A Menina da Lua

21 ➷ O Amor É Assustador ➷


Notas iniciais
Boa Leitura ♥

Caminho até a sala e olho em volta com atenção encontrando Flynn sentado em uma cadeira ao lado de um sofá, ele me olha e dá um pequeno sorriso. Fecho a porta nervosamente e caminho até o sofá sentando-me na pontinha.

— Anastásia, que prazer a rever. — Diz calmamente. — Como está indo?

— Confusa. — Confesso encarando minhas mãos sobre minhas pernas, levanto a cabeça e lhe encaro. — Você me disse tantas coisas e eu acho que não estou conseguindo lidar com tudo.

— Certo, vamos por partes?

— Claro.

— Eu fiquei sabendo o que houve na escola, Christian me contou.

— Sim. — Suspiro com a lembrança. — Ele me tirou da escola.

— É mesmo? Ele quis assim?

— Não, eu quis, eu pedi que me tirasse... eu não quero ter que voltar a lugares como esse. Agora eu estudo em casa e a nova professora não é tão ruim. Nick, Alex e Lilly estão na mesma escola e Celi não está indo mais a creche, ela fica em casa comigo.

— Isso é uma grande evolução.

— O que?

— Você dizer a ele que queria isso. Vocês conversam abertamente?

— Sim, mas há coisas que eu não posso simplesmente dizer.

— Coisas sobre o seu passado?

— Sim, acho que isso deixa Christian frustrado, eu queria que ele entendesse que é difícil, difícil passar por tudo isso... entender que ele me ama.

— Ele disse que te ama?

— Sim.

— Como foi?

— Eu estava tão assustada, foi logo após ser atacada, então ele estava ali. — As lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto. — Ele me abraçou e disse que me amava, fora Lilly, ele foi o primeiro a me dizer aquilo. É bom ouvir, mas é assustador.

Encaro Flynn e ele pisca por alguns segundos enquanto anota algo em seu Ipad, ele volta sua atenção para mim e cruza as pernas tomando folego.

— Eu imagino que seja difícil receber amor dessa forma.

— Muito difícil. — Confesso. — Tem dias que eu acho tão incrível, eu só consigo pensar o quanto gosto de ver Christian com meus irmãos, mas têm outros dias que tudo parece ruim.

— Por que diz isso?

— Eu sinto que Christian está ficando cansado, que ele quer momentos apenas nossos, mas eu não posso oferecer isso.

— Não pode?

— Não, meus irmãos precisam de mim... e dele. Eu só quero que ele veja isso.

— Você diz isso a ele?

— Eu tenho medo de magoá-lo.

— Por que acha que faria isso?

— Ele faz tudo por mim, está sempre tentando me agradar. É tão assustador, porque as vezes eu sinto que não sou o suficiente.

— É normal que você se sinta assim. — Flynn diz me encarando. — Pelas coisas que você me contou sobre a sua mãe, é normal que você não se sinta o suficiente, mas o amor não busca a perfeição.

— Não?

— Claro que não, querida. — Flynn sorri e se ajeita na cadeira. — O amor é extremamente confuso, para você se torna mais difícil, você está aprendendo sobre ele só agora. As pessoas aprendem a lidar desde pequenos, normalmente, nós podemos sentir amor já no ventre, mas com você foi diferente.

Suspiro e torço meus dedos nervosamente enquanto o ouço falar tudo.

— Você vai entender que, não pode entender o amor, ninguém pode. Nós apenas aprendemos a viver com ele.

— E todos os adicionais?

— Adicionais?

— Christian é ciumento. — Sussurro com pesar. — Eu tento fazer tanto para que ele não sinta ciúmes, não há motivos.

— Você poderia dizer isso a ele.

— Eu digo.

— E o que há de errado?

— Eu sinto que Christian está me deixando fraca.

Uma pequena lágrima solitária escorre pelo meu rosto e pinga na minha mão me faz suspirar baixinho.

— Eu me sinto tão dependente dele. Eu sinto falta dele quando ele está trabalhando, me sinto fraca quando ele não está por perto.

— Você sente medo, Anastásia?

— Sim.

A comportar se abre as lágrimas começam a cair pingando nas minhas mãos, mas eu não consigo encarar Flynn. Eu sinto muito medo por Christian, que ele me deixe, que em algum momento eu não seja mais suficiente, que eu não consiga dizer tudo o que ele precisa ouvir.

— Por que você sente medo?

— Eu... nunca senti medo antes. — Sussurro. — Mas agora, eu ando sempre com medo, medo que ele me deixe.

— Você acha que ele faria isso?

— Às vezes eu acho que sim... outras vezes eu só não sei.

— O que você costuma fazer quando ele não está por perto?

— Eu não tenho muito o que fazer.

— Eu acho que você está ficando muito dependente do Christian. — Flynn murmura e posso notar sua preocupação. — Ele é a primeira pessoa que te oferece amor e cuidados dessa forma, então você está com medo que isso acabe em algum momento. Seu subconsciente sabe que você precisa de cuidados, então ele está usando isso para te prender a Christian de uma forma que não deveria acontecer.

— O que eu devo fazer?

— Na minha opinião, você deve tentar se desapegar um pouco, em um ponto que te deixe confortável. O que você faz durante o dia?

— Na parte da manhã eu cuido das crianças, ajudo elas a se arrumarem para o colégio. Depois que elas vão eu estudo por algumas horas e passo o resto do tempo com Celi... esperando Christian chegar.

— Ok. — Ele anota algo em seu Ipad. — Eu posso sugerir que você tente encontrar algo para fazer, um trabalho voluntário, um emprego ou qualquer outra coisa que vá ocupar sua mente. Você anda recebendo muitas informações, são sentimentos novos e você está armazenando tudo de uma vez. Encontrar algo que te distraia vai fazer com que você ocupe a mente com outras coisas, assim, você poderá ir pensando nisso aos poucos.

— E se não for o suficiente?

— Bem, você pode fazer algo que te ajude a acalmar todos os novos sentimentos. Dançar, aprender box, algo um pouco agressivo que ajude você a descontar a sua frustração. Você não parece querer conversar abertamente sobre seus sentimentos com outra pessoa. Eu também sugiro que nós marquemos algumas sessões durante algum tempo, assim você pode compreender melhor tudo o que está sentindo.

— Está bem.

— Nosso tempo acabou. — Flynn encara seu relógio de pulso depois me encara. — Vejo você em breve, mande lembranças ao Christian, certo?

— Certo.

— Boa noite.

— Boa noite.

Levanto-me e saio da sala tentando entender tudo o que ele me disse, mas tudo é tão confuso, tão difícil de aceitar. Eu passei a maior parte da minha vida aprendendo coisas que não eram certas e agora, tenho que aprender tudo isso. Como amar, como aceitar o amor, como lidar com as pessoas. É tão assustador.

Caminho até a recepção e Sawyer se levanta – ele trabalha para Christian agora – lhe encaro e mordo o lábio inferior nervosamente. Eu queria poder sair sozinha às vezes, é sufocante sempre estar com alguém, eu sinto que não tenho mais privacidade.

— Vamos, Srta. Steele?

— Claro. — Digo encolhendo os ombros.

Sigo para fora do consultório com Sawyer e sorrio ao sentir o ar gelado da noite bater no meu rosto com cuidado, nós seguimos para o carro e ele abre a porta para que eu possa entrar. Entro e me aconchego no banco, Sawyer fecha a porta e entra também, logo estamos andando pelas ruas de Seattle.

Fico perdida em pensamentos até chegarmos em casa, espero até que Sawyer abra a porta e desço encaminhando-me para o elevador. O segurança sobe ao meu lado em total silêncio e por alguns segundos acho que preferia o Sawyer de antes, quando ele não era meu segurança.

Sawyer segue para a ala dos funcionários e eu caminho pela casa escura, está tudo muito silencioso.

— Olá? — Murmuro enquanto tiro meus sapatos.

Deixo-os perto da porta e caminho pela sala com preocupação. Subo as escadas e sorrio ao entrar no quarto de Lilly e pegá-la dormindo tranquilamente, aproximo-me e ajeito-o na cama lhe cobrindo, sento-me e as lágrimas começam a cair.

— Eu queria poder ser tão forte. — Sussurro. — Queria poder ser melhor para você.

Acaricio seu rosto e me levanto, deixo-a dormindo e vou ver os outros que também estão dormindo de forma profunda. Volto ao andar de baixo e caminho em direção ao quarto de Christian, mas ele não está. Suspiro frustrada imaginando que ele tenha ficado até mais tarde na empresa, mas começo a ouvir sua voz.

Caminho em direção a porta do escritório e ouço conversar, mas ele não está sozinho.

— Ok! — Alguém exclama e reconheço a voz de Grace. — Então você simplesmente está com uma garota de 17 anos?

— Mãe! Por favor, eu não quero discutir sobre o meu relacionamento com Anastásia.

— Christian! Coloca na sua cabeça que você só tem 24 anos, e você está estragando sua vida por causa de uma garota e seus irmãos.

— Eu a amo, mãe!

— Ama? Ama mesmo? E o que você sabe sobre o passado dela? Você ao menos sabe qual é o nome dela?

As lágrimas começam a escorrer pelo rosto.

Eu estou... estragando a vida dele?

Novamente sou tomada pelo sentimento de fragilidade e a minha única vontade é correr para os braços de Christian, mas...

— Está vendo? Você não está pensando! Você pode estar se colocando em risco só por causa de uma garota bonita!

— Ela é muito mais que uma garota bonita, pode ter certeza!

— Você está sendo ridículo e imaturo! Eu não consigo entender, eu pensei que ela passaria um tempo aqui, mas isso? Você está deixando sua vida de lado por ela, por aquelas crianças, a preço de que? Ela ama você ou está aqui por causa do seu dinheiro?

Fecho meus olhos e dou alguns passos para trás sentindo tudo doer dentro de mim. Não... eu jamais ficaria aqui por causa do seu dinheiro, mas... eu não sei se o amo. Volto a sala e olho em volta confusa, sem saber o que fazer, eu só quero sair daqui.

Corro até o criado-mudo e abro a primeira gaveta encarando as chaves dos carros, pego a primeira e corro para o elevador, enquanto as portas se fecham eu só desejo que toda a dor passe, que eu não sinta nada disso. Eu estou sendo tão fraca, tão... sonsa!

Saio do elevador e vou até o carro de Christian e entro sem pensar duas vezes. Isso tudo está me matando, a mãe de Christian só disse a verdade, eu não tenho o direito de estragar a vida de Christian assim. Eu nunca deveria ter aceitado isso.

Meus olhos estão embaçados pela névoa de lágrimas que se forma constantemente, mas eu continuo dirigindo, fugindo disso tudo. Eu acreditei por tanto tempo que era forte, mas eu não sei mais quem eu sou ou se tenho alguma força.

Dirijo por algum tempo tentando entender essa dor horrível, essa saudade que estou sentindo. Quando dou por mim, estou parada em frente a uma casa completamente queimada e as lágrimas se tornam mais fortes. Eu sinto falta de Maggie. Ela me compreendia, mesmo que nós brigássemos as vezes, ela entendia toda a minha confusão e ela não exigia nada de mim, ela sempre me aceitou assim. E eu fui tão tola, eu passei tanto tempo fugindo dela... e agora ela se foi.

Desço do carro e caminho em direção a casa... minha casa. Eu sinto falta daqui, sinto falta dos momentos que passei aqui. Empurro a porta com cuidado e olho em volta... tudo está tão destruído, tudo o que nós vivemos aqui se foi. As coisas estão no mesmo lugar, nada foi mexido, mas agora são apenas coisas velhas e queimadas.

Caminho em direção ao sofá, mas paro quando piso em algo, abaixo-me e vejo que é o medalhão de Maggie, ele está inteiro. Pego-o e o limpo antes de trazê-lo para perto do meu peito.

— Eu sinto muito, Maggie. — Sussurro encarando o medalhão. — Eu não queria que você tivesse morrido, minha mãe fez isso, é a minha culpa. Você morreu por mim causa, mas eu sinto tanto a sua falta.

Levanto-me com cuidado e olho tudo em volta.

Eu queria que fosse mentira. Queria poder acordar a qualquer hora e ver que nada disso realmente aconteceu, então, eu estaria em casa e nada, absolutamente nada, poderia me fazer chorar.