A Menina da Lua
11 ➷ Coisas Que Amo Em Você ➷
Notas iniciais
Encaro Lilly sem ter certeza do que eu acabei de ouvir... não pode ser real. Não pode!
Lilly me ama? Me ama depois de tudo o que eu fiz? Depois de ser tão má com ela desde que a conheci, ela me ama? Pela primeira vez na vida... alguém diz que me ama, e é a pessoa que eu mais desprezei, que mais magoei... e ela me ama.
— Você me ama? — Pergunto tentando respirar normalmente e Lilly balança a cabeça.
— Você parece surpresa, Anastásia. — Flynn murmura. — Tem a ver com programa de proteção?
— Sim. — Sussurro olhando para ele. — Quando eu cheguei a casa de Maggie, Lilly já tinha um ano..., mas eu nunca fui próxima a ela, pelo contrário, nós sempre estivemos tão distantes.
— Mas ela parece te admirar.
Volto a encarar Lilly e sinto uma vontade imensa de abraçá-la, mas eu não consigo, eu estou congelada no meu lugar com o seu ‘eu te amo’ flutuando na minha cabeça.
— Lilly, você pode dizer o que gosta na Anastásia?
— Biscoitos. — Lilly sussurra me arrancando um sorriso. — Eu não posso comer doces, e ela aprendeu a fazer biscoitos sem açúcar para mim.
— Isso é verdade, Anastásia?
— Sim. Eu também não podia comer biscoitos quando era mais nova, mas ninguém fez algo especial por mim.
— Entendo... Lilly, mais alguma coisa?
— Eu amo quando ela afasta os monstros. Mesmo que ela não goste de mim, quando eu tenho pesadelos ela diz que vai ficar tudo bem.
— Isso não é verdade, Lilly. Eu gosto de você, eu estou feliz por sermos irmãs. Eu só não sei demonstrar, mas isso não quer dizer que eu te odeie.
— Você disse isso. — Lilly sussurra.
— Eu estava errada, eu sinto muito.
— Christian, Lilly, por que vocês não me deixam ter uma conversa com a Anastásia por alguns minutos?
— Vocês podem ir até o escritório. — Christian diz.
Ele parece confuso, atordoado enquanto encara Lilly e me encara. Eu me sinto um pouco culpada, acho que ele jamais imaginou como fosse a nossa relação, nossa relação de verdade.
— Vamos, Anastásia?
— Claro.
Levanto-me ainda encarando Lilly e sigo com Flynn até o escritório de Christian. Ele fecha a porta quando entramos, puxa uma cadeira para se sentar e eu vou me sentar no sofá, ainda sem conseguir acreditar que o que eu ouvi realmente foi dito. Lilly me ama.
— Você parece surpresa.
— É a primeira vez que alguém diz que me ama. Eu nunca soube qual era a sensação de ouvir isso. — Digo deixando uma lágrima rolar. — Eu nunca esperei que pudesse ouvir isso de Lilly.
— Seus pais não te diziam isso?
— Eu conheci meu pai quando tinha 13 anos. Então... ele me deixou com Maggie, a mulher dele, ele vinha de vez em quando, mas nós não somos próximos. Maggie nunca disse também, acho que ela estava tentando respeitar meus limites.
— E sua mãe?
— Minha mãe...
— Sim, ela nunca disse que te amava?
— Mamãe dizia que o amor é fraqueza. — Sussurro e vejo a surpresa de Flynn. — Para fazer o que a gente fazia, nós não poderíamos amar ninguém, nada... eu cometi o erro de amar, duas vezes, um furão e um amigo... ela tirou isso de mim, então eu entendi que o amor realmente era fraqueza.
— Isso não é verdade, o amor não é fraco.
— Ele é... você sofre pelo amor. Para você amar, você tem que entender que não há apenas momentos bons, você vai chorar tanto quanto sorrir, vai sofrer tanto quanto ser feliz... e você tem que aprender a conciliar as duas coisas. Se você não ama, não há confusão, você não sente, não precisa tentar decidir o que escolher na hora que tiver que tomar uma atitude.
— Entendo... — Flynn murmura anotando algo em seu Ipad. — Como era sua relação com a sua mãe? Até quantos anos ela te amamentou?
— Mamãe não me amamentou. — Sussurro novamente pegando-o de surpresa. — Nossa conexão já era forte, como ela dizia, não poderíamos ter algo mais forte. A amamentação causaria isso. Ela não acariciava a barriga quando eu estava lá, não conversava comigo... ela estava me treinando. Se eu amasse minha mãe ela seria o meu ponto fraco, e eu seria o seu.
— Você acha que é por isso que trata Lilly assim?
— Eu fiz ela chorar, mais de uma vez. Na verdade, eu me sentia feliz fazendo ela sofrer. — Confesso com pesar.
— Por quê?
— Porque foi isso que eu aprendi. Mamãe ensinou que era certo fazer as pessoas terem medo de você, isso te dá poder sobre elas. — As lágrimas estão caindo pelo meu rosto de forma incontrolável agora. — Ela me ensinou que quanto mais medo tivessem de você, mais poder você terá sobre as pessoas.
— Você ainda se sente bem vendo Lilly chorar?
— Não. Eu acho que minha mãe estava errada. Quando eu conheci meu pai, ele me contou que tudo o que eu fazia com ela era errado.
— Você não sabia?
— Não. Eu não tive amor... o certo era fazer as pessoas sofrerem, quanto mais melhor... a vida que a gente vivia era certa. Não era certo amar. Dar carinho. Ter um bichinho de estimação. Fazer amigos. Ter família.
— Então você conheceu seu pai?
— Sim... ele queria prender a minha mãe e eu não sabia quem ele era... o conheci sem querer. Então ele descobriu que eu era a filha dele, e ele me disse tudo. Tudo aquilo era errado. Eu fui enganada, a minha vida toda eu fui enganada. Mas eu não consegui acreditar no meu pai, acreditar que isso é certo e aquelas coisas erradas, mas agora... quando eu vejo a Lilly chorar, pela primeira vez eu duvido de cada palavra que minha me disse nos treze anos que estive ao lado dela.
— Então, você trata Lilly assim porque ela tem o que você não teve. Mas... agora que você tem que cuidar dela, você entende que isso não é certo.
— Sim. — Sussurro. — Por que isso parece errado agora?
— Porque você está entendendo pela primeira vez o que é certo, Anastásia. Mesmo você tendo ficado com Maggie esses anos, eu acho que você ainda está confusa, acho que você não tem uma definição do que é certo e errado. Você é boa, porque você vê as pessoas a sua volta sendo boas, mas você pode ser má as vezes, porque é o que o seu passado reflete em você, o que a sua mãe reflete.
— Então eu vou continuar agindo assim?
— Eu creio que não.
— Então?
— Eu acho que você está fazendo suas escolhas, seu subconsciente está. Você está aprendendo o que é o amor, Anastásia. Sua irmã está te mostrando isso e uma hora, você vai entender que o amor não é uma fraqueza e vai perceber que não pode viver sem ele.
— Você acha?
— Sim, eu acho. Eu também acho que você deveria ficar mais perto de Lilly. Dos seus outros irmãos, nada melhor do que aprender com uma criança, coisas que você não teve quando era uma. Quando você entender o que é o amor, você vai perceber que tudo o que você fez antes, não seria tão ruim quanto o que você pode fazer por alguém que você ama.
— Isso parece assustador.
— O amor é, mas você não pode fugir dele. — Flynn diz se levantando. — Eu preciso ir, e mais uma coisa.
— O que?
— Passe a elogiar seus irmãos, não precisa dizer alto, faça na sua mente. Diga para você mesmas detalhes que você gosta neles, uma hora, você trocará o gostar por amar e vai perceber que sabe o que é o amor.
Flynn sorri e sai do escritório deixando-me ainda mais confusa do que quando eu entrei aqui.
Amar? Será que eu sou capaz? Eu nunca pude enxergar o que é o amor, mas agora entendo que Lilly me abraça e sorri quando fazemos coisas juntas, mesmo depois de eu ter sido má com ela, porque ela me ama.
Então isso é o amor?
É quando alguém te machuca, mas mesmo assim você supera a sua dor e continua ao lado daquela pessoa?
Talvez amar seja mais difícil do que Flynn disse.
— Posso?
Levanto a cabeça assustada e encaro Christian parado na porta do escritório, olhando-me de forma curiosa. Balanço a cabeça e ele se aproxima tomando a cadeira onde Flynn estava.
— Como foi?
— Confuso.
— O que ele disse?
— Flynn acha que eu não sei a definição do que é certo e errado, porque eu não sei amar, mas que eu vou aprender isso passando mais tempo com meus irmãos.
— Bem, isso é interessante, você realmente é uma garota confusa.
— Você está me zoando, não está?
— Sim. — Christian diz rindo e eu deixo um sorriso escapar. — Você quer saber agora?
— O que?
— Por que eu te trouxe aqui.
— Talvez...
— Eu acho que posso estar apaixonado por você.
Um sorriso de incredulidade escapa dos meus lábios e eu encaro Christian, mas então eu sinto algo imenso me atravessar, não apenas o coração, mas todo o corpo. Minhas mãos começam a suar, meus estomago está frio como se várias borboletas batessem suas asas dentro dele causando uma pequena ventania. Minha linha de raciocínio se tornou um emaranhado de linhas e eu sinto todo o meu corpo frágil enquanto meu cérebro testa várias e várias vezes a suas palavras.
Christian apaixonado por mim.
O monstro que Vitória e Mia sempre falaram está... apaixonado por mim. Nós sequer transamos, ele passou a semana cuidando de mim e agora... ele diz estar apaixonado. Ele não precisou me tocar para isso. Ele apenas... se apaixonou por quem eu sou?
— Você está falando sério? — Pergunto e ele balança a cabeça afirmando. — Meu Deus. Você ficou maluco.
— Não. — Christian sai da cadeira e ajoelha em frente ao sofá segurando minhas mãos. — Isso pode dar certo, nós podemos.
— Christian, eu não sou a única que não sabe lidar com o amor...
— Eu não me importo, nós podemos aprender juntos. Eu posso fazer você me amar.
— Você acha que eu sou capaz disso? De amar você... eu nem conheço você.
— Isso não importa, nós vamos nos conhecer, teremos tempo. Eu não posso mais deixar você partir.
— Eu não quero ir. — Confesso encarando seu olhar cinzento, toco sua mandíbula e sua barba pinica minha mão. — Eu... quero ficar aqui, com você, e até com aquele seu furão esquisito.
— Isso significa que Vitória pode trazê-lo de volta?
Reviro os olhos e deixo um sorriso escapar.
Encaro Christian com cuidado. Seu nariz fino, sua mandíbula quadrada. Seus cabelos cor de cobre, seu sorriso tão doce, mas principalmente seus olhos, a porta de toda a sua alma. Pela segundo vez alguém está apaixonado por mim, mas agora mamãe não está aqui, e não pode tirar isso de mim.
Eu quero isso... quero ver o que o amor é, eu quero estar ao lado de Christian. Depois de Maggie ele é a única coisa que tem dado certo. Ele é tudo o que eu preciso agora. Nós podemos aprender juntos. Talvez, seja Christian a chave que vai abrir o baú e liberar todos os demônios... para longe de mim.
— Você é uma ótima pessoa. — Sussurro acariciando seu rosto. — Acho que podemos aprender juntos. E você pode trazer seu furão novamente, eu posso tentar conviver com ele.
Um sorriso grande se forma em seus lábios e ele se levanta puxando-me para um beijo demorado, quando me afasto ele ainda está sorrindo, é uma das coisas mais bonitas que já vi. Um sorriso... de alguém apaixonado por mim.
➷
Christian já foi dormir há algum tempo, mas eu não consegui, eu estou sentada no sofá com Lilly em meus braços. Ela está tão acordada quanto eu, mas não estamos conversando, estamos apenas vendo desenhos bobos na TV. Algo que eu gosto de fazer com ela.
Nós deveríamos dormir, já passa das dez e teremos que voltar a escola amanhã.
— Você está feliz que irá ver seus amigos?
— Eu não sei... eu queria poder continuar em casa, com você.
— Ei, eu vou estar bem aqui quando você chegar, nós vamos ficar juntas todos os dias.
— Você promete, Ana? Promete que estará aqui todos os dias quando eu chegar? — Lilly pergunta encarando meus olhos.
— É claro que sim, Lilly. Eu vou estar bem aqui, todos os dias, esperando você voltar da escola e quando você chegar, nós vamos fazer coisas juntas. Eu vou te dar banho, arrumar seus cabelos, te ajudar a escolher sua roupa...
— Eu amo você, Ana. — Lilly sussurra completamente sonolenta.
Sorrio e a aconchego mais em meus braços, parando de falar para observá-la dormir aos poucos.
— Boa noite, Lilly.
Aproximo meus lábios da sua testa e repouso um beijo com cuidado. Levanto-me e a levo para o andar de cima, colocando-a na cama com Celi, Nick e Alex. Ajeito a coberta sobre eles e sorrio mordendo o lábio com a ideia que estou tendo, mas depois do que Christian me disse, há algo que quero fazer por ele.
Vou até seu quarto e empurro a porta. Ele está dormindo de bruços na cama, com um lençol meio enrolado em suas pernas. Christian está usando apenas uma cueca e a visão do seu corpo faz meu coração acelerar. Sorrio e fecho a porta, acendo a luz mais baixa do seu quarto e caminho até sua televisão ligando-a, coloco Crazy In Love para tocar e arranco minha roupa, ficando apenas de calcinha e sutiã na frente da sua cama.
Em alguns segundos ele está completamente acordado, me olhando boquiaberto.
— O que você está fazendo?
— Você queria uma dança. — Sussurro. — Eu vou dançar para você.
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