A Maldição do Faraó
4 Capítulo IV ― Está quente
Notas iniciais
Capítulo IV
Está quente
A música egípcia não estava tão alta no salão, porém com a janela aberta, era possível ouvi-la no quarto de Naruto. Carter adorava aquelas músicas e estaria as curtindo se não conversasse seriamente com o amigo, andando de um lado para o outro.
― Nós podemos esquecer que eu te falei isso ― Naruto disse, sentado em sua cama.
― Não podemos esquecer, você achou a tumba! ― exclamou Carter, sussurrado como se fosse cúmplice de um crime e estivesse conversando sobre ele em confidencial.
― Eu não achei nada. Ela estava lá e eu dei sorte.
― Naruto, desista, você já me disse da visão. Você é claramente um vidente! ― O Uzumaki resmungou tampando as orelhas com as mãos. ― Você já teve alguma visão antes?
Naruto queria fingir que não o ouvia, mas sabia que Howard tinha certeza que o ouviu, as mãos no ouvido apenas abafando o som.
― Não ― mentiu. ― Foi só isso.
Carter pareceu desapontado.
― Vai embora, H.C., você está me privando de meu sono de beleza.
Carter o olhou debochado, mas foi em direção à porta.
― Naruto, se acontecer de novo, me avise.
― Não vai acontecer de novo. Já disse, foi um instinto apenas, nada de poderes mágicos.
Howard saiu dali nada convencido.
~x~
9 de novembro
Carnarvon vestia-se elegantemente como se não estivesse no meio de um deserto perto de uma tumba não aberta há três mil e quatrocentos anos, às sete da manhã. Exalava uma superioridade, exalando seu alto poder aquisitivo, enquanto sua filha corria pela areia, com suas sandálias de salto baixo. Usava um vestido claro de seda solto que caia até abaixo dos joelhos, sem mangas, e um chapéu preto clochê escondendo os fios curtos e escuros. Usava um batom carmim destacando a boca sorridente.
Encontraram-se com Carter já em frente a tal tumba, andando em círculos com as mãos na cintura.
― Lorde Carnarvon! Lady Evelin! ― exclamou Carter, pegando a mão da moça, de unhas feitas recentemente. Provavelmente, trouxe junto consigo sua manicure pessoal. Beijou a mão delicada, sorrindo e acenou para seu patrocinador. ― Chegaram bem a tempo! Estamos para entrar agora.
― Não entrou alguma vez ainda? ― perguntou Lorde Carnarvon. Ele acenou para Naruto, que conhecia, e pareceu ignorar Sasuke, que era novo ali e obviamente era alguém por trás da mídia, carregando um estojo de madeira retangular para sua câmera e no bolso uma saliência mostrava seu bloco.
Evelin teve a mão beijada por Naruto e Sasuke, também. O primeiro lhe sorrindo um sorriso grande, enquanto o outro lhe acenou logo depois do gesto. Ela não tinha certeza por qual homem tinha a queda maior ali.
― Não entramos. Havia aqui um impedimento, um tipo de porta evitando a passagem. Conseguimos derrubá-la ontem, e agora podemos entrar todos juntos.
Lorde Carnarvon assentiu satisfeito, queria presenciar aquele acontecimento, o que talvez não satisfizesse tanto Carter. O egiptólogo, agora inseguro, não sabiam o que poderiam encontrar lá dentro.
Pegou-se pensando a noite inteira, como talvez tivesse sido precipitado. Quando Naruto achou a entrada, de imediato mandou o telegrama para Lorde Carnarvon, com uma certeza que agora se esvaia de sua cabeça.
Só podia rezar para que achassem um morto ali dentro, que traria uma boa retribuição para aquele homem.
Carter dispôs-se de uma lanterna da mala que ele e Naruto ajeitaram. O Uzumaki dispôs-se de outra e os outros acompanharam-nos com essas duas fontes de luz.
Depois da entrada, havia uma série de escadas que apenas o levavam mais para baixo. Depois disso, um corredor escuro de terra, que conseguiram atravessar com a luz das lanternas e onde já começava a subir um cheiro ruim. Depois de uns sete metros, outra entrada fechada.
Carter tirou uma machadinha da bolsa que estava apoiada no ombro de Naruto e afastou-se dois passos para sua força trabalhar melhor. Essa entrada não era tão maciça quanto a primeira, mas demorou alguns instantes para que conseguisse, atacando repetitivamente, abrir um buraco. Depois disso, com a estrutura enfraquecida, era fácil fazer o resto com as mãos. Ele entrara até ali antes, analisando aquela parede para saber como melhor seria para derrubá-la.
Howard e Naruto manejaram um buraco suficientemente para passarem, abaixando a cabeça, pois a ansiedade para entrar era maior do que a vontade de derrubar toda a porta.
Carter foi o primeiro passar, passando a lanterna pelo local, querendo engolir o que via com os olhos.
Lá dentro, não era muito diferente da imaginação de cada um, apenas com uma abundância que não esperavam. Do lado esquerdo da entrada, havia logo uma carruagem de cavalos cor de açafrão, tomando uma parede inteira. De frente para eles, na parede maior passaram a luz por estatuetas de ouro, esculturas antropomórficas, objetos como vasos, lanças e diversas outros.
― São todas as coisas para que um faraó precise para a próxima vida ― comentou Evelin, citando um livro que lera.
Carter sorriu, e ao mesmo tempo em que sentia-se pleno e emocionado, ficou apreensivo por ver um fim àquela saleta. E suspirou aliviado que Lorde Carnarvon estava mais devotado para o tesouro que achavam do que para o pequeno fato que ainda não acharam um túmulo propriamente dito.
Sasuke ficou certamente deslumbrado com o que via. Na parede da direita, havia uma forma de uma estátua que não conseguia enxergar direito. De frente para ela, na parede oposta havia outra e a parede menor entre elas estava desocupada de objetos. Querendo observar melhor, virou-se para Naruto, que tinha luz ali, mas não pronunciou-se quando deu de cara com sua expressão tensa.
Naruto segurava a lanterna e forçava o aperto, fazendo visível as veias de sua mão. Sasuke franziu as sobrancelhas, o observando calado.
O Uzumaki engoliu em seco, não sentindo o olhar do outro. Sabia que desde que achara a entrada daquela maneira, tinha algo estranho. Na verdade, sabia desde o dia em que Carter lhe pediu para juntar-se a si, depois de seu sonho, que algo estava estranho. Mas nunca levara tão a sério essas sucessões esquisitas até agora.
Pois conhecia aquela lugar, e conhecia muito bem. Seus sonhos basearam-se àquele lugar por quatro anos, e agora tremia sabendo que não era bobagem, aquilo era sério. O lugar com certeza estava cheio de pó, fungos e cheirava mal pra caramba em comparação aos seus sonhos, sem contar que sempre o via com pessoas, mas reconhecia o tamanho, a disposição de alguns objetos bem ali em sua frente, como a carruagem ao lado da porta, a mesa com um vaso artesanal ornado com ônix...
Piscou e respirou fundo, capitando agora o olhar enigmático de Sasuke para cima de si.
― O que foi? ― perguntou o jornalista.
― Como assim “o que foi?”. Não foi nada ― desconversou Naruto dando uns passos para a parede em sua frente com a lanterna.
― Preciso da luz aqui ― indicou Sasuke.
Naruto resmungou o acompanhando. A luz chegou em uma das estátuas pretas com os detalhes da vestimenta em dourado, coberta em teia de pó. Naruto observou a estátua e olhou para a outra do outro lado, idêntica.
Do outro lado do ambiente, Carter tirava com a mão a poeira de uma caixa minúscula dourada enquanto Lorde Carnarvon e a filha também investigavam alguns pertences do suposto faraó. Um momento, qual faraó?
Evelin virou, o cenho crispado enquanto procurava algo além dos objetos, com os olhos.
― Não temos um corpo aqui?
Carter retesou-se.
Enquanto isso, Sasuke raspou o antebraço na parede vazia quando precisou tirar uma teia do seu caminho para observar o rosto da estátua. Sentindo o toque não tão firme como imaginava para uma parede, colocou a mão ali em cima. Pressionou os dedos e sentiu um afundar leve.
― Acho que isso aqui é outra porta ― comentou para Naruto que estava perto.
O Uzumaki aproximou-se, colocando a mão em cima da estrutura também. Ao sentir a mesma sensação de Sasuke, virou-se para os outros.
― Aqui, H.C..
Howard parecendo desviar das lâminas de Evelin, quase correu para o lado do parceiro que lhe mostrou a parede vazia. Quando foi, deixou cair a pequena caixinha de ouro, que estava em cima de um apoio junto de um baú pequeno que não conseguira abrir. Lorde Carnarvon acompanhou seu financiado, porém Evelin, mesmo deixada no escuro, abaixou-se para resgatar o objeto. E seus olhos captaram um vácuo embaixo do apoio, o que a fez se aproximar.
― Aqui dentro ― apontou Carter passando a mão pela parede enquanto a outra acompanhava com a lanterna seus movimentos. ― Talvez esteja nesse outro compartimento ― ele sussurrou.
― Dá para derrubar essa parede como fez com a outra? ― perguntou Sasuke.
― Não podemos ― constatou Carter com um suspiro resignado. ― Já viemos além. A licença que temos só nos dá permissão para a exploração. Eu enviei um pedido, precisamos esperar agora uma licença para entrar aqui.
Era a primeira vez que Sasuke ouvia sobre isso e crispou as sobrancelhas com a informação nova.
― Mas... Então, estamos aqui sem permissão?
― Um pouquinho ― disse Carter como se estivesse arrependido. Como se. ― Eu só queria espiar. Mas acho melhor não continuar se não for só essa pequena sala. Derrubaremos a parede que abrimos, e espero que não percebam nossa visita.
― Ei, meu pai, senhor Carter e moços jovens bonitos.
Os quatro viraram para Evelin e quando a luz da lanterna de Naruto a atingiu, seu pai a recriminou por estar agachada daquele jeito em baixo do apoio.
― Aqui parece ter algo também.
― Como? ― perguntou Lorde Carnarvon e todos aproximaram-se. Quando Evelin levantou, Carter e Naruto enfiaram as cabeças em baixo do apoio com suas lanternas. Era um buraco grande o suficiente para um deles ultrapassar e o Uzumaki adiantou-se, passando metade do corpo por lá.
― Uau ― ele disse.
― O que é?
― Tá uma bagunça suja aqui.
― O que tem?
― Alguns móveis e outras coisas, não sei dizer exatamente. É apertado.
― Ok, saia dai agora.
Naruto saiu e agitou a cabeça, passando a mão pelo cabelo tentando limpar-se.
― O que faremos agora? ― perguntou Lorde Carnarvon.
― Bem, não temos muitas escolhas ― começou Howard. Ele olhou em volta e suspirou. ― Precisamos voltar para o hotel e esperar o sinal de algum superior para continuarmos ― todos acenaram com a cabeça.
Pelas próximas horas até o anoitecer, o grupo andou por aquela retangular mexendo, remexendo, analisando e rindo de alguns objetos que mal imaginavam para que servia. Naruto, apesar de rir por coisas pequenas com Carter, parecia um tanto ansioso, por todo aquele tempo lá dentro, Sasuke percebeu. Carter não conseguiu notar pois seus olhos pareciam apenas captar e ele digerir todo aquele material concreto.
O Uchiha, porém, pegou por algumas vezes o Uzumaki olhando fixamente para algum canto ou analisando com olhos minuciosos as paredes ou o chão. Depois balançava a cabeça, saindo do transe. Viu também o brilho nos olhos de Lorde Carnarvon pra cima de tudo que considerava valioso.
Quando o crepúsculo chegou, Sasuke estava sentado em um dos degraus que os levaram para o corredor da tumba. Depois de minutos, os outros quatro saíram do cômodo velho.
― Ok, hora de ir ― disse Carter. Sua camisa branca agora era cinza. ― E agora é sério. Precisamos descansar.
― Duvido que consiga dormir, H.C. ― disse Naruto com um sorriso. Ele estava com o rosto um pouco empoeirado. O amigo o abraçou pelos ombros.
― Vamos embora.
~x~
Pela manhã, bem cedo, Naruto saiu de seu quarto com a expressão cansada e irritada. Achava que conseguiria tirar uma boa noite depois desses últimos dias agitados de cavar, beber e comemorar. Mas não conseguiu. Queria dormir, mas não queria sonhar. Queria descansar, mas estava se cagando de confirmar, caso viesse a ter mais um, que seu sonho estranho fosse mesmo na tumba antiga que acharam. Só queria esquecer toda essa história que Carter inventou de “vidência”, e dormir. Não aguentaria mais um dia se continuasse privado de sono, precisava no momento buscar um bom café.
Sasuke observou Naruto andar como um zumbi até as escadas para descer, quando saiu de seu quarto. Quietamente, o seguiu.
Pensando no pão achatado egípcio acompanhado de um pouco de patê e um molho que ainda não decorara o nome estranho, Carter ficou com água na boca, assim como feliz por logo pensar que depois de comer algo assim, rumaria para a sua linda tumba. Ele desceu as escadas com os olhos já em cima do restaurante do hotel.
Passando pela recepção, porém, ouviu seu nome. Virou para a moça da recepção que apontava para si dizendo algumas coisas para outra mulher.
Uma mulher de rosto simpático, olhos claros como pérolas e fios rosados presos em um coque médio atrás da cabeça. Vestia-se com uma camisa feminina combinando com sua saia longa castanha.
― Sr. Carter, sim? ― ela lhe perguntou com sotaque. Ele assentiu. ― Eu venho como representante do Conselho Supremo de Antiguidades. Meu nome é Sakura Haruno.
Ele a cumprimentou, os olhos arregalados pela animação contida; não esperava uma resposta para sua licença tão cedo.
― Eu vou acompanhá-lo em sua descoberta para poder fazer um relatório para meus superiores e então oficializar.
― Sim, sim ― disse Carter.
― Sakura-chan! ― a voz alta de seu assistente cortou o ar e Carter virou-se para a escada. Naruto vinha de encontro a eles, surpreso. ― Sakura-chan? Ei, lembra de mim? ― ele sorriu, falando em sua língua de nascença que Carter não entenderia nem em mil anos.
― Naruto! ― ela retribuiu. ― Claro que lembro. O que faz aqui?
Eles trocaram algumas palavras, até Howard irritar-se um tiquinho.
― Inglês ― ele avisou amigavelmente para Naruto.
― Ei, H.C.. A Sakura-chan estudou comigo no colégio.
― Que coincidência ― o inglês disse, sentindo-se rodeado por japoneses. ― Ela que tem a licença para entrarmos a tumba ― ele contou.
― Sério? Realizou seu sonho! Ela sempre gostou da civilização egípcia. Quando foi que você veio pra cá, Sakura-chan?
A moça começou a explicar resumidamente como parou ali, morando no Cairo, quando Sasuke também chegou para a pequena reunião. Terminando de falar, Sakura também cumprimentou o Uchiha e eles seguiram para um café da manhã.
~x~
Com o carro alugado de Lorde Carnarvon e outro que veio com Sakura, todos livraram-se de uma viagem mais demorada pelo Vale dos Reis. Quando chegaram no local, Naruto e Howard saíram do carro carregados com machadinhas, com sorrisos que os poderiam confundir com serial killers.
Diante de todos os seis pares de olhos havia um túmulo enorme retangular de quartzito que pegava grande parte do espaço. Atrás do grupo, no chão toda a sujeira necessária para derrubar-se aquele parede para entrarem.
Sakura observou os desenhos de alto relevo encrostados na pedra, enquanto Carter e Naruto colocavam suas mãos no sarcófago também rochoso ali dentro. Tinha a forma de um corpo deitado, com os braços cruzados, e as mãos segurando do lado esquerdo um cetro, um pequeno bastão com uma das extremidades formando um gancho, e no lado direito um chicote, mas o que era acentuado era a parte do rosto, que no queixo encaixava-se uma barba postiça longa. Na cabeça, um adorno que parecia cair nos ombros em tiras e tinha um enfeite de uma serpente na testa.
A representante de autoridades do Egito deu a volta pelo túmulo identificando as figuras.
― Há uma deusa em cada canto desse túmulo. Ísis, ― ela apontou. ― Néftis, Neit e Selket. A Mãe da natureza, a Deusa Mãe, a Deusa da Guerra e a Deusa Escorpião. É bonito, não tinha visto algo assim antes.
E depois foi citando mais deuses em gravuras nas paredes da tumba folhadas por cróceo. Além das divindades, foram ilustradas batalhas, e o que ela desconfiava ser o faraó junto de sua esposa.
Lorde Carnarvon, no meio tempo, percebeu uma porta na parede ao lado, e com sua luz, percebeu uma estátua, de um homem com a cabeça de chacal coberto por bem na entrada o que o assustou. Evelin o seguiu.
― É o deus Anúbis ― disse sua filha orgulhosa. ― Já vi algumas de suas representações.
― E ele é Deus do quê? ― perguntou prestando sua atenção, na verdade, em todo o dourado que via ao redor da estátua, naquele outro compartimento que descobrira. Apesar de gostar da história, não tinha gravado muito sobre os antigos deuses.
― Ele é o Deus dos Mortos ― Evelin soltou uma risadinha.
Sasuke aproximou-se do túmulo junto de Sakura, Carter e Naruto.
― Está inviolado ― disse Sakura.
― Está! ― Carter sorriu. ― Temos aqui um túmulo não tão organizado como de outros faraós, mas está inviolado.
― É comum que não estejam? ― perguntou Sasuke calmamente.
― Muitas vezes, como eu disse, ladrões do antigo Egito entravam nos túmulos para roubar as riquezas. Talvez tenham entrado naquela outra sala e levado alguns objetos, mas é com o faraó que os maiores tesouros ficam e não conseguiram entrar aqui, a parede também não tinha sido selada uma segunda vez, o que significa que somos os primeiros em talvez três mil e quatrocentos anos.
Sakura acenou a cabeça e Naruto abriu um sorriso, apesar de seus calafrios.
― Ei, H.C., vamos levantar esse sarcófago, temos um morto para analisar.
Aquilo parecia pesar pelo menos meia tonelada e o rosto dos dois homens ficou vermelho com o esforço. Logo, Sasuke juntou-se com Lorde Carnarvon e eles quase derrubaram a peça pesada com tudo no chão, fazendo um esforço para soltá-la apenas há alguns centímetros do chão. Os homens grunhiram, e o ruído foi abafado pelo som retumbante do sarcófago batendo no chão rochoso.
― Você deve ter estar de brincadeira! ― exclamou Naruto quando eles constaram existir mais um sarcófago menor por baixo, de mesma estrutura. Respirando fundo ele agarrou a pedra junto com os outros, para levantar também. Como esse estava mais fundo, foi um pouquinho mais difícil apesar de ser mais leve. Tiveram que colocar essa parte do sarcófago do outro lado do túmulo. Nenhum deles voltou a levantar-se, apoiando as mãos nos joelhos e respirando.
― Hum... ― fez Evelin quando olhou para dentro do túmulo.
Quando Carter olhou também, grunhiu, fazendo Naruto repetir o gesto.
― Deixa assim ― ele disse sem ao menos olhar para o túmulo, mas já sabendo que tinha mais uma camada de sarcófago pesado de pedra.
Porém, ali dentro, não era mais uma massa de quartzito, e sim um sarcófago de ouro maciço apesar de ainda carregar o mesmo desenho dos olhos negros apáticos e pintados junto com o adorno na cabeça com tiras de cobre azul e a cobra naja e a barba ressaltadas. Além de alguns inscritos que nos outros não tinham.
― Nesse aqui temos algumas frases ― comentou Sakura e ela passou a mão pelo relevo das letras, como se lesse em braile.
― Você sabe ler essa escrita antiga egípcia?
― Sim, é minha especialidade ― disse ela sorrindo. Então, concentrou-se ali por alguns segundos. Naruto que havia sentado na chão pra regularizar a respiração, viu que logo abaixo do túmulo preso havia uma sorte de pergaminhos, mas quando Sakura começou a falar, ele levantou para primeiro prestar atenção.
― “O faraó que em paz não virará para o outro lado, se alimentará de vingança e viverá para sempre” ― Sakura traduziu as primeiras palavras. Naruto fez uma cara aterrorizada. ― “Ao se levantar, completará o ritual selando o traidor e seguindo eternamente.” Eu nunca vi essas frases antes ― contou a Haruno. ― Normalmente, selam o sarcófago com frases do Livro dos Mortos para que o falecido faça sua viagem para a outra vida, mas aqui são feitiços.
― A nova maldição ― disse Carter. ― Dizem que Tutankhamun traria algo novo, deve ser isso.
Sakura continuou.
― “Pois acordando, não voltará a dormir até que conclua o que lhe tomou a paz dos mortos” ― a mulher parou para pensar um pouco. ― Acho que isso quer dizer que ele não foi em paz, por isso não tem citações do Livro dos Mortos, o que os egípcios acreditavam que levaria o morto para a próxima vida.
― E por que não queriam que ele fosse em paz? ― perguntou Naruto.
― Pela sua “vingança”, aparentemente. Parece que tem muita coisa desconhecida desse faraó... ― E terminou: ― “Os pertences que leva consigo não para a próxima vida, mas para a sua eterna”.
― Vamos levantar isso aqui.
E então os quatro homens colocaram-se em posições. Tiveram de fazer um pouco mais de força e teve um momento que Sasuke pensou que Naruto parecia estar dando a luz. Tiveram de afastar com alguns passos para estender aquele ouro pesado no chão, agora aos pés do túmulo. Mal sobrou espaço para que se movimentassem naquela sala, mas todos pareciam mais fascinados – ou enojados – com a nova descoberta.
A camada de sarcófagos chegara ao fim, finalmente, e agora ali deitado no túmulo, um corpo de mais de três mil anos tornou-se visível. Naruto quase chegou a achar que teria outro sarcófago, pois a parte do rosto estava coberta por uma máscara de ouro exatamente pintada como estava na parte do sarcófago que a cobria. Bem mais fácil de levantar, foi tirada apenas por Carter e Sasuke.
O corpo escuro, seco e atrofiado, com buracos para os olhos e uma linha podre para boca tinha em volta de si algumas camadas de linho branco, como se fossem colocados ontem. E três ânforas brancas pequenas acompanhavam o faraó.
― O Menino-Faraó ― sussurrou Howard.
― Uau ― Naruto pegou uma das ânforas e abriu, tirando a tampa que era uma cabeça representando Anúbis.
― Não inventa de beber isso.
O Uzumaki fez uma careta para o cheiro e colocou de volta.
― Temos a próxima sala ainda, não querem ver? ― perguntou Evelin.
Deixando momentaneamente o corpo apodrecido de lado, todos seguiram para a porta. Sasuke, ao tentar ultrapassar na Naruto, tombou com ele, pois o homem fez um movimento repentino e parou. Os olhos azuis, agora escuros pela falta de luz voltaram-se para o rosto do jornalista.
― Olha por onde anda ― ele disse com toda seriedade, voltando a andar e o Uchiha encarou suas costas, aborrecido.
Ultrapassando a estátua de Anúbis, o que ressaltava ali era um grande móvel áureo. Era a capela do faraó, o maior objeto ali, e onde encontraram seus vasos canópicos que Naruto, Evelin e Carnarvon não quiseram chegar perto, pois eram onde os sacerdotes do faraó na antiguidade teriam guardado seus órgãos.
Carter não conteve-se, abrindo com dificuldade um vaso empoeirado
Depois do anoitecer, quando preparavam-se para ir embora, Sasuke apagou o fogo das tochas que preparara e pendurara pelos quatro ambientes que completavam a tumba, tirando o corredor. Fez isso com intuito de conseguir tirar algumas fotos, na verdade, várias fotos, se isso lhe fosse possível, não fosse a limitação da câmera. Ficara fascinado com um ambiente daqueles, tão antigo, que nunca imaginara entrar.
Saíra por último, ignorando uma leve brisa que sentiu no pescoço, enganando-se por um arrepio ordinário.
Quando chegaram ao ar fresco da noite, todos suspiraram.
― Sr. Carter, lhe deixarei avisado sobre meu relatório. Depois de oficial, receberá algumas visitas de museus, superiores e negociadores, entre outros. Isso poderá levar um tempo, mas ficarei presente enquanto isso ― Sakura dirigiu-se para o egiptólogo.
― Claro, muito obrigada, Srta. Haruno ― ele agradeceu. ― Agora, uma noite de comemoração? ― ele virou-se para Naruto.
― Eu vou é dormir, H.C.! Se passar mais uma noite assim, ficarei parecendo aquela coisa ali dentro!
~x~
Quando os quatro cômodos que abrigavam o túmulo do jovem faraó ficou em paz das presenças, apenas o cheiro queimado deixado para trás, o ambiente foi iluminado novamente. O sarcófago de ouro agora no chão, brilhou como se fosse novo e todas as letras cravadas ali e lidas mais cedo dançaram para fora do sólido circundando o corpo frágil ainda intocado no túmulo. Com uma luz mais forte, o dialeto antigo pareceu ajuntar-se ao corpo, e os dedos desgastados por mais de três mil anos, ganharam vida.
~x~
Passara da meia-noite e o homem de fios loiros bufou deitado na cama. Naruto virou-se de barriga para cima, encarando o teto e tentando acalmar as estranhas, pois seu corpo parecia agitado por dentro.
― Eu to muito feliz, mas seria bom dormir ― reclamou para si mesmo.
Seus olhos pesavam, mas eles não permaneciam muito tempo fechados, e logo pensava na tumba novamente, mas não naquela com teias, pó e fungos, mas sim quando estava limpa e ainda sendo organizada, onde era claro para a visão e homens com roupas de outro tempo andavam lá dentro.
Seus pensamentos foram cortados quando ouviu um assobio e um barulho em sua janela como se alguns grãos de areia batessem nela. Ele ergueu os olhos e bufou novamente com uma sensação crescente e desconfortável, como se algo maligno fosse bater em sua porta para lhe matar, torturar ou alguma outra opção nada agradável.
Claro que era bobagem, convenceu-se fechando os olhos novamente.
~x~
Sasuke escrevia outro telegrama para seu irmão, Itachi, o informando do progresso. Já imaginara o sorriso satisfeito e um pouquinho convencido do mais velho, por ter insistido em seu contato com Howard Carter. Terminou, assinando e estralou o pescoço, quando ao seu lado as portas da janela do quarto moveram-se com o vento.
Deixava aberta enquanto estava acordado, mas decidiu logo fechar para que o vento não lhe incomodasse. Franziu de leve as sobrancelhas quando percebeu alguns poucos grãos de areia no chão e levantou o olhar para sua vista para a cidade.
~x~
As janelas ordenadas por madeira bateram com força antes de abrir abruptamente no quarto de Lorde Carnarvon. Dormindo por cima de um tecido de seda trazido da sua adorada Inglaterra, ele não parecia confortável, porém perturbado e suava frio. O homem resmungou antes de parecer engasgar em sua própria saliva, procurando ar, ainda em seu sono. E como se estivesse sonhando, levantou a mão tentando parar quem lhe fazia mal, porém agarrando o ar, até o ponto em que não estava mais perturbado.
No castelo de Carnarvon em Londres, o canto agudo e insistente do canário de Lorde Carnarvon acordou uma das empregadas da casa, que sonolenta, olhou pela sua janela que abria para o jardim. Viu o momento que o pássaro foi engolido, por uma cobra que abria caminho pela grama, com um choro desesperado.

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