A Maldição do Faraó
6 Capítulo VI ― Olhos
Notas iniciais
Capítulo VI
Olhos
Talvez fosse uma sexta-feira treze. Naruto deveria ter checado o calendário mais cedo, porque se fosse o caso, teria ficado em seu quarto como o bom supersticioso que era. Mas de nada adiantava mais pensar sobre isso quando já testemunhara um morto-vivo e agora um completo desconhecido apontava-lhes uma arma com a intenção clara de matar, com um sorriso cínico e desgraçado no rosto, fazendo-o terminar de mijar nas calças.
― O-o que você 'tá dizendo, seu imbecil? Nos matar? Qual é o seu problema? Eu nem te conheço! ― gritou frustrado.
O homem não pareceu absorver as palavras, dando uma espiada para os lados rapidamente.
― Me desculpe, mas vocês podem, por gentileza, me dizer onde está Lorde Carnarvon?
"Por gentileza" Naruto socaria sua cara, isso sim. Bem, se não estivesse tremendo só um tiquinho.
― Você o conhece? Lorde Carnarvon? ― perguntou Carter. ― Nós... Nós somos amigos dele! Ele... ― sua voz estrangulou-se em uma pausa. ― Ele morreu hoje de manhã. Encontraram-no morto em seu quarto do hotel.
O sorriso sumiu dos lábios do homem, mas ele ainda carregava um ar despreocupado nos olhos ainda que levemente desapontado.
― Oh, não, que tragédia ― falou de um modo como se estivesse ensaiando a própria peça Romeu e Julieta. ― Só recebi metade do combinado.
― Que combinado? ― A voz tremida de Sakura pronunciou-se.
― Oh, a do assassinato ― respondeu com boa vontade. ― De vocês. Lorde Carnarvon me contratou ainda em Londres e aceitei que me desse a outra metade do dinheiro depois que fizesse meu trabalho. Mas se ele morreu mesmo, não tenho como cumprir o combinado.
― Você é um assassino contratado? ― perguntou Sakura.
― Você está dizendo... Que Lorde Carnarvon o contratou para nos matar?! ― indignou-se Howard, levantando.
Sasuke e Naruto trocaram olhares, os dois ainda pegos no sentimento sufocante que os envolviam desde que se conheceram. A múmia só piorou isso e o Uchiha começou a lembrar-se da visão que rolou em sua mente quando foi sufocado.
― Vamos voltar para o hotel. Temos que sair daqui e Sasuke-kun ainda precisa de cuidados.
Foi tudo o que Naruto precisava para ouvir, na verdade. Desconectou os olhos dos de Sasuke e o ajudou a se levantar, o arrastando dali com uma velocidade impressionante.
Sakura aproximou-se cautelosamente do homem desconhecido, que guardava sua arma. Ele não parecia ter prestado atenção na câmara de tesouros ao lado e isso a aliviou, com a impressão de que ele não pouparia os artefatos e acabaria sendo desastroso.
― Hum... Senhor...?
― Meu nome é Sai.
― Certo. Senhor Sai, pode nos acompanhar por favor?
― Claro.
~x~
Ao entrar em casa, Abubakar sorria. Depois de ajudar Carter como escavador em sua teimosa expedição, estava feliz que o inglês tinha encontrado algo. Mas agora precisava descansar e depois esperaria notícias de Carter, e ainda voltaria a visitar a bela tumba novamente quando fosse oficial.
Saiu do hotel onde ficava e achou bom ir logo para casa, mas logo que entrou seu sorriso sumiu e sentiu algo estranho.
Perto da porta, no chão, primeiramente achou esquisito consegui ver alguns grão de areia. Olhou para fora da casa para ver se conseguia achar uma razão para aquilo, mas sua rua continuava normal, no centro e longe de qualquer deserto.
Achou melhor entrar e investigar lá dentro. Porém não demorou para seus pensamentos dissolverem e ele estrangular um grito, com a expressão aterrorizada quando em sua cozinha topou com olhos de carvão de brilho tempestuoso.
~x~
Dentro do hotel, o quarto de Sakura ficava no térreo e era diferente dos outros, maior, com espaço para uma mesa e uma pequena estante com alguns livros. Era usado por autoridades, que muitas vezes vinham por ser perto do Vale dos Reis.
Sakura sentava-se a mesa, os olhos observando Carter andar de um lado para o outro, às vezes lançando um olhar para um quase adormecido Naruto, que sentado na poltrona de Sakura, forçava os olhos para ficarem abertos; aparentemente os dias mal dormidos lhe cobrando o sono agora. Sasuke estava sentado, encostado contra a porta fechada, os braços apoiados no joelho e um curativo no bíceps por baixo de sua camisa agora com a manga rasgada.
O assassino, Sai, ficou hospedado em um quarto em que eles decidiram o despachar, por enquanto. Um problema de cada vez.
― Não posso acreditar que ele faria isso comigo! ― não conteve-se Carter. ― Por que ele queria nos matar? Eu―
― Por crédito ― anunciou Sasuke e todos o olharam. Ele parecia um pouco distraído, mas ainda assim prestava atenção. ― Com vocês mortos, Carnarvon poderia inventar qualquer história para mídia e ficar com todo o crédito da descoberta.
Howard cerrou os dentes e cruzou os braços com força.
― Uau ― disse Naruto. ― Que imbecil. Deve ser o destino ele estar morto.
Algo estapeou a mente de Sasuke e Naruto ao mesmo tempo e eles se entreolharam.
― A múmia.
― O morto-vivo.
― O que foi? ― perguntou Sakura.
― Quando fomos no quarto de Lorde Carnarvon, uma mulher sinistra disse que ele ficava tendo uns delírios. Chamando um faraó e tudo mais. Será que aquilo é responsável pela morte do cara?
Ninguém respondeu e Naruto virou-se para Sasuke.
― Viu? A mulher não 'tava mentindo.
― Hm, acho que devo agradecer por isso ― retribuiu Sasuke.
― Nunca imaginei que essa nova maldição que Tut traria fosse realmente... Espera! Mas então... se foi mesmo o Tut que matou Lorde Carnarvon ― elaborou Carter. ― Quer dizer que ele já esteve no hotel?
Naruto paralisou um pouco com os olhos em Carter.
― Quero voltar ― disse como uma criança medrosa. ― Quero voltar para Londres, não fico mais aqui.
― Nem pensar ― respondeu imediatamente. ― Temos que ficar e descobrir como aquela coisa volta a ficar morta para que srta. Haruno possa mandar o relatório para os superiores dizendo a grande descoberta que fizemos ― finalizou um tanto amargurado. Sakura o havia dito que ainda não mandara o relatório e precisaria deixar seus superiores desavisados daquilo tudo.
― "Temos que descobrir"? H.C., sem ofensas pra essa sua grande inteligência de egiptólogo, mas você tem pelo menos uma pequena ideia, só uma ideiazinha de como a gente pode parar aquele morto-vivo?
Carter considerou por menos de dois segundos antes de virar-se para a mulher do cômodo com os olhos esperançosos.
― Eu não sei ― Sakura disse prontamente. ― Eu posso ainda procurar alguns feitiços antigos egípcios, mas eu não sei.
― Viu ― Carter voltou-se para o amigo. ― Já tem alguma coisa para começar, feitiços antigos egípcios... Isso vai funcionar? ― ele virou-se novamente, agora incerto, para Sakura.
― Eu não sei, mas não duvido de nada mais, para ser sincera, sr. Carter.
Ele fez um trejeito com a boca. Ele tentava não pensar muito no fato que estava falando sobre como parar seu tão sonhado Tutankhamun, que voltara a vida. Ou quase, pelo menos. Ele queria apenas concentrar-se na parte em que voltava para um dos momentos mais felizes de sua vida pronto para receber o reconhecimento que esperou por dez anos.
― Só acho que não há muito para fazer, aquilo já está morto, há muitos anos, na verdade ― insistiu Naruto. ― Não dá pra matar algo assim, vocês viram que arma não dá certo, é melhor deixar quieto. Ela já pode estar longe, se tivermos sorte.
― Mas ela é perigosa ― disse Sakura. ― Agora tem a chance de ter sido ela a matar Lorde Carnarvon, e vocês viram que ela atacou Sasuke-kun.
Naruto olhou para o moreno sentado no chão. Ele não falou muito, mas seu olhar foi atraído quando seu nome foi pronunciado.
― É, mas por quê? ― perguntou o loiro sem tirar os olhos de Sasuke. ― Como ela faz essa seleção de quem vai matar sem ao menos ter um cérebro?
― Ela não faz, só ataca o que tiver pela frente, provavelmente ― Carter disse.
― Não, mas... ― Sakura franziu as sobrancelhas. ― Ela esteve bem no quarto de Lorde Carnarvon, ele não aconteceu de tombar com ela. E na tumba, ela ignorou o sr. Carter e na verdade nem pareceu ver o Naruto...
O Uzumaki encolheu-se sentindo-se envergonhado por como paralisou sem ao menos respirar para que nenhum movimento atraísse aqueles olhos esbugalhados para cima de si.
― E ela foi atrás de Sasuke-kun, ela parecia saber o que fazia.
Os olhos esmeraldas fitaram Sasuke como se ele fosse logo lhe dizer o porquê a múmia queria matá-lo.
Duas batidas na porta divergiu o ar tenso da sala e Sasuke teve que sair do caminho para Sakura abrir para a moça da recepção.
― Desculpe incomodar, srta. Sakura, mas há um recado na recepção para o sr. Carter e eu vi que ele estava aqui com a senhorita.
― Que recado? ― perguntou Carter entrando no campo de visão, curioso.
― Só sei que é sobre um dos homens que trabalha com você, senhor.
Carter seguiu a moça imediatamente e Sakura aproveitou o momento para dizer que iria até o restaurante. Não adiantaria continuar a o resto da tarde trancada com aquele grupo, apenas discutindo, e já passava da hora do almoço.
Sasuke achou melhor, então, ir para o seu quarto, ficar sozinho por algum tempo. Não sentia fome.
Quando ele virou-se para Naruto, o loiro estava em uma posição desconfortável, com o pescoço pendendo e a boca aberta, dormindo ruidosamente. O Uchiha perguntou-se em que intervalo exatamente ele dormiu, pois ele próprio mal teve tempo de piscar.
Mas o outro parecia bem cansado. Olhou para a porta, considerando a possibilidade de apenas ir para seu quarto e o deixar ali para Sakura ou Carter acordá-lo, mas quando percebeu estava ao seu lado, cutucando o braço caído para fora da poltrona.
Naruto nem ao menos mexeu-se, mas Sasuke apenas ficou quieto observando o rosto adormecido. Diferente de seus sonhos incertos que teve algumas vezes que o fez lembrar, por algum motivo, do arqueólogo, agora quase apalpava a realidade que sentiu quando a múmia trouxe-lhe uma visão em meio ao enforcamento. Lembrava-se perfeitamente dos olhos azuis e o rosto redondo com marcas. Poderia vestir outros trajes e ter os olhos marcados, mas tinha certeza que vira o adormecido quando estava na tumba.
Balançando a cabeça teimosamente, como se conseguisse livrar-se dessa linha de pensamentos, ele cutucou de novo com mais ênfase e o braço mexeu-se um pouco. Sasuke fez uma careta irritada e quando cutucou de novo, foi na verdade, mais um tapa que agora fez Naruto reagir, virando o rosto para o outro lado. Então, o Uchiha perdeu mesmo a paciência o puxando com um tranco que assustou o outro em seu sono.
Naruto abriu os olhos sobressaltado e olhou para Sasuke, sentindo-se tonto imediatamente. A imagem do moreno vacilou. Ele conseguia distinguir dois Sasukes em uma pequena dança de imagens que o confundiu e sua cabeça rodou mais, como se estivesse bêbado. Uma imagem era de um Sasuke com o rosto indiferente que conheceu bem nos últimos dias e este estava mais distante do que o outro Sasuke que foi a imagem que se firmou depois de alguns segundos. A expressão deste era mais leve, a pele mais queimada do sol e o cabelo caído, mas reconhecia o jornalista ali.
A mão que lhe puxou em seu sono, tentando o acordar, agora tinha um aperto mais firme e o fundo não era mais os aposentos de Sakura e sim manchas douradas desfocadas.
Sasuke se aproximava ainda mais e a primeira coisa que faria ao ter um cara se aproximando desse modo era se afastar imediatamente, mas seu corpo parecia responder ao contrário e não conseguia controlar, também fazendo seu rosto e corpo aproximar dele.
De repente, sentiu nó em sua cabeça que o fez sentir uma dor e Naruto fechou os olhos, se sentindo cair na poltrona confortável que dormia há pouco tempo. Sasuke se afastou também com os olhos fechados e os dois abriram ao mesmo tempo voltando ao ambiente que deveriam estar desde o princípio.
― Ei... Sasuke, você... Você viu? ― disse Naruto e os dois trocaram um olhar de confusão mútua, mas o Uchiha logo se endireitou e sua expressão voltou a sua frieza enquanto ele apertava os passos dali.
~x~
― O quê?! ― a voz de Carter retumbou pelo pelas parede, atraindo alguns olhares, menos o de Sasuke que apressado, pulou de dois em dois degraus, fugindo para o corredor lá em cima.
Naruto chegava agora à recepção franzindo a cara para a exclamação do amigo.
― O que foi? ― perguntou com a voz levemente distraída, enquanto os olhos discretamente acompanharam Sasuke subindo.
― Naruto! ― disse Carter e apontou para o recado em suas mãos e o Uzumaki perguntou-se o que teria de errado com ele. ― Um de nossos escavadores está morto.
― Como é?
― Diz que ele foi encontrado morto em sua casa, sem sinal de agressão. Foi levado para o hospital para exames.
― Que nem Lorde Carnarvon ― disse Naruto e os dois olharam-se com olhos esbugalhados logo antes de correrem para o restaurante atrás de uma cabeça rosa. Sakura mal escolheu um prato quando dois homens quase a atropelaram enquanto estava parada.
― O que foi? ― ela perguntou bastante preocupada, a mente imaginando todas as coisas ruins que uma múmia poderia desencadear.
― Um dos nossos escavadores morreu ― sussurrou Carter olhando para os lados.
― O quê?
― Um dos nossos... ― começou a repetir Naruto.
― Eu ouvi, Naruto ― ela sussurrou de volta. ― Vamos sair daqui.
Mal a mulher conseguiu fechar a porta de seus aposentos, Naruto começou a dizer desesperado.
― Vocês acham que ele foi morto porque a múmia matou ele? Acho que foi ela que matou ele. Ai, Meu Deus, primeiro Lorde Carnarvon e agora isso, o que a gente faz?
― Respira ― pediu Sakura.
― Ele está matando gente, Sakura-chan ― disse o loiro.
― Por que ele está fazendo isso? ― quis saber Carter como se alguns dos outros fosse lhe virar e soltar uma resposta técnica e aceitável.
― Eu acho que, talvez, ela esteja indo atrás de pessoas que participaram da sua descoberta? Faz sentido, na verdade.
Um silêncio permeou as expressões aterrorizadas de Naruto e Carter que pensavam basicamente a mesma coisa: "Eu sou um dos envolvidos na descoberta."
― Não entrem em pânico.
― Você não é uma envolvida na descoberta ― resmungou Naruto.
― Claro que sou. Posso não ter estado no momento em que vocês acharam, mas sou a responsável do Egito pela tumba e na verdade, bastou que Lorde Carnarvon estivesse com o dinheiro envolvido para que a múmia lhe desse uma visita em seu quarto.
Carter e Naruto entreolharam-se enquanto Sakura continuou.
― Precisamos só manter a calma ― tentou reafirmar-se.
― E reunir todos que se envolveram com Tutankhamun ― completou Howard, recebendo agora a atenção. ― Quer dizer, só fica mais fácil para ela ir atrás de cada pessoa se elas estão espalhadas, precisamos estar juntos.
Naruto não queria ser o mais chato pessimista do grupo como estava sendo até agora, então só fez uma expressão de descrença enquanto pensava que nada mudaria muito se eles estivessem juntos já que provavelmente cada um estaria se cagando paralisado se aquela múmia aparecesse.
― Acho uma boa ideia ― apoiou a Haruno. ― E eu também tive uma outra. Vou pedir para que vocês vão atrás dos escavadores e eu vou até o museu. Eu preciso pegar algo lá.
― Talvez outra múmia para revivermos? ― perguntou Naruto.
O olhar que Sakura lançou-lhe o lembrou da época em que estudavam juntos e quando perdia a paciência não era muito convidativa. Ainda mais com o punho forte que possuía.
― Foi mal ― levantou as mãos, sorrindo.
― Eu quero recolher uns papéis lá que talvez nos ajude.
Carter ao lado da porta, espiou a fresta que foi deixada aberta quando uma imagem que julgou conhecer passou. Reconheceu o chapéu clochê e o andar na ponta do pé.
― Lady Evelin chegou ― ele avisou antes de sair do quarto atrás da filha de seu financiador, e também do cara que tentou o assassinar discretamente para ter créditos. E então parou com o pensamento. Naruto estava bem atrás de si quase tombando com ele. ― E se... E se ela está envolvida com aquele assassino de aluguel Sai? ― sussurrou.
― Acho improvável ― Sakura sussurrou de volta. ― Sai disse que não faria o "serviço" porque não foi pago, se Lady Evelin soubesse, ela que teria que pagar e ele não a citou.
― Ok...
Mais confiante que Evelin não era ruim como descobriu ser o pai dela, Carter a barrou na escada, impedindo-a de subir.
― Lady Evelin ― ele falou cauteloso, consciente do sofrimento da moça. ― Tudo bem?
Ela o olhou neutra, porém os olhos estavam úmidos e vermelhos, e deu de ombros.
― Os médicos disseram que ele talvez tenha se engasgado com a própria saliva no sono ― ela contou. ― Parece que era para acontecer mesmo.
Naruto concordou mentalmente.
― Se me dão licença ― ela fez menção de continuar a subir.
― O que pretende fazer agora, Lady Evelin?
Ela voltou-se, sendo impedida novamente.
― Vou voltar, claro. Vou ir para a Inglaterra, levar meu pai para o funeral em sua casa, é o que gostaria ― e então ela, novamente, começou a subir. Carter a deixou ir por momentos antes que Naruto se inclinasse e lhe dissesse baixinho:
― Ela é uma envolvida.
Howard pareceu se dar conta.
― Lady Evelin! ― correu até o degrau que ela alcançara. ― Peço para que não vá.
― Por quê? ― estranhou a garota.
― Porque... ― Olhou para Naruto atrás de ajuda, mas ele parecia atento para saber o que diria e este abriu a boca surpreso com o que ouviu. ― Temos uma múmia solta e você está em perigo.
Evelin o olhou com olhos estreitos.
― Está brincando comigo, sr. Carter? Perdi meu pai esta manhã, não aceito esse tipo de brincadeira.
― Antes fosse uma brincadeira, Lady Evelin. Mas acredite em mim. Posso lhe mostrar a tumba, aquele corpo que achamos...
Evelin lhe deu as costas, subindo o restante das escadas até o corredor.
― Como você achou que ela iria acreditar nisso? ― perguntou Naruto incrédulo.
― Eu não tinha uma desculpa melhor.
― Dizer que um meteoro cairia em Londres seria melhor desculpa do que essa, amigo.
― Naruto, ela não pode ir pra Londres, ela tem que ficar com a gente!
― Como pode saber? Talvez em Londres ela esteja segura, e acho que é o deveríamos fazer, ir para Londres e levar todos os envolvidos.
― Ninguém vai querer ir pra Inglaterra, por favor.
― Eu vou conversar com Lady Evelin ― Sakura pronunciou-se. ― Pelo menos convenço-a a ir comigo até o museu, e a gente pensa no que fazer depois ― disse ela antes de correr atrás da inglesa.
― Certo. Que bom que ela está nesse grupo, estaria perdido só com essa sua cabeça oca ― disse Carter e o Uzumaki fez uma careta. ― Eu vou atrás dos endereços dos outros escavadores para irmos atrás deles, você busque Uchiha para ir conosco.
O loiro nem terminou de abrir a boca para retrucar e Howard já estava no fim da escada correndo até a recepção, atrás de um telefone. Ele mordeu os lábios olhando para o corredor acima. Não queria ir atrás de Sasuke, ainda mais depois do momento estranho recente que passaram e ele ter fugido de si como se fosse um cão sarnento. Precisou respirar fundo várias vezes convencendo-se que conseguiria fazer qualquer coisa, ele era Uzumaki Naruto, para dar o primeiro passo em direção ao quarto do jornalista.
Em frente a porta ele fechou a mão pronto para bater, mas ao invés disso atingiu a porta duas vezes com a mão aberta, fazendo um barulho menos discreto.
Sasuke não demorou para abrir com uma careta nada feliz; quando viu quem era, a expressão pareceu piorar e isso irritou o loiro.
― É... ― começou o Uzumaki, o motivo de estar ali fugindo de sua língua como areia entre os dedos. ― Eu... Carter quer...
― O que é?
― Carter quer que venha conosco. Um dos escavadores morreu e precisamos pegar os outros para que o morto-vivo não os pegue. E temos que evitar nos separar.
Sasuke virou-se e Naruto achou que ele estaria lhe ignorando e iria fechar a porta na sua cara, então preparou alguns xingamentos em sua mente. Mas ele voltou, saindo, fechando a porta e seguindo pelo corredor.
Naruto não gostou da forma que o outro agiu como se não existisse. Ele queria se fazer de difícil? Iria além, o ignoraria para o resto daquela viagem. Ou até pelo menos a múmia vir atrás de si ou dele, o que vendo dessa maneira, ela acabaria podendo lhe fazer um favor.
Saiu com passos pesados na mesma direção olhando as costas de Sasuke pela frente, com desgosto, um bico maior que seu nariz.
O moreno conseguiu ainda trocar alguma palavras com Howard enquanto Naruto apressava para alcançar.
― Conseguiu os endereços? ― perguntou entrando na frente do Uchiha como se não o tivesse visto ali.
― Consegui, mas estava esperando srta. Haruno e Lady Evelin, elas não desceram ainda e não sei se é uma boa ideia deixá-las ir sozinhas ao museu, precisamos ficar juntos.
― Foi ideia da Sakura-chan e eu acho que elas estariam mais seguras que nós, um morto-vivo não iria atrás de um museu, apenas vamos logo antes que eu desista de correr para pegar um navio direto para Londres ou ainda para o Japão!
~x~
― Você trate de descobrir essas malditas letras, Naruto ― Carter reclamou quando estacionou. Ainda com o carro alugado de Lorde Carnarvon, estava com seu ajudante no banco de trás. Carter não gostava dele na frente, pois atrapalhava sua visão, já que se mexia muito.
Suando com o nervosismo de ir casa em casa onde seria possível que a múmia tivesse atrás de fazer visitas, ele borrou algumas letras do papel onde Carter escrevera os endereços que deveriam ir atrás.
― Você fica aqui no carro tentando desvendar isso aí e eu e o Uchiha vamos pegar o nosso primeiro escavador ― ele avisou saindo do carro junto com o jornalista.
Naruto bufou aproximando o máximo que podia o papel de seus olhos tentando enxergar o que seria aquele borrado, disfarçando o quanto ficava feliz tendo de ficar no carro. Ele olhou para o resto do banco vazio ao seu lado e para trás onde havia mais espaço, porém perguntou-se como levariam aproximadamente dez pessoas ali dentro.
Howard tocou a campainha ansioso logo que aproximou-se. Agora percebia que não ensaiara o que falaria e aparentemente não poderia falar a verdade, mas confiava que esses homens que o ajudaram por todos esses anos o seguiriam até o hotel por alguns dias até que descobrissem o que fazer depois.
Depois de um minuto, ele olhou para Sasuke e os dois pensavam que talvez estivesse demorando um pouco e ele tocou de novo.
― Será que ele não está? ― perguntou-se depois de mais um minuto. ― Será que―
Então com uma realização caindo como água fria em sua cabeça, ele arregalou os olhos.
― Oh, Meu Deus ― agitou-se e Sasuke entendeu imediatamente o que estava pensando quando ele tentou abrir a porta forçadamente. O moreno afastou-se um pouco e Carter achou que precisaria se afastar quando ele levantou a perna e impulsionou uma força para chutar a porta.
A porta bateu com força na parede e voltou. Carter teve que empurrá-la de seu caminho quando entrou correndo com o Uchiha atrás de si. Eles trombaram-se na porta da cozinha quando a visão de Carter pegou as costas de quem vieram buscar, mas então o escavador caiu tão rápido quanto seus olhos pousaram nele. Mas ele não estava sozinho, constataram os homens quando o rugido que poderiam lhe dar pesadelos pelos próximos anos, alcançou seus ouvidos e o corpo desgastado foi visto por eles.
Não daria tempo nem de fingir que eles não estavam ali, a múmia os captou tão logo eles entraram e os olhos assustadores os ameaçavam enquanto ela se aproximou. Sasuke sentiu o peso daquele par em cima de si como no outro dia e tremeu. Carter imediatamente o puxou circulando a mesa para tentar impedir o avanço do morto, mas ele simplesmente virou a mesa para o lado passando por cima do homem que acabara de matar.
Quando os dedos finos dele aproximaram-se o suficiente para que Sasuke conseguisse senti-los em sua pele novamente com um instinto assassino enorme pronto para lhe sufocar até a morte, como não aconteceu da última vez, Naruto entrou correndo com um sorriso que sumiu tão rápido que pensou ter imaginado.
― Ei, H.C., eu consegui― Oh ― estancou na porta com o papel na mão. A atenção da múmia foi desviada, mas Sasuke não sabia por quanto tempo. Conseguiu ver as veias daqueles terríveis olhos negros aliviarem e ela abaixou a mão que estava para lhe alcançar. Ele espiou Naruto que estava aterrorizado por ter pego a atenção da múmia e este deu um passo para trás quando ela deu um em sua direção. O próximo passo dela se arrastou bem para a frente do loiro como se captasse que ele correria se perdesse tempo com passos comuns até ele e Naruto ofegou assustado prendendo-se entre o morto e a parede da cozinha.
Sasuke franziu o cenho quando apenas o que a múmia fez foi aproximar o rosto do de Naruto como se o cheirasse e aquela mão feia que quase o matara subiu apenas para tocar a pele do Uzumaki perto das marquinhas de seu rosto.
Todos ― os vivos ― prenderam a respiração naquela cozinha. Carter por achar que seu amigo acabaria morto pela múmia, sua mão correndo por sua calça para alcançar alguma coisa. Naruto por puro medo que ele enfiasse os dedos ali e arrancasse sua pele ou algo assim. Sasuke por uma raiva descomunal que o lembrou do sentimento de sua visão na tumba.
Seus olhos percorreram a cozinha e estava disposto a chegar até o outro lado para alcançar uma faca na pia. Se um tiro não matava a criatura, não sabia o que faria com uma faca, mas era o melhor que conseguiria, pensou.
Naruto não ousou mexer-se mesmo quando a mão desceu para seu pescoço e achou que seria estrangulado até a morte. Ao invés disso, sentiu apenas os dedos o tocando e começou a prestar atenção nos olhos que estavam em cima de si atentamente.
Eram olhos tão conhecidos, como se fosse parte de alguém próximo e tremeu com o pensamento. Mas então desviou os seus olhos quando percebeu um movimento ao fundo e ele e Sasuke conectaram os olhares. O moreno mexeu-se para tentar alcançar o outro lado da cozinha e parou porque foi como se Naruto o obrigasse a encará-lo, os fazendo lembrar não só da visão que compartilharam mas de algum sentimento que formigava o estômago e que não parecia ser nada novo.
Naruto sentiu-se em um tipo de Déjà vu. Como se tivesse passado por uma situação parecida, como uma lembrança em que Sasuke, disfarçando sua chegada atrás de uma estátua, aproximava-se enquanto ele mantinha o homem à sua frente de costas, distraído e raivoso demais consigo para virar-se. Mas então deu-se conta que à sua frente, nesse presente momento, não era um homem e sim um corpo em pedaços.
De repente, a múmia virou para Sasuke lembrando-se, ou deixando claro que não esquecera, da existência deles ali, depois de seguir o caminho dos olhos azuis. O morto rugiu mais alto e feroz do que de todas as vezes que aqueles três já ouviram e agarrou o bíceps de Naruto de surpresa e com uma força incontestável enquanto o arrastou consigo, em seus passos pesados.
Sasuke percebeu que ele estava vindo para cima de si de novo e correu até a faca que intentava, mas não pareceu suficiente. Antes que conseguisse dar o primeiro passo, sentiu suas costas baterem com firmeza na parede, seus pés fora do chão e sua garganta sendo esmagada.
― Oh, Meu Deus! ― gritou Naruto sendo preso ao lado da múmia com o braço que não sufocava Sasuke e quando ele fez uma menção corajosa de tentar impedir o que via, um barulho alto, como de um escapamento de carro, chegou aos ouvidos de todos e a múmia gritou e soltou os dois homens enquanto se desfez na frente deles.
Naruto ficou de boca aberta ao ver Carter com os dois braços estendidos segurando uma arma que apontava na direção deles.
― Você achou que eu viria despreparado? Armas podem não matar, mas pelo menos assustam a coisa.
― Onde você conseguiu isso? ― perguntou o Uzumaki.
― Com o sr. Sai, o cavaleiro que iria nos matar.
― Você quase me acertou, H.C.!
― De nada.
Naruto resmungou virando-se para Sasuke que escorregou até o chão.
― Você 'tá bem? ― ele perguntou sem graça enquanto Carter aproximava-se, guardando a arma no cinto, se achando bem malandro ainda que sentisse sua mão ainda tremendo.
― Sim ― respondeu Sasuke antes de levantar os olhos para o loiro. ― Você?
― 'To bem.
Os dois passaram tanto tempo desviando os olhos para depois encontrarem o caminho de volta para se encararem que deu espaço para Carter fazer uma expressão triste e passar um tempo em luto, e ainda depois notá-los na mesma posição.
― Se vocês estão bem, levantem-se logo, precisamos evitar mais disso ― ele apontou para o corpo. ― Precisamos chegar aos outros.
~x~
― É bom que você não esteja me enrolando ― avisou Evelin para Sakura.
As duas chegavam ao museu e a Haruno saía com pressa do carro pedindo para que a Lady a acompanhasse logo.
― Sou uma mulher de palavra ― avisou Sakura.
― Espero mesmo. Pois não saio daqui sem minha edição de "Encantamentos Egípcios".
― Pode deixar.
Como era do Conselho Supremo de Antiguidades, Sakura tinha acesso às salas por trás do museu de Luxor, onde algumas antiguidades estavam guardadas.
― Só preciso pegar uma coisa primeiro ― ela avisou.
As moças atravessaram um corredor escuro por causa do piso de madeira e paredes que imitavam rochas. Em uma porta onde havia escrito "arquivos antigos", Sakura girou a chave na fechadura, depois de consegui-la com um responsável.
― O que você precisa pegar? ― perguntou Lady Evelin quando a Haruno abriu a porta pesada.
― Só alguns―
Foi interrompida com o desvio de atenção de Evelin para dentro, o que a fez soltar um grito estridente.
Com um tamanho de um quarto, aquela sala de arquivos antigos não conseguiu esconder o maciço corpo em decomposição que mexia em alguns pergaminhos restritos.
Lady Evelin não se restringiu a apenas um grito, e berrou mais uma vez. Sakura arregalou os olhos tendo como último lugar no mundo o museu para aquela criatura estar.
O grito de Evelin atraiu os olhos humanos da múmia, mas apenas o que fez foi agarrar um bando de papéis e sumir de suas vistas.
Evelin berrou quando a múmia foi embora, também, e ao sentir o coração mais calmo, disse por entre sua respiração ofegante:
― Eu conheço aquele cara!
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