A Maldita Volta de Ana Catarina
2 Poderia até ser normal, se não tivesse começado a ficar estranho
Notas iniciais
Ana Catarina Alencar: a menina por quem fui desastrosamente apaixonado, e, ao deparar-me com sua aparição nada banal, temo que o sentimento tenha voltado, ou, simplesmente, nunca ido. Agora, olhando direitinho para sua cara, lembrei que ela é a garota mais linda das galáxias... como pude esquecer disso? Aninha das saias de babado, dos brincos de pérola e tiara branca. Dos olhos de maçãs verdes de feira, aquelas que não possuem cor homogenia, meio amareladas, mas ainda assim firmes e azedas. Aninha do sorriso banguelo, combinando com meus caninos apodrecidos, devido ao grande consumo de doces. Aninha da voz doce e calma que me chamou de bonitinho na quinta série... o elogio mais lindo que já recebi na vida.
Meu coração era um terreiro de xangô, onde batedores de tambor enraivecidos quebravam seus instrumentos os colidindo ao chão, e mães de santo desafinadas cantavam ópera. O danado batia tão rápido que eu chega estava parecendo um cachorro de rua magricelo, faminto e rabugento. O amor tem dessas coisas.
— Você... Aninha... — eu sorri — tu voltou só pra me ver? Eu creio na força da paixão. Tas vendo só? Eita, lá.
Aninha, ao que me lembro, tinha separado-se de mim brutalmente, com certeza contra a sua vontade. Enquanto acontecia o réveillon de 2004, a família Alencar embarcava para algum lugar que eu nunca soube. Agora era fevereiro de 2005 – e eu, em plena volta às aulas – todo trabalhado na mochila de carrinho e na lancheira com suco de acerola e biscoito maria – aguardava ansiosamente para reencontrar o sorriso encantador do amor da minha vida. Eu desci da kombi velha de Valter; corri como um pônei solto em uma campina verde e bonita, depois de dias trancafiado num estábulo nojento; eu sorria inocentemente: Minha gatinha está me esperando na segunda carteira da terceira fila, como sempre sentava em todos os anos. E então minha sala de aula era vazia e triste. Porque haviam quarenta crianças medonhas, mas nenhum sinal dela. Eu murchei como as uvas das feiras livres de Santo Amaro. Ela mudou de cidade, Pedrinho, quiçá de pais – minha professora me dizia, a fim de acalentar meu coração machucado. Eu passei o ano todinho deprimido, ouvindo os CDs de Reginaldo Rossi de mainha... Hoje é o dia do corno, foi bom te encontrar...
— Eah... — Aninha quase sussurrou, levantando-se — eu tenho te procurado faz um bom tempo — ela forçou um sorriso — bons e velhos amigos não podem e nem devem ser esquecidos.
As faíscas que saiam dos meus olhos brocharam instantaneamente.
— Eita que a gente nunca foi só bons amigos — tentei lhe corrigir — deixa de ser besta.
Ela arcou as sobrancelhas, tombando a cabeça para o lado suavemente. Eu acompanhei o movimento.
— É mesmo? Interessante.
Eu a tomei pela mão rapidamente, segurando-a firme, antes que ela se afastasse. Sua pele estava fria e úmida, devido à chuva. Eu a arrastei para debaixo de um pé de Jaca, só pra ficar um bagulho mais romântico, porque eu sou um cara que preza muito o romantismo e a gentileza, tá ligado? Eu sou tudo de bom.
— Só pra esclarecer umas coisas — comecei, mordendo a língua de nervosismo — em que lugar do mundo tu foi há oito anos atrás? Diz ai, vai... eu nunca soube...
Ela hesitou um pouco, eu não sei por quê.
— Fui para fora do país — retrucou secamente — a vida lá é bem melhor.
— Ah... as Europas — fitei o céu nublado, a chuva havia parado de cair que nem uma doida — é um dos sonhos de mulher chique de mainha. Ela disse que um dia vai morar na capital de Londres, porque ela gosta mesmo é de neve.
Aninha olhou-me com cara de indiferente, menina fresca.
— Como é?
— Deixa pra lá, vai... tu não entende mais das paradas... tu tá tão desatualizada, velho. — eu bufei — Coitada.
Ela não disse nada, então resolvi prosseguir.
— Então me conta ai... as coisas não deram certo lá nos esteites e tu e teus pais resolveram voltar pra velha vida de nordestino? — debochei, agora era minha vez de ser mau — não tá fácil par ninguém, tsc.
Ela continuava inexpressiva, fitando-me com olhos de bêbado.
— Meus pais estão mortos.
Aninha jogou as palavras com uma naturalidade que me deu calafrios. Ela estava tão diferente que me levantava a possibilidade de estar sendo trollado.
— Mas menina... morreram de quê, hein? Deus os tenha, ne?!
— Não vem ao caso. — Saiu pela direita, me dando as costas. Mal educada.
— Oxen...
— A questão é que eu voltei por motivos próprios, e também porque senti muita saudade de você durante todo esse tempo em que estive longe. Já sou de maior, posso me virar muito bem sozinha e assumir minhas responsabilidades. — ela não forçou nem um sorriso falso, nem umzinho — será que pode me levar até a sua casa? — ela vacilou — é... estou muito cansada... de andar.
— Ah, é claro que posso... — eu parei um pouco, travei meu riso besta lembrando da enchente maldita e da situação da minha humilde residência — Ah... não posso não.
— Mas por que?
— Só tu vendo como tá... tudo cheio de lama e carniça...
— Oh.
— Quer me ajudar a catar a lama da casa da minha tia Marilene? — indaguei, só pra depois ela não dizer que eu não convido ela pra nada, sabe como são as garotas — vai ser divertido, prometo.
— Você não está falando sério, Jotapê...
— Não, pô, eu tô sim.
Ela rolou os olhos... é nessas horas que eu vejo que ela nunca deixou de me amar. Lindinha.
— Olha... é... eu tenho... outras coisas para fazer — Aninha suspirou se afastando — até depois.
Depois...
— Depois? Você vai querer me ver mais vezes?
— Eu quero te ver todos os dias, Jotapê...
Ela não parecia muito sincera não, sabe... eu percebia a hesitação em cada palavra que saia daquela boca beijável, que eu não sou besta.
— Então tá... — eu ajeitei o chinelo no pé — eu vou indo então. É... hum... tchau?
Aninha assentiu levemente com a cabeça e foi-se embora. Meu coração ficou do tamanho de um feto de formiga. Desgraça.
***
— Jotapê, deixa de ser besta, miséria, essa menina não quer nada contigo não, só quer te enrolar.
Zé e eu caminhávamos rumo à porcaria do colégio. Graças aos santos que mainha é devota, não choveu hoje, logo as ruas estavam, tipo, totalmente normais. O único problema é que eu não teria desculpa para matar aula. Eu mato tanta aula que se isso fosse crime, eu seria preso, pagaria uma fiança massa, e saia de boa, porque Brasil é Brasil.
— Cara, eu tô te dizendo: ela ainda me ama.
— Que ama bosta nenhuma... ela quer é enganar o besta. — Zé deu um tapa na minha nuca — tu não entende nada de mulher.
— E tu entende?
— Não, mas tu não entende nada.
— Ata... — sorri — tu não explica.
Zé resmungou alguma coisa que eu não consegui captar, e nós continuamos em silêncio, até as ruas ficarem mais movimentadas e o povo começar a falar comigo, porque eu sou praticamente um astro, um seguidor, um líder moral altamente capacitado a servir como exemplo para toda a sociedade.
— Dale boy... — Dinho Ferrugem, o mestre das bicicletas, me cumprimentava enquanto ajeitava o boné, só no bolado.
— Fala aê, parça. — retruquei — depois levo minha bike pra tu dar uma olhada.
— De boa.
Zé fez uma careta feia, ajeitando o óculos.
— Nem fala comigo, essa trepeça.
Eu sorri.
— Desculpa, aí, se a galera têm apreço por mim e não por tu.
— Grande merda.
Mais adiante Juraci tropeçava nos próprios calcanhares.
— Jotinha..
— Oi, macho. — tentei manter a frieza.
— Como tá a tua mãe?
Juraci todo metido a ousado, todo enxerido.
— Tá de um jeito que ninguém tem que se meter na vida dela não!
— Como é, menino?
Eu não respondi, apressei os passos, arrastando Zé comigo, quase deixando o meu caderno cair de debaixo do braço.
— Caboclo safado... — silvei enquanto avistava Juraci dar no pé — miséria.
— Deixa de implicância, Jotapê — Zé me enchendo o saco de novo — só sabe xingar os outros.
— Se tiver achando ruim se afaste, vá — eu emburrei ele gentilmente — não me toque não, seu falso... tu tem é recalque da minha popularidade.
Zé riu alto, enquanto nós cruzávamos a última esquina que faltava.
— Tu só ficou conhecido no bairro por conta daquele protesto idiota que tu puxou — ele balançou a cabeça — a pessoa faz merda, aparece como vândalo no NETV e ainda fica se achando. Mas vê só.
Zé só fala absurdo, só opina sobre o que ele não entende. Todo besta.
— A galera daqui me tem como um rei, um exemplo, um líder, um cara ousado, com personalidade e atitude acima de tudo. — eu suspirei, cansado — quem foi até à prefeitura no sol quente arrastando um mói de gente revoltada? Quem? Quem, Zé? Eu, Zé, EU!
Zé quase jogou a mochila dele no chão, todo arretado.
— Mas eu não tô dizendo...? — sorriu debochado — Tu começou um protesto a favor de dois meses de férias sem concessões, Jotapê... tu ainda acha um absurdo ninguém ter dado cabimento? Só as derrotas de Santo amaro te acompanharam naquela porcaria, logo, só as derrotas de Santo Amaro te cumprimentam na rua, te tratam como alguma coisa além do que tu é.
— É o fresco, é? Tomo mundo que tava comigo sofre tanto quanto eu.
— Vai se lascar, Jota.
A fachada do colégio já estava à vista, e junto com ela, tudo aquilo que eu mais gostava de ver: greve.
— Mas que merda! — Zé bufou — mais um dia sem aula... vestibular chegando...
— Relaxa, macho, a gente da rede pública tá com a vida ganha. Cotas, meu amigo, c-o-t-i-n-h-a-s.
— E cadê o préstimo?
— Cadê quem?
— Deixa pra lá, misericórdia.
Zé puxou-me pela gola da farda, arrastando-me para o bando de chavosos que brisavam na calçada do colégio.
***
Eu estava sentado num dos bancos de cimento, conversando com meus parceiros de pelada, só os bolados, porque eu só ando com gente bolada. Marquinhos estava lá contando que a namorada dele o deixou com a velha desculpa de ''a gente mora muito longe'' desculpa de quem não quer nem ver mais a sombra da pessoa, desculpa que acaba com o coração de um macho apaixonado. Coitado de Marquinhos, ele é tão presença.
— Relaxa, velho — tentei acalmar o cara — essas minas de hoje em dia são tudo caça, e a tua não é diferente não, com certeza ela te deixou pra ficar com outro.
Zé deu um tapa na minha cabeça, quase derrubava meu boné, aquela trepeça.
— Cala essa boca, Jota.
— Jota só fala merda — bradou Vitinho, aquele outro traidor.
— Vão se ferrar — retruquei as ofensas — só falei o que eu acho.
— E a tua irmã, Jotapê? Cadê a caça rato?
Geral riu da péssima imagem de Jussara.
— Sei lá. — respondi desanimando. Não é moleza ser irmão de prois — acho que tá com as amigas... por aí.
— Arranja ela pra mim ai, pô — Jose pediu — Eu tô numa seca danada.
Eu fiz a máxima expressão de nojo que pude.
— Ela tá é namorando... com quem eu não sei, sabe como é, mas ela disse que tá apixonada e não sei o quê..
— Que apaixonada que nada — bradou Zé, que nunca se mete nesses assuntos — Já dizia nosso poeta Reginaldo: Coração de quenga voa mais que avião.
Eu bufei, enquanto a turma concordava com a piada de Zé. Eu não achei muita graça, porque estava em um momento de crise existencial. E porque meu coração tava, tipo, dado nó, e toda vez que eu pensava em Aninha sentia uma frieza subir pelo espinhaço... Deus é mais.
A fome da gota serena estava atacando minhas entranhas, falei pros moleques que eu ia caçar alguma barraca pra comprar um bagulho, só pra enganar o estômago. Eu saí pelas calçadas da rua da frente, ia no fiteiro do seu Lúcio, as coxinhas dele são muito boas. Passando a vista ao meu redor, percebi a presença caçarratante de Jussara, conversando com outras caça ratos feiosas. É incrível como elas só vestem um palmo de roupa. Não importa a estação, o clima, a sensação térmica... elas estão o tempo todo com aqueles pedaço de roupa enfeitado, quando não uma blusinha do bob esponja, pra passar a singela mensagem de sou puta, mas sou fofa. Meu amigo Rodrigo costuma dizer que os únicos bichos do planeta que não sentem frio são o Coala e a caça rato.
Eu pensei em acenar para minha irmã, mas não seria uma boa coisa, porque as amigas dela iriam vir falar comigo, se esfregar em mim, possuir meu corpo, e eu tenho namorada, velho. E, por falar em namorada, a cena que me fez estancar minha caminhada até seu Lúcio e digerir minha coxinha de frango com catupiri, foi a estranha aparição de Ana Catarina, minha boysinha, esgueirando-se por trás de uma árvore, observando detalhadamente cada movimento que Jussara fazia, ao mesmo tempo que conversava com alguém no celular. Eu procurei me esconder, para que ela não me flagrasse alí. O espanto em minha cara era visível... por que danado Aninha observava a minha irmã daquele jeito? Milhões de possibilidades passavam pela minha mente. E eu continuei ali, entre o vai lá, Jotapê e o fica na tua, Jotapê.
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