A Maldição do Faraó

2 Capítulo II ― À margem


Notas iniciais
Ei, gente, obrigada a todos que comentaram no primeiro capítulo e que vão continuar por aqui! Uma coisa que eu errei capítulo passado: eu coloquei 26 de novembro na data, mas é na verdade outubro e eu já arrumei, viu, disfarcem rs Enfim, boa leitura e qualquer erro, avisem~

Capítulo II

À Margem

Howard Carter fumava nas pausas de suas palavras. Sasuke sentava à sua frente na mesa redonda, ouvindo coisas do tipo: o que motivou o egiptólogo, seus esforços, o porquê que continuava e todas essas informações pessoais de seu trabalho.

Resolvera aproveitar o tempo da viagem no navio para que pudesse começar seu trabalho, entrevistando os envolvidos. Carter era o primeiro, logo iria atrás de Naruto e depois conversaria com os escavadores que esperavam no Egito, além de provavelmente outras pessoas envolvidas que não estariam presentes.

― Toda a minha coleção sobre Tutankhamun está em minha mala, pode dar uma olhada depois ― disse Carter depois de contar sobre seu interesse e Sasuke percebeu como ele dizia o nome egípcio em um sotaque forçado para dar ênfase.

O Uchiha assentiu, escrevendo alguma coisas, e pulando para a próxima pergunta.

― Você está nessa procura há quase dez anos, pretende continuar mais dez anos se for preciso? ― perguntou Sasuke como um bom jornalista.

Carter deu uma risadinha.

― É claro que sim. Infelizmente, meu financiador, Lorde Carnarvon, parece não estar tão entusiasmado com essa ideia. Acho que depois dessa, eu me aposento.

Sasuke ergueu a sobrancelha com a nova informação.

― É mesmo? Última exploração? Você não parece tão abalado.

― Pode-se dizer. Mas estou bastante confiante, vou tentar não me abalar antes da hora ― sorriu, levando o charuto à boca.

Sasuke não retribuiu o gesto, mas Carter percebeu que em sua personalidade, ele provavelmente não o faria tão cedo. O Uchiha, por sua vez, anotava pensando como aquele homem parecia positivo, ele não estaria tão certo em sua última exploração, se a situação fosse inversa. Então ele encaminhou-se para a última pergunta.

― Por que juntou-se à Naruto Uzumaki?

Howard o olhou, rindo um pouco.

― Eu nem sei, Naruto dá muito problema! ― disse com um sorriso. ― É brincadeira. Ele se juntou há quatro anos, estava desempregado e diz ele que ficou intrigado por esse faraó que a tumba sumiu no deserto ― “sumiu ou talvez não estava lá pra início de conversa” pensou Sasuke. ― Eu precisava de ajuda e aqui estamos.

― Se conhecem faz tempo?

― Na verdade, o conheci alguns meses antes de o convidar à juntar-se a mim. O conheci através de um amigo ― Carter disse e soltou a última fumaça do charuto.

~x~

Era possível ainda ver as margens de terra, o navio não distanciava-se o suficiente para que elas desaparecerem, o que Naruto não sabia se era bom ou ruim. Bom por não estar em algum ponto boiando no meio de um corpo de água gigante não sabendo quando poderiam atingir terra, mas ruim porque se sentia quando alguém tinha algo bem ali em sua frente que desejava muito e não podia alcançar.

Depois de quase dois dias de viagem, sentia-se propenso a vomitar, e provavelmente, acabaria o fazendo nos pés de alguém. Como a imagem dos pequenos matinhos verdes de longe não pareciam lhe fazer bem, decidiu seguir para o restaurante do navio. Mesmo enjoado, não conseguia pular uma refeição que fosse, ainda que não conseguisse comer feito um porco como sempre o fazia, mas gostava de ter pelo menos alguma coisa para mastigar e se sentir melhor nos segundos antes que engolisse e a sensação piorasse.

Quando chegou ao restaurante, com a mão na barriga e prendendo a respiração, avistou Sasuke, o jornalista (provavelmente) antipático, e sua indignação aumentou por constatar que ele parecia bem. Pelo que ouvira de Howard Carter, aquele cara não era de viajar e nunca foi para lugares tão distantes quanto o Egito (tirando sua viagem de vinda do Japão) e ali estava ele, com o estômago em paz, enquanto Naruto sofria aquilo todas as vezes. Quando passou por ele, faria uma careta se já não usasse uma.

Ao sentar-se em uma mesa, sozinho, o Uchiha aproximou-se com um bloco que prendia uma caneta no lado. Usava um blazer e calças claras que apenas faziam destacar ainda mais seus olhos e cabelos negros.

Sentou de frente para Naruto, que ergueu as sobrancelhas.

― Estou entrevistando os envolvidos na escavação. Você é o próximo, Uzumaki ― informou Sasuke, o encarando.

Com o enjoo que logo poderia escapar por sua boca, Naruto não poderia falar alto ou soar ameaçador, mas fez o melhor que pôde.

― Eu não quero ser entrevistado por você.

Sasuke estava sem paciência para alguém querendo o impedir de trabalhar quando já não estava ali por muita vontade própria, por achar que seria um fracasso, porém sabia ser profissional. Naruto, por outro lado, não economizou nos olhares ofensivos em nenhuma das vezes que os dois encontravam-se e infelizmente, isso aconteceu com frequência nessas últimas horas de viagem, até porque o navio não era exatamente espaçoso.

O próprio Uchiha sentia-se também incomodado e não ia com a cara daquele homem estúpido que fazia bastante barulho ao falar ou se expressar, mas conseguia mostrar-se imparcial e achava justo Naruto fazer o mesmo.

― Não tenho aqui um jornalista exclusivo para você, então pode responder minhas perguntas ou ficar na matéria como “o ajudante que não quis prestar entrevista”.

Naruto fechou a cara. Sasuke ouvira de Carter, quando o entrevistou, que seu parceiro sonhava com todo um reconhecimento e fama, o que não explicava a birra com um jornalista que estava providenciando que seu nome fosse ao menos parar na mídia.

Sasuke desviou a atenção para seu bloco e escreveu o nome de Naruto junto com algumas informações pessoais, como idade, aniversário e local de nascimento, que buscou de antemão de Howard, porque Naruto não lhe informaria, com certeza.

― Primeiro, fale a sua função e o que espera dessa busca, que já dura anos.

Naruto viu Howard de fundo, fazendo gestos que o incentivava e responder e ele suspirou, sem tanta energia para birrar um pouco mais. Maldito navio, maldito enjoo.

― Eu to ajudando H.C. na busca, eu sou um arqueólogo, e ele me convidou há uns anos e acho que o que eu espero é encontrar a múmia rica que queremos, né ― deu de ombros com seu sarcasmo, encarando os olhos escuros.

― Como conheceu Howard Carter? ― prosseguiu Sasuke. Já tinha ouvido de Carter, mas gostaria das duas versões.

― Meu avô, ele me apresentou ― contou recostando-se na cadeira, fazendo uma careta para a dor no estômago que não passava.

― Seu avô? Quem é?

― Ele é um escritor de romances adultos no Japão, o nome é Jiraya.

Essa era uma resposta que Naruto não se importava de dar, pois sabia que Jiraya iria adorar seu nome citado em um jornal em Londres, aquele exibido.

― E o que fez você aceitar a oferta de Carter?

Naruto olhou por alguns segundos para Sasuke e depois, desviou o olhar para a mesa, demorando mais alguns segundos para responder.

O jornalista esperou sem apressá-lo, ainda que o mistério o intrigasse.

Naruto Uzumaki foi convidado há quatro anos por um Howard Carter no auge da esperança e otimismo para encontrar a múmia. Ele apresentou para Naruto as informações de uma possível — e vaga – localização, e também suas pesquisas na história dessa tumba, que estava enterrada no subsolo, escondida, e ainda outros fatos.

Naruto ficou impressionado, porém mal seu amigo Howard Carter sabia que não era pelas informações que lhe jogava. E sim por um sonho que Naruto teve ainda na noite anterior. Um sonho estranho e fragmentado.

Primeiro, sonhara com o próprio amigo, Howard, dizendo que queria desvendar o passado de Naruto, o que no sonho, pareceu tudo muito natural para o loiro, que estava apenas curioso para o que viria depois disso, como se ainda não soubesse do seu passado.

Logo depois, o egiptólogo apontava para dentro de um corredor e Naruto seguiu, sozinho. Atravessou o corredor, chegou em uma câmara carregada de ouro e escritos e ouviu alguns homens, que identificou como sacerdotes antigos, pois no sonho sabia dessa informação. Os homens murmuravam e era como se suas palavras ganhassem vida, deixassem suas bocas e se cravassem principalmente em um enorme sarcófago todo embutido de ouro puro.

E então, Carter veio, lhe contando sobre um faraó Tutankhamun. Quando o nome foi dito foi como se um sino tocasse na cabeça de Naruto, e ele não soubesse em que direção.

Esse sonho também voltaria para si pelos próximos anos que passara viajando, de maneiras diferentes, mas sempre era naquele local, em que nunca esteve antes. Pensou, por muito tempo, em alguma explicação, só que parara de tentar achar alguma, ainda que, no fundo de sua mente, gostaria de desvendar o que quer que aquilo fosse.

Não contou para ninguém, nem para Carter, nem para seu avô, nem para seu tutor no Japão, Kakashi. Portanto, essa não era uma resposta que Naruto daria para o enfezado do Sasuke.

Os olhos azuis, azuis como águas límpidas, Sasuke anotou mentalmente, sem querer e rapidamente, voltaram-se para a escuridão dos do Uchiha, antes que Naruto abrisse a boca.

― Achei a história interessante. Que bom arqueólogo não gostaria de encontrar a tumba escondida de um jovem faraó do Egito?

Sasuke percebeu a hesitação e as meia palavras de Naruto, o que o fez aprofundar seus olhos no outro homem por instantes, como se o quisesse ler.

O Uzumaki, sentindo o peso do olhar do jornalista que conhecera há pouco, pensou que, por algum motivo, ali em sua frente, outro mistério fazia-se presente. Outro que também queria desvendar.

~x~

O Egito era diferente de como Sasuke imaginara. Parecia uma cidade como a própria Londres, apenas peculiar com esculturas históricas e coisas do tipo, não o deixando esquecer que o lugar tinha uma grande história e também única, e o clima era diferente. Chegaram bem na época em que o calor estava mais intenso, o que não agradou o Uchiha.

O hotel em que ficariam era na cidade e era o mais próximo do chamado Vale dos Reis, deserto em que o nome deve-se ao fato de que ali muitas tumbas faraônicas foram encontradas, e ainda tinham mais por vir, segundo pesquisadores. Uma ironia, pensando em como Howard Carter demorou todos esses anos sem resultado por uma única tumba, pois era também onde, supostamente, Tut estava.

Carter e Naruto só precisavam chegar ao lugar preciso, longe de todo o terreno que já foram feitas descobertas, o que era difícil, pois o local era enorme, fácil de perder e confundir, e a areia era um fator complicador para achar tumbas escondidas no subsolo.

O hotel ficava há quase nove quilômetros do deserto e tinha um espaço simples, com mesas e balcões de madeira. Os quartos eram poucos espaçosos, com um cubículo de quatro metros quadrados para o banheiro.

No check-in, a moça da recepção sorria mais do que devia para Sasuke, e Naruto revirou por olhos por uns dois minutos.

― Aqui está a chave de vocês, vista para o deserto distante ― ela entregou uma para Howard e outra para o Uzumaki de números seguidos. ― E aqui a sua, sr. Uchiha.

Ela roçou os dedos nos dele quando Sasuke segurou a chave.

― Sua vista para a cidade.

O quarto de Carter era ao lado do de Naruto, que ficava de frente para o de Sasuke, que não quis a vista para o deserto, o que fez o Uzumaki franzir as sobrancelhas e chegar bem perto de si para tossir um “imbecil” enquanto passava por ele, segurando sua mala.

Naruto não só deixou o comentário visto como rude para trás, como também um cheiro que Sasuke, estranhamente, captara, quando o outro aproximou-se o suficiente.

~x~

A escavação começaria de fato em dois dias, o que lhe dava um tempo para talvez fazer um tour em pontos turísticos, como estudo, porém o calor o desanimava. Então, por esse tempo de sobra, seguiria tentando descobrir mais coisas para sua matéria, entrevistando os escavadores que também estavam hospedados ali, só esperando o sinal.

No momento, Sasuke estava no quarto, organizando seus equipamentos de trabalho. Assim como para Naruto, uma cama bastaria, para o mais novo sócio do jornal Questão, bastaria o pequeno armário para que pudesse guardar suas câmeras, filmes e anotações.

Enquanto o fazia, pensava com uma atenção especial, que nunca admitiria, no cheiro que emanou de Naruto. Não sabia se era dele mesmo ou sua imaginação, mas não parava de pensar em em como o cheiro lhe era nostálgico, o que era estranho.

Era um odor que lhe lembrava campo ou talvez o mar, não tinha certeza, mas o que sabia certamente era que não eram lugares que teve o costume de ir, nem agora e nem quando criança, para ter alguma lembrança com esse aroma. Passou bastante tempo analisando esse problema e chegou à conclusão que o calor mexia com seus sentidos, e mal passara um dia.

~x~

Ao lado do restaurante do hotel, havia um bar. Ou melhor, havia um restaurante em um bar, que basicamente era um balcão que curvava e pegava duas paredes, sendo que das quatro do salão, uma era aberta, sendo a entrada. Nelas havia algumas pinturas de criaturas antropomórficas, não tão bem traçadas como nos desenhos antigos, mas eram bonitas.

A música era bastante perturbadora, segundo Sasuke, com um quê de suspense egípcio, se isso fazia sentido. E o uísque tinha um gosto estranho, que ele passou, mas que não impedia Carter, nem de longe.

― Basicamente ― contava ele para Sasuke que, sentado ao seu lado, bebia uma Sidra. ― Tutankhamun assumiu com oito e morreu jovem também, não se sabe ao certo quando ou como. Pelo menos, não consta nos registros históricos. O corpo, que acharemos, poderá nos dar umas boas respostas, nosso médico da equipe está ansioso.

Sasuke o olhou.

― Ainda tenho que conversar com ele.

― Ele só vem depois, se a escavação der certo. ― bebeu de seu uísque. ― Enfim, uma coisa interessante, é que dizem que seu túmulo é protegido por maldições.

― Maldições?

― Sim, feitiços egípcios que eram proclamados pelos sacerdotes do faraó para proteger o corpo e os tesouros. Parece que na tumba de Tut está escrita uma nova maldição poderosa para evitar intrusos. Talvez seja essa minha dificuldade, é o que sempre brinco ― ele riu um pouco. ― Tem gente que acredita. Minha própria esposa teme essa minha viagem e Naruto não gosta de falar sobre.

― Naruto acredita? ― perguntou, quase com um tom divertido na voz.

― Não é que ele acredita, só acha bom respeitar ou algo assim.

Ficaram alguns segundos em silêncio, até que Sasuke o quebrou.

― Você sabe do que se trata essa nova maldição?

― Não. Talvez seja por ser muito jovem, ou ter morrido cedo, não sei. Só conheço mesmo as comuns que tinham a intenção de livrar os túmulos de ladrões em busca de riquezas. Claro que não deu muito certo, inúmeros túmulos descobertos já foram violados antigamente por esses bandidos do Antigo Egito. Por isso acredito que logo também chegaremos no menino-faraó, nada é impossível.

Sasuke se viu bastante interessado no que Carter tinha mais para contar sobre a civilização e coisas do tipo. Seu conhecimento nessa área era bastante modesto, e anotou mentalmente que passaria na biblioteca perto do hotel, atrás de alguns exemplares em inglês, para se situar, além de ler o material do próprio Howard.

Viu, de canto de olho, Naruto chegando, conversando com um dos escavadores, Eles seguiram em sua direção e o homem com marcas na bochecha sentou-se ao lado de Howard, mal deixando que o Uchiha o enxergasse de onde estava. Resistiu a um impulso de chegar perto e constatar se o cheiro familiar ainda o acompanhava, enquanto observava que Carter parecia inabalado por esse suposto cheiro, bebendo seu uísque puro, enquanto Naruto o engajava em uma conversa profissional.

~x~

O corpo ardia. O sol parecia querer castigá-lo de algum pecado grave que cometera. Mexeu como pôde os pés presos por correntes que aquecidas, pareciam dois círculos de lava o prendendo pelos tornozelos.

Seus braços uma vez pálidos, estavam vermelhos, assim como suas costas e peito descoberto. Vestia apenas um tecido leve de linho na cintura que lhe cobriam metade da coxa e os pés apenas não queimavam na areia, pois ela estava molhada pelo rio estendido ao lado dos trabalhadores presos, que seguiam usando sua água para ajuda de uma construção gigantesca há metros dali.

O cheiro de suor dos operários era misturado com um leve odor do Nilo e areia, que era até agradável, porém não ao ponto de fazê-lo esquecer aonde estava e porquê. Estava com raiva e tentou muito demonstrar isso o que mostrava as linhas vermelhas em suas costas, mostrando que algum daqueles homens que rodeava os presos, com chicote na mão, havia tido algum trabalho.

Quando estava a ponto de desmaiar, ouviu um chamado.

― Vizir!

Sasuke abriu os olhos, demorando para restabelecer a realidade. Levantou o dorso e sentou na cama limpando o suor da testa e afastando os cabelos. Olhou para os seus braços que pareciam perfeitamente normais e depois seus olhos passaram em volta do quarto, que o fez lembrar-se de que estava hospedado em um hotel meia boca no Egito, para acompanhar a escavação de Carter.

Não lembrava-se perfeitamente do seu sonho, além da sensação de formigamento queimante pelas costas, pescoço e braços e também do cheiro que parecia tão real quanto à cama que se sentava. O cheio nostálgico que lhe lembrava uma praia.

~x~

Já era tarde quando Naruto resolveu vestir a calça de pijama e o gorro na cabeça. Melhorou do enjoo e agora poderia dormir como gente. Desligou a luz e antes que se jogasse no colchão levemente duro do hotel, ele caminhou até a janela e observou as ondas de areia no escuro.

― Boa noite ― desejou para o deserto, indo deitar e esquecendo a janela aberta.

Notas finais
Saiu bem focado no Sasuke, né? Teremos capítulos mais focados no Naruto e outros mais no Sasuke. E o próximo cap. sai até fim de semana que vem, e vou fazendo isso de postar um por semana, oks?