A Maldita Volta de Ana Catarina

1 Talvez seja verdade aquela história de que a chuva traz as pessoas


Notas iniciais
Olá, pessoas. Bem, este primeiro capítulo é curtinho. Não planejei muitos acontecimentos para ele, porque confesso que estou um pouco insegura. Então qualquer opinião é válida, só para eu saber se devo continuar, por favor... Sabem como é... Espero que gostem, enfim. (:

Mais um balde de lama seguia porta afora. Mainha estava num desespero que só ela. Sempre que chovia era assim: essa agonia da moléstia dos cachorros.Desta vez parecia ter sido pior, até cobra veio junto com a enchente, cobra viva, vivinha.

Eu estava num sonho tão bonito, sabe?! Árvores viçosas, parques floridos, vendedores de pipoca e uma garota bonita berrando: Pedrinho, é você mesmo que eu quero! Ela era tão bonita, que o vento fazia aquele efeito de comercial de shampoo no cabelo dela… dourado… comprido… pense numa galega. Só que… era estranho, ao invés de eu ir até ela e tasca-lhe um beijo, eu fugia como um condenado. E corria, corria em câmera lenta, como se estivesse sendo perseguido pelo meu vizinho Juraci, que é um caboclo, misericórdia. E a menina atras de mim, arrancando as roupas… nuinha.

Então eu acordei… assustado, sentindo um beliscão de dúvida quanto à minha masculinidade, ouvindo uns barulhos estranhos… gritos e sei lá mais o quê. Sentei na cama: uma sensação esquisita. E assim que abaixei os pés, a fim de fincá-los no chão, cadê o chão? Foi aí que senti uma frescurinha nos pelos da perna, uma coisa fria e suave ralando em mim, uma cócega gostosa… eu até sorri… pensei que ainda estivesse sonhando. Pisquei várias vezes até perceber que estava completamente lúcido. Pela pouca luz no ambiente, ainda era madrugada. Minha espreguiçada fora interrompida por um berro escandaloso.

— Pedrinho! Corre aqui, pelo amor de Deus, menino.

Era maninha, aflita toda.

— Pera aí.

Eu saltei da cama todo na vontade. Então veio a sensação, não podia ser pior: eu estava ilhado. Minha cama não era uma cama, era uma jangada. Meu quarto era um rio poluído, cujos jacarés eram as cobras corais falsas, para um pouco da minha sorte – as corais falsas não possuem veneno. Eu nadei, ops, andei esforçadamente para chegar até à porta. A água estava quase na cintura. Ao alcança-la, abri-a nas carreiras, ainda pensando se era gay, e gritei, gritei por mainha, que estava no outro lado do corredor, totalmente descabelada com com uma foice na mão, degolando ratos.

E desde aquela hora eu tô tirando lama e bicho morto de dentro de casa.

***

— Mas Pedro, tu tem que entender uma coisa... — mainha resmungava enquanto lavava a sala com uma mangueira verde — se você não cuidar de arranjar um trabalho bom, nunca que vamos sair desse inferno de rua maldita.

Eu rolei os olhos.

— Mãe, o bairro todo está praticamente, tipo, debaixo d’água. Eu gosto de morar aqui. De jogar pelada. De ficar brisando com os moleques no Treze de Maio. — ela me olhava com nojo — se a gente sair daqui, a gente vai pra onde?

— Eu quero morar na beira mar de Boa Viajem, menino. — ela sorria de orelha à orelha, fitando a chuva que caia do outro lado da janela — Eu quero é luxo.

— Apois a senhora que mande Jussara arrumar um serviço que renda dinheiro fácil. Porque eu quero mesmo é ser frentista. É a moral.

Ela me deu um tapa no espinhaço.

— Se oriente.

Julia Jussara é minha irmã mais nova. Ela tem quinze anos de puro caçarratismo. Acho que todos os caras da minha sala já me deram uns 7 belos em troca do telefone dela. Não que ela seja tão bonita assim, é que ela é fácil mesmo. Ela gosta da safadeza. Por conta de Jussara, mainha ficou falada que só na rua. Dona Tereza, a vizinha da frente, chamou a minha humilde casa de cabaré. Foi uma confusão dos infernos, até a polícia veio, querendo prender minha mãe, porque atirou um chinelo na cara da velha, que já tem lá seus sessenta e tantos. Mas Jussara jogou os cabelos e seduziu o policial. Seduziu não, apenas ofereceu para ele. Ela está acostumada, se existisse faculdade para a putaria, ela, com certeza, receberia o diploma em primeiro lugar e seria o orgulho da família, porque mainha valoriza mesmo é o status. Ela gosta de viver bem, sabe?!

Já passava da hora do almoço e eu tava com uma fome danada, mainha estava toda ocupada lavando a casa e Jussara desde ontem não aparece – tá bem com o novo macho misterioso – e eu… bom… eu só sei fazer miojo.

Eu não iria pro colégio hoje de jeito nenhum. Com certeza não haveria aula nem salas disponíveis para isso. Lá no colégio, toda vez que chove muito, fica tudo submerso. Submerso. Aprendi essa palavra com Zé: alto, magricelo e careca. O melhor amigo que uma pessoa como eu pode ter. Inteligente e gente boa. Se não fosse por ele, eu nunca teria saído do ensino fundamental.

Quando eu reclamei a mainha que estava dominado pela fome, ela disse que não teria tempo para fazer almoço, e mandou eu ir pro colégio e merendar lá. Deus me livre, nem se tivesse aula. Pense numa comida ruim, parece que as tias da cantina fazem com desgosto e sobras de feira… se é que são elas mesmas que fazem aquilo. Uma vez um menino da minha turma, enquanto aguardava o rango na fila, soltou a brilhante pergunta ousada: Quando é que vai sair essa lavagem? A tia olhou pra ele com uma cara feia, coçando o queixo cheio do que eu poderia chamar muito bem de barba, e só não o proibiu de merendar, porque a comida não deixa valer a pena tal exito.

— Pedrinho… — minha mãe me arrastou até o portão de casa — Vá ajudar sua tia a tirar a lama da casa dela. A bichinha está lá… sozinha arrastando aquela sujeira toda, enquanto tu fica aí sem fazer nada. Toma vergonha nessa cara lisa, menino.

Sempre era assim. Tia Marilene, irmã da minha mãe, todo dia me usava pra fazer as coisas pra ela. E eu ia, que nem um besta, para não ter que apanhar. Mainha não tem pena, ela já quebrou não sei quantos cabos de vassouras nas minhas costas.

Eu nem respondi nada. Não ia adiantar dizer a ela que eu tenho meu orgulho, minha decência, meu caráter, que eu não sou empregado de ninguém.

***

A minha rua estava uma desgraça. O nível da água tinha abaixado consideravelmente, deixando à mostra o calçamento todo esfolado. Boa parte dos vizinhos tiravam restos de lama e ratos ensopados de dentro das casas. Sorrindo e falando da vida dos outros. Eu desfilava pelo lamaceiro, tomando cuidado para não tropeçar numa porcaria daquelas, nem pisar em algum bicho morto. Percebia que as pessoas cochichavam coisas não muito legais sobre mim, como se eu me importasse com isso. Só uma vez, quando Marcela, minha vizinha gatinha, me chamou de acéfalo… ali eu fiquei irritado, porque quando alguém me xinga de algo que eu desconheço, eu fico brabo. Depois zé me disse que esse termo era exatamente aquilo que eu sou. Bem, isso me tranquilizou, porque eu sou um cara bonito, bacana, gente boa, jogo bola bem, só vou cheiroso pro Marco Zero, uso boné, já fiquei com duas meninas… Foi a única vez que minha consciência doeu um pouco, porque ela estava apenas me elogiando e, poxa, eu fui tão grosso. Não posso ser grosso com as boysinhas.

A casa de tia Marilene ficava na rua de trás, que só Deus sabia em que situação se encontrava. Pode até parecer exagero da minha parte, toda essa coisa com a péssima condição de meu bairro… mas, cara, deixa eu rir aqui (…) pronto. Olhe… queria eu que fosse exagero. Eu gosto demais de tudo nessa parte pobre de Santo Amaro, mas em épocas de chuva não existe ateu por aqui. É complicado.

Passando por uma das esquina da minha rua, a qual têm um boeiro que há séculos vive sem tampo, dois meninos de rua tomavam banho dentro do recinto. Era uma alegria que chegava a assustar, até parecia que eles estavam no Veneza Water Park. Eu sorri baixo.

— E essa saúde, em…?

Eles disseram que ela estava enfiada… bem… é… esses meninos, tsc, sempre mal educados. Eu os ignorei e segui pela esquerda, piscando compulsoriamente para limpar a vista da chuvinha rala que ensopava meus cílios.

Estava quase chegando na casa de titia, quando senti aquela coisa gelada no coração, que não foi por conta da chuva, porque eu tenho a impressão que em Recife nunca para de fazer calor. Meus olhos estavam congelados em uma menina sentada numa das calçadas altas, apoiando a mão sobre os joelhos dobrados, encarando sei lá o quê, aparentemente cansada, pouco se importando com a água que ensopava suas roupas.

Eu me aproximei. Ela não era muito bonita não, sabe?! Mas me deu uma vontade desgraçada de perguntar se ela era doida, só porque está chovendo não significa que os trombadinhas pararam de agir.

— Ei, menina — bradei.

A garota virou o rosto instantaneamente, fazendo o vento agir com inércia em seu cabelo castanho e liso. Ela levantou uma sobrancelha e permaneceu em silêncio. Me encarando.

Naquele momento a situação ficou um pouco complicada para mim, para meu coração, e para outras partes do meu corpo que não valem a pena ser citadas.

— Oxe… meu Deus do céu… — meu coração estava acelerado. Podia sentir que choraria a qualquer momento. Zé sempre disse que sou muito emocional. — Não pode ser não…

Desta vez ela reagiu como gente, espichando as pernas e aproximando o rosto. Aquele rosto… o rosto que eu nunca na minha vida pudera esquecer, muito embora estivesse um tanto mais fino, com espinhas e portando olhos remelentos, coisa que não importava, porque o verde ainda estava lá. Coisa bonita. Quem dera ter olhos verdes… já pensou? Eita, lá.

— Qual é o seu problema, hein, cara? — ela cuspiu as palavras rispidamente, embalada em um sotaque esquisito, fatiando meu coração, como seu Ademar faz com os peixes do mercado de Santo Amaro — Perdeu o quê aqui? Se situa…

Mas antigamente era tão doce… tão carinhosamente meiga e gentil. Eu dava meu lanche a ela, ela sorria pra mim e ia embora feliz… tão linda. Eu comprava pirulitos Pop para ela, e ela desenhava corações no meu caderno. Eu completei o seu álbum de figurinhas das Meninas Super Poderosas. E ela me deu um beijo na bochecha por conta daquilo. Eu quase morri, passei o dia todo sem tomar banho, e queria passar o outro também, mas mainha veio se meter na minha vida, no meu relacionamento, ora merda. Quando eu disse a ela que não queria tomar banho, para não tirar a saliva seca da minha namoradinha da bochecha, ela chamou-me docemente para a área de serviço, e, aproveitando minha distração, esfregou uma bucha de lavar pratos no meu rosto, com tanta força que ficou tudo vermelho e inchado. Nunca chorei tanto na minha vida.

— Aninha… — sussurrei em meio a um sorriso sincero e largo, sentindo meus olhos marejarem, aproximando-me ainda mais dela, que me fitava com uma aparente surpresa — meu amor… minha vida… você voltou…? Voltou para mim.

Ela me olhou estranhamente. Sua expressão era puro nojo, logo mudando para uma falsa simpatia, que eu não sou besta.

— Jotapê…? — ela esgueirou um sorriso reto e sem emoção, parecia fazer um sacrifício enorme para sorrir, muito embora demonstrasse algo como satisfação ou sei lá. Só o fato dela ter lembrado de mim me deixou estupidamente quente — Pensei que seria um tanto quanto mais difícil te encontrar…

Notas finais
Então, gente... continuo? :s