A Marca do Dragão
4 Turbilhão de sensações.
Notas iniciais
O retorno para o local onde o torneio sucedia aparentou ser bem mais longo, ao contrário de quando o percorreram a procura da companheira “fugitiva”. Havia anoitecido a cerca de minutos e nem ao menos conseguiam ver o clarear das lâmpadas do pequeno festejo, que os moradores locais juntamente a guilda, costumavam fazer para disputas como aquelas.
Mantiveram um ritmo lento a medida que seguiam o trajeto em completo silêncio. As árvores ao redor cobertas pela escuridão tomavam formas espectrais, que somando ao zunir do vento adentrando o bosque criavam um ambiente aterrorizante para Wendy. Diferente dos outros, a imagem a incomodava.
— Depois de tudo que passou, como ainda consegue ter medo do escuro? – Charles inqueriu, notando pelo estado atual da parceira.
— Na-Não é nada d-disso, Charles! – Balbuciou. – É só que... – O canto de uma coruja a interrompeu, sobressaltando-a.
— Vai entender. – A gatinha revirou os olhos.
Wendy ignorou o comentário indiferente por conhecer bem sua pequena amiga albina, mudando sua atenção para a garota do lado direito. Lucy caminhava imersa em pensamentos, de tal maneira, que só para trazê-la de volta, a jovem de longos cabelos azuis gastaria bastante saliva a chamando, preferindo deixá-la como estava.
Lucy-san...
De esguelha, Natsu acompanhava as duas amigas atrás de si. Sua ficha ainda não tinha caído, ou simplesmente estava difícil de acreditar que a Luce estranha na verdade era a garotinha que marcara na infância. Como nunca percebeu isso antes? Sem dúvida era o mais desligado do grupo, da guilda inteira levando em consideração os demais. E agora seu desatento era visivelmente comprovado!
— Drogaaa! – Reclamou, bagunçando os cabelos já revoltos.
— Natsu enlouqueceu! – Happy debochou com as patas encobrindo a boca.
— Idiota! Se continuar assim as chamas consumirão os poucos neurônios que ainda lhe restam. – Despreocupado, o mago do gelo alertou. Com as mãos para trás como apoio para a cabeça, permaneceu olhando o mar de estrelas acima. – Deve ter algum jeito para desfazer esse selo...
— Não há! – A resposta foi ríspida quanto rápida.
— A Lucy tem razão. – Infelizmente Wendy teve que concordar. Mais adiante, Gray, Natsu, Happy e Erza paravam interessados no que a jovem começara. – A marca é permanente enquanto ambos tiverem vida.
— Está querendo nos dizer, que o dragão no punho da Lucy só desaparecerá se algo fatal acontecer com Natsu? – Indagou à titânia perplexa. A concordância veio logo em seguida.
— E o mesmo se aplica ao Natsu. Os dragon slayers não podem marcar, exceto uma pessoa por vez em caso de falecimento da atual escolhida. – Concluiu Wendy.
Erza suspirou, estupefata. – Mesmo tendo esse conhecimento, não cabe a nós decidimos aqui. – Olhou para frente, avistando, enfim, os feixes de luz por entre as frestas das árvores. – Vamos! A essa altura o mestre já deve ter voltado para guilda.
... ... ...
— O quê? – Pronunciou Makarov, incrédulo.
Após chegarem a Fairy Tail evitaram, no momento, explicações que fosse vir ocupá-los, rumando diretamente para uma das salas vagas. O velho mestre não se demorou quando o pedido para uma conversa em particular foi reproduzida pelos lábios de uma Mirajane preocupada.
— Por favor, Lucy... – Pediu Erza. Havia tomado a frente para explicar o que entendeu do caso.
A maga celestial se aproximou respirando fundo antes de estender o braço. O dragão vermelho continuava reluzente, pulsante e predominante sobre a pele alva do punho, e refletia nos olhos escancarados de Makarov.
Nunca cogitou que em algum momento fosse presenciar, apesar do tanto que já viveu e testemunhou, uma cena como aquela. Nos livros vagamente relatava o aspecto, resumiam-se em esclarecimentos característicos da origem e seus efeitos sobre o doador e possuidor. Entretanto, o principal informe era que não passava de relatos imprecisos, sem confirmação de existência... Até agora!
— Como aconteceu? – Perguntou sem saber para qual dos presentes na sala olhar.
— Eu me concentrei como Igneel havia me dito e beijei o local. – Retrucou apático, virando o rosto. – Isso faz tanto tempo.
Hihihi... Risos insinuosos da parte do moreno e do felino alado chegaram aos ouvidos do salamander.
— Do quê estão caçoando? – Rosnou, encabulado.
Tanto tempo! Makarov se ateve as ultimas palavras.
— E-E quanto tempo faz? – A voz saiu entrecortada, temendo pela resposta. Embora tudo lhe estivesse sendo complicado de aceitar.
— Antes de entrar para Fairy Tail.
O velho petrificou de boca aberta. A titânia precisou sacudi-lo para que tornasse, e ainda assim, chocado. O suor se formando na testa, expondo a preocupação.
Impossível! Uma grande quantidade de magia é necessária para criar esse tipo ligação através de uma marca. Somente um dragon slayer poderoso conseguiria tal façanha, os livros evidenciavam isso já nos primeiros capítulos. Encarou descrente o garoto. Como uma criança poderia contradizer tamanho conhecimento?
Recuperou-se, limpando a garganta ruidosamente. – Precisamos alertar os membros da guilda sobre o ocorrido.
— *Nanii...? – Gritaram se prolongando na ultima silaba.
— Mestre tem certeza? – Questionou Erza.
Balançando positivamente a cabeça, prosseguiu: – Temos mais dois dragon slayers de primeira linhagem, o Laxus da segunda, entre outros como Gildarts, Gray, Freed... que podem se constituir uma ameaça para Natsu.
— Uma ameaça? – Gray se antecipou confuso.
O rosado rebatia a confusão do amigo com os ombros encolhidos.
— Não sabemos exatamente até onde vai à veracidade das informações contidas nos livros a respeito dessa marca. No entanto, ler-se o zelo cego em manter a escolhida protegida e longe do que possa representar perigo. – Explicou.
Natsu ergueu uma sobrancelha alheio a conversa.
— O Natsu pode se voltar contra nós? – Triste, Happy fitou o companheiro.
— Puf! – Bufou fazendo pouco caso das palavras do superior. – E vocês vão acreditar no que um livro velho diz? – O sorriso maroto do rosado devolveu a alegria ao exceed azul, irritando o velho com seu descaso. – Até parece que vou deixar um selo me influenciar contra meus amigos. Não é, Happy?!
— *Aye! – O gato pulou concordando.
A comum atitude otimista do salamander amenizou a situação, fazendo-os esboçar alguns sorrisos.
— Foi pela reação que o Natsu poderia ter que naquele instante você hesitou, Wendy? – Erza indagou em voz baixa, numa conversa particular entre ambas.
— Quase! – Ponderou – Puro instinto também. – Respondeu embaraçada, voltando a observar o autor da animação de todos. Será tão simples, Natsu-san...
Espero que a repercussão desse assunto demore para chegar aos ouvidos do conselho tempo suficiente para pensar numa desculpa favorável. Nem quero imaginar o impacto que causará em toda Fiore... Por que tinha que acontecer justo com a Fairy Tail? Choramingou o mestre.
... ... ...
Lucy
— Como é bem vindo um demorado banho quente após toda a confusão. – Murmurei submergindo o corpo na água levemente cheirando a jasmim. – Não é mesmo Plue? – Segurei o mascote murcho, mentalizando a palavra gracinha pela aparência do espirito celestial.
O mestre Makarov foi direto ao ponto, revelando sem hesito o segredo que há anos vinha guardando no mais completo sigilo. Tsc! Se não fosse pelo almejo a vitória, nada teria mudado, afinal. Dou um suspiro exausto, diluindo no banho morno a irritação e o desapontamento comigo mesma. O lamento em nada ajudaria.
Mas, apesar de todo o esforço, a contragosto, os pensamentos retornavam pela enésima vez ao pronunciamento do velho perante uma boa quantidade de membros. Senti o constrangimento envolver a face como se estivesse vivenciando o fato novamente: Os rostos pasmos e surpresos em nossa direção, as interrogações devido ao curto resumo da história, a malícia mal contida...
Desço um pouco mais, fazendo bolhas na água. O calor do rosto se misturando a quentura do ambiente fechado. Devo chamar a Virgo para cavar um buraco profundo, pois é só o que desejo agora: Me enterrar.
... ... ...
Resolvi sair assim que os dedos começaram a enrugar.
Por que fugiu da arena? Por que reagiu daquela forma? Por que... Por que...
— *Mooh... Fiquei desesperada achando que ele havia descoberto logo de cara. Não tive escolha! – Respondi em voz alta, farta daquele assunto. Já bastava pelo dia!
Desci o tecido molhado frente ao pijama de dormir sobre a cama.
— A Luce fala sozinha. Estranha! – Caçoou Happy.
De canto de olho vejo um Natsu confortavelmente sentado na poltrona acolchoada de tecido, que comprei há menos de seis meses, e ao seu lado um irritante exceed flutuando. – *Kyaaaaaa...!! – Gritei, puxando de volta a toalha e chutando certeiramente os dois.
— Essa doeu Luce! – Reclamou, sentando no chão enquanto massageava a área afetada.
— *Aye! – Happy imitava-o.
— Eu deveria matar os dois! O que fazem aqui? – Esbravejei, mostrando toda minha ira.
— Calma Luce! – Pediu. Uma veia pulsa notoriamente em minha testa. – Achávamos que sabia de nossa visita.
— E por qual motivo eu saberia? – Inquiri. Eles automaticamente apontaram para o dragão brilhando dessa vez intensamente no dorso de minha mão. Envergonhada a escondo. – Preciso me acostumar. – Retruquei, emburrada.
— Natsu queria conversar com você, Luce.
— Poderia ter falado antes na guilda. – Me sentei incomodada na cama por esta trajando nada além de uma toalha.
— Ele queria ficar a sós com você! – Afirmou, travesso.
— Então por que lhe trouxe? – O fiz parar para pensar. Logo, tomando as dores, correu para a janela aos prantos, me chamando de má. – Espere Happy! – O chamei. A ultima coisa do qual gostaria era ficar a sós com o Natsu.
— Todo esse tempo juntos e não me falou nada. – Nos interrompeu. Seu tom sério, acrescentado das palavras, me fazendo a culpada da história. Procurei na memória algo plausível como justificativa.
— Me baseei nos relatos a esse respeito. Era apenas uma criança quando tudo aconteceu e estava com medo, Natsu! Deduzi que o silêncio ainda seria a melhor alternativa... Sou uma covarde.— Meu subconsciente acrescentou a frase suspensa, e parecendo ouvi-la bem Natsu rebateu.
— Somos uma equipe, Luce. Confiamos uns nos outros. Não tinha do que temer, afinal, desde que nos conhecemos procurei sempre ajudá-la.
Uma autêntica tapa na cara. Senti o coração comprimir as batidas dentro do peito, a respiração falhar e o nervosismo crescer descontroladamente. Meu rosto ferveu em conclusão. O que era aquele turbilhão de sensações? O corpo tremia tanto, que se considerasse ficar de pé eventualmente despencaria no chão bem antes de ficar ereta.
Minha mente clareou numa hipótese. É isso! A marca! Ela que deve esta mexendo comigo, me confundindo.
— Não escutou nada do que o mestre disse? – Iniciei, triunfante pela voz sair firme. – Estando a marca ativada, você agiria cegamente. Eu quis evitar todo esse transtorno. – Omiti, batendo confiante no peito. Na verdade, o motivo podia ser apontado como egoísmo por eu simplesmente não querer me submeter a ele.
— Você mentiu pra mim, luce!
Novamente as sensações. Ergui-me errônea, esquivando do contato visual. – Não está me ouvindo, não é? Eu tentei evitar... – Repeti num fio de voz, até que sumiu completamente em meio a frase.
— E conseguiu? – A intensidade nos seus orbes ônix me fizeram recuar. Topando na cama, sentei em um tombo.
Engoli em seco, encurralada pelo próprio argumento. Ele balançou a cabeça em reprovação.
— Na verdade, Luce...– Fui desperta do tormento interior. – em nenhuma ocasião nos teve como companheiros. – A frase veio cortante como navalha.
N-Natsu...
— Vamos Happy! – Chamou o exceed, que até então foi ouvinte da conversa.
— *Aye! – Disse deprimido antes de acompanhá-lo.
Quando dei por mim já estavam postos à janela para saltarem. – Ao menos use a... – Ele me ignorou. – porta! – Completei para o vazio.
O observei do local por onde passara até sumir do alcance da visão. Droga! Exclamei em mente. – E é tudo culpa sua! – Dessa vez gritei para a mão direita elevada, amostrando a marca perdendo o brilho gradativamente.
Me lancei na cama de costas, colocando o braço por sobre o rosto, ficando minutos naquela posição. Desculpe Natsu, mas não estou pronta para esse sentimento, para essa realidade. Percebi o dragão clarear, piscando como um alerta. Segundos depois alguém bate na porta me fazendo pular com o susto. Segui hesitante, em passos lentos e na ponta dos pés. Abri um pequeno espaço razoável para ver quem seria e seguro o suficiente para agir caso precisasse, e de novo me espantei.
— Posso entrar Lucy? – Lisanna perguntava com um sorriso discreto.
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