A Marca do Dragão
3 Fatos distorcidos.
Notas iniciais
— Me dê à mão. – Pediu o menino após se levantar, lhe estendendo a sua.
Lucy o encarou por instantes, e em seu rosto havia uma mistura de temor e curiosidade estampada. O que ele fará? O pensamento veio acompanhado pela ansiedade. Tomou coragem suficiente para segura-lo e ser erguida, ficando frente a frente.
— Agora feche os olhos. – Mesmo com a pequena obedecendo de pronto, ele advertiu. – Não vale espiar.
Ela afirmou com o mover positivo de cabeça. Estava começando a se divertir com aquilo, que mais lhe parecia uma brincadeira de adivinhação.
A princípio nada aconteceu. Esperou por alguma ação ou ruído que o denunciasse, no entanto o único som que chegara aos seus ouvidos conhecia bem por ser da natureza ao redor. Sentiu vontade de espreitar, e assim o faria pela brechinha dos olhos, não fosse pelo aviso de antes.
Por fim, seu punho teve contato com algo macio, e partindo desse toque, um formigamento seguido de uma queimação crescente que a fez recuar puxando a mão. Desconfiada, Lucy franziu o cenho na direção do rosado, que simplório lhe sorriu satisfeito. Ela acompanhou os orbes ônix divertidos, prendendo o ar quando avistou um dragão vermelho tatuado sobre sua pele.
— Como..? – Sua voz abafou com a afirmação a seguir.
— Agora você também possui a magia do fogo.
O semblante de Lucy se iluminou. Seria forte, afinal. – Obrigada! – Lançou-se grata nos braços do pequeno amigo, mas tão logo se afastou envergonhada.
— Senhorita Lucy! – A empregada gritava ao longe repetidas vezes. A menina fitou o horizonte alaranjado escurecer gradativamente e claros pontos brilhantes surgirem no céu quase sem nuvens. O tempo havia passado tão depressa na companhia do garotinho, que não percebeu o entardecer.
— Preciso voltar pra casa. – Informou, tristonha.
— Mas nos encontraremos aqui novamente amanhã, certo? – Perguntou, receoso em receber uma negativa da parte dela.
— Sim.
Aliviado, abriu um sorriso de orelha a orelha vendo-a partir.
... ... ...
Passava das onze da noite, quando Jude Heartfilia encerrou seus afazeres, se ausentando do escritório onde passara praticamente o dia inteiro confinado. Estava exausto. Por mais tempo que dedicasse ao trabalho, no intuito de concluir as solicitações e demandas, sempre lhe sobrava algumas para juntar-se com as do dia seguinte. Um ciclo sem fim. Suspirou trancando a porta e tomando a escada principal em direção aos quartos.
Parou na frente de um em especial. Ameaçou bater, porém lembrou-se do quão tarde era, e girando a maçaneta adentrou sorrateiramente. Chegou a desviar de algumas bonecas e ursos de pelúcia até chegar ao destino: Uma cama próxima à janela.
Inerte, ficou observando a menina dormir profundamente. Gostaria de tocá-la, mas temeu acordá-la. Se acontecesse o que diria? Nunca foi muito bom com as palavras quando o assunto era sua filha Lucy. Antes ainda tinha a amada esposa para orientá-lo, mas no momento estava só.
— O que devo fazer querida? – Questionou em voz alta, fazendo Lucy se mexer e mudar de posição.
Algo reluziu na mão da pequena, mesmo sob aquela escuridão. O empresário aproximou seu rosto para identificar o que de fato seria, assustando-se com o clarear pulsante do dragão vermelho ao detectar sua presença. Trôpego, não conseguiu dar mais que dois passos para trás, caindo após pisar em um dos brinquedos espalhados.
— Quem está ai? – A pergunta saiu rouca, num fio de voz. Lucy esfregava os olhos sonolentos, piscando vezes suficientes até se acostumar com a penumbra. – Pai! – Reconheceu.
Jude se recompôs, adotando a postura rígida de costume. Ao falar, não fez esforço algum para conter a ira. – O que significa esse selo de dragão em sua mão, Lucy?
A menina ficou pálida, limitando-se apenas em olhá-lo.
— Você foi marcada! – Deduziu, não somente pela reação da filha, mas por ter lido muito aquele respeito nos livros antigos de sua esposa. – Como isso aconteceu? Me responda Lucy, eu preciso saber.
Devido aos gritos, pouco-a-pouco os empregados foram se acumulando no andar de baixo. Cochichavam entre si, procurando saber o motivo para tanto barulho.
— Algum problema senhor Jude? – Uma das babás criou coragem chegando à porta do cômodo.
— Para onde a Lucy foi nessa tarde? – Não se incomodou em virar para encará-la.
— Lugar algum, senhor! Brincou nas mediações da mansão o dia inteiro. – Respondeu correndo os olhos das costas do homem para a criança em prantos.
Então deve está por perto. Pensou contornando a cama e se aproximando da janela. Mas porque a minha Lucy? Travou a mandíbula ainda incrédulo.
— Posso ajudá-lo em mais alguma coisa... – A frase foi grosseiramente interrompida.
— Arrume uma boa quantidade de roupas e sapatos dela. Partiremos nessa madrugada.
— Ele me disse, – Jude interrompeu os passos com o pronunciamento choroso da menina. – que com isso ficaria mais forte. – Encerrou soluçando.
— Em momento algum se submeter a esses dragon slayers é sinal de força, Lucy. Você não mediu as consequências de seus atos ao aceitar tal coisa de um estranho. – De soslaio, ele a observou ser amparada pela empregada. Não sabia em que estágio de tempo à marca começaria a influência-la a favor do sujeito. – Mas tomarei providências quanto a isso...
... ... ...
O clima começou a esfriar à medida que o sol vai desaparecendo em meio ao horizonte. Na espera pela amiga loira, o rosado acabou por devorar três peixes grandes. Os dois primeiros movido pela fome, já o terceiro foi a impaciência. Onde ela estava? Constantemente olhava para o caminho que conduzia a mansão. Por que está demorando tanto?
Notou que com um pouco mais escureceria, e pegando o mesmo trajeto feito antes pela menina, seguiu para a residência. Não perdeu tempo assim que encontrou duas moças fazendo a limpeza do jardim. – Ei, senhora! – Chamou, puxando a aba do vestido. – Sabe onde posso encontrar a garota que mora aqui?
Elas o analisaram com o cenho crispado e sussurraram algo incoerente, que não conseguiu compreender direito. O homem velho que podava as flores se ausentou em passos urgentes. – A senhorita partiu bem cedo com o pai para fora da cidade. – Respondeu a mais alta.
— E quando vai voltar? – A voz saiu apreensiva.
O balançar negativo de cabeça fez seu coração acelerar. Ela não podia ir embora! Não sabia explicar exatamente o porquê, mas tinham que ficar juntos! Instintivamente farejou o ar ao redor reconhecendo o leve cheiro doce, mas de tão escasso a brisa logo o levava embora.
— Para onde foram? – Procurou saber, disposto a ir atrás.
Caladas, as empregadas comprimiram os lábios numa linha reta, focando adiante. O rosado mal conseguiu virar o rosto; seu braço foi seguro com firmeza dolorosa. Guardas do estado, reconhecidos pelo símbolo semelhante a um crucifixo no peito, o suspendem interceptando seus movimentos.
— Me soltem! O que querem comigo? – Se debatia numa ultima tentativa de escapatória.
— Vai nos acompanhar até a capital, moleque.
— Mas eu não fiz nada...
— Por favor senhores, não o machuquem! – A mulher intercedeu, preocupada. – O dono dessa casa pode ter sido duro na acusação, mas somente não o quer rondando a propriedade.
Os guardas se olhavam duvidosos, ponderando as palavras da empregada. Contudo, assentiram se retirando e levando consigo um garoto agitado, literalmente soltando fogo pela boca enquanto protestava.
... ... ...
— Então foi assim que tudo aconteceu. – Sentada, Erza cruzou as pernas, mantendo os olhos fechado de forma a meditar sobre o relato.
— Que romance mais triste. – A jovem de longos cabelos azuis colocou a mão nos olhos detendo as lágrimas.
— Wendy! – A gatinha em seu colo a repreendeu.
Percebendo o que acabara de dizer, tentou desconsertadamente se corrigir entre gestos e palavras, finalizando com um pedido de desculpa acanhado.
— Francamente. – A exceed bufou.
— Nunca imaginei que meu pai chegaria ao ponto de mandá-lo prender. – Lucy pronunciou de cabeça baixa e voz desolada. – Não se contentou somente em me mandar para aquele fim de mundo.
Recostado a uma árvore defronte para a loira, Natsu a examinou antes de falar, iniciando num tom sério: – Me garanti que o procuraria para acerto de contas, assim que me visse livre...
Espantada com a declaração, a maga celestial comprimiu os punhos já fechados em repouso sobre o colo. Natsu tinha todo direito. Compreendeu, mesmo não suprindo mais raiva do falecido pai. O clima ficou tenso entre os amigos. Nenhum se atreveu a comentar a respeito do que acabaram de ouvir.
— Dai entrei para Fairy Tail e deixei a história de lado. – Concluiu coçando a cabeça, risonho, na tentativa de reverter a impressão vingativa, mas que no fundo continha a verdade.
— Está tirando uma com a minha cara, seu cabeça de fosforo?! – Gray o segurou pela camisa. – Eu quase me compadeci com suas palavras.
— Problema seu cuequinha. – Funcionou.
Frio e calor emanavam respectivamente dos corpos de Gray e Natsu, causando um choque de temperatura.
— Parem o dois! – Erza lançou seu olhar ameaçador, e ambos obedeceram de imediato. – O sol vai se por daqui a algumas horas e ainda precisamos voltar para esclarecer ao mestre o motivo da fuga repentina de Lucy.
Levantando-se foi de encontro à loira, segurando as mãos trêmulas entre as suas e ignorando o brilho de alerta da marca. Fuzilou o Dragneel pouco antes de continuar.
— Ora, eu não fiz nada. – Justificou-se o rosado, erguendo aos mãos espalmadas no ar.
— Não se preocupe! O mestre saberá o que fazer.
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