A Menina da Lua
7 ➷ Confie em Mim ➷
Notas iniciais
Respiro fundo e lhe encaro. Eu preciso dizer... só assim vou conseguir que elas me ajudem.
Certo... está na hora de dizer...
— Eu quero que vocês confiem em mim. — Sussurro e elas me encaram atentas. — Eu estou em um programa de proteção a testemunhas. Há quatro anos eu moro com Maggie e tive que trocar de nome por causa da minha mãe. É tudo o que eu posso dizer. Esse policial provavelmente já sabe disso, se eu for embora eu nunca mais vou ver vocês e se meu pai vier, ele vai me expor demais e minha mãe vai me encontrar mais rápido do que vocês pensam. Eu preciso ir, preciso achar meu pai. Se eu o encontrar eu vou poder voltar e não vou deixar as crianças sozinhas.
Vitória e Mia me encaram boquiabertas e eu imagino que estou assustando-as, mas essa é a verdade. Eu não quero ir, não quero ter de mudar tudo mais uma vez, ter que ser outra pessoa, ficar em outra casa. Eu não aguentaria isso, não aguentaria saber que meus irmãos iram ficar sozinhos. Isso é demais.
Mia solta um logo suspiro e corre até a cama começam a me ajudar, o transe de Vitória dura mais alguns segundos, mas logo ela vem nos ajudar.
— Lilly, acorda. — Digo chacoalhando minha irmã e ela abre os olhos assustada voltando a chorar em segundos. — Olha, nós temos que ir.
— Ir? Aonde?
— Nós vamos encontrar o papai. — Digo e ela me olha preocupada. — Mas...
— Não importa? Ok? Nós precisamos ir agora.
Abaixo na frente de Lilly e calço suas botas, ela desce da cama e começa a fechar seu casaco enquanto pego Celi e as meninas pegam os gêmeos.
— Mia, você fica e distraí eles, eu vou ir com a Ana. — Vitória diz firme.
— Mas, Vih...
— Por favor, a Ana precisa da gente agora. — Vitória diz e Mia balança a cabeça.
Encaro confusa a cena, mas não digo nada. Entrego Celi a Vitória e seguro firme a mão dos gêmeos. Mia se aproxima chorosa e nos abraça antes de sair do quarto na nossa frente para distrair Elliot. Vitória me olha nervosamente e solta um longo suspiro.
— Você sabe que Christian irá atrás de você. — Sussurro lhe encarando.
— Sei, por isso eu estou indo, se a gente não achar seu pai, meu irmão vai nos ajudar, ele é a melhor pessoa que eu conheço.
Respiro fundo dessa vez e prefiro não dizer mais nada, seguro firmemente a mão dos gêmeos e Lilly vai dar a mão para Vitória. Ficamos no topo da escada esperando por Mia, ela aparece na ponta e faz um gesto para descermos. Ajudo os gêmeos a desceram e logo estamos no andar debaixo.
Temos que esperar alguns minutos atrás da escada então corremos para o elevador. Mia nos olha apreensiva enquanto as portas se fecham. Eu realmente espero que ela consiga segurar Elliot, pelo menos por alguns minutos.
Chego a garagem e corro para o carro de Vitória tomando a chave da sua mão. Coloco Lilly e os gêmeos no banco de trás e Vitória vai na frente com Celi. Entro no banco do motorista e nesse momento vejo Elliot e outro homem saírem correndo do elevador.
Coloco a chave na ignição e acelero o carro fazendo os pneus cantarem no chão, isso faz Celi começar a chorar e enquanto Vitória tenta acalmá-la eu saio correndo com o carro deixando Elliot para trás, mas posso ver ele correr para pegar seu carro.
Acelero pelas ruas de Seattle e acho que estou assustando Vitória, mas se eu disser aonde aprendi a dirigi e o porquê disso, aí que vou assustá-la mais.
— Ah, meu Deus! — Vitória diz e eu lhe encaro. — Você viu isso?
— O que? — Pergunto confusa e ela se vira para trás.
— Era o carro do Christian.
— Merda. — Sussurro trocando de macha e piso fundo no acelerado. — Ele não pode vir atrás da gente agora.
— Ana, você está me deixando com medo.
— Você não precisa ficar com medo.
— Você é assustadora quando quer.
Respiro fundo e encaro Vitória, mas eu não posso acalmá-la agora. Eu preciso despistar Elliot, e agora Christian. Se um Grey era ruim, ter atrás de mim dois deles torna as coisas ainda pior. Eu poderia deixar isso acontecer, deixar eles me pegarem, deixar que me levasse... então eu poderia encontrar a minha mãe, mas eu estava enganada, aquela não é a vida que eu quero. Agora que Maggie se foi eu entendo que o que nós tínhamos era uma vida agradável, e eu não percebi isso.
Ignoro as minhas lágrimas que já forma uma pequena nuvem em meus olhos, implorando para saírem, então acelero mais o carro e consigo deixar Elliot para trás, mas Christian ainda está atrás de mim.
Que raiva! Por que parece que ele sempre está me perseguindo.
— Ana, cuidado!
Percorro meus olhos pela estrada e vejo um carro parado no meio da ponte, provavelmente quebrado.
— Merda! — Grito antes de tentar desviar e o nosso carro começar a derrapar na estrada praticamente congelada. Olho apavorada para Vitória sabendo que não vou conseguir recuperar o controle, então vejo que ela não está com cinto. — Vitória... eu sinto muito.
— O que?
Curvo-me sobre ela e abro a sua porta lhe empurrando com Celi. Eu sei que ela vai cair na neve e isso me deixa mais tranquila.
Olho para trás enquanto o carro derrapa pela neve e numa tentativa idiota de frear o levo diretamente para fora da ponte quebrando a grade de proteção na batida. Sou jogada para frente e bato forte a cabeça no volante por não estar usando o cinto. O carro é jogado e eu aperto os meus olhos esperando o pior, mas então ficamos preso entre a ponte e o rio lá embaixo em um efeito gangorra.
Respiro fundo tentando não me mexer muito e olho para trás vendo Lilly e os gêmeos chorando de forma desesperada.
— Está tudo bem. — Sussurro tentando acalmá-los. — Vai ficar tudo bem, eu vou tirar vocês daqui.
— Ana... eu estou com medo. — Lilly sussurra me estendendo sua mão. Agarro-a e lhe encaro.
— Tudo bem, confie em mim, eu vou tirar você daqui.
— Ana! — Ouço Christian chamar.
— Por favor. — Grito. — Se você encostar no carro ele vai cair, Christian!
— Eu vou tirar vocês daí.
— Não seja idiota, você pode se machucar se fizer alguma besteira! — Grito tentando não começar a chorar.
— Confie em mim.
É tudo o que ele diz, mas como posso confiar em alguém que não conheço?
Respiro fundo e olho para os meus irmãos, a porta deles está emperrada e se alguém tentar abrir o carro pode cair. A chave está emperrada na ignição e eu não consigo desligar o carro.
Calma, Ana! Vamos, respire fundo, você consegue.
Eu preciso... arrumar um jeito de equilibrar meu peso com o dos meus irmãos. Se eu conseguir algo com o mesmo peso de Lilly e dos gêmeos, eu posso tirá-los do carro sem causar danos.
Curvo-me com cuidado e alcanço o celular de Vitória, disco o número de Christian e ele logo atende.
— Se você encostar no carro ele vai cair, ele está muito inclinado e tentar subir nele vai fazê-lo escorregar pela neve imediatamente. — Murmuro e ele suspira. — Eu preciso que você encontre algo com o mesmo peso das crianças, assim a gente pode equilibrar o peso e tirar eles.
— Mas e você?
— Vamos tirar eles, primeiro. — Digo e ouço-o suspirar. — Como as meninas estão?
— Estão bem, elas só se arranharam um pouco.
— Certo. — Respiro fundo e encaro meus irmãos. — Nós precisamos fazer algo.
— O que você tem em mente?
— Nós estamos em um efeito gangorra. Eu tenho 47.390kg, a Lilly tem 18.200kg, e isso sobra...
— 29.190kg. — Christian completa.
— Sim, é o peso exato para duas crianças de quase três anos. O meu peso está conciliado com o peso dos meus irmãos, é isso o que está nos mantendo aqui. Puxar o carro deixaria o motor encostado diretamente na neve, isso esquentaria rápido demais e o carro iria cair.
— Então puxar qualquer um daí cortaria o efeito gangorra e o carro cairia mais rápido. — Christian conclui.
— Sim, a chave está presa e isso mantendo o motor ligado, o que vai acabar superaquecendo o carro, de qualquer forma não temos muito tempo, então vocês não podem sair daqui.
— Certo, nós vamos dar um jeito.
— Eu tenho uns sacos no porta-malas. — Elliot diz. — Anastásia, nós podemos encher com neve até formar o peso das crianças.
— Mas como nós vamos saber se é o peso ideal? — Vitória é quem pergunta agora.
— Eu tenho uma balança no carro. — Alguém diz do outro lado, talvez seja a mãe de Christian.
— Por que você tem uma balança no carro, mamãe? — Vitória pergunta.
— Vamos deixar a conversa de lado. — Christian diz firme. — Vocês vão encher os sacos, eu vou descer, o resgate não vai chegar a tempo com as estradas bloqueadas e nós temos que salvá-los.
— Christian. — Sussurro. — Tome cuidado, ok?
— Ok.
Desligo o celular o coloco de volta no lugar com cuidado para não mexer muito o carro. O frio está nos ajudando, e eu espero que aumente mais, assim a neve não vai derreter tão rápido e isso nos daria um tempo de vantagem suficiente para tirar as crianças do carro.
Respiro fundo e olho para o lado vendo Christian descer. Ele está usando uma calça de moletom, All Star e apenas uma camisa de mangas. Christian me encara e eu percebo seu nervosismo, respiro fundo algumas vezes e viro para trás encarando as crianças.
— Lilly. — Sussurro e ela me encara. — Você confia em mim?
— Ana... — Sussurra assustada.
— Eu sei que eu sou uma chata com você, e eu vivo te fazendo chorar, mas eu não vou deixar você cair, tudo bem?
— Tudo bem, Ana, eu confio em você. — Diz chorosa.
— Olha, quando eu abrir o vidro, o Christian vai te dar uma corda, eu quero que você amarre ela no Nick, bem apertado.
— Mas eu não sei fazer nó, Ana.
— Você sabe, você consegue porque você é muito esperta, Lilly. Eu acredito em você.
— Eu... eu... eu vou tentar.
— Certo, quando ele puxar o Nick você vai puxar o saco para dentro pela janela aí do seu lado, ok?
— Ana... eu estou com medo.
— Eu sei, sei que você está, eu também estou, mas nós precisamos fazer isso juntas, ok?
— Ok...
Respiro fundo mais uma vez e clico no botão abrindo a janela do carro. Encaro Christian e depois a minha irmã. Eu preciso que as crianças fiquem bem, não importa se eu não sair daqui; eu preciso que eles fiquem à salvos não importa o que aconteça comigo.
— Ana. — Lilly chama e eu me viro vendo Christian passar a corda para ela. — Você pode cantar aquela música para mim?
— Música?
— Aquela que você canta quando está feliz.
— Posso. — Sussurro deixando algumas lágrimas caírem. — Eu posso.
Respiro fundo tomando coragem e começo a cantar Who You Are. Automaticamente as lágrimas começam a cair pelo meu rosto, assim como pelo rosto de Lilly. Isso é a minha culpa, ela acabou de perder Maggie e agora está aqui. Se ela morrer eu nunca vou me perdoar por isso.
Encaro-a fazendo primeiro nó e isso me encoraja a continuar cantando. Logo Nick está preso na corda e eu vejo Elliot descendo um saco grande amarrado em uma corda pela janela ao lado de Lilly.
— Isso, Lilly, você conseguiu. — Digo e ela me olha.
— Não para de cantar, não para. — Implora com pavor.
— Está bem. — Sussurro voltando a cantar.
Elliot aproxima o saco com neve para a janela e Lilly fecha os olhos, nem eu consigo ver isso. Aperto meus olhos e tudo o que sinto é o carro balançar um pouco, mas logo se estabilizar. Abro os olhos e vejo Lilly apavorada segurando o saco com neve e Nick já não está mais aqui.
— Você conseguiu. — Sussurro sorrindo. — Conseguiu.
— Peguei ele. — Alguém grita e meu peito se enche de alívio.
Encaro Christian e seus olhos brilham por algum momento enquanto ele me olha, mas ignoro isso e encaro Lilly que agora está marrando Alex firmemente enquanto eu continuo a cantar. O carro está tremendo um pouco, mas o efeito gangorra ainda é mantido.
Fico encarando Elliot descer outro saco com neve, Lilly o segura ao mesmo tempo que em que Christian levanta Alex, então eles trocam rapidamente e eu prendo a respiração quando o carrego escorrega um pouco.
— Nós temos um problema, Christian. — Elliot grita. — Acho que não vamos conseguir conciliar o peso da Lilly. A neve está derretendo mais rápido aqui em cima.
— Ana... — Lilly sussurra com desespero.
— Tudo bem, está tudo bem. — Digo forçando um sorriso. — Eu quero que você solte seu cinto.
— Ana, não.
— Por favor, confie em mim. Você vai tirar seu cinto e segurar na mão do Christian, ok?
— Você vai cair, Ana! — Christian diz firme.
— Você precisa tirá-la daqui. — Sussurro encarando-lhe. — Por favor, Christian.
— Eu não vou deixar você morrer, garota! — Diz firme.
— Eu não vou morrer. Acredite em mim. Apenas tire ela.
— Ana...
— Por favor! — Grito quando o carro escorrega um pouco mais. — A neve vai derreter e a água vai empurrar mais o carro. Você tem que tirá-la!
— Ana, eu estou com medo. — Lilly sussurra soluçando.
— Lilly, só tira o cinto.
— Eu não posso te perder, Ana! Eu preciso de você.
— Eu... — Aperto meus olhos e sinto as lágrimas escorrendo. — Nós vamos ficar bem, eu vou logo atrás de você.
— Você promete, Ana? Promete para mim?
— Eu prometo, Lilly.
Lilly balança a cabeça chorosa e tira seu cinto começando a se arrastar para a janela, então novamente o carro escorrega se inclinando mais em direção ao rio. Christian rapidamente agarra Lilly pelo braço puxando-a para fora, então eu sinto o carro escorregar por completo.
Tudo o que eu vejo é o rio lá embaixo e posso ouvir o grito de Lilly.
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