A Maldição do Faraó
5 Capítulo V ― Mau dia
Notas iniciais
Capítulo V
Mau dia
O ar abafadiço que tanto era acostumado, tornou-se insuportável e asfixiante quando os lábios pálidos pressionaram-se junto aos seus, o obrigando a compartilhar o calor de um beijo.
Porém, tão rápido quanto seu corpo incendiou-se, também gelou arrepiando todos os pelos de seu corpo, depois de sentir um puxão e seus olhos encontrarem-se com olhos castanho-escuros tão irados que desviavam a atenção do brilho novo da tiara que estendia-se para uma cobra naja na testa do dono de tais olhos.
~x~
Levantando o dorso enferrujado, Tutankhamun – ou o que seriam seus restos – acomodou-se em seu túmulo aproximando de si os três jarros brancos ali dispostos em volta. Destampou o primeiro fazendo um movimento para bebê-lo e o líquido espalhou-se por seus ossos putrefatos e com isso, como se aquilo fosse uma poção mágica, seu corpo ganhou mais consistência, tornando-se maior e não tão delicado para um velho dos antigos tempos, como era.
Quando bebeu da segunda garrafa, ganhou facilidade de movimento do maxilar enegrecido, abrindo e fechando. No terceiro líquido, ganhou a visão. Os olhos negros de seu passado voltaram meramente envolvidos pela região antes vazia dos olhos, podendo notar-se as veias no globo ocular.
O faraó observou seu corpo, cerrando os punhos em frente aos olhos, cheios de ódio, e então levantou-se.
~x~
Naruto e Sasuke saíram ao mesmo tempo de seus quartos, pela manhã. Encararam-se por alguns segundos, ambos com bolsas escuras embaixo dos olhos, pela noite perturbada que não os deixou dormir apropriadamente. Quando conseguiram dormir por algumas horas foram perseguidos pelo mesmo sonho, ainda que nem imaginassem.
Então Naruto virou-se, com o corpo mole, e se arrastou pelo corredor encostado na parede. Ele parecia ainda mais morto que no dia anterior.
― Qual é o seu problema? ― Sasuke perguntou.
Naruto bufou irritadiço antes de responder.
― Eu não consegui dormir ontem à noite ― ele deu uma espiada para o moreno logo atrás de si. ― Você parece que também não.
Sasuke pigarreou. É verdade que tivera dificuldade em dormir e agora estava cansado, porém pensava que poderia disfarçar, e agora Naruto comentou como se estivesse com a aparência horrível, lhe denunciando.
― Naruto! ― os dois homens viram quando Carter aproximou-se correndo. Suor escorria de sua testa e ele parecia que mal se dera ao trabalho de colocar as roupas decentemente no corpo ao acordar. ― Tenho péssimas notícias!
― O que foi? ― estranhou.
― Lorde Carnarvon, Naruto! Ele foi encontrado morto hoje cedo!
― O quê?! ― exclamou o Uzumaki, abrindo bem os olhos, parecendo acordar agora. Sasuke também pareceu mais concentrado.
― O que aconteceu? ― ele perguntou.
― Eu não faço a mínima ideia! ― Howard passou a mão pelo cabelo, exasperado. ― Lady Evelin disse que foi chamá-lo para tomar café da manhã e sem resposta, ela pediu que abrissem a porta e lá estava ele, sem pulso. Os médicos acabaram de levar o corpo, e ela foi junto, talvez dê notícias.
― Mas... como? O que poderia ter acontecido? ― perguntou Naruto. ― Ele estava doente?
― Não, pelo que eu saiba ― respondeu o egiptólogo, desprendendo o olhar de Naruto e Sasuke, receoso. ― Esperamos que os médicos descubram alguma coisa do que pode ter acontecido, mas... Ele se foi ― a mão que estava pousada em seus cabelos caiu de lado e Carter mordeu o lábio inferior. ― É tão estranho, ele... Não éramos exatamente amigos, mas por quase uma década, uma década, ele esteve envolvido nisso...
Enquanto Naruto dizia alguma palavras, tentando ao máximo consolar o amigo, com a mão em seu ombro o assegurando que estaria ali para ele, Sasuke virou-se, seu olhar prolongando-se para o fim do corredor, onde sabia que o quarto de Lorde Carnarvon estaria.
~x~
Depois de um café da manhã lastimoso, em que Naruto comia e sentia-se levemente culpado porque Howard mal tocava no seu pão com patê que tanto gostava, o egiptólogo acompanhado, e pegando carona com Sakura foram até a tumba de Tutankhamun. A pequena viagem foi em silêncio, ela respeitando que era um momento delicado.
Quando soube da morte do financiador da expedição, Sakura, que planejava ir até a tumba pela manhã começar a catalogar os objetos, achou melhor adiarem seus trabalhos, porém Carter, ainda que carregasse um semblante distante, insistiu que fossem, afinal, nada adiantaria ficar parado no hotel ansiando por algum sinal de Evelin.
Eles entraram devagar, Sakura seguindo os passos lentos de Howard. Constatou que o cheiro mofado não estava tão ruim agora. Ela ficou na primeira sala, primeiramente passando os olhos esverdeados pelos pertences, enquanto Carter a deixou para ir até o túmulo.
Quando ele voltou apressado, ela pulou de susto, o olhando com os olhos grandes.
― Sr. Haruno, o... o corpo, a... A múmia, ela...
― O que foi? ― perguntou apreensiva mostrando que iria para a sala do túmulo.
― Ela... não está aqui. O corpo sumiu.
Os lábios rosados se entreabriram ao constatar que o homem dizia a verdade, quando foi conferir o túmulo vazio.
~x~
Sasuke girou a maçaneta do quarto 62 cuidadosamente. A porta estava aberta, e a cama do quarto ainda estava bagunçada com uma colcha de seda azul marinho. Ele girou os olhos pelo cômodo, entrando.
Aproximou-se da cama e levantou o lençol apenas por fazer. Depois caminhou até o banheiro e espiou lá dentro com olhos duros. Foi, então, até a janela observando a vista parecida com a sua. Seus olhos, de repente, caíram para o chão e ele observou alguns míseros grãos brilhantes de areia e prendeu a respiração, sentindo-se tonto. Paralisou por alguns segundos, antes de abaixar-se. Quando o fez, a voz de Naruto rompeu o silêncio e o gelo de seu corpo.
― O que está fazendo? ― perguntou o arqueólogo.
― Dando uma olhada ― respondeu contragosto, levantando-se logo.
― Está tentando coletar alguma pista pra deduzir o que aconteceu com Lorde Carnarvon por conta própria? ― inferiu Naruto. ― Achei que era jornalista, não detetive.
― Não estou investigando nada, apesar de que para ser jornalista, precisa-se ser um bom detetive ― respondeu o Uchiha, seco.
Naruto não disse nada, e saiu de sua posição, encostado no limiar da porta com os braços cruzados e entrou no quarto, apesar de que gostaria de manter uma distância de um quarto que alguém morreu há pouco, e os lençóis da cama nem ao menos foram trocados. Remexeu os ombros, incomodado com a sensação que lhe subia pela espinha, quando deu um pulo de susto por uma outra voz, desconhecida, pronunciar-se também.
― Vocês já sabem do inglês que estava aqui? ― perguntou uma mulher, mais velha e que vestia-se como uma cigana, espiando pela porta.
Naruto respirou fundo várias vezes, com a mão no coração. Se ela sabia que era o quarto de um recém morto, devia tomar mais cuidado com essa chegada quieta e repentina.
― Ele estava conosco ― respondeu Sasuke, cauteloso.
― Oh, sinto muito. Eu sou do quarto ao lado ― ela apontou. ― Já estou indo embora, mas resolvi passar aqui depois do que ouvi. Bem que ontem eu achei estranho...
― O que você achou estranho? ― fez Naruto com um mau-humor na voz, mas a moça não pareceu ligar.
― Os ruídos que eu ouvi, quando fui descer ontem à noite. Eu tenho insônia, sabe ― explicou, como se importasse alguma coisa para aqueles dois homens que a olhavam, sérios. ― Então fui buscar uma bebida, já que não conseguia dormir, sabe como é. Quando passei, ouvi ele conversando com alguém aqui dentro.
― Deve ter sido Lady Evelin, ela é a filha dele ― disse Sasuke.
― E você é um tanto intrometida ― comentou Naruto, mais uma vez sua grosseria sendo ignorada.
― Eu achei que era uma conversa, mas também achei estranho porque parecia que só ele falava. Eu me aproximei, e ele estava repetindo uma única palavra.
― Que palavra?
― Ele dizia “Faraó... Faraó...” e então ficou quieto, devia estar sonhando.
Naruto paralisou agora levando a moça a sério, com os olhos arregalados, enquanto Sasuke estreitava os dele.
― E vou dizer... Às vezes os sonhos tem de ser levados a sério ― completou ela.
― O que você está dizendo? ― Sasuke perdeu um pouco de sua paciência.
― Não digo que foi que o matou, mas é bom levar em consideração.
~x~
Quando os dois homens saíram do quarto, Naruto olhava para os lados.
― Sinistro ― disse ele.
Sasuke revirou os olhos.
― Está levando a sério o que a mulher disse?
― Só estou levando “em consideração” ― fez as aspas. ― Estamos no Egito, imagina os espíritos irados de faraós espalhados por esse lugar.
O Uchiha fingiu que não o ouvia.
― Carter disse que Carnarvon fumava bastante, talvez o pulmão dele tenha dado problema ― Sasuke disse, querendo ser lógico. Sentia-se o único tentando.
― Será que H.C. já voltou?
― Naruto! ― os dois tiveram um Déjà vu de mais cedo, quando Howard aproximou-se com o mesmo rosto apreensivo de antes e as roupas desarrumadas.
― Falei de você agora, H.C.. O que foi? ― perguntou Naruto.
― A múmia, ela... ― ele não conseguiu terminar tendo que dar um tempo para recuperar o ar perdido na correria. ― A múmia sumiu.
― Como é?
― A múmia, que encontramos ontem, ela não está mais no túmulo. Ela sumiu.
― Roubo? ― perguntou Sasuke.
― Eu não faço a mínima ideia ― respirou fundo novamente. ― Srta. Haruno foi checar com a segurança do deserto, ver se descobre alguma coisa.
― Eu não acredito nisso! ― exclamou Naruto. ― Qual será a próxima notícia que irá me soltar, H.C.? ― e então saiu andando com passos largos, como se fosse chegar logo até a tumba andando.
Carter também estava nervoso com a sucessão infeliz daquela manhã, e Sasuke mais calmo o olhou, sério.
― Vamos até lá, Carter, eu sei algumas coisas. Se alguém entrou na tumba, eu vou saber dizer.
~x~
Howard observava Sasuke, ansioso, enquanto o mesmo analisava o local. Foram até ali com o carro alugado no nome de Lorde Carnarvon, o que fez o egiptólogo sentir-se estranho, pegando algo sem permissão, de seu financiador agora morto. Mas Lady Evelin não havia voltado ainda e também não achou a Srta. Haruno para pegarem uma carona.
Sasuke agora estava no túmulo e Naruto estava na parede ao lado, olhando os desenhos com os olhos apertados como se também estivesse investigando a entrada de alguém.
― Tudo está no mesmo lugar que deixamos ontem, além do corpo ― anunciou Sasuke.
― Por que alguém iria querer roubar um corpo podre? ― perguntou Naruto.
― E não foi só o corpo, esses jarros, notou, Carter? Estão vazios e destampados. Mas talvez não tenha sido um roubo ― disse Sasuke. Ele duvidava muito que uma múmia valeria mais do que todo aquele tesouro espalhado pela tumba. E quem beberia aqueles líquidos podres? ― E os sarcófagos não foram mexidos. Não acho que alguém entraria aqui, visse todo esse ouro, e decidisse pegar uma múmia nos braços pra ir embora.
― Então que merda aconteceu? ― irritou-se Naruto.
De repente, os três homens ali de dentro sentiram uma brisa alcançarem-lhe as nucas, junto de grãos ásperos de areia. Tão dentro da tumba, como estavam, seria impossível o vento do deserto chegar ali, então os três viraram-se com os cenhos franzidos.
E de repente a pergunta de Naruto foi respondida, quando no meio da entrada para aquela câmara, Tutankhamun mostrava-se ali, em pé, não tanto quanto um Faraó do Antigo Egito, mas como a múmia que acharam no dia anterior e que deveria estar deitada naquele túmulo, imóvel e morta.
Ela agora possuía dois olhos, escuros e absurdamente assustadores, como se não fosse o bastante ter de encarar um morto se movendo.
O queixo de Naruto caiu tanto que chegou a doer, e se não fosse a limitação da mandíbula, continuaria caindo. Era o mais próximo da múmia, perto da parede ao lado esquerdo da entrada, e parecia fugir do campo de visão da coisa. Ele não ousou mexer-se, prendendo a respiração e prendeu-se no lugar mesmo quando o corpo rangeu saindo de sua posição e seguindo em frente em direção aos outros dois homens.
Carter caiu para o lado quando ela aproximou-se, chegando ao chão sentido-se tão duro quanto, e ela não pareceu importar-se, continuando até Sasuke que sentia seu corpo como aço, pesado e difícil de mexer. Seus pulmões pareciam fechar-se para a entrada de mais ar. Ele provavelmente ficaria na defensiva se fosse um ser humano aproximando-se ameaçadoramente daquele jeito. Mas a questão é que não era. Nunca sentiu-se tão impotente na vida por não ter uma chance contra um morto.
Passou pela sua cabeça que aquilo era uma brincadeira de mal gosto de alguma forma tramada por algum idiota, provavelmente Naruto, mas tudo pareceu bem real quando a mão escura, agora viscosa agarrou-lhe o pescoço com uma força espantosa que tirou-lhe do chão.
Sasuke não tinha certeza o que era pior: Aquele monstro estar, aparentemente, tentando lhe matar, ou o cheiro que saía dele. Um cheiro de defunto que apenas piorou quando a múmia abriu a boca podre e um bafo de três mil anos saiu junto com palavras que o Uchiha não deu-se o trabalho de entender. E então sua mente apagou.
~x~
Sua mente acendeu em outra ambientação. Sentia-se perfeitamente consciente, mas não controlava suas ações, assim como em um sonho.
Sentia as suas costas arderem e algumas costelas doloridas, mas ainda assim avançava. Andava sorrateiro por trás de algumas esculturas belas e apoiava-se algumas vezes na parede áurea quando era necessário para descansar de suas dores. O teto erguia-se alto e pontiagudo e cada centímetro era coberto por ilustrações que ignorava o significado.
Mais à frente, podia assistir dois homens, e quando conseguiu chegar perto o suficiente, um par de olhos celestiais o pegaram no campo de visão e conseguiu ver o brilho feliz que manifestou-se ali, apesar do par logo desviar-se e o homem voltar-se para o outro de costas para si, discutindo alguma coisa de suma importância.
O homem de costas tinha um brilho dos óleos reais em sua pele negra, não vestia nada no peito. Na cabeça, um nemes, adorno dourado listrado, onde a parte de trás imitava um penteado de cabelo trançado firmemente e na frente, duas tiras caíam sobre os ombros. Tampando a testa, era enfeitada por uma serpente como que saindo para fora de sua cabeça.
As mãos do belo homem loiro, que vestia uma túnica de linho simples, estavam amarradas e quando o homem que estava de costas para Sasuke aproximou-se dele agarrando-o pelos ombros, gritando algumas palavras, sentiu uma raiva desmedida.
~x~
De repente, Sasuke sentiu uma dor aguda e forte o atravessando em uma parte de seu braço caído ao lado de seu corpo e quando abriu os olhos, voltou ao cenário onde uma múmia tirava-lhe o ar. Ela, então, o largou e ele caiu no chão, tossindo e com a visão turva não conseguindo distinguir formas ou situar-se ao que acontecia.
A pequena festa na tumba tinha outro convidado, aparentemente, e quando sua visão melhorou, avistou um homem mais pálido que si de cabelos igualmente escuros. Ele segurava uma pistola e sorria para a múmia que rugia. Sakura Haruno estava atrás dele, com as mãos cobrindo os lábios, em horror.
Conseguiu entender que o homem desconhecido atirou no morto-vivo e assim, provavelmente, também o acertou, mas ainda não conseguia virar-se para ver seu ferimento.
A múmia, rugindo como um leão destemido, então virou-se desintegrando-se em areia, mas deixando sua presença, seu cheiro e seu urro ecoando.
Naruto caiu no chão, as pernas mal conseguindo manter-se e Carter já caído, assim continuou. Sakura, com as mãos trêmulas, passou pelo homem com a arma e foi em direção a Sasuke que parecido ter dificuldades em respirar.
― T-tudo bem, Sasuke-kun? ― perguntou de olhos arregalados, ainda que tentasse que sua voz saísse calma.
Ela olhou ao redor novamente e sua vontade era gritar para todos correrem dali, mas apesar do terror geral, todos estavam meio paralisados.
Sasuke não respondeu, além de não conseguir, achou que era óbvio seu estado. Levantou um pouco, olhando para seu braço direito e viu manchas vermelhas em sua camisa e o corte que a bala, apenas de raspão, fez na sua manga.
Enquanto isso, Naruto e Carter aproximaram-se, quase rastejando, com expressões de choques que seriam engraçadas se tivessem passado só por um mero susto insignificante.
Sakura olhou para o outro homem ainda parado na entrada com um sorriso.
― Obrigada pela ajuda, senhor.
Ela encontrou com ele de surpresa. Quando voltou ao hotel, não achou Carter e percebendo o sumiço do carro de Lorde Carnarvon, resolveu ir até a tumba para encontrar o egiptólogo.
Quando chegou, reparou no homem pálido adentrando o local recém-descoberto, vestindo um coldre por cima de sua camisa cinza, pegando uma arma na mão. Ela assustou-se, e saiu do carro logo atrás prevendo alguma tragédia, mas não esperava aquele tipo quando deparou-se com a cena de um cadáver levantando o jornalista que conhecera no dia anterior, como se o estrangulasse.
― Não há de que ― respondeu o homem da arma, simpático. Aparentemente, não estranhava ter salvo algumas pessoas de um corpo conservado andante. Ele, então, voltou a levantar sua pistola e agora apontava para o pequeno grupo. ― Preciso matá-los agora.
Fale com o autor