A Menina Morte
15 A loja da besta
Notas iniciais
A viajem a Nova York não demorou mais que quarenta minutos, mas pareceu uma eternidade. As Irmãs Cinzentas não paravam de discutir sobre a vez de quem ficar com o olho e quem iria dirigir o que me deu uma pequena e latejante dor de cabeça.
Passei insistentemente as mãos nos olhos para ter algo para fazer e tentar me distrair, mas não estava adiantando nada.
– Você está bem Akira? – Murmurou Nico em meu ouvido. Ele estava ao meu lado me olhando com certa apreensão. Apoiei minha cabeça em seu ombro e fechei os olhos.
– Eu apenas não aguento mais essas três discutindo. Elas poderiam calar a boca.
Mas meu comentário soou um pouco mais alto do que eu pretendia e ambas as três me encararam.
– Então você não nos suporta? – Disse Ira, a irmã sentada no meio.
– Você acha que pode dirigir melhor que nós? – Perguntou Tempestade, a da irmã da esquerda.
– Eu não...- Tentei justificar minha fala, mas fui interrompida.
– Acho melhor você ficar bem quietinha, ou lançarei você fora deste carro. – Disse Vespa, a última irmã, a da direita.
Encarei-as com um olhar mortal, mas depois me lembrei de que apenas uma delas podia me ver. Desviei o olhar e encarei Nico que estava rindo.
– Do que você está rindo?
– De você. Como é possível estressar três pessoas ao mesmo tempo? – Ele riu e lancei um olhar para ele. Ele parou de rir e limpou a garganta. – Bem, é estranho. Você normalmente cativa às pessoas, é um doce e tenta ser legal com todos. E o olhar que você lançou a elas, e a mim, como esta fazendo agora, é um olhar assassino. Se eu soubesse desse seu lado, eu não teria te beijado no píer.
– Você o que? Você está arrependido? – Olhei incrédula para ele. Não podia ser verdade! Podia? Eu o amava e agora ele iria para de me amar só porque lancei um olhar mortal? Talvez ele não fosse a pessoa certa...
– Claro que estou arrependido! – Ele me olhou e sorriu. – Eu deveria ter beijado você antes, mas eu tinha algumas duvidas. – O vi olhar de relance para Leo e depois me encarar novamente. Acho que minha expressão não estava do jeito que ele esperava. – O que? Não era esta resposta que você esperava?
– É... – Limpei a garganta e sacudi a cabeça – Desculpe, mas não. Quando você falou, eu... Eu... Eu achei que não me amasse mais e que estava arrependido.
– Eu? Arrependido? – Ele pegou uma mecha de meu cabelo e o colocou gentilmente atrás de minha orelha. – Eu te amo, e sempre vou amar. Você é a melhor coisa que já me aconteceu depois da morte de Bianca. Não vou desistir de você tão fácil assim.
– É bom mesmo não estar arrependido Di Angelo, porque se você machucasse a minha maninha, ou se um dia machucar, eu terei de te bater. – Leo olhou para nos e depois voltou a falar com Roedel.
– Ele disse maninha? – Indagou-se Nico.
– Sim. Não te contei? Bem, Leo disse que como não conquistou meu coração de um jeito, iria ter parte dele de outro modo. E assim viramos irmãos.
– Melhor assim. Não tenho mais que me preocupar com a concorrência. – Eu ri e ele me abraçou até a chegada na 720 Fifth Avenue.
– Nunca mais nos chame garota – Falou Vespa. A Carruagem da Danação sumiu instantes depois e eu dei de ombros.
E lá estávamos nós, em frente à loja que o cartão pertencia. Era uma loja de grife. Por que minha mãe iria ter um cartão de uma loja assim? Com certeza não era dela! Estávamos na pista certa.
– Acho que deveríamos falar com Quíron e mandar alguém buscar Roedel aqui em Nova York. Ele não participa da profecia e será mais seguro para ele no Acampamento. – O garoto tentou protestar, mas Nico terminou sua frase. – Roedel, nós provavelmente não voltaremos, você deve ir ou coisas piores irão acontecer.
– Até porque, não podemos arriscar mais uma vida. E só vamos entrar na loja ao anoitecer. — Murmurei e entrei em um beco ao lado da loja. – Vamos, deve haver água em algum lugar para mandarmos uma mensagem de Íris.
Assim nós quatro fomos à procura de um local onde tivesse luz e água. Achamos em um canto e eu peguei um drama e joguei.
– Oh Íris, deusa do Arco-Íris, aceite minha oferenda! Mostre-me o Acampamento Meio-Sangue, Quíron. – Murmurei e a imagem tremeluziu. Um corpo de cavalo apareceu na imagem. – Ah, olá Quíron!
– Olá Akira, algum problema? – Seu rosto apareceu na imagem e passou a nos encarar.
– Não, mas acabamos encontrando este semideus no caminho, e precisamos que alguém venha buscá-lo.
– Irei mandar um dos sátiros para buscá-lo. Obrigado pelo aviso. – Ele se virou e murmurou algo a um sátiro que saiu apressado de sua sala. – Ah, Akira. Sua amiga Harlow sente sua falta e disse que mandou um beijo. E seu irmão está cuidando da pequenina, não se preocupe. Nico, sua irmã falou que se você não voltar, é para lembrar que você foi o melhor irmão que ela já teve. E Leo, a Reyna disse que se você não voltar, bem, ela te caça no mundo inferior e te tortura pela eternidade. Acho que esses eram os avisos.
Leo se encolheu e passamos para Quíron a localização de onde estaríamos para buscar Roedel.
Passamos algumas horas olhando as lojas e depois fomos a um café comer algo. Uma hora depois um homem de um metro e meio apareceu mancando e nos encarou.
– Vocês que pediram um para levar um certo alguém para o Acampamento?
Concordamos com a cabeça e Roedel se juntou ao homenzinho.
– Foi bom conhecer vocês, e obrigado por me salvarem. Espero seriamente que vocês voltem para esse tal Acampamento. – Ele deu um meio sorriso e acenou.
– Foi bom conhecer você também. – Disse e acenei.
E assim Roedel se foi com o sátiro, que continuava a mancar para disfarçar que não era humano.
***
Ao anoitecer, as lojas foram fechadas e todos saírem da rua. Eu, Nico e Leo esgueiramo-nos até a porta dos fundos e a arrombamos. Não foi tão difícil, já que a maçaneta estava enferrujada e a porta era velha.
Não havia ninguém na loja. Estranho, não? Normalmente teria algum monstro para pegar semideuses desprevenidos. O silencio predominava no local e eu não gostava nem um pouco disso. Fomos até o escritório para ver se havia algo diferente lá.
Procuramos em toda papelada, reviramos as gavetas e procuramos nos armários. Nada. Absolutamente nada.
– Não há nada aqui – Disse Leo encostando-se a uma estante. – Acho que estamos no lugar errado.
E nesse momento a estante moveu-se um pouco para o lado. Mas como seria possível? Todas as estantes eram fixas! Ele moveu a estante e atrás dela apareceu uma porta. O que será que havia atrás da porta?
Leo abriu-a e um cheiro estranho surgiu no ar, mas mesmo assim Leo entrou na sala. Algum tempo depois ele voltou com algo na mão. Era um mapa.
– O cheiro lá dentro está horrível, mas tem mais algumas coisas lá. Eu vou lá buscar. – Ele disse e voltou novamente para a sala. Mas a porta, desta vez, se fechou.
– Leo? Leo, você quem fez isso? – Tentei abrir a porta, mas ela não cedia.
A única coisa que escutamos ele falar, antes de entrar em desespero, foi:
– É a Quimera!
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