A Marca do Dragão
5 O sentimento de Lisanna.
Notas iniciais
Lucy
Recuei alguns passos, o suficiente para que Lisanna adentrasse o cômodo, e em seguida fechei a porta, devagar. Ainda processava a causa para a segunda visita, mais pelo fator horário (passavam das onze da noite) do que pela albina em si, afinal, chegava a ser comum a presença dos meus amigos da Fairy Tail no pequeno apartamento, e a Lisanna não seria uma exceção à regra.
O mover das cortinas chamou minha atenção. Senti aquele incomodo frio na barriga ao me lembrar do Natsu saindo pela mesma janela aberta poucos minutos atrás. O que pensaria se nos encontrasse nesse quarto a sois, estando eu vestindo apenas uma toalha? Meu rosto queimou com as possibilidades. Preciso agradecer ao cabeça dura por não ter me ouvido, mas somente dessa vez! Aproveitei-me de sua distração observando alguns objetos para rapidamente fechar a vidraça.
O barulho ao bater me denunciou.
— O vento noturno me causa... uhm, calafrios! – Expliquei com um sorriso desengonçado.
— Estava se trocando? – Perguntou, notando os trajes atualmente amarrotados por sobre a cama. – Pode continuar! Não quero atrapalhá-la. – Sentou-se na beirada, me dando espaço.
— Bem... – Iniciei escolhendo as palavras. – Aconteceu alguma coisa? Tirando o fato de me presenciar fugindo como uma louca em meio a luta, e após voltar, saber que estou diretamente ligada ao seu querido “amigo” de infância através de uma marca de dragão. Cogitei irônica, arrependida por não ter bolado algo melhor.
Ela abaixou a cabeça, fitando as mãos inquietas no colo. – Eu conhecia a respeito dessa marca e de você tempos antes da revelação do mestre.
Como? Nesse momento colocava a calça do pijama. Evidente que fiquei toda atrapalhada, perdendo o equilíbrio do corpo. Sem cerimonias fui direto para o chão em uma queda dolorosa. – *Itaii! – Reclamei de dor.
— Está tudo bem, Lucy? – Preocupou-se.
Afirmei com cara de choro, massageando a região afetada, aos poucos mudando o tom de minha pele para um leve rubor. Já tive dias melhores! Foi inevitável o comentário mental.
Terminei de engatinhar até a cama. – S-Sabia sobre mim? – Questionei sem citar o selo de ligação, pois em qualquer livro falando sobre dragões há esse tipo de referência.
— Não especificamente você. – Agora me confundiu. Ela prosseguiu: – Dias antes ao ocorrido que me levou para Edolas, fui procurar mais detalhes sobre esse assunto, que deparei, por acaso, no antigo acervo da biblioteca. O Natsu me explicou o que sabia em tese. Confesso que fiquei tão interessada quanto surpresa, ao ponto de... – A frase deteve-se na garganta da Strauss. Com o mover repetitivo do abrir e fechar de boca, constatei sua grande dificuldade para me dizer a sequência daquelas palavras. Em outra ocasião daria a conversa por encerrada, não tivesse a curiosidade me consumido como agora.
— Ao ponto de... – Instiguei.
— Pe-Pedi-lo para me marcar.
Reagi com uma sucessão de tosse desenfreada, que a pergunta “o que?” saiu suprimida. Tinha acabado de me vestir e atacava o ultimo botão da camisa. Levantei cobrindo a boca, lhe estendendo a outra mão em um gesto de pare, quando tentou ajudar. – Apenas... me engasguei... Vai... passar! – Declarei, respirando fundo em meio à frase.
O sentimento de Lisanna pelo Natsu não chegava a ser uma novidade, muito menos algo discreto, mas nunca pensei que nessa proporção. Será que compreendia verdadeiramente o sentido de ser marcada? O domínio, a submissão, o risco... Principalmente o risco?
De um modo estranho fiquei incomodada. O ímpeto para acabar de uma vez com o assunto me veio arrebatador. – E onde entro nessa história? – Desconheci minha própria voz ríspida. A conversa havia tomado um rumo que não me agradava em nada, apesar de já ter uma noção desde o instante em que cruzou a porta.
— Natsu simplesmente negou meu pedido. – Continuou, desconsiderando meu tom desafável. – O questionei, porém, ele se manteve em silêncio. – Suas bochechas receberam um toque rosado. Em disfarce, brincou com o plue, fugindo do contato visual. – A princípio, conclui não gostar de mim o tanto quanto gostava dele. Depois de um tempo de convivência imaginei outra alternativa: a de já ter marcado alguém. – Apontou em confirmação, trazendo consigo uma pontada de culpa.
Compreendi direito? Insinuou de maneira implícita que o interesse dela pelo Natsu era reciproco, não tivesse a marca (eu) atrapalhado? Reprimi uma insana onda de gargalhadas. Então fui toda à culpada?! A encarei, descrente, afim de detectar o que poderia contradizer minha hipótese em sua postura. Mas, não, ela queria mesmo passar essa concepção.
— Sinto muito Lisanna... – Rebati cínica, chegando ao meu limite. A mente, no momento, cansada pela agitação do dia, e sinais de esgotamento pelo corpo. – Encare como um infeliz acidente. – Sugeri, embora não precisasse, pois uma ideia semelhante estava estampada em seu rosto. – Eramos muito pequenos, portanto, não tínhamos mentalidade suficiente para medir as consequências de nossos atos... – Enfatizei cada palavra onde havia referência na primeira pessoa do plural para mostrar-lhe o quão envolvido o dragon slayer estava nesse drama.
Percebendo o péssimo humor em mim, Lisanna ergueu-se da cama na defensiva, meneando a cabeça. – Sou eu quem deve se desculpar pela real intensão sair um tanto obscura. – Ann...! Pisquei vezes seguidas, aturdida. – Na verdade, fiquei feliz por ter sido você, Lucy! A conexão dos dois vai além deste selo, e tive reparado bastante desde Edolas.
Perdi algo? Ela acabou de alçar bandeira branca segundos após ter me declarado guerra. Que louca!
Afastei ligeiramente a chance dela está com alguma razão sobre nós. – Entenda que somos apenas amigos, assim como todos na Fairy Tail. – Teimei, resistindo a todo pensamento oposto. – Estamos. bem. dessa. maneira! – Nas pausas entre as palavras, Lisanna investia chamando pelo meu nome. Não a deixei completar o “mas Lucy...” e encerramos com uma troca de olhares furiosos. Plue tremia mais que o normal, alternando entre nós duas.
Por mais que insistisse, sem motivo aparente, eu não mudaria de opinião. Jamais admitiria gostar do idiota do Natsu. Isso nunca!
Ela suspirou em desistência, contornou-me em direção à porta enquanto me deleitava com a vitória, e pouco antes de abri-la, lançou o desafio: – Então vamos brigar pelo Natsu!
Enlouqueceu! A sacudir pelos braços, lhe esbofeteando a cara. Mentira! Mas tive imensa vontade de fazê-lo. Ao invés disso, balbuciei vermelha: – O que? Bri-brigar? – Como ela conseguia falar essas coisas com tamanha naturalidade? — Mas acabei de lhe dizer que somos apenas amigos... – Sou interrompida bruscamente, e pela face séria da albina, ela não estava para brincadeiras.
— Quis emiti-la de que nada do que foi dito pelo mestre havia me entristecido. Que os boatos faziam partes de tempos outrora... – Na medida em que falava, reparei na afinidade dos traços com a irmã mais velha. – Mas você ignora esse sentimento, batendo insistente na mesma tecla, Lucy. – Trincou os dentes. Isso lembrava a Mira também!— Logo decidiremos numa disputa. Se me mostrar que o Natsu está caidinho por você, não me meto na maneira que achar melhor de agir para com ele. Contudo, se for eu a vencedora... – Pausou. O suspense começando a me deixar nervosa. – Quero que sua amizade seja a mais limitada possível.
Engulo em seco. Que proposta absurda! Lógico que vou recusar...
— É isso! Até amanhã, Lucy! – Despediu-se, e seu sorriso de orelha-a-orelha transmitindo que houvera caído numa armadilha bem bolada. Se aproveitou de minha guarda baixa para inverter a situação a seu favor.
Como fui tão burra e ingenua!
Aérea, andei cambaleante em plena calmaria instalada no cômodo — o completo avesso de meu interior — em direção à janela, armazenado na memória aquele dia como o mais complicado, em condições pessoais, que vivenciara até agora. E afastando as cortinas, com a questão "O que ela pretende?" martelando na cabeça, contemplo uma rua deserta e pouco iluminada, coberta por um manto universo mar de estrelas, certa de que teria a noite inteira roubada para encontrar resposta.
... ... ...
Lisanna
— Em se tratando de amor, a Lucy chegava a ser mais cabeça dura que o Natsu! – Resmunguei, enchendo as bochechas em protesto. Sorte a sua! Meu subconsciente felicitou.
Voltei-me frente ao apartamento, e como esperado vejo uma silhueta feminina observando o horizonte negro/pontilhado através da vidraça da janela. – Veremos quem é merecedora dele, Lucy. – Murmurei sem um pingo de arrependimento pela minha atitude anterior.
Confirmo todo e qualquer boato sobre minha paixão juvenil, mesmo que a recíproca nunca fosse verdadeira. Por mais que o forçasse a brincar de casal comigo, o que o deixava completamente sem graça, — a lembrança sempre me arrancando um sorriso bobo dos lábios. — Natsu se resumia a concordâncias banais e evitava qualquer comentário aprofundado. Pela fisionomia via-se que encobria algo sem que ninguém conseguisse arrancar-lhe o que seria. A Lucy!
O canto de uma coruja empoleirada e bem escondida na penumbra formada pelo beiral da casa ao lado me acordou para a realidade. Apressei os passos, temerosa. A rua estava desolada, de tão silenciosa se ouvia meu caminhar ecoando pelas vielas entre os apartamentos e casas. Deveria ter ficando com a Lucy. Lamentei. Mas depois daquela afronta, acho que não me enquadraria como bem vinda.
— Hum! – Bufei chateada. Cruzando os braços, me detive por instantes na ponte que ligava ambas as ruas paralelas. – Não me importo estando certa! Na linha de raciocínio em que seguia não daria em nada mesmo. E jamais abrirei mão do Natsu para uma garota que mal sabe o que sente. – Pensei alto.
— Falando sozinha gata?! – Pronunciou um grandalhão a minha frente. Recuei assustada. Como não havia me dado conta de sua aproximação?
De esguelha captei mais dois se posicionando na outra extremidade da ponte. Estava cercada! Reconheci como pertencentes a uma Dark Guild pela incomum marca negra visível em um dos antebraços do homem adiante. – O que querem? – Inquiri, usando o animal soul felino como opção de transformação.
— Depende de como a pergunta foi formulada. – Um quarto me respondeu. Vestia um sobretudo negro que lhe caia até o meio das canelas, totalmente em desacordo com sua calça risca de giz vermelha e camisa branca de colarinho italiano. Que mau gosto! Fiz cara enojada. Seus cabelos de um azul marinho caiam numa franja desgrenhada na parte esquerda da testa, mostrando do lado direito a marca negra da guilda num símbolo parecido ao do infinito. – No seu caso iremos ajudá-la...
Os outros comparsas riram, como que da melhor piada já contada.
— No meu... – Deu continuidade. O ar sombrio que lhe encobria o rosto se refletindo no eriçar dos pelos de meu corpo. – Busco vingança.
Uma dor imensa se apoderou de minha cabeça, que a única reação que tive foi cair de joelhos, segurando-a. A visão logo ficou turva, guiada por borrões de cores onde havia a palidez da pele de minhas pernas contra os blocos emparelhados de pedras, e grunhir desesperadamente com a dor incensante. Senti um líquido viscoso escorrer do nariz e gotejar as coxas, tingindo-a com sua coloração escura. Era sangue! Fui dominada pelo desespero. Que magia era aquela? Consegui formular, incapaz de permanecer com a transformação.
— Aquela loirinha e o salamander vão pagar caro pelo que fizeram comigo em Hargeon. – Ouvi em meio à confusão dolorosa na mente. Por fim, perdendo o comando dos membros, debilitada, choco-me com o chão frio e úmido.
A parti desse momento tudo escureceu para mim.
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