A Maldita Volta de Ana Catarina

4 Cada um tem a namorada que merece


Notas iniciais
Gente... O site passou um bom tempinho ''fora do ar'' não foi? Ainda bem que agora está tudo bem e tudo certo, já estava entrando em crise, kkk. Bem, esse capítulo é curtinho e simples. Eu o chamaria de ''pequena introdução ao inferno'' . Oh... vamos lá? Boa leitura.

Eu ousei levantar a cabeça para fitar o céu, coisa que não deveria ter feito, porque, misericórdia, não poderia estar pior. Até então não tinha reparado no teratismo que, agora, era aquilo que mainha chama de morada dos que não mentem. Olhei para Aninha: assustada, com a adaga massa envolvida nas mãos trêmulas e tão aparentemente frágeis. Meu braço lascado entrava em atrito com o piso de cimento, eu tentava ignorar a dor e continuar mantendo minha postura de cabra macho. Era preciso defender minha boysinha do primo do capiroto.

Aninha deu uma esquivada, no momento em que o coisa, que exalava uma mistura grotesca de amônia, enxofre e rexona, se rastejava para mais perto de nós.

— Até onde eu sei — Aninha parecia afoita — não possuo absolutamente nada que seja do seu interesse.

— O garoto... — algo que eu poderia muito bem chamar de o dedo indicador de Percio elevou-se até a minha cara estupefata e suada. Com o braço legal, ajeitei o boné, porque eu posso até estar no meio da bosta, mas jamais perco o bolado.

— Não queira pagar tão caro pela sua ingerência.

Sua voz era horrível, falando lá, aquelas coisas que eu não entendia, e cada vez que Percio semicerrava o buraco sinistro, onde deveria ter olhos, tipo, com cílios e tudo, faíscas sacudiam-se como quando a gente abana a churrasqueira para a brasa aumentar e o salsichão assar logo.

— Eu, bola cheia? — tentei manter a voz de macho — o que é que tem eu?

Me levantei aos poucos, sentindo um bagulho esquisito, uma tontura da moléstia dos cachorros doidos, pensei até que morreria ali mesmo, sem nem ter dado uns colados em Aninha. Pensar naquilo me fez querer chorar.

Aninha me olhava com a cara mais esquisita de Santo Amaro, procurando respostas, invadindo minha mente com aqueles olhos bonitos... Mas eu não estava entendo porcaria nenhuma.

— Me devolva, criatura asquerosa... — Percio entortou o nariz que já era bem torto — Isso não lhe pertence, zíngaro.

— Te devolver o quê, desgraça? Agora foi que deu. — fiz cara de indiferente — E para de me chamar desses nomes ai, que eu não te dei intimidade.

— Jotapê! — Aninha trincava os dentes, ao mesmo tempo em que a confusão inundava seu rosto cheio de cabelo colado com suor e sujeira.

— O que é? — Eu já tava ficando brabo.

Ela não respondeu, segurou com mais firmeza na adaga, apontando a coisa bem na cara da criatura sem boca, que só Deus sabe por onde aquele som de batida de carro saia.

— Volte ao seu sétimo inferno, Percio.

— Eu quero o que me pertence!

Impacientemente, soltei um muchacho.

— Mas eu não tô dizendo...

— Jotapê...

— Diz logo o que tu quer, mulher! Só fica Jotapê, Jotapê, ohh, Jotapê, mas não termina o assunto. Que negócio chato. Tu tá achando que a gente tá com tempo e ocasião pra discutir a relação, é? Deixa de ser besta.

— Eu quero o que me pertence...

— Vá se lascar você também!

Eu sai, me afastando, me sentindo muito fera por não estar nem aí para aquele troço endemoniado. O que na verdade era só pala, por dentro eu tava só o sarapatel de boi.

Foi rápido. Eu estava alcançando meu terceiro passo, todo envolvido numa carapaça de Lampião, quando a quentura invadiu meu pé esquerdo e a catinga de borracha queimada subiu. Ai, meu Nike.

— Ei! — eu batia o pé no chão, tentando conter as chamas — que danado foi isso?

— Jotapê! — Aninha soltava peitos de véa pelos olhos — Eu mandei você ficar na sua.

— Meu tênis, caramba! Que desgraça... — soltei um grito abafado, suor hétero escorria por meus olhos — meu pé tá queimando...

Percio tacou mais uma catarrada ácida em minha direção, mas dessa vez eu fui esperto, saltei para a direita, e mandei uma piscadela pra ele. Meu braço tinha começado a latejar, o efeito dos analgésicos havia passado e o esquema estava começando a embaçar. Eu olhei para o meu pé: meu Nike, agora, não servia nem para matar baratas.

— Eu quero o que me pertence!

Eu fitei Aninha, ignorando o Estrela da manhã. Ela fez um sinal para que eu corresse. Mas eu não poderia deixá-la sozinha com aquele fedido, não é mesmo?! Vai que ele fosse um estuprador... Balancei a cabeça em negação, ela apontou-me a adaga negra da gota serena. Eu arregalei os olhos e dei um passo pra trás.

— Percio — Aninha mantinha uma voz doce e calma. Tão meiga e apaixonante essa minha namoradinha... — Já disse que — ela fitou-me — nós não temos nada que você, por um acaso, possa querer.

Ele entortou o pescoço escamoso, as chamas alaranjadas aumentando compulsoriamente, o céu escavando-se naquela mistura de cores demoníacas.

— Ele tem!

O primo do capiroto soltou mais uma catarrada em minha direção, o suco verde e fedido escorria pela sua venta horrorosa. Eu me abaixei nas carreiras, observando a lavra tostar um gatinho preto que desfilava atrás de mim. O pobre do animal só conseguiu dar uma guinchada: virou cinza fedida no mesmo instante. De onde aquele gato besta tinha saído? Eu hein.

Aninha me observava assustada, agora com seus olhos verdões me expulsando desesperadamente. Não pensei duas vezes e corri que nem um dono de camelô quando tem arrastão, ouvindo o som feioso das bolas de fogo ácidas atingindo o chão, passando fino por mim. Uma quase pegou no meu lombo, mas eu fui mais ágil. Eu sou tudo de bom.

Já havia corrido não sei quantas quadras, podia sentir o céu tomar suas cores noturnas normais e o ar ficar menos denso, no entanto, sabe, a destruição era visível, como se tivesse passado o exército de Esparta atrás de comida. E ainda não havia nenhum sinal de gente pelas ruas, o que me deixou com um pouco de medo, porque, em Recife, pode sumir tudo, menos os cheiradores de cola. Meus pés estavam cheios de bolhas e bem fedidos, principalmente o sem tênis. Escorado em um dos muros da Rua do Ocidente, sem fôlego, eu olhava por todos os cantos da noite silenciosa. A energia elétrica havia tornado e o ar frio e solitário se espalhava pelo meu espinhaço numa onda esquisita.

Meus olhos cansados flagraram Aninha entre suspiros curtos, tropeçando em seus próprios tornozelos bem torneados, me alcançando, caindo por cima de mim.

— Catarina... — ela estava molhada de suor e cheia de hematomas — tava me seguindo, foi? Tu tá bem?

— Que pergunta idiota... — resmungou, procurando ar — urgh!

— O que... aquela coisa...

— Eu dei um jeito nele.

Eu arquei as sobrancelhas. Aninha falava naturalmente, como se fosse super simples e normal decepar uma aberração infernal e fantasmagórica, que, ainda assim, não descia pelo meu estômago... sabe... isso ter sido mesmo verdade.

— Como...? O que era aquilo? — indaguei, enquanto coçava as perebas nos pés — Como você sabia o nome dele? O que ele quer? Pra onde todo mundo foi? Eu quero a minha mãe!

Aninha rolou os olhos, daquele jeito que ela faz quando quer demonstrar o amor que sente por mim.

— Hey, calma... — ela era tão suave — me mostre as suas mãos...

Eu fiz uma careta.

— O quê? — eu segurei o seu queixo — dá uma olhada no mundo ao nosso redor — girei sua cabeça em noventa graus — repara na bosta.

Ela puxou minha mão com força, fazendo uma cara feia, limpando as remelas dos olhos com as costas das mãos.

— Me deixa ver, Jotapê... você não entende...

— Você é meio doida, né?

Aninha não pareceu ligar para minha pergunta, tomou meus dedos com força, parecia um preá faminto. O rosto dela escureceu, ela encarava seriamente o meu anel bolado.

— Onde conseguiu isso?

Eu sorri, meninas são tão interesseiras.

— Tava no banheiro lá de casa.

Ela afastou-se rapidamente, fitando alguma coisa, sem foco, tipo aquelas cenas de filme em que o cara chega pra boysinha e diz: quero tu mais não. E ela olha pro além, pra pensar num fora massa.

— Eu sabia... — Aninha quase sussurrou, mordiscando o lábio inferior, me encarando profundamente... não era possível que ela estivesse pensando naquelas coisas naquele momento. Senti minhas bochechas ficarem vermelhas.

— Eu acho melhor não... — comecei — sabe... não que eu não goste, porque, olha, eu gosto, tá?! — sorri, tentando fazer um charme — É que eu não tô no momento... passa lá em casa depois...

— Do que você está falando?

Eu fiz um gesto de deixa pra lá, amor, com a mão. Aninha é tão tímida.

— Eu preciso falar com a sua irmã, Jotapê... — ela tornou a segurar minha mão. Tão doce — agora tira isso.

Eu dei um empurrão nela. Oportunista. Safada.

— Se saia, vá — soltei um muchacho — é meu, essa merda, eu vi primeiro, tava na minha casa, no meu banheiro, na minha pia. Se quiser um, vá comprar. Mas menina... só quer ser a besta, né?!

Aninha soltou um rugido e agarrou meu dedo.

— Me solta! — gritei — sai daqui.

Ela portava uma força que me deixou meio desconfiado, ainda mais com essas paradas de cirurgias de mudança de sexo que tem hoje em dia. Não era possível que eu estava namorando um macho.

— Jotapê, isso não é seu.

— Teu que não é.

— Me da isso, seu idiota.

— Vá se lascar.

Ela foi me livrando do aperto, me encarando docemente, seus olhos exalavam fofura, eu até pensei que cairia ali mesmo, completamente dopado de paixão.

— O que você quer falar com Jussara?

— Me dá o anel.

— Por que você não me diz o que era aquele Pércio... e como sabe o nome dele? Ora cebola.

— Jãoo Pedro... — ela se aproximou... e eu deixei — me dê a sua mão, sim? — eu deixei, como se não tivesse noção do que estava fazendo — sim... — ela deslizou os dedos finos e magrelos até o anel do pipoco do trovão e o puxou levemente... eu não realizei nenhum movimento de reluta — não quer sair... — Aninha colocou mais força, trincando os dentes. Desta vez eu fiz esforço contra, para ajudá-la, mas não adiantou — não sai de forma alguma.

Aninha parecia completamente decepcionada. Ela me deu um empurrão leve, me fazendo chocar contra a parede.

— Você é um idiota!

Naquele momento senti meu coração despedaçar.

— Oxe...? E o que foi que eu te fiz? — montei na postura de homem de verdade, que eu não sou besta — Vai-te embora arrumar um afazer, Catarina. Só quero que tu saiba que eu não boy de aguentar mimimi de menina fresca não. Eu até te acho bonitinha, mas eu sou cabra macho.

Aninha me ignorou, ela sempre me ignora.

— Por que demônios colocou essa porcaria no dedo?

— Pra ficar mais gostoso... pra você, meu amor.

— Ora...

Ela respirou fundo, fechando os olhos, exalando sentimentos, aquela linda. Meio sem jeito, escorou-se no muro e deslizou até a calçada, me puxando junto.

— Tudo bem... — ela começou, limpando a garganta, encarando meu rosto assustado — se as coisas estiverem ocorrendo como eu estou pensando... nós estamos bem ferrados.

Notas finais
Postarei o próximo até terça feira, no máximo. Gostaria de saber o que acham de Ana Catarina... Gostam dela? kk (:
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.