A Maldição Da Morte
4 Capítulo III - O ACAMPAMENTO
Notas iniciais
Kenny acordou assustado com o barulho de uma lata de carne que caíra ao seu lado, provavelmente um rato em busca de algo para comer. Comer. Essa era a maior vontade de Kenny naquele momento.
A fuga do Cão Infernal, nome que Nyx havia dado ao monstro, havia esgotado o garoto. Os biscoitos de nada adiantaram, pois, àquela hora, eram apenas uma sopa nojenta e fétida espalhada pelo piso da loja. Precisava sair daquele lugar o mais rápido possível, já que a polícia e equipes de filmagem logo estariam ali. Mas, primeiro, tinha que pegar algo para acabar com a fome e a sede que já estavam causando-lhe tonturas e dores de cabeça.
Abriu a porta e deu uma olhada ao redor, em busca da criatura, mas não viu nada. Como Nyx dissera, ele deveria ter retornado ao submundo. Procurou algo para guardar mantimentos. Havia uma mochila em baixo do balcão. A mochila do balconista. Imaginou Kenny. Um garoto qualquer que estava ali tentando arrumar algum dinheiro. Mesmo que fosse um jovem um pouco cruel – a cabeça de Kenny ainda doía pelos puxões – não merecia morrer daquele jeito. Ele tinha sonhos, como todos, e estava prestes a casar com a mulher que amava. Ele tinha família e amigos que sofreriam com o que acontecera. Tudo culpa de Kenny, o garoto que leva a morte por onde passa. Pensava.
Deixando de lado aqueles pensamentos, o garoto pegou a mochila, esvaziou-a — havia uma foto da namorada do garoto loiro, o que deixou Kenny um pouco atordoado – e começou a enchê-la de comida. Ele tinha que se apressar. O relógio na parede indicava que já eram oito horas, logo alguém chegaria ali. Comeu e bebeu um pouco e, com a mochila repleta de biscoitos, latas de refrigerante, garrafas de água, salgadinhos e um martelo, – que esperava usar como arma de defesa – ele rumou para a saída. Passou pelo corpo estraçalhado sem olhar, pois sabia que aquilo o atormentaria eternamente.
. . .
Quando já estava à algumas quadras longe do posto de gasolina, o garoto ouviu o som de sirenes. A polícia havia chegado à loja. Logo depois viu uma intensa movimentação de furgões das emissoras de televisão. Será que descobririam que ele estivera naquele lugar? Kenny esperava que a equipe da polícia não fosse tão eficiente quanto os investigadores do CSI. Continuou seu caminho. Tinha que se distanciar o máximo dali.
Caminhava perto de um parquinho. Lá, crianças brincavam no escorregador e no balanço. Vendo aquela imagem, o garoto lembrou-se da época em que sua mãe o levava ao parque, brincava com ele, depois o levava para tomar sorvete. Uma lágrima de saudade brotou no canto do seu olho, mas ele não poderia se render aquele sentimento. Precisava seguir seu caminho. Sentou-se num banco um pouco mais a frente, já longe das crianças, pegou uma lata de refrigerante na mochila, abriu-a e foi bebendo...
-- Corram! Vamos! Temos que salvar a Nina e chegar ao Acampamento antes do sol se pôr!
Acampamento! Será? Aquela simples palavra alertou Kenny. Será que ele falava do tal Acampamento Meio-Sangue? Levantou-se e observou três garotos correndo através do parquinho. Pareciam seguir algo. Mas o que? Um garoto loiro ia a frente, provavelmente o líder. Os outros dois, um de cabelos pretos e o outro, castanhos iam atrás. Cerrou os olhos e pode ver que eles carregavam algo nas mãos. Ora pareciam gravetos, ora... Espadas! Kenny não conteve-se saiu em disparada atrás daquelas três figuras, tinha quase certeza que aqueles caras poderiam ser a solução que Kenny buscava.
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Viu os garotos estranhos entrando em um beco largo. Escondeu-se atrás de uma lata de lixo e tentou ver o que acontecia lá dentro.
Os três haviam cercado um homem grande e bastante gordo. Devia ter quase três metros de altura. Quem tinha três metros de altura? Kenny piscou e assustou-se. No lugar onde estava o homem, agora, havia um touro que caminhava sob os dois pés. Assemelhava-se a um homem, mas o corpo ainda era de touro. Piscou várias vezes e viu o monstro alternando entre homem e touro. Será que estava ficando maluco novamente?
-- Largue a Nina, monstro! Agora! – era o garoto de cabelos pretos. Era o mais alto e bastante corpulento. Sua pele era muito branca e voz impunha autoridade – Largue-a ou o mataremos!
O homem-touro bufou em desaprovação. Em seus ombros, ele segurava uma garota pequena, parecia ter uns 10 anos pelo seu tamanho. Estava descordada. Com a outra mão, a criatura arrancou uma parte do encanamento preso a parede e o empunhou como uma espada. A diferença era que sua espada tinha pelo menos três metros. O garoto de cabelos loiros, então, gritou ao monstro:
-- Solte a garota, Minotauro! Prometemos que o deixaremos fugir. Vamos! Solte-a! Ou eu mesmo o transformarei em pó!
-- Você nada! Eu farei isso! – disse o de cabelos negros, que parecia querer competir com o loiro. – Eu o transformarei em pó, Minotauro!
-- Calem-se vocês dois! Temos que nos preocupar em salvar a Nina, não em discutir quem é que vai acertar esse panaca! – dessa vez era o menor de cabelos castanhos. Parecia bem esperto.
-- Ah. Desculpe! – falou o mais alto, como uma criança que acabou de quebrar o vaso favorito de sua mãe – E então tourão? Vai soltar a garota ou não?
O touro bufou novamente e preparou-se para a luta, ainda segurando a garotinha com uma das mãos e a “espada” com a outra.
A luta começou e Kenny estava muito entusiasmado com o que estava vendo. Mas ao mesmo tempo achava que aqueles garotos não teriam uma vida longa pela frente, enfrentando aquele monstro. Como não podia fazer nada, continuou observando.
O loiro e o moreno correram e atacaram juntos as pernas da criatura, que cambaleou com o seu grande peso e caiu de joelhos. Parecia ser muito lerdo, mas contrariando o pensamento de Kenny, o monstro ergueu-se rapidamente e atacou horizontalmente com o cano. Ambos conseguiram desviar agilmente, mas a criatura bradou sua arma de volta e acertou-os em cheio. Os dois foram arremessados contra a parede. Pareciam desacordados. Agora, só restava o garoto menor. Ele não teria chance contra aquela coisa, pensava Kenny. Então, o Minotauro, fora assim que os garotos-guerreiros o haviam chamado, começou a caminhar em direção do menino, que recuava. Ele arremessou sua espada de bronze em direção ao peito da coisa. A espada não fora com força suficiente e apenas ricocheteou no peitoral do monstro, caindo no chão. O Minotauro continuou avançando em direção ao menino como um animal faminto que vai em busca de sua presa.
Kenny, então, se surpreendeu quando o jovem de cabelos castanhos ergueu as mãos em direção ao monstro. Estaria suplicando que não o matasse? Era o fim. O Minotauro ergueu sua “espada” alto, mas algo estava errado. Algo incomodava a criatura. Kenny observou trepadeiras brotando do chão ao redor do animal monstruoso. As plantas iam crescendo, subindo pelo corpo peludo do touro que se contorcia, tentando se libertar da prisão. Rapidamente ele fora imobilizado pelas vinhas, deixando cair o pedaço de cano e a garota no chão. Tudo controlado pelo menino que fazia movimentos com as mãos, como que informando as plantas como crescerem ao redor do homem-touro, que agora estava totalmente aprisionado.
Kenny estava assustado e ao mesmo tempo maravilhado. Aquilo fora sensacional!
O garoto pequeno abaixou os braços e parecia meio tonto, porém, partiu em direção a menina, parecendo preocupado. Ela estava acordando, sua pele era pálida e seu rosto recheado de sardas. Ele segurava –a em seus braços, ainda mais tonta que ele, quando a prisão de vinhas começou a arrebentar. O homem-touro estava se soltando. Os dois começaram a se arrastar pelo chão, indo na direção oposta ao monstro que estava quase totalmente liberto. Com um urro de satisfação, a criatura livrou suas patas e avançou novamente em direção as presas. Os dois fecharam os olhos e abraçaram-se, seguidos de Kenny que virou o rosto.
Urros de dor. Ao abrir os olhos Kenny viu uma espada cravada na altura do estômago do animal. Sua dor era tão intensa que era possível sentir pena. Os dois garotinhos no chão, olhavam incrédulos para fera que arrancara a espada do seu flanco e a jogara longe
-- Então grandão, alguém já te falou pra não mexer com os filhos de Ares? – Era o garoto loiro, juntamente com o outro de cabelos negros, o que havia arremessado a espada, que estavam agora de pé – E então, irmão? Pronto pra mandar ver?
-- Claro! – respondeu o de cabelos negros que agora tinha uma lança em suas mãos. De onde surgira aquela arma?
Os dois correram novamente em direção ao monstro. O moreno enterrou sua lança no peito do Minotauro que cambaleou para trás, encontrando com a parede. O loiro, então, correu, tomou impulso, pulou em cima de uma lata de lixo e saltou para cima do monstro. A lâmina brilhante da espada desceu e, incrivelmente, não houve derramamento de sangue. A criatura simplesmente havia se transformado em pó. Um pó dourado.
. . .
Todos os quatro de pé, os dois maiores, o garotinho de cabelo castanho e a menina, agora totalmente desperta. Conversavam e pareciam planejar algo. Kenny ia levantando-se para tentar falar com o grupo quando, sem querer, pisou no rabo de um gato que ali dormia. O bicho miou alto e avançou no garoto que caiu no chão derrubando a lata de lixo que o escondia. Os quatro, viraram-se, os garotos impondo as armas, e foram em direção a Kenny que tentava levantar:
-- Quem é você? Você não é um monstro, é? – perguntou o de cabelos negros, apontando a lança para o Kenny
-- Iuri, ele é mortal! Você sabe que eles não podem ver monstros! –sussurrou o menor para Iuri, mas Kenny conseguiu ouvir – Bem, o quer cara?
-- Não, eu não sou um monstro! Pode tirar sua lança de perto do meu rosto? – Kenny estava um pouco assustado. Mas logo, Iuri baixou a arma.
-- Você pode ver que é uma lança? – era a garotinha, Nina, surpresa com o que acabara de ouvir.
-- Claro! E também vi tudo o que acabou de acontecer. O Minotauro e como vocês o transformaram em pó. Literalmente – respondeu Kenny, imaginando ser obvia a resposta.
Os quatro se olharam e começaram a cochichar entre si. Kenny conseguia entender algumas poucas partes. Ele é um semideus! Só pode ser... Não podemos deixá-lo... Monstros... Vamos leva-lo ao Acampamento...
-- Epa! É para esse lugar que eu estou querendo ir mesmo! Acampamento Meio-Sangue.
-- Você conhece o Acampamento? Realmente você deve ser um semideus. – falou o loiro
-- Bem, eu não sei o que é ser um semideus, mas ontem fui expulso da minha casa e encontrei com uma mulher que se dizia deusa. Nyx, era assim que se chamava.
Os outros quatro pareciam perplexos demais para falar. Por fim a menor disse:
-- Você encontrou Nyx? A deusa da Noite? Pessoal, temos que levar esse garoto para o Acampamento urgente! Quíron vai gostar de conhece-lo.
-- Quem é Quíron? – perguntou Kenny
-- Nosso diretor de atividades. É ele que nos treina para sobrevivermos aos ataques de monstros. – comentou Iuri – Ah. Ele é um centauro.
-- Um centa o que? Diretor de atividades? Treinamento contra ataques? Que tipo de Acampamento é esse
-- Um acampamento para pessoas como você, garoto. Filhos dos deuses. Um Meio- Sangue. Um herói. – Nina falava com entusiasmo. Realmente devia ser um lugar muito bom.
-- Pois bem—enfim, disse Kenny – Nyx disse que eu fosse para esse tal acampamento. E é para lá que eu quero ir! Vocês vão realmente me levar?
-- Bem, aprendi um truque com minha mãe. Iris, a deusa do arco-íris. Podemos viajar assim como as mensagens que minha mãe envia por todo o mundo. Precisamos apenas de um arco-íris. – Nina falava enquanto olhava em volta procurando.
Por sorte, o encanamento que o Minotauro arrebentara liberara água, que em contato com a luz do sol, formara um pequeno arco colorido. Todo se aproximaram, Nina pegou uma moeda dourada, não eram centavos, disso Kenny tinha certeza, e a arremessou em direção ao arco, dizendo:
-- Ó mãe Iris, deusa do arco-íris. Aceite a minha oferenda, mãe, e me leve em segurança, juntamente com meus companheiros para o Acampamento Meio-Sangue, Long Island.
Uma névoa colorida envolveu a todos. Os dois grandões não pareciam muito satisfeitos por serem engolidos por glitter colorido, mas ficaram quietos, assistindo ao que ocorria. Rapidamente os quatro foram engolidos pelo pó e, em um piscar de olhos, sumiram, deixando apenas um rastro multicolorido no ar.
Quando a névoa arco-íris baixou, os quatro garotos se viram a beira de um grande lago, onde havia outro arco- íris. Viam-se várias canoas, jovens pescando e Kenny acreditava ter visto uma garota, transparente como a água, acenando para ele. Olhou ao redor e viu um caminho de terra que levava a um bosque. Seguindo seus novos companheiros pela trilha, ele logo avistou uma clareira. Havia umas vinte cabanas dispostas a fim de formar uma grande ferradura. Kenny impressionou-se pela quantidade de jovens que havia ali. De todas as idades, de todos os tamanhos. Kenny viu garotos atirando com arcos, lutando entre si, viu outros trabalhando em carruagens, cuidando de hortas, carregando armaduras e escudos. Alguns ainda, jogavam queimado numa quadra ali próxima. Foi então que Nina pegou-o pelo braço e o levou até uma casa de dois andares. Lá, estava um homem sentado em uma cadeira de rodas. A barba grande caindo pela blusa onde havia escrito Pôneis de Festa. Ele olhou para Kenny e, incrivelmente, levantou-se da cadeira, revelando uma metade cavalo que possuía da cintura para baixo. Kenny assustou-se com aquilo, mas a voz mansa do homem o acalmou rapidamente:
-- Olá, garoto! Sou Quíron, Diretor de Atividades. Bem-Vindo ao Acampamento Meio Sangue.
Aquele era realmente o Acampamento Meio-Sangue? Kenny não sabia se acreditava no que via. Mas se aquele realmente era o tal acampamento, Kenny tinha certeza que ali poderia ser um ótimo lugar para viver, ou, como no caso dele, recomeçar a viver.
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