A Marca do Destino
2 Caos Violeta
Notas iniciais
Não demorou para Geralt apressadamente carregá-lo até a barraca de um curandeiro, Jaskier ignorando a dor e encarando seu pulso sem o nome de Geralt com os olhos arregalados. Finalmente tinha conseguido algo que desejava há muito tempo, o fim da causa de todo o seu sofrimento. Mas ainda assim um fruto de dúvida tinha sido plantado em sua mente, e se perguntou se tinha feito a coisa certa.
— Geralt. — Tentava chamar sua atenção enquanto o bruxo o colocava sentado em um banco para ser atendido pelo curandeiro.
— Você vai ficar bem, Jaskier. — declarou ele com a voz tensa, e posicionou a mão em sua nuca para segurá-lo. Jaskier não precisava daquilo, mas se viu gostando do toque, achando-o reconfortante.
— Geralt. — insistiu e, quando Geralt tornou sua atenção para ele, mostrou seu braço, a pele lisa e sem Marca. Percebeu as várias emoções passando pelos olhos intensos de Geralt, sua boca entreaberta. Confusão, surpresa, choque, receio, e mais outras que passaram muito rápido para Jaskier entender.
— Era isso que você queria, não era? — Geralt disse, e havia um peso em sua voz do qual Jaskier não se atreveu a responder.
Entre a dor e o mar de outras sensações que Jaskier sofria, mal percebeu o sol se pôr no horizonte, a noite nascendo fria e escura, e toda vez que o curandeiro dizia coisas como "irreversível" e "morte", Geralt apertava sua mão na nuca de Jaskier, que via estrelas. Chegou à conclusão de que mesmo sem sua Marca, ainda era perdidamente apaixonado por Geralt e seus toques.
— Você poderia desejar ao Djinn pra te curar de uma vez e nos poupar de toda essa confusão, — O bruxo comentou enquanto carregava o outro até a casa do prefeito a procura de um mago — Mas parece que você não consegue falar, então é claro que sobrou pra mim... — Jaskier tossiu sangue na camisa de Geralt em resposta. Notou que estava falando aquilo da boca para fora, pois mesmo sendo o troglodita estóico que era, Jaskier sabia quando ele estava preocupado e nervoso. Deu uns tapinhas nas costas do outro, uma tentativa fraca para consolá-lo, e Geralt só respondeu com um quieto "Hum", mas seus ombros relaxaram.
E com isso o bruxo subiu algumas escadas e abriu uma porta para um lugar quente, desconfortável, misterioso e pelos deuses-- o que era aquilo? Jaskier inalou pelo nariz e o que veio foi poeira, cheiro de sexo e mágica. Até ele que não era acostumado com as manipulações do caos sabia que aquele quarto estava intoxicado de magia, e não era das boas. Tossiu mais algumas vezes para se livrar do cheiro sufocante, mas se arrependeu logo depois, pois engasgou quando viu a cena em que os dois se encontravam.
Todas as aventuras que Jaskier tinha feito em sua vida não faziam jus à imensa e mágica orgia que estava acontecendo naquele lugar. Geralt parou para se recompor e deixou Jaskier sentado no chão.
— Fique aí. — Geralt disse e Jaskier protestaria com veemência de fosse capaz. Onde ele poderia ir? Nem conseguia se levantar! Seguiu o bruxo com os olhos até este encontrar a principal causa de toda aquela bagunça, uma maga com vestes negras e olhos violeta. Caos personificado: Yennefer de Vengerberg.
Ele ouviu com um pesar no coração os dois flertarem em um quarto cheio de tensão sexual enquanto Jaskier se contorcia para respirar direito. Aquilo parecia um dos seus piores pesadelos, pior que discutir com Geralt e ser abandonado em um banquete em Cintra. Sua visão, agora embaçada, notou um borrão violeta logo antes de cair no chão e perder a consciência.
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— Jaskier. — A voz carregada de emoções de Geralt foi a primeira coisa que Jaskier ouviu ao acordar na cama com um travesseiro sujo de sangue. Tinha que admitir, até que não era tão ruim acordar com o bruxo ao seu lado o encarando como se fosse a pessoa mais importante naquele quarto.
Jaskier de repente se deu por si ao lembrar os horríveis acontecimentos com o Djinn e tocou sua garganta, procurando inchaço e dor, e não sentindo nada.
— Geralt, — Testou sua voz. Estava rouca e fraca, mas obviamente saudável. Suspirou, aliviado ao descobrir que não tinha perdido sua voz para sempre, e viu Geralt fazer o mesmo. — Yennefer? — perguntou para o bruxo, que já entendera o que queria dizer.
— Yennefer. — Geralt assentiu. Jaskier encostou sua cabeça no travesseiro, contemplando o que tinha feito na vida para agora ter sido salvo por uma maga. Sentia-se agradecido e ao mesmo tempo inquieto.
— Temos que sair daqui. — disse depois de um tempo, começando a ficar desconfortável com o silêncio e os olhares intensos de Geralt em si. O bruxo o ajudou a se levantar e Jaskier ficou grato, pois ainda estava fraco. Sua cabeça doía, seu corpo estava mole, e sua Marca...
— Não está mais aí, — O bruxo explicou depois que Jaskier olhou para seu pulso, lembrando da Marca e como não sentia mais nada ao ser tocado por Geralt. — Você não queria mais, lembra?
Jaskier passou a mão até o lugar onde o nome de Geralt costumava ficar, seus dedos dançando pela memória da caligrafia que tinha decorado há tempos.
— O que aconteceu, Geralt?
Geralt fechou os olhos, suas olheiras agora ainda mais evidentes. Jaskier concluiu que o outro ainda estava com problemas para dormir.
— Yennefer conseguiu te curar, mas você ainda precisa descansar. — Geralt gentilmente o deitou de volta para os lençóis com uma expressão cansada pela fadiga.
Jaskier queria acariciar seu rosto e abraçá-lo até fazê-lo relaxar em seus braços, talvez assim conseguisse pegar algumas horas de sono, e Jaskier iria pentear seus cabelos com os dedos exatamente como sua mãe fazia. Percebeu que sua mão estava levantada em sua direção para fazer exatamente aquilo e Geralt a pegou antes que pudesse recuar.
— Você... — Geralt começou, e demorou para continuar. Jaskier esperou o outro encontrar seus pensamentos, sua pele não mais palpitando graças à ausência de sua Marca, mas sentindo Geralt passar seus dedos pelo pulso com um olhar pensativo. — Todo esse tempo com você correndo em perigo, e não conseguia deixar de pensar que sua alma gêmea poderia ter te perdido sem nem saber...
De todas as coisas que estava esperando Geralt dizer, aquela definitivamente não era uma delas.
— Não acho que ele se importaria tanto assim. — Jaskier respondeu, notando a maneira com que Geralt olhava para seu pulso. Talvez o bruxo estivesse bêbado de sono e não filtrava suas palavras, mas o bardo queria muito que aquele momento durasse e que aquele Geralt fosse realmente genuíno.
— Me fale como ele é, — Gerald interrompeu, apressado, antes que o outro continuasse. Jaskier prendeu a respiração, surpreso. — Ele é bom pra você? Ou te trata mal? Você ainda vai voltar pra ele depois de tudo isso?
Jaskier arregalou os olhos e ficou, pela primeira vez na vida, sem palavras. Tudo por causa da situação catastrófica que Geralt tinha lhe colocado. O bruxo queria que o outro falasse sobre sua alma gêmea sem saber que era ele, e Jaskier ainda teria que fazer com que ele não descobrisse. Sua cabeça doía só de pensar, e queria muito estar bêbado naquele momento para não lembrar nada depois.
— Se não quiser falar, tudo bem... — Geralt disse após perceber o silêncio do outro.
— Ele é lindo, forte, e incrivelmente estúpido e denso, — Jaskier respondeu antes que sua coragem desaparecesse e viu Geralt o encarando com as duas sobrancelhas arqueadas, toda sua atenção focada nele. — Nunca conheci um homem tão cabeça dura como ele, e só de lembrar da sua imensa teimosia me dá vontade de pular pela janela. Ele é rude, irritante, estóico, violento e temperamental. É a pessoa mais frustrante que eu já conheci.
Jaskier soltou um longo suspiro, seus olhos fechados.
— E ainda assim, — continuou — Não consigo parar de pensar nele, até em meus sonhos ele me persegue... — Teve que forçar a si mesmo para parar de falar, caso Geralt desconfiasse de alguma coisa, se é que já não tinha descoberto. Tinha a impressão que sua descrição era meio óbvia. "Além do mais", se imaginou dizendo, "ele é um terrível caçador de monstros, tem duas espadas e possui um péssimo senso de dedução".
— Parece que você ainda nutre fortes sentimentos por ele — Geralt respondeu depois que percebeu que Jaskier tinha terminado de falar. Estava agora com a cara fechada, sua testa franzida e seus lábios crispados. Jaskier queria se sufocar com o travesseiro por causa da grande ironia e insanidade da situação. “Por que você está com essa cara?!” Queria gritar para o outro, “Esse homem é você, seu estúpido!”
— Achei que não sentiria mais nada por ele, mas parece que nada mudou, — Jaskier pensou em voz alta, já que não conseguia fica ficar calado por muito tempo. — O que está fazendo, Geralt? — deu ênfase em seu pulso, que ainda estava sendo segurado pelo bruxo.
Como se tivesse saído de um transe, Geralt soltou sua mão, parecendo constrangido, e Jaskier teve que focar em seu rosto para confirmar que sim, Geralt de Rívia estava constrangido e com bochechas levemente rosadas. Nunca pensaria que viveria para ver aquilo acontecer.
— Por mais que eu goste de ver vocês pombinhos fazendo as pazes, — Jaskier pulou de susto quando ouviu a voz sarcástica de Yennefer ecoar pelo quarto e a própria aparecer ao lado deles com vestes negras e exóticas e um olhar violeta penetrante. — Ainda tenho trabalho a fazer. Geralt, saia. — Ela apontou com o dedo para a porta, o rejeitando como se fosse um cachorro mimado.
Geralt não respondeu e não moveu um músculo.
— Ah, então você deve ser a famosa maga que estávamos procurando, — Jaskier se levantava da cama e tagarelava para disfarçar o nervoso. — Tenho que admitir que você... Não era bem o que eu esperava, mas estou grato mesmo assim! Além do mais, não gostaria de abusar da sua bondade, então acho que eu e o Geralt já estamos de saída--
Yennefer se aproximou com um só passo e o empurrou de volta para a cama, seu rosto misteriosamente enigmático. Jaskier percebeu no mesmo instante que ela estava escondendo algo.
—Volte para a cama, canarinho, — Ela murmurou, sua voz doce e perigosa ao mesmo tempo. O bardo não tinha ideia de como ela fazia aquilo. — Preciso falar com você a sós. — Transferiu seu olhar atrevido para Geralt. — Sem o seu lobo de estimação por perto.
Geralt apresentou sua expressão ameaçadora usada apenas para monstros, seus ombros tensos, olhos agressivos e seu cenho franzido em desgosto. Nunca tinha o visto reservar aquele olhar para humanos, e Jaskier se viu encolhendo em apreensão.
— Não. — Ele rosnou, seu tom firme, e cruzou os braços. — Não confio em você ou em suas intenções.
Ela arqueou uma sobrancelha, parecendo irritada, porém não querendo demonstrar.
— Que cãozinho leal você é... — respondeu com as mãos na cintura — Muito bem. Estou curiosa quanto a uma coisa: por que o seu amiguinho aqui, — Gesticulou para Jaskier. — Tem uma alma gêmea, mas não tem uma Marca?
Ambos Geralt e Jaskier não estavam esperando por aquilo, pegos de surpresa, e trocaram olhares incertos.
— Tem razão, — disse Jaskier, ansioso. Se Yennefer sabia que ele tinha uma Marca que não estava lá, o que mais ela sabia? — Essa é com certeza uma conversa para se ter a sós. Geralt...?
Geralt estava pronto para negá-lo e insistir em ficar quando Yennefer revirou os olhos e o lançou para bem longe do quarto, o fazendo voar para fora com uma força abominável. Ela fechou a porta com um simples estalo dos dedos e Jaskier pensava o quanto magia poderia ser algo estranhamente poderoso se era capaz de livrar de um bruxo tão facilmente.
— É melhor nos apressarmos, — Yennefer avisou. — Eu o levei até o centro da cidade, mas não vai levar muito tempo até ele voltar.
— Geralt não vai gostar disso nem um pouco...
— Então, voltando ao assunto, — Ela o ignorou. — Sua alma gêmea. É o Geralt, não é?
Jaskier engasgou e se segurou para não sair correndo. Os olhos perspicazes de Yennefer observavam cada movimento seu, e ele se viu arrependido de ter mandado Geralt embora.
— É tão óbvio assim...?
— Para alguém como eu, sim, é obvio, — respondeu ela, — Mas nenhum simples humano com pouco senso comum adivinharia que a alma gêmea de um bruxo seria... Bem... Você.
— O que quer dizer com isso? — Jaskier reclamou ofendido. Qualquer pessoa teria muita sorte de tê-lo como alma gêmea, assim como Geralt.
— Quero que me explique como sua marca desapareceu. Foi com o Djinn?
Ela agora o encarava com uma expressão perigosa da qual Jaskier não gostava nem um pouco. Recuou até suas costas encostarem-se à cabeceira da cama.
— Sim. Eu... — Engoliu em seco — Eu desejei me livrar da Marca. — Yennefer passou a olhá-lo com algo mais nos olhos, como se não esperasse aquilo vindo dele. Jaskier não sabia se deveria se sentir ofendido ou orgulhoso.
— Então é você quem está com os desejos... — Ela murmurou, mais para si mesma do que para ele. — Um Djinn pode conceder até três desejos. Quantos você fez?
— Um. — Jaskier respondeu estupefato. Ainda tinha direito a fazer mais dois?
— Não recomendo você pedir mais algo para o Djinn por enquanto, ao ver como ele reagiu ao primeiro desejo, — Jaskier passou a mão pela garganta, lembrando-se da dor horrível que tinha sofrido não muito tempo atrás. — Tive que te acordar para esclarecer essas dúvidas, já que Geralt não estava sendo de muita ajuda, mas você ainda não está totalmente curado. Se não fosse pela minha magia--
E então a porta do quarto se abriu bruscamente em um estrondo, revelando Geralt ofegante com os cabelos bagunçados e um olhar assustador. Parecia que tinha corrido um quilômetro em um minuto, e provavelmente era o que tinha acontecido, ao notar o leve sorriso convencido de Yennefer.
— Chega disso, — Geralt declarou antes de andar até Jaskier a passos apressados. — Sem mais truques. Estamos indo embora.
— Geralt! — exclamava Jaskier enquanto o bruxo inspecionava cada lugar em seu corpo a procura de algum machucado e tentava carregá-lo em seus braços. — Eu posso andar sozinho, muito obrigado! E não toque aí—
Ele viu de relance os olhos de Yennefer brilharem com uma luz clara e branca, e em seguida sentiu sua garganta arder, seu peito ofegante. Começou a perder o fôlego e viu mais sangue sair de seus lábios e sujar as roupas de Geralt, que arregalou os olhos ao ver o que estava acontecendo.
— Geralt...! — Agarrou a camisa do outro em uma tentativa desesperada de fazer a dor parar, mas sua voz saiu rouca e trêmula demais para formar outras palavras além de seu nome. Geralt o segurou forte e fuzilou Yennefer com o olhar.
— A Magia de um Djinn é extremamente poderosa, — Ela disse, a voz carregada de desdém enquanto Jaskier tossia mais sangue e se contorcia a procura de ar — Você ainda está sob o efeito dela, e neste momento não estou usando minha magia, apenas para você entender que não está completamente curado. — Os olhos dela pararam de brilhar e voltaram ao normal, íris violetas observando Jaskier atentamente enquanto este recuperava o fôlego como se tivesse passado horas de baixo d'água. — Minha magia é a única coisa que pode salvá-lo agora, então sugiro que você volte a dormir e que os dois continuem aqui.
E com isso Yennefer foi embora e o que restou foi o silêncio, o único som no quarto saindo de Jaskier, que respirava com força nos braços de Geralt. O bruxo passava a mão em suas costas em um movimento reconfortante, e Jaskier deixou sua cabeça cair no ombro do outro, puro alívio e exaustão tomando conta de seu corpo. Estavam tão perto um do outro que o bardo sentia o peito de Geralt vibrar junto com o seu quando falava alguma coisa, provavelmente para acalmá-lo, mas Jaskier estava cansado demais para ouvir o que o amigo tinha a dizer.
Ficaram assim por um tempo até Geralt decidir sentar na cama com as costas para a cabeceira, Jaskier ainda apoiando seu corpo no dele e disfarçadamente limpando seus lábios sujos de sangue em sua camisa.
— Era essa a “paz” que você queria? — Jaskier se atreveu a perguntar, a discussão dos dois perto do lago agora consumindo sua mente e deixando um gosto ruim em sua boca. Geralt parou de passar a mão em suas costas por alguns segundos, mas depois retomou os movimentos.
— Hm.
Jaskier bufou.
— É isso que você tem a dizer? Resmungos monossilábicos? — Ele o cutucou, mas Geralt não reagiu. — Eu... Não te culpo, pois falei muita bobagem pra você também. E não só de agora, mas de muito tempo. Na verdade, acho que fiquei te importunando desde quando te conheci. Mas é meu charme, sabe? Não consigo ficar muito tempo em silêncio, isso me deixa nos nervos. E como você nunca protestou, achei que não se importava. E então eu te encontrei um dia procurando por um Djinn e você explodiu daquele jeito... Por mais que eu não queira falar sobre isso, acho que devemos, Geralt, — Jaskier brincava com algumas mechas prateadas dos cabelos de Geralt, enrolando-as em seus dedos, e notou a respiração do outro descontrair levemente. — Não precisa ser agora, mas um dia precisaremos discutir isso. Não quero te forçar a nada, é claro, mas é importante. E eu sei muito bem que você não quer falar sobre isso, não precisa me esmagar, — Jaskier tentou empurrá-lo, mas o outro estava praticamente se apoiando nele. — É sério, Geralt você é pesado! O quê-- Você tá me ouvindo? Geralt...?
Ele virou o pescoço para ver o rosto do bruxo, que agora estava completamente relaxado, seus olhos fechados em um sono profundo. Jaskier precisou de alguns momentos para se recompor e perceber que Geralt, que tinha passado sabe-se lá quantos dias sem dormir e chegou a ficar desesperado por um Dijinn a procura de uma cura para sua insônia, simplesmente tinha abraçado o bardo e pegado no sono.
Jaskier quase implodiu com as emoções que surgiram em seu peito naquela hora. O que aquilo significava? Geralt estava tão tranquilo ao lado de Jaskier que conseguiu dormir na mesma hora? Ou simplesmente tinha se entregado à fadiga? Será que estava doente? Colocou a palma de sua mão na testa do outro, mas não sentiu nada fora do normal.
— Não faça isso... — Jaskier murmurou, não esperando o bruxo ouvir, mas não resistindo seus devaneios apaixonados. — Não me dê esperanças. Depois de tudo o que eu passei...
Não me dê motivos para pensar que você se importa.
Fechando os olhos e deixando-se levar por aqueles sentimentos inquietos, Jaskier depositou um breve beijo no pescoço de Geralt, a única parte que conseguia alcançar, já que o bruxo o estava prendendo em um abraço pesado. O beijo foi leve, e o coração de Jaskier batia em um ritmo tão acelerado que chegou a se perguntar se o outro era capaz de ouvir. Estava tão perdido em sua própria bagunça de pensamentos e emoções que quase perdeu a chance de ver algo mais aparecer na pele de Geralt, tímido e quase invisível, e foi quando ele prestou mais atenção e viu—
Julian.
Estava ainda sendo escrita com a sua própria caligrafia elegante e habilidosa no pescoço de Geralt, bem onde havia beijado, e Jaskier quase teve um ataque cardíaco ali mesmo, nos braços do bruxo, que roncava em seu ombro, ainda ignorante da grande rebelião acontecendo na cabeça do outro. A Marca era quase esbranquiçada, da mesma cor da pele de Geralt, então não era tão perceptível quanto gostaria que fosse, mas estava lá e era uma Marca e tinha o seu nome! O som de “Julian” nunca lhe foi de muito agrado desde quando era criança, e quando encontrou sua paixão nas linhas de alaúde e cadernos de poesia, decidiu que “Jaskier” era muito mais poético e atrevido. Entretanto, ao ler repetidamente aquela escrita no pescoço do outro como se estivesse em um sonho febril, concordou que tinha se tornado o melhor nome que poderia ter.
Deveria contá-lo para ele? O bruxo ficaria feliz em saber que era sua alma gêmea, ou nunca gostaria de ter uma? Oh, céus, e a sua própria Marca? O que ele pensaria se soubesse que Jaskier não tinha apagado a Marca de um nome desconhecido qualquer, mas o nome dele? Não conseguia parar de encarar intensamente o pescoço de Geralt, como se a escrita fosse desaparecer em um simples piscar de olhos. Não era um sonho. Não era um pesadelo. Estava lá.
— Eu consigo ouvir você pensando mesmo sem poder ler sua mente, — Geralt disse com um tom baixo, assustando o silêncio e os pensamentos de Jaskier, que teria caído da cama se não tivesse sido segurado. — Deveria descansar um pouco ao invés de ficar—
O bruxo parou e o fitou confuso quando notou que Jaskier estava prestes a sofrer um colapso mental.
— ...Jaskier?
— Geralt! — O bardo interrompeu — Geralt, oh, Geralt, você não vai acreditar, mas... Bom, como eu posso dizer isso... Não sei se você vai ficar feliz, mas...
— O quê? — Jaskier se calou com o tom de voz ainda rouco e sonolento de Geralt, que o olhava com olhos calmos e um leve sorriso divertido no rosto, o esperando proclamar alguma bobagem, pois o bardo sempre tagarelava quando ficava nervoso.
Em vez de falar em voz alta, Jaskier quis mostrá-lo, e arriscou um toque delicado na pele do outro, seus dedos passando por cima da Marca, e viu com antecipação a expressão de surpresa de Geralt ao sentir as faíscas que percorriam o corpo sempre quando uma alma gêmea tocava sua Marca pela primeira vez. Geralt arregalou os olhos e cobriu a mão de Jaskier com a sua, parecendo confuso.
— Você tem uma Marca. — Jaskier explicou, seus olhos úmidos de lágrimas.
— Não diga coisas como essa, — Geralt respondeu com a voz engasgada, sua respiração agora estranhamente pesada e suas sobrancelhas franzidas. Jaskier notou que havia algo estranho. — Não assim, não agora. Isso é uma pegadinha?
O bardo estava prestes a soltar um sorriso amarelo e perguntar o que o afligia, até que Geralt passou a observá-lo com uma intensa emoção no rosto, como se sua vida dependesse da resposta de Jaskier.
— Não, eu não mentiria sobre isso! — Ele disse, recuando sob o olhar intenso do outro — Você... Sentiu algo, não foi? — Tocou na Marca novamente, agora com a outra mão. — Aqui?
Geralt balançou a cabeça em negação, seus olhos ainda arregalados. Jaskier sentiu seu coração começar a se quebrar em pedaços.
Observou o bruxo correr até a mesa perto do outro lado do quarto a procura de algo, suas mãos apressadas vasculhando as gavetas.
— Você não sentiu nada? Nada mesmo? — Jaskier continuou, mas foi ignorado. Percebeu que Geralt tinha achado um espelho de mão e agora examinava seu reflexo, aparentemente em busca da Marca.
— Não tem nada aqui, — Geralt declarou depois de alguns minutos de frustração. Jaskier se viu apavorado e aproximou-se dele rapidamente. Finalmente conseguira o que sempre queria em toda a sua vida, e agora o destino o tinha tirado a única coisa que lhe dava esperança. — Você tem certeza que viu?
— Deixe-me ver — O bruxo abaixou para Jaskier inspecionar seu pescoço, a pele agora lisa e sem Marca. Não havia mais sua caligrafia elegante decorando o lugar, como se tudo tivesse sido uma breve ilusão ou delírio. — Mas... Eu podia jurar que... Geralt!
Geralt se afastou bruscamente, uma mistura de expressões intensas percorrendo em seu rosto, e lançou um olhar zangado e ofendido em sua direção. Jaskier deu um passo para trás, não querendo acreditar que aquilo estava acontecendo.
— Só porque você não tem mais uma Marca não te dá o direito de mentir sobre a minha. — Ele declarou, e Jaskier nunca tinha escutado sua voz afetada daquele jeito. Reparou que suas mãos estavam fechadas em punhos trêmulos, e seus cabelos prateados cobriam seus olhos, como se Geralt não fosse capaz de olhar para ele. E aquilo doía, mais do que qualquer coisa, ver o amigo rejeitá-lo daquele jeito.
— Geralt—- — Jaskier implorou, mas o bruxo saiu do quarto antes de ouvir o que ele tinha a dizer. Só conseguia ouvir seu próprio coração batendo forte em seu peito, e a última coisa que se lembrava ter visto foram os olhos violeta enigmáticos de Yennefer a observá-lo do outro lado do corredor.
— Hora de dormir, canarinho, — Ela disse. — Depois terá que fazer seus desejos para o Djinn.
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