A Menina Morte

16 Saudações e adeus.


Notas iniciais
Frase:"A morte, surda, caminha ao meu lado E eu não sei em que esquina ela vai me beijar Com que rosto ela virá? Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?" - Raul Seixas

Ao passar pela porta pela segunda vez ela se fechou. Tentei abri-la, mas ela não cedia. Escutava Akira gritar do outro lado da porta.

A sala estava escura, como na primeira vez em que entrei, o cheiro podre impregnava no local e não havia como ele sair já que a sala não possuía nenhuma janela. Era uma sala simples. Havia um armário em um dos cantos, algumas caixas empilhadas no outro lado da sala e uma mesa no centro.

Foi então que vi perto das caixas algum movimento. Fui me aproximando vagarosamente do local e as caixas caíram para frente.

O primeiro vislumbre que tive foi de dois grandes olhos negros e brilhantes me encarando. Eles foram se aproximando e pude perceber o que era.

Era um monstro imenso e horripilante. Tinha cabeça de leão, com a juba untada de sangue, o corpo e os cascos de um bode gigante e uma serpente no lugar da cauda, losangos de três metros de comprimento brotavam do traseiro peludo.

Reconheci rapidamente o monstro: era a Quimera. Que bom que prestei atenção em algumas coisas no Acampamento. Pelo menos sabia que a Quimera lançava fogo pela boca e pelas narinas, mas ela não sabia de uma coisa: eu não podia pegar fogo, eu produzia fogo.

A única coisa que consegui pronunciar foi “É a Quimera” e escutar gritos e protestos do outro lado da porta. Eu teria de sair dessa sozinho, precisaria dar um jeito.

Olhando mais de perto percebi que em seu pescoço havia algo,uma coleira de falsos brilhantes e a placa, do tamanho de um prato, escrito: QUIMERA – RAIVOSA, HÁLITO DE FOGO, VENENOSA – SE ENCONTRADA, FAVOR LIGAR PARA O TÁTARO – RAMAL 954.

– Então você é de alguém? Como um animal de estimação? Achei que este posto era do Cérbero. – Olhei para a Quimera, mas como previsto ela não achou graça nenhuma na piada.

Ela começou a se aproximar mais e eu não reagi, fiquei parado no mesmo local. Ela me encarou e vi o fogo arder atrás de seus olhos. Não era eu quem ela esperava.

Como previsto, ela lançou fogo pela boca em minha direção, mas para a surpresa da mesma, eu estava inteiro e vivo depois que as chamas cessaram. Só minhas roupas que estavam chamuscadas e pareciam corroer gradativamente.

– Desculpe desapontá-la, mas sou a prova de fogo e consigo conjurá-lo seu quiser. – Lancei um sorriso para o monstro e ele pareceu mais raivoso. Será que ele entendia o que eu estava dizendo?

A Quimera avançou, os dentes de leão rangendo. Consegui pular para o lado e me esquivar da mordida. Parei ao lado da mesa esperando para ver o que iria acontecer. Precisava de algo para me defender, mas o que?

Procurei em meu cinto de ferramentas — Na superfície, ele parecia um cinto de ferramentas comum. Quando eu estava em batalha ou em outra situação perigosa, possuía o poder de puxar qualquer utensílio que desejar para fora. Tudo que eu tinha que fazer é pedir. Os meus pedidos deveriam ser limitados a pequenos objetos do cotidiano, pois o cinto é incapaz de produzir objetos mágicos. Mas ele possuía a capacidade de armazenar objetos que eu quisesse. — algo que pudesse me ajudar, talvez alguma arma. Mas precisava me concentrar, a falta de concentração poderia fazer com que o cinto não produzisse os objetos necessários.

Procurei mais um pouco e minha mão agarrou algo, o cabo de comprido e pontudo. Era uma das adagas que havia colocado ali, pois não cabia mais na bolsa. Segurei-a em minha mão direita e esperei o ataque.

A Quimera se movimentou mais depressa do que eu achava possível. Antes que eu pudesse erguer a adaga, ela abriu a boca, soltando um mau cheiro, e lançou uma coluna de chamas bem em cima de mim novamente. Será que ela era idiota? Não percebeu que eu não podia ser queimado?

Ela continuou a lançar as chamas por toda a sala. Percebi tarde de mais o que ela estava fazendo. A sala estava em chamas, tudo estava queimando e a fumaça era insuportável. Meus olhos começaram a arder e lacrimejar. O ar estava começando a ficar rarefeito, mais denso, mais poluído.

Precisava acabar com aquilo logo, ou não haveria mais ar para respirar. Golpeei rapidamente Quimera com minha adaga, mas não surtiu efeito nenhum em seu corpo.

Tentei me afastar dela, mas fui muito lento e havia me esquecido de sua cauda, a cobra. Essa veio em minha direção e raspou suas presas em meu ombro esquerdo e o veneno rapidamente começou a agir em meu corpo.

Uma dor passou pelo meu braço e percorreu meu corpo todo. Sentia minha pele queimar, meus órgãos gritarem. Era como se houvesse fogo em minhas veias. Sentia o corpo arder, a cabeça doer e os sentidos sumindo.

Eu não podia me entregar agora, precisava tentar. Mas como? Não conseguia cortar sua pele, como iria matá-la? Pensei um pouco e a ideia surgiu em minha cabeça.

Mas é claro, agora eu tinha uma chance. Eu não podia feri-la gravemente por fora, mas e por dentro?

Cambaleei até a frente de Quimera e aguardei ela abrir a boca para, novamente, lançar uma coluna de chamas sobre mim. Era minha única chance.

Avancei sobre ela e coloque minhas mãos dentro de sua boca. Cravei a adaga em seu céu da boca e descrevi um círculo com ela, assim decapitando sua cabeça de leão de dentro para fora.

Seu corpo tombou e joguei sua cabeça para longe, depois me aproximei cambaleante até a porta, onde caí de joelhos.

Coloquei minha mão na porta e sussurrei:

– Akira? Nico? – Esperei alguns instantes e a resposta veio.

– Leo? Você está bem? — Era Akira. A menina estava soluçando.

– Akira, me escute, por favor. – Parei um momento e como só escutei seus soluços continuei. – Eu não estou nada bem. Aquela maldita cobra me mordeu e o veneno já se espalhou. A sala esta toda em chamas e não há mais como respirar.

– Leo – Ela tentou abrir a porta. – Vamos tirar você daí. – Disse ela desesperadamente.

– Não Akira, essa porta não vai abrir. Só me escute. – Parei de falar e comecei a tossir. – E-eu não vou sobreviver. Não adianta tentarem, quando essa porta abrir já estarei morto. Quero que vocês saiam daqui e levem esse mapa. Continuem a missão.

– L-Leo, eu não posso! Não vou te deixar! – A garota começou a chorar desesperadamente. – Não vou te abandonar! Você vai voltar ao Acampamento quanto tudo isso acabar.

– Akira, isso não vai acontecer... Eu só quero que quando você chegar lá diga a Piper que ela era uma ótima amiga. – Parei para tentar respirar mais profundamente, mas o ar era muito denso, o que não ajudava. – Diga ao Jason para parar de desmaiar. E aos campistas que meu único lar foi o Acampamento.

– Leo, eu não direi isso. Você irá sobreviver e falar isso para eles. – Mas ignorei a garota e continuei.

– Nico... Bem, eu não gostava de você, mas aprendi a conviver. Você conseguiu aquilo que por um tempo eu achei que queria: o coração de Akira. Mas eu estava errado. Você quem a faz feliz, e se um dia não fizer, volto para puxar seu pé e te jogar no Tártaro. – Parei e forcei uma risada, que foi retribuída pelo garoto do outro lado da porta. – E Akira, o que eu posso dizer a você? Dizer que você é especial, perfeita e uma garota que me cativou é pouco. Dizer que te amo também é pouco.

– Eu também te amo Leo, mas não precisa dizer isso.

– É claro que preciso dizer isso, depois não terei outra oportunidade. Eu amei a sua companhia durante esse tempo, queria ajudar até o fim, mas meu papel eu já fiz em sua vida. Só peço que se lembre de mim como o garoto engraçado que vivia te incomodando. O menino magricela que conheceu seu pai, virou seu namorado para provocar o Di Angelo e que virou seu irmão. Não quero que se lembre de mim como o garoto que morreu. Só quero que se lembre do que de bom deixei, aquilo que marquei, e também como te amei.

– Eu irei me lembrar. Juro que vou. – Akira ainda chorava desesperadamente. – Leo você foi uma das únicas coisas boas que me ocorreu na vida, e mais uma vez a morte me rouba a felicidade. – Ficou um terrível silêncio depois desse comentário, até que tomei coragem e continuei.

– Akira, eu poderia pedir algo para você?

–C-Claro que pode. Qualquer coisa!

– Você pode dizer a Reyna... Pode dizer a ela... Diz para ela que eu sinceramente a amei, mas foi durante um tempo. Depois encontrei outra pessoa. Depois te conheci. Bom, e eu quero que você também vá ao bunker 9 e lá terá as instruções do que se fazer... É isso.

– Eu irei lá, irei falar com a Reyna e seguir as instruções.

– Bom, essa era nossa despedida. – Repirei fundo. – Nico, agora tire a Akira daqui. Sigam as pistas. Bom, adeus.

Escutei os protestos da garota e tive a impressão de que foi arrastada a força para fora da sala.

Só escutava o crepitar do fogo a minha volta e as batidas de meu coração. Deitei-me no chão e comecei a refletir. Não era o local que imaginei para morrer. Tinha planejado uma vida inteira pela frente, tinha meus sonhos a realizar. Eu nunca mais veria o rosto de ninguém. Nunca mais iria ver o Acampamento Meio-Sangue. Este era meu fim.

A dor estava insuportável, perderia meus sentidos logo e finalmente a morte iria me levar. A última coisa que fiz foi fechar os olhos e imaginar o Acampamento. Se fosse para morrer, que morresse vendo meu local favorito. E assim a escuridão tomou conta de tudo e tudo se acabou, esse era o fim.

Notas finais
Bom, não me matem por isso. Mas podem reclamar, me xingar, fazer macumba, o que vocês quiserem. Beijos, Maah!