Ehm, você fez certo, só foi açúcar de menos, massa demais, poucos ovos e muito leite. Eu te ajudo a fazer de novo se quiser...
—Ficarei muito feliz em cozinhar com a filha da confeiteira –Disse Ema com um sorriso.

Naquela noite Beatriz sonhou novamente com aquele homem estranho, acendendo o isqueiro rudimentar como se sua intenção fosse assustar Beatriz. Nem sequer podia ver se era mesmo uma pessoa ou algum monstro. Não iria se levantar de seu futon para descobrir. Tudo o que podia fazer era assistir o homem horrorizada enquanto esperava o pesadelo terminar. Mas ela mesmo assim dormiu muito bem e feliz, pois reconstruiria sua vida, e isso era o que realmente importava.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.