A Maldição Da Morte
3 Capítulo II - LOJA INFERNAL
Notas iniciais
O cansaço já tomava o corpo de Kenny, mas ele tinha a convicção que não podia parar ou coisas terríveis aconteceriam. A cada passo, maior era a determinação para continuar e chegar ao Acampamento. Porém algo veio-lhe a cabeça. Como chegarei lá? Não tenho a mínima condição de ir a pé. Mas também não tenho nenhum dinheiro. O que vou fazer? Pensando numa solução para o seu problema, o garoto esqueceu-se do aviso da deusa, parou de correr e agora caminhava. Reparou então que sentia fome e sede, afinal não havia comido nada a noite toda e suas energias estavam esgotadas. Foi então que avistou um posto de gasolina e resolveu entrar na loja de conveniências para tentar roubar alguma coisa e comer.
A loja não era lá essas coisas. Havia o balcão próximo a porta e o interior da loja era disposto em 5 filas de prateleiras altas. Não havia ninguém, exceto o balconista, um rapaz loiro de no máximo 25 anos com o rosto cheio de espinhas. Kenny foi entrando e reparou a expressão do balconista, que antes lia uma revista, mas a guardara para observar o que um garoto queria de madrugada em uma loja daquelas:
-- Boa noite rapaz! Posso ajudar? – o rapaz fulminava o menino com o olhar – O que está procurando?
-- Hum. Não precisa! Obrigado. Vim apenas comprar refrigerantes. Sabe, festa do pijama. – mentiu Kenny
-- Sei. O freezer está ali, no fundo da loja – respondeu o balconista secamente.
Kenny adentrou o interior da loja e seguiu para o fundo, onde estavam as máquinas de refrigerante. Pegou um pacote de biscoitos e o abriu com todo o cuidado para não fazer barulho. Colocando os biscoitos na boca, mastigou vagarosamente tomando cuidado redobrado com o silêncio. Largou o pacote aberto e abriu a porta do freezer, pegou duas garrafas de Coca-Cola e foi caminhando de volta ao balcão...
Do lado de fora, voltara a chover. Dessa vez, a tempestade era mais impetuosa e relâmpagos riscavam o céu, iluminando aquela noite escura. Durante um desses momentos de clarão, quem não fosse ofuscado pela névoa perceberia a figura de um cão que se aproximava do posto de gasolina, farejando algo. Porém era um animal muito maior que o normal. Certamente, não era um cão comum.
-- Quatro dólares, garoto – disse o rapaz loiro, contabilizando a compra no computador
-- Deixe-me contar o dinheiro – Kenny enfiou as mãos nos bolsos, porém sabia que nada encontraria. Então, mentiu novamente – Ah! Acabei de lembrar que também vou precisar de uns biscoitos. – e saiu de volta para o fundo da loja.
Kenny comia mais biscoitos. Estava quase saciado quando foi surpreendido pelo balconista que havia saído de seu posto para vigiar o garoto.
-- E então, achou o dinheiro, ladrãozinho? – O balconista, agora enfurecido, tomou o pacote, agora vazio, das mãos do menino e o puxou pelos cabelos à caminho da saída. – Você não tem vergonha de mentir e ainda assaltar uma loja de conveniência? Podia tentar algum lugar que desse mais dinheiro! Sua sorte é que hoje estou de bom humor porque minha namorada vai casar-se comigo. Do contrário, você estaria frito, garoto!
-- Me largue! Eu só queria alguma coisa para comer. Eu não vim roubar nenhum dinheiro! – A cabeça de Kenny doía, como se seus cabelos estivessem sendo arrancados. Ele debatia-se tentando soltar-se das mãos do rapaz loiro – Eu juro! Me solte e eu vou embora!
-- Você pensa que é assim? Eu conheço vocês, seus delinquentes! Sempre com essa história de que estão com fome. Tudo mentira!
Chegaram a porta. Kenny debatia-se mais ainda para tentar soltar-se. O balconista empurrou o garoto contra o vidro da porta e foi revistando-o.
-- Vamos ver o que mais você roubou. Além dos biscoitos, é claro!
-- Já disse que não sou ladrão! Não vim roubar nada! –disse Kenny com o rosto espremido contra o vidro.
Foi então que ele avistou, não muito longe, um par de olhos vermelhos e grandes observando a movimentação no interior da loja. O terror rapidamente tomou conta de Kenny que começou a debater-se freneticamente para se livrar das mãos que o prendiam. Lembrou do aviso de Nyx. O alerta sobre as coisas terríveis que poderiam acontecer. Ele havia parado, havia dado margem para o mal se aproximar.
Os olhos começaram a se mover, Kenny logo distinguiu a figura do cão gigantesco vindo a seu encontro. O garoto, porém, tinha certeza que aquele monstro não queria brincar, mas sim transformá-lo em ração. E ele estava bem próximo. Vinha correndo.
Com o desespero aflorando, o menino conseguiu desvencilhar-se das mãos do balconista e jogar-se para o lado, bem a tempo. O cão monstruoso saltou contra o vidro, estilhaçando-o e derrubando o balconista, que não teve a mínima chance de reação e ficou preso sob as garras medonhas da criatura. Kenny arrastou-se pelo chão, repleto de cacos de vidro, para esconder-se atrás de uma prateleira, quando ouviu um grito. Era o balconista. O menino, criou coragem e olhou em busca do caçador e de sua presa.
Os cabelos loiros estavam banhados em sangue, assim como o restante do corpo e o chão ao redor. Certamente já estava morto, pois não se mexia mais. O cão mordia a carne do torso com voracidade, parecia estar a dias em busca de alguma presa. Tinha tido sucesso enfim, e poderia ganhar um bônus se Kenny não saísse daquele lugar antes de ser encontrado.
O garoto continuava observando aquela cena atônito à toda a carnificina. Foi então que veio a pior parte. As presas grandes e bastante afiadas do cão gigante, prenderam-se ao braço do ex-balconista, agora morto. Com um puxão, o animal decepou o membro do homem como uma garotinha que arranca o braço de sua boneca. O sangue espirrou por todos os lados, chegando a pingar no rosto de Kenny, que estava a uns 5 metros apenas da fera. O cheiro horrível que ia se espalhando pelo ar, causava náuseas, o que fez o garoto vomitar o pouco que havia comido ali mesmo.
Recuperado, ele voltou a si e começou a planejar uma maneira de fugir. Imaginou como poderia usar nova porta que havia sido aberta. Enquanto o animal terminava sua refeição, Kenny preparou seu plano. Criou coragem, nem ele mesmo sabia de onde, e levantou-se:
-- Ei feioso! Aqui ó! Carne fresquinha! Vem pegar, vem! – Disse isso, com um medo tão grande que suas pernas estavam tremendo.
A criatura voltou seu olhar demoníaco para o menino que reparava no rosto do animal totalmente banhado em sangue. Na sua boca ainda pendia uma mão. Sim, uma mão ensanguentada, que logo foi engolida. O monstro latiu então, seu latido assemelhava-se ao rugido de um Tiranossauro do filme O Parque dos Dinossauros, porém, numa versão mais demoníaca e monstruosa. Ao calar o latido, deu-se um momento de silencio, Kenny imaginando o que a fera iria fazer e ela apenas observando o garoto.
Foi então que tudo aconteceu. O animal correu ao encalço do menino que foi na direção dos fundos da loja, próximo aos freezers. Lá, ele observou o cão aproximar-se velozmente e entrou no corredor entre duas estantes, empurrou uma com todas as forças que lhe restavam, fazendo-a cair sobre a criatura que grunhiu, mas, rapidamente, começava a se reerguer para reiniciar a caçada.
Kenny correu para a vidraça quebrada e ia saindo, quando sentiu um calafrio, olhou para o chão, antes branco, que estava negro, formando uma espécie de buraco. De perto, o garoto sentia-se estranho: medo, tristeza, frio, todo tipo de sensação ruim. Era como se as portas para o lugar mais terrível do mundo tivessem sido abertas. Afastando-se daquilo, o menino observou que algo saia de lá, uma coisa ainda estranha e meio sem forma, mas que rapidamente foi reconhecida. Era uma pata grande, de cão, que vinha surgindo. Rapidamente, o animal inteiro estava do lado de fora do buraco negro, que agora havia sumido. Kenny não acreditava no que via. Dois monstros daquele! Não havia como derrotá-los! Olhou de relance para o local onde havia prendido a outra criatura. Não havia mais nada. Voltou-se novamente para o perigo a sua frente e notou o rosto do cão banhado em sangue. Ele havia teleportado! Não era bem um teletransporte, era mais como se o bicho houvesse entrado em um portal e saído em frente ao garoto.
Voltando a realidade em que se encontrava, Kenny se viu novamente perplexo com o que estava acontecendo. O animal certamente avançaria contra o menino. Contudo, ele, misteriosamente se viu envolto pela escuridão. O que havia acontecido? Ele imaginava. Será que havia entrado num portal como o animal? Mas ele não estava sentindo-se estranho como da outra vez. O que era aquilo?
Luz novamente. Ele se viu sozinho em uma pequena sala cheia de caixas com apenas uma porta para saída e entrada. Se perguntou onde estava. E rapidamente obteve a resposta em tom de sussurro:
-- Kenny, eu o pedi que fosse o mais rápido possível para o Acampamento Meio-Sangue. -- Era Nyx, deusa da noite. Ela o havia salvado -- Falei-o dos perigos, mas você não me ouviu. Prometi ajudá-lo, eu sei, mas não posso interferir em sua vida assim, garoto! Aprenda a ouvir conselhos! Eu o trouxe para a sala onde os mortais guardam mantimentos para abastecer o comércio. Foi o mais seguro que pude, porém aquele Cão Infernal não perderá o seu rastro tão facilmente. Ele passará a noite em sua busca. Tratei de impedir que ele viajasse para dentro desse espaço. Mas tenho que pedir novamente a você: vá para o Acampamento urgentemente! Quando Apolo retornar com o Sol, a criatura voltará ao submundo e você poderá sair, mas trate de ser rápido, pois muitos mortais virão observar e investigar o ocorrido e você não pode ser visto. Por isso seja rápido! E não conte mais com a minha intervenção!
O garoto achou melhor não dizer nada a deusa, imaginou que seria desrespeitoso e poderia ofendê-la, por isso sentou-se no chão, encostado numa caixa e pôs-se a pensar. Estava exausto, com fome, com sede, e ainda atordoado por tudo o que passara naquela noite, mas não podia sair e precisava descansar. Por isso, decidiu que era melhor se entregar ao sono. Dormiu ali no chão, esperando que algo de bom pudesse acontecer no dia seguinte.
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