A Maldita Volta de Ana Catarina
3 Eu só queria ter uma noite legal
Notas iniciais
Eu recolhia meu corpo magro e… ligeiramente musculoso atrás de uma das inúmeras árvores gigantescas que tomam conta das calçadas de Santo Amaro. Decidi ficar ali e observar até onde iria aquela coisa de Kim Possible. Aninha demostrava uma feição estranha, algo que deixava ela muito além dos dezoito anos. Ela mantinha atenção em cada movimento que Jussara fazia, sussurrando palavras rápidas ao telefone. Eu estava prestes a tentar uma leitura labial, quando senti a dor tomar conta do meu braço direito... a dormência era insuportável. Eu comprimi um grito, virando-me para ver o que danado estava acontecendo. Uma desgraça de uma Aranha Chata – aquelas que depois da picada carregam a sua alma junto – fincava suas presas na minha carne. Eu sacudi o braço, derrubado a trepeça no chão. A esmagada foi fatal, mas meu braço tava ficando inchado e vermelho, e a minha vista embaçando. Tentei não me importar muito com a dor e tornei os olhos para o outro lado da rua. Meu coração deu uma sambada. Aninha não estava mais lá. Não estava em lugar algum. Eu sai que nem um doido, arrodeando pelo calçamento, procurando qualquer sinal da minha boysinha... e nada. Era como se ela nunca houvesse estado ali. Um vento forte e carregado de poeira me fez coçar os olhos, os abrindo em cima de Jussara.
— Que danado é isso no teu braço, Jotapê? — minha irmã indagou.
Eu limpei a vista e a última coisa a qual me lembro foi da quentura dos paralelepípedos na minha pele macia e delicada.
***
Eu acordei envolvido nos meus lençóis da Narciso, abraçado, como de costume, com meu travesseiro amarelo, que me acalenta nos dias frios e solitários. Benzinho. O quarto estava em meia luz, olhei pro rádio relógio: quatro da tarde. Minha boca estava amarga e toda colada com saliva seca, o que me fez querer ir até o banheiro dar uma escovada, já pensou se Aninha me vê daquele jeito? Me troca por outro na hora, essas meninas… Eu até tentei levantar, mas meu braço não deixou. Então, naquele instante, vieram todas as lembranças do que era para ter sido uma divertida tarde, sem aula, como moleques da pelada. Pense numa dor. Pense numa agonia da moléstia.
— Mainha! — gritei — Me ajude, pelo amor de Deus, que eu tô morrendo.
Jussara apareceu na moldura da porta no mesmo momento, me olhando com a cara de caça rato indiferente dela, com uma blusa feiosa do Batman, como se ela gostasse desse negócio de super-heróis.
— Ela saiu, Jota, fica quieto na tua ai, visse.
Eu me esforcei pra levantar, e fiquei sentado.
— Sai daqui, derrota. — urrei — vai catar macho, vai.
Ela saiu, balançando a cabeça, enquanto mastigava, caçarratamente, um chiclete. Eu fiz um esforcinho a mais, e, entre os tropeços, fui para a sala assistir Casos de Família. Jussara sentou do meu lado com uma rapadura e um pote de mel.
— Eu quero também. — exigi.
— Apois vá pegar, que aqui não tem nenhuma servente não. Mas menino.
Eu não fui. E nunca poderia ter ido, porque palmas leves e sem graça ressoavam lá de fora. Minha irmã levantou-se, bufando, e foi ver quem era, deixando, assim, a rapadura e o mel em cima do sofá. Eu aproveitei pra comer um pouquinho, que eu não sou besta.
Eu ouvi o rangido do portão da frente e a voz de nojo de Jussara, quando a gente recebe visitas da qual ela não gosta, ou seja: mulher. Eu me esgueirei pra ver quem era e meu coração desceu a montanha russa do Mirabilândia.
Aninha se enfiou na sala, com aquele sorriso falso, esbanjando nojo e antipatia. Envolvida numa minissaia bonitinha e uma blusa com um monte de desenhos esquisitos, ela se colocou do lado da porta, encarando a televisão.
— Aninha, minha flor — sorri que nem um abestado — você veio me ver no cúmulo da minha doença?
Ela entortou os beiços.
— Me chame apenas de Catarina.
Jussara mandou-lhe um olhar indiferente, aumentando o volume da tevê.
— Veio fazer o quê aqui, menina? — minha irmã indagou, me fazendo dar um tapa no braço dela. Trepeça mal educada — veio comer de graça, foi? Sempre tem que ter um.
Aninha nem deu moral para o que ela falou. Eu achei foi pouco.
— Eu soube que você se machucou, Jotapê… — Aninha se preocupando comigo é uma coisa tão bonita — Posso saber como foi que isso aconteceu?
Eu gelei, me engasgando com o açúcar.
— Eita miséria.
— O quê? — Aninha aproximou-se.
— Eu caí.
— Caiu como?
— Caí, tipo, quando alguém cai.
— Sim, mas… como foi?
— Foi muito ruim. Olha só como tá o meu braço… uma bosta.
— Não… — ela rolou os olhos, ela sempre faz isso. É o amor — deixa pra lá.
Eu a puxei pra sentar do meu lado, só pra o braço dela encostar no meu. Isso é tão legal. Ela até foi, com uma cara enojada, como se tivesse sentando num mói de prego.
— Ei, minha florzinha… — comecei, só na pala romântica. Eu manjo.
— Ora, não me chame assim. Que coisa desagradável.
— Ah… então tudo bem.
O bagulho ficou um pouco silencioso. Aninha encarava meu rosto e eu encarava Christina Rocha.
— Jotapê…
— Oi, oi.
— Fala.
— Falar o quê?
— O que você ia falar.
Eu pensei um pouco, sou tão distraído.
— Ahhh… eu quase esqueci.
Ela assentiu.
— Topa ir comigo no Marco Zero mais tarde…?
Aninha arcou as sobrancelhas, enquanto Jussara soltava um xingamento.
— Sei não, hein…
— Vai, Ani… — ela me olhou numa careta — Catarina… Em nomes dos velhos tempos. Em nome do nosso amor.
— Que velhos tempos? Que amor? Não seja irritante.
Jussara soltou uma gargalhada. Miserável.
— Vamos? — insisti, porque eu sou um cara perseverante.
— Eu já disse que não sei.
— Eu te pago uma batatinha.
Ela me olhou com nojo.
— Ou um enroladinho de salsicha…
— Eu não acredito…
— Não, pô, é sério. Eu tô até te dando a oportunidade de escolher.
Aninha torceu o pescoço.
— Nossa, estou lisonjeada.
— Eu fico feliz por isso, porque as coisas tão ficando caras… e eu só como salsicha Tony.
— Ah, meu Deus.
Jussara desligou a tevê e foi para o quarto.
— Não dá mais para mim.
Aninha levantou uma sobrancelha, seguindo minha irmã com os olhos.
— Aquele é o quarto dela? — Aninha perguntou-me, enquanto encarava Jussara bater a porta.
Eu fiquei meio confuso.
— É sim, por quê? — sorri divertidamente — quer conhecer o meu quarto?
Ela fez uma cara feia, acho que não gostou da minha proposta ousada. Moça de família, sabe como é.
— Eu tenho que ir. — Aninha bradou rispidamente — Até mais tarde.
Meu coração tornou-se peão de rodeio.
— Tu vai querer ir comigo? Eita, lá. Vai ser massa…
Ela assentiu.
— Me diz onde é que tu ta morando, eu passo lá e a gente pega o busão juntos.
Aninha arregalou os olhos, que nem uma rã assustada.
— É melhor não. Eu passo aqui e a gente vai.
Eu pensei um pouco.
— Tá... — sorri —Vou ficar lá no portão… te esperando… hum… lá pras oito horas, beleza?
— Aham.
Então ela saiu apressada, deixando meu coração triste e sombrio, sem nem se quer fechar a porta. Mal educada.
***
Já passava das sete da noite e mainha ainda não havia chegado. Eu estava arrumado desde as seis. Boné massa, perfume de macho, calça e camisa no bolado, junto com um Nike branco, pra se destacar na noite, pras boysinhas verem que eu tenho estilo.
Jussara disse que não ia sair hoje, o que é quase um milagre. Ela estava meio triste, meio desanimada… acho que levou gaia do macho… ou o macho descobriu que é corno… não sei.
O que estava me deixando arretado, era o fato de mainha ter passado o dia todo fora. Meu sangue tava subindo. Aproveitei que minnha irmã desvirtuosa estava preparando uns inhames com ovo e cebola, pra gente forrar o estômago, e fui passar mais perfume, porque eu estava com a impressão que o cheio tinha saído. Esses perfumes da Avon são fogo.
Eu estava lá, de boa, borrifando o bagulho no couro, encarando minha cara bonita no espelho do banheiro, verificando o hálito, a posição do boné, e como era o meu rosto de perfil, já que Aninha e eu iriamos caminhar lado a lado, logo, eu iria saber como seria a expressão que ela iria passar o trajeto todo encarando. Olhei de relance para a pia e me deparei com um anel do pipoco do trovão. Era o que tava faltando pra complementar meu estilo bolado.
— Ah, moleque, vem ni mim, vem.
O objeto era prateado, com uns desenhos esquistos cravados em cima. Algo como dentes… sei lá. Só sei que era massa, e, embora não coubesse direito no meu dedo, eu coloquei, sentindo uma agoniazinha no estômago, uma coceira, um embrulho. Balancei a cabeça rapidamente, segurando o boné, para ele não sair da posição e fui ver se o rango estava pronto. Só podia ser fome.
— Eu ainda não acredito eu tu vai pro Marco Zero, acompanhar aquela menina fresca — Jussara deu uma cuspida no lixeiro da cozinha — com esse braço nessa situação. Menino queijudo da poxa.
Eu soltei um muchacho e puxei uma cadeira pra sentar. A comida estava quente pra caramba, mas eu engoli tudo o mais rápido que pude, daqui a pouco seriam oito horas e eu não sou o tipo de cara que deixa a boysinha esperando.
— Tu não acha que mainha tá demorando demais não?… — indaguei, enquanto palitava os dentes — Que desgraça.
Jussara passava esmalte vermelho caça rato nas unhas do pé.
— Hum.
—Tu não liga pra nada, né?! Só pra essa tua vida de periguete.
— Me respeite, seu virgem.
— Eu quero mainha!
— Deixa de ser chato, Jota… — ela se aproximou — eu vou te contar o que eu vi… mas cala a boca.
Eu assenti.
— Hoje, mais cedo, eu vi mainha de papo com Juraci. Ela chega tava sorrindo, parecia outra pessoa.
Ódio subiu pelo meu espinhaço.
— Mas vê só… — comecei em meio aos cuspes —vê se tem cabimento uma safadeza dessa…?
— E o que é que tem? Ela é jovem, é solteira… Dona Margareth tá com a bola toda, menino, tu que é um recalcado.
— Ela é a minha mãe! — bradei — Tem que se dar ao respeito.
Jussara levantou-se da cadeira com uma tuia de algodão entre os dedos do pé, puxando o short beira – pra desafogar as entradas – xingando-me de coisas caçarratosas, aquela bagaxa.
No mesmo instante ouvi o rangido do portão da frente.
— Tas vendo, tu, miséria…? — Jussara apontou o dedo na minha cara — Ela já chegou.
Mainha entrou toda desconfiada, ajeitando a beirada da blusa, tirando o olhar de mim.
— Mainha, a senhora tá de caso com o caboclo, é?
Ela me olhou assustada, tentando disfarçar.
— Deixe de conversa! Lavou os pratos, por acaso? Não! Não lavou, porque não passa de um encosto. Não seve pra nada. Um traste. Uma tristeza de menino. Só quer saber dessa coisa de internet e futebol. Tu é um bosta, João Pedro. Vai-te embora lavar aquelas cuecas sebosas, aquelas carniças. Depois que pegar um germe no rabo, vai ficar me aperreando pra ir na UPA. Ah, condenado dos infernos. Satanás.
— Não mude de assunto não — tentei botar moral — quero saber de mãe minha saindo com caboclo não… misericórdia.
Ela me olhou com impaciência.
—E Juraci é nada, menino. Que caboclo o quê… — se eu não tiver muito doido, ela sorriu — Ele é um trabalhador honesto, e isso tudo aí é recalque desse povo da rua… Essas trepeças fofoqueiras e desocupadas. Bando de invejosos. Almas sebosas. Odeio essa gente.
— Conversa minha? Conversa… Rum! Eu mesmo já vi ele de madrugada, pulando a janela de costas, todo cheio de muamba, falando uns negócios esquisitos. Até me benzei… vai saber, né?!
— Que história... — mainha lambeu os beiços, fitando a panela de inhames — vai cuidar da tua vida. Vai arranjar uma namorada, e para de me estressar.
— E quem vai querer namorar com isso, mãe? — Jussara bradou, querendo semear a discórdia — Quem vai querer essa trepeça?
— Tu fica na tua, visse, Julia Jussara?! Se eu for começar a falar dos teus defeitos, vou é ficar sem saliva. — mainha estava parecendo um cachorro Pitbull — Só quer saber de macho.
Jussara deu de ombros e foi pro quarto dela, provavelmente convidar algum moleque chavoso pra pular a sua janela e praticar coisas proibidas.
Naquele momento mainha flagrou o braço que eu estava tentando esconder.
— Que danado é isso no teu braço, menino?
Eu hesitei.
— Caí na escola. Mas eu tô de boa. Tá vendo a beca não? — dei uma giradinha — vou sair com minha namoradinha.
Ela me olhou com uma visível satisfação.
— Apois vai-te embora, some da minha frente antes que eu te dê uma ripada.
Ela pegou a vassoura, apontando a danada pro meu lado. Eu corri lá pro quintal, batendo a porta nas carreiras, me deparando com Aninha, que havia acabado de chegar.
***
Aninha e eu caminhávamos lado a lado, como eu havia previsto, trajando um suéter simples e um jeans preto… eu observei bem. Desde quando saímos lá de casa, ela não deu um piu se quer. Eu também não falei nada, ela é uma menina tímida, devia estar guardando o melhor para mais tarde.
Depois de andar por mais uma rua, a parada de ônibus estava a vista, então ela começou a quebrar o silêncio estanhosamente.
— Pensei que a sua irmã viria com a gente.
Eu levantei uma sobrancelha.
— Não… ela não pretende sair de casa hoje.
— Que droga… — Aninha sussurrou, mas eu ouvi, que eu não sou besta.
— Por que? Jussara é a caça rato mais chata de Santo Amaro, além de ter sido bem mal educada contigo — eu a fitei — eu hein…
— Não é nada.
Eu pensei um pouco.
— Ah… Ahh, Catarina — sorri — você quer ser amiga dela, né?! Poxa, se eu soubesse teria falado com ela sobre isso…
Aninha arcou as sobrancelhas, me fitando com aqueles olhos… grandes… verdes… bonitos.
— É isso mesmo, Jotapê… é exatamente isso. Sabe… eu não tenho nenhuma amiga por aqui… é complicado.
— Uh… eu imagino.
Coitada de Aninha… tão solitária.
***
Nós havíamos chegado no Marco Zero. A galera toda estava lá, até Zé, devorando um cachorro-quente, todo lambuzado de mostarda. Abestalhado… depois ainda pergunta porque as boysinhas não chegam nele.
Aninha arrastou-me para um lugar mais calmo, longe de toda aquela gente besta fazendo algazarra só pra chamar atenção.
— Eu gosto desse lugar… — ela segurou meu braço. ELA SEGUROU MEU BRAÇO. — Me trás boas lembranças… me faz pensar que talvez o mundo tenha salvação…. que o pior não está tão… próximo.
Meu coração afundou.
— Tas falando do quê, hein? Que viajem…
— Nada não. — puxou-me para um banco — Vamos apenas relaxar.
Eu a segui, sentando-me ao seu lado, passando um braço ao redor do pescoço dela, só pra marcar território.
— A pessoa não vem pra cá pra ficar relaxando, Ana… vem pra fazer muitas coisas… mas pra relaxar não.
— Problemas. — Aninha é toda esnobe — Eu quero relaxar, então eu vou relaxar.
Ela descansou a cabeça sobre o meu ombro. E eu quase morri de ataque fulminante.
***
Depois de relaxar muito, mas muito mesmo, Aninha e eu decidimos nos levantar e observar a maré, a beleza natural e todas aquelas luzes que, querendo ou não, dava uma tranquilidade danada. Pense num lugar bonito.
Aninha parecia outra pessoa. Solta. Leve. Fechando os olhos e sorrindo suavemente, deixando o vendo farfalhar seu cabelo. Eu a observava como um idiota, enquanto ela mantinha os braços abertos e a água mandava aquele barulho elétrico pros ouvidos da gente. Eu estava me sentindo o cara mais feliz do mundo. Poque até parecia que mais nada existia. Era tudo tão abestadamente bom. Uma ilusão, talvez, mas eu procurei aproveitar cada segundo.
Eu fechei os olhos também, colocando-me sobre o vento. Era inevitável não sorrir, e, aos poucos, eu sentia que o barulho das pessoas ia sumindo, como se fosse mágica. E a vontade de sorrir como um doido aumentava demais, e eu apenas ouvia a risada bonita de Aninha ao meu lado, e as nossas risadas se misturavam freneticamente. O vendo batendo no rosto dela, cabelo dela batendo no meu rosto e o meu coração batendo forte.
Então tudo era silêncio absoluto. Nem a gargalhada abafada de Aninha eu estava ouvindo mais… e o cabelo dela havia parado de me fazer cócegas, e a vontade sorrir fora instantaneamente cessada com o meu fúnebre ato de abrir os olhos… e os arregalar. Misericórdia.
— Catarina! — gritei, afastando-me, puxando ela comigo.
Ela fez um sinal para que eu ficasse calado. O vento soprava forte, fazendo-me semicerrar os olhos, tão frio que eu poderia sentir meu sangue congelando. Passei meus a vista assustada por toda a extensão da praça Rio Branco: As luzes dos postes de iluminação haviam cessado, apenas a luz prateada da lua nos banhava. O Marco Zero nunca estivera tão triste. Completamente sem ninguém. As pessoas haviam sumido. Os vendedores ambulantes, os dançarinos, os moleques dos patins, as caça ratos, os meus amigos… tudo estava totalmente vazio e silencioso, apenas com uma única exceção… a que me fez querer morrer ali mesmo.
Aninha aproximou-se de mim, em meio a escuridão. A luz da lua deixava seu rosto em um branco opaco e triste.
— Jotapê… — ela sussurrou, tentando conter o nervosismo — fique quieto, por favor.
Eu assenti, segurando em seus cotovelos.
— C-cadê o povo daqui…? — perguntei com a voz trêmula — misericórdia.
Ela fitou alguma coisa que eu não consegui captar.
— Isso não é bom…
— O que não é bom?
Catarina não respondeu. Um vento forte e quente nos embalou sinistramente. A pior sensação que já havia sentido na vida. O centro da praça desintegrava-se em pedaços minúsculos, formando uma cratera esquisita, de onde brotava lentamente uma luz alaranjada, quase cegante. Uma luz? Com certeza não apenas isso, mas sim fogo. Um fogo desusado e cortante. Gritos e gemidos estranhos explodiam junto com o que parecia brotar do buraco, completamente envolvido na labareda que se espalhava por todo o chão da praça, em forma de cipós de árvores, pronto para atacar o calcanhar de qualquer abestado que estivesse dando sopa por ali. Meu coração começou a doer.
As chamas começaram a crepitar, ao mesmo tempo que emitia um rugido ensurdecedor. Se mainha estivesse ali, diria que era o próprio Lúcifer acordando de seu sono perturbado.
Eu soltei um grito abafado, segurando aninha pelo braço, colocando-a como escudo de proteção, já que ela não parecia muito mais assustada que eu. Ainda bem que ela não se importou.
Algo esquisito eclodia vagarosamente do monte infernal, tomando uma forma esverdeada de algo similar a um lagarto. Eu esfregava os olhos compulsoriamente, me perguntando se aquilo não era apenas um efeito colateral tardio da picada da aranha. Mas não era. A criatura agora parecia estar completa, uma mutação asquerosa, portando uma carapaça quase negra, com chifres curtos e cavidades com chamas vivas no lugar dos olhos. Tinha um focinho de porco e era completamente desprovido de boca. Seus braços curtos entravam em uma visível falta de lógica com suas duas pernas tortas e a corcunda verde e escamosa.
— Que danado é isso? — quase gritei aturdido — Exu de galinha… Deus é mais.
Catarina fitou-me descrente.
— O quê, Jotapê? Como…? — seus olhos demostravam medo e algo mais que não consegui entender — Você… você pode ver isso?
— É claro, eu não sou cego.
— Oh, meu Deus.
Ela, esquisitamente, voltou a encarar a criatura, que se rastejava em nossa direção. Era incrível e assustador. Não parcia humano de forma alguma, assim como nunca poderia ser concreto. Era fantasmagórico… eu conseguia ver, não muito nitidamente, tudo o que estava por trás da coisa… tudo que deveria estar fora do campo físico de visão.
Meu estômago dava voltas. Podia sentir o medo trazendo dormência para meus membros. Aninha não parecia se importar muito… era tão estranho.
— Jotapê… fique longe.
Eu me afastei quase que por instinto. Aninha sacou, de seu cinto, algo que pude perceber ser uma adaga, tão negra quanto as águas da maré que farfalhava um pouco atrás de nós. Eu a olhei confuso, não conseguia entender porque ela andaria com um troço daqueles. Me perguntei aonde ela havia comprado. seria legal ter uma daquelas, eu iria fazer o maior sucesso com as boysinhas do colégio. ”Você conhece o Jotapê? Aquele gatinho da adaga negra?”.
Catarina direcionou a arma para a criatura. Menina doida. Eu, imóvel como uma pamonha, lutei contra a vontade de mandar ela guardar aquela coisa inútil.
— O que você quer? — Aninha bradou completamente convicta de que poderia dar um Hadouken nele. Naquela hora meu coração estava só o suprassumo do lixo.
A criatura soltou um sorriso metálico, que doía nos ouvidos, como alumínio sendo raspado. Eu engoli seco.
— O que quer, Percio? — Ela bradou, fazendo-me arregalar os olhos com tamanha petulância.
— Como assim você simplesmente sabe o nome do carinha aí… — eu fitei a criatura, tentando manter o medo longe — tipo, com se fosse super normal conhecer os primos do capiroto? E tu tá ligada que ele não tem boca, né? Não é meio estúpido mandar ele responder?
Ela lançou-me o pior olhar que já vi sair de alguém.
— Não se meta.
— Isso vai nos matar, Catarina… seja lá o que for essa coisa. Vamos embora daqui, deixa de ser besta, menina.
Eu a puxei pelo braço, mas ela era incrivelmente forte, e me chutou na barriga, levando-me ao chão.
— Percio… — Aninha urrou — responda!
Houve um breve intervalo de silêncio. Tempo suficiente apenas para eu me pôr de pé, novamente, e ter o ouvido rasgado pela voz aterradora da aberração.
— Eu quero o que me pertence.
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