A Menina da Lua

27 ➷ Para Longe de Mim ➷


Notas iniciais
Boa Leitura ♥

Christian está mais estranho do que o comum hoje, para falar a verdade, ele está assim desde que papai chegou há dois dias. Talvez ele esteja com medo que meu pai queira me levar, mas eu não tenho certeza disso, já que Christian convidou meu pai para ficar conosco em sua casa.

Duas coisas estranhas, meu pai aceitar ficar tão próximo por mais de um dia com mamãe à solta e, Christian estar tão distante por causa do meu pai.

Eu estou no quarto com Lilly agora, segurando sua mão enquanto Vitória e Mia enchem ela de perguntas e até arrancam sorrisos, ela ainda não sabe que papai está aqui porque quando ele veio vê-la ela estava dormindo, mas logo ele estará aqui. Aposto que Lilly ficará feliz ao vê-lo, ela sempre sentiu tanta falta dele... ela é a sua princesinha.

— E... você vai guardar todos os ursinhos que ganhou? — Mia pergunta e Lilly balança a cabeça.

— E os balões? Nós vamos poder usar para mudar a voz? — Vitória pergunta e Lilly aperta sua mão.

Balançar a cabeça significa sim, apertar a mão significa não. Eu estou tão feliz por ela estar melhorando mais, esses dois dias foram muitos progressos e eu não poderia estar mais empolgada, Lilly está melhorando e logo irá acordar, então nós vamos para casa.

— Boa noite.

Viro-me assim que ouço a voz do meu pai, o encontro parado a porta do quarto com um olhar casando... talvez, é difícil dizer.

— Meninas, vocês podem deixar eu conversar com a minha filha? — Papai pede e as meninas me olham.

— Tudo bem. — Sussurro e sinto Lilly apertar minha mão de forma forte.

Ela sabe que papai está aqui. Ele vai ficar tão feliz quando ela o responder, espero que ele goste.

Mia e Vitória saem da sala e eu encaro meu pai esperando que ele venha falar com Lilly, mas ele não faz isso, ele apenas entra no quarto e para na ponta da cama me encarando.

— O que foi? — Pergunto preocupada. — Por que você está me olhando assim?

— Você sabe por que estou aqui?

— Você veio ver Lilly...

— Não, não foi por isso, Anastásia. — Diz num suspiro. — Há quatro dias duas garotas que estavam desaparecidas há cinco anos foram encontradas... os corpos delas, aqui em Seattle.

— O que você está querendo dizer?

— Elas tinham a tatuagem.

— Não. Não! — Grito e Lilly aperta minha mão. — Minha mãe não faria isso! Ela não mata mulheres, você sabe disso.

— Eu sei? Tudo o que eu sei é que ela é uma assassina.

— Ela nunca mataria as garotas. Nunca! Você está louco!

— É, mas eu não posso arriscar, nós temos pistas que ela está aqui em Seattle e eu não posso deixar vocês aqui.

— Você quer nos levar embora?

Sinto meu peito se apertar e um pouco de falta de ar. Ray não pode nos levar embora, nós estamos bem aqui, com Christian e nossos amigos.

— Eu preciso, vocês não estão mais seguros.

— E nós vamos estar com você? — Pergunto rindo com escarnio. — Não é por esse motivo que você está longe? Porque a mamãe sempre vai achar você, não importa onde você esteja.

— Vocês vão comigo, mas vão ficar na casa de uns amigos, no exterior, ela não vai achar vocês lá.

— Eu não vou ir, não vou deixar Christian! Isso está fora de cogitação, minha vida está aqui.

— Que vida? — Papai pergunta seriamente. — Seus amigos podem morrer! Você quer isso? Quer que todos morram, e seus irmãos? Já não foi sofrimento o suficiente sua mãe ter matado a Maggie?

— Não!

Apavoro-me quando entendo que foi Lilly quem gritou, sua mão escorrega da minha e ela começa a se debater na cama fazendo meu coração se apertar. Corro até a campainha e logo as enfermeiras estão na sala segurando-a e injetando algo nela.

Fico olhando com pavor até Lilly começar a se acalmar, há lágrimas no rosto dela e eu encaro meu pai... ela ouviu tudo... agora ela sabe... minha mãe matou Maggie.

— Isso é culpa sua! — Grito olhando meu pai. — Você me tirou da minha mãe, você me obrigou a viver aqui, Maggie morreu por sua culpa. Você não conseguiu impedir isso.

— Eu não vou ficar ouvindo essas coisas, não há discussão, vocês vêm comigo.

— Não! — Digo firme. — Eu não vou a lugar algum com você.

— Se você não vier, de qualquer forma eu tenho que levar as crianças. — Ray diz exasperado. — Sua mãe sabe sobre eles, tudo, ela me ligou.

— Não...

As lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto e eu encaro Lilly na cama, ela ainda está chorando e as enfermeiras estão tentando manter as coisas estáveis.

Eles não podem ir, eu... eu não posso ficar sem eles.

— Elizabeth...

— Não me chama assim! — Digo lhe encarando. — Eu não sou mais a Elizabeth.

— Eu sinto muito, mas se eu os deixar aqui... eles podem morrer, eu não posso garantir a segurança deles.

— Ela sabe sobre mim?

— Não, é claro que não. A polícia está fazendo tudo o que pode para apagar todos os registros de Elizabeth, você é Anastásia, não há como contestar.

— Então os leve. — Sussurro enquanto as lágrimas escorrem. — Ela não pode chegar até eu, mas se ela pode chegar até meus irmãos... tudo bem, pode leva-los. Eu não vou suportar que mais ninguém morra por minha causa.

— Vocês não podem discutir aqui. — Uma das enfermeiras diz brava. — Está fazendo mal a ela.

Encaro Lilly na cama e suspiro sentindo meu coração se partir, corro até ela e dou um beijo demorado em sua testa ao mesmo tempo que aperto suavemente sua mão.

— Eu sinto muito, mas eu não posso perder você. — Sussurro.

Afasto-me e corro para fora do quarto, passo correndo por Mia e Vitória e ignoro os gritos de ambas, eu só quero ir para bem longe daqui. Era exatamente por isso que eu não deveria me apegar aos meus irmãos, porque eu sabia que enquanto minha mãe não fosse presa eu não poderia ter uma vida normal.

E agora, agora que eu finalmente entendi que amo eles, eles irão para longe de mim.

Esbarro contra alguém e levanto a cabeça apenas a tempo de ver que é Christian, então enterro meu rosto contra seu peito deixando as lágrimas desabarem. Nós estamos fora do hospital e, nesse momento, enquanto ele me tem protegida em seus braços eu noto o quanto preciso dele. Eu preciso de Christian, dos seus lábios, do seu corpo. Eu só quero que ele me ame como só ele faz e eu esqueça toda a maldita dor que estou sentindo.

— Amor, o que aconteceu?

— Me tira daqui. — Imploro agarrando sua camisa, encaro seus olhos preocupados e suspiro sentindo meu coração se apertar. — Vamos para longe, só nós dois, por favor.

— Você está me preocupando, o que aconteceu?

— Eu só quero sair daqui, quero que você me leve para longe, que você me ame, por favor.

— Ana...

— Eu preciso de você, Christian, por favor.

— Está bem, eu levo você, vamos.

— Eu quero dirigir. — Sussurro e ele me olha preocupado.

— Anastásia, não.

— Deixa eu dirigir.

— Não.

— Deixa eu dirigir! — Peço firme.

— Não, nada disso.

— Christian, para! Eu quero dirigir.

— Não o meu carro, sua maluca.

— Christian! Deixa.

— Não.

Ele agarra minha mão e me puxa para atravessarmos a rua, Christian abre a porta do seu R8 para que eu possa entrar, mas eu cruzo os braços feito criança e fico lhe encarando com raiva.

— Entra.

— Não.

— Anastásia.

— Se você não deixar eu dirigir, eu não vou a lugar nenhum com você!

— Você pediu para eu te levar, eu vou te levar.

— Vá para o inferno, então!

Dou as costas para ele e começo a andar para rua sem saber ao certo o que eu estou fazendo. Eu estou sentindo tanta raiva de mim mesma, de tudo. Isso é uma grande merda, eu não acredito que finalmente quando entendo que amo minha irmã ela vai ser levada para longe de mim. Não é justo!

Nada disso é. Eu sou tão idiota, fui tão burra de acreditar que pela primeira vez tudo ia ficar bem, mas não vai ficar. Lilly, Alex, Nick e Celi estão indo embora e eu ficarei aqui, sozinha.

— Ei, ei.

Viro-me com raiva e sem pensar desfiro um tapa contra o rosto de Christian que me olha chocado, a raiva lampeja em seus olhos, mas não deve estar pior do que eu.

— Você pode me dizer que merda está acontecendo? — Esbraveja e eu apenas franzo o nariz. — Não franza o nariz para mim!

— Vá para o inferno! — Grito estapeando seu peito. — Eu odeio você, odeio toda essa merda!

Christian agarra meus ombros me fazendo parar, as lágrimas estão escorrendo pelos meus olhos de forma dura, meu rosto está completamente molhado e tudo o que ele faz é me olhar.

— O que fizeram com você?

— Meu pai vai levar as crianças. — Sussurro sentindo meu coração se quebrar. — Ele queria que eu fosse, mas eu não posso, eu não posso te deixar porque eu preciso de você, Christian!

— Oh, Ana. — Sussurra com pesar.

Sou puxada contra seu peito onde enterro meu nariz inalando seu cheiro que me traz tanta paz. Sua mão está entre meus cabelos, bem próximo a nuca e ele mexo os dedos com cuidado me trazendo uma calma inexplicável. Christian me afasta um pouco com cuidado e segura meu rosto fazendo-me encará-lo. O azul no cinza, a combinação mais bonita que eu já pude ver.

— Você não precisa ficar... não por mim.

— Mas... você me ama.

— Amo, amo mais que tudo nessa vida, mas eu não posso te prender aqui.

— Você não está me prendendo, eu quero ficar com você porque eu...

Seus olhos brilham enquanto tento explicar o que sinto, mas minha garganta parece ter dado um nó e de repente é difícil dizer o que sinto, o que realmente sinto por ele. Eu não posso, não depois de ter dito que amo Lilly e agora descobrir que vão leva-la para longe de mim.

— Eu preciso de você. — Sussurro voltando a enterrar meu rosto contra seu peito. — Não me mande para longe, por favor.

— Não, é claro que não, eu nunca faria isso.

— Vamos para casa?

— Eu...

— Eu quero você, quero o quarto de jogos.

— Anastásia, eu não vou levar você para lá, não depois de você ter me dado um tapa.

— Eu quero ir, eu preciso disso.

— Ana...

— Christian, pare! Para de me negar as coisas.

Christian solta um longo suspiro e estende a chave do seu carro, pego-a da sua mão antes que ele mude de ideia e volto ao carro sem sequer saber se ele está me seguindo. Entro no carro e bato a porta, pelo canto do olho vejo Christian entrar suspirando.

— Você não vai dirigir como se estivesse fugindo, não é?

— Talvez... — Sussurro arqueando a sobrancelha.

— Anastásia...

Ligo o carro e piso fundo no acelerador fazendo os pneus cantarem contra o asfalto, Christian agarrar o banco e eu sorrio para ele. Arranco com o carro e abaixo os vidros apenas para tentar aliviar essa maldita dor que estou sentindo, ela está me sufocando.

— Anastásia, vai devagar! — Christian pede e eu acelero mais. — Anastásia! Nós podemos tomar uma multa.

— É o seu carro. — Sussurro batendo os cílios.

— Não seja imprudente!

Semicerro os olhos para ele e acelero mais o carro ignorando um sinal vermelho, Christian está começando a ficar com mais raiva, seu olhar está duro sobre mim e eu sei o que ele tem em mente, então eu vou atiçar isso.

— Pare o carro!

— Me obrigue. — Sussurro com a voz rouca acelerando mais.

Corto entre os carros e ultrapasso mais dois sinais desviando por pouco de um caminhão. Eu posso me lembrar quando tinha 11 anos, foi quando mamãe me ensinou a dirigir, eu estava tão apavorada e tudo o que ela dizia era para eu não ter medo... ela dizia que dirigir é como fazer uma terapia suave, você só precisa confiar em si mesma.

— Anastásia! — Christian grita e eu freio nos jogando para frente.

Encaro ofegante a pequena menina da faixa de pedestre enquanto meu coração dispara... não. Desço correndo do carro com Christian e vejo os pais da menina correrem até ela, ela está bem.

— Que porra! — Christian grita indo até eles. — Desculpe, ela está bem?

— Sim, você deveria tomar mais cuidado. — O homem diz bravo.

— Me desculpe, por favor, foi minha culpa e eu sinto muito. — Christian murmura, ele tira um cartão da sua carteira e entrega ao homem. — Aqui, por favor, me ligue se acontecer qualquer coisa a ela. Eu sinto muito por isso.

Christian dá as costas para ele sem pensar e se aproxima, ele agarra meu braço com raiva e me puxa fazendo-me entrar do outro lado do carro. Sua força para bater à porta me assusta, mas eu não digo nada, apenas me encolho no banco e cruzo os braços tentando controlar a raiva que estou sentindo.

— Eu vou acabar com você. — Christian sussurra quando entra no carro. — Você vai aprender a nunca mais me desafiar dessa forma.

— Ah, ficou bravinho? Que dó de você, Christian. Sinto muito por furar o seu ego!

— Você não deveria ter brincando assim.

— Brincado? Achei que estávamos apenas dirigindo.

Christian me olha com raiva e acelera começando a correr com o carro, mas eu ignoro isso, eu estou com tanta raiva. Chegamos em minutos no Escala e ele entra sem desacelerar, estacionando perfeitamente em uma das suas vagas. Desço do carro batendo a porta e sigo em direção ao elevador.

Taylor, Sawyer e Elliot estão aqui na garagem, conversando sobre algo.

— Não me dê as costas! — Christian grita e os três começam a olhar.

— Vá para o inferno, seu maldito! — Grito deixando-o com mais raiva.

— Anastásia, eu não estou brincando.

— E você acha que eu estou? — Gargalho parando de andar e me viro para lhe encarar. — Quantos anos eu tenho mesmo para brincar de ‘de as costas ao Christian’?

— Filha da puta. — Sussurra se aproximando.

— Não me toque!

Dou as costas novamente para ele e passo por Elliot esbarrando em seu ombro, viro o rosto com raiva e semicerro os olhos.

— Perdeu o que, babaca?

Elliot levanta as mãos e eu me viro indo em direção ao elevador, mas paro quando sinto uma mão forte segurar meu braço. Dou um solavanco e me viro encarando Christian, o ódio lampeja em seus olhos e eu apenas sorrio passando a língua no lábio... eu cheguei onde queria.

Christian fica me olhando por segundos intensos e me puxa em direção ao elevador.

— Você me parou para me levar exatamente para onde eu estava indo? — Pergunto e ele aperta sua mão em meu braço.

— Calada.

— Não, obrigada.

— Você está fazendo de propósito?

— Eu não sei do que você está falando.

— Anastásia...

— Nunca nem vi. — Sussurro e seu olhar fica ainda mais escuro.

— Certo, eu vou dar um jeito em você.

Raymond