Notas iniciais
E fiquem com as emoções finais do penúltimo capítulo.

04|06|1758 Palácio de Hampton Court

Chegou junho, o mês horrível. O mês em que o destino dos Tudor-Habsburg seria decidido.

No dia anterior a Câmara dos Lords ouviu as acusações contra Anne. E hoje seria o dia de ouvir a defesa. E a ansiedade e o medo era muito bem visível. Frederik podia ver que Anne estava bem ansiosa, ele mesmo estava. Mas quanto mais perto chegava a hora de ir aos lords, mais se poderia ver essa ansiedade.

Com beleza e glória, permaneceremos. Com beleza e glória, permaneceremos.- E essa ansiedade se poderia ver bem em Anne estar repetindo essa frase a vários minutos. Era como uma âncora talvez.– Estou tão simples e comum com essas roupas.

Anne estava sendo vestida por suas damas de companhia, e ela realmente estava simples e comum, usando algo que uma dama aristocrática vestiria.

– Minha senhora, está muito bela.- Lady Richmond parecia estar querendo ajudar Anne, mas isso não parecia estar ajudando muito.

– Lady Richmond está certa Anne. Você está muito bela.- Apenas agora Anne percebeu que Frederik a observando, assim como as damas dela.

– Estou simples isso sim. Um vestido de algodão, sem muita cor e com meu cabelo a mostra. Espero que eles tenham pelo menos pena de minha pessoa.- O desgosto de Anne em se vestir como uma dama inglesa era bem visível.

Mas foi escolha dela mesma se vestir assim. Para que fosse visto que ela era completamente leal a Inglaterra. E Anne novamente voltou a repetir a sua frase, enquanto suas damas acabavam de lhe vestir.

– Você precisa realmente Anne repetir isso em voz alta?

– Sim preciso, Frederik, esse é o lema de minha família, mostra que vamos sempre permanecer. Falar isso em alta voz me dá ânimo.- Frederik sempre pensou que esse lema falava sobre permanente beleza e glória sobre coisas sem importância, mas não era assim então. Logo as damas acabaram de vestir Anne.– Podemos ir Frederik.

E agora com Anne pronta eles realmente poderiam ir. O parlamento não iria se agradar com atrasos, eles não tinham o luxo de se atrasarar. E Anne continuou a repetir seu lema, Frederik iria se irritar disso logo. Dificilmente isso iria a deixar completamente calma, Frederik tinha certeza que era um esforço em vão.

Mas uma coisa chamou a atenção deles quando estavam descendo a escada. Seus filhos estavam lá em baixo esperando, com expressões nada felizes no rosto, mais especificamente preocupados.

– Vocês não deviam estar em Leicester House com os Gales?- Anne foi mais rápida em fazer essa pergunta.– Por que esses rostos?

– Mamãe, nós sabemos onde vocês irão hoje, e sabemos também o que vai acontecer.- Frederik se perguntava como eles descobriram. Anne e ele decidiram não falar para não os preocupar.– Por que vocês esconderam de nós?

– Não fale como se isso fosse um pecado, Alfred. Não é um assunto para vocês.

– Mas, mamãe, se a senhora for uma traidora, nunca vamos conseguir um bom futuro nem segurança.- Os dois apenas suspiraram com as palavras de Annie. Talvez fosse sim necessário falar.

– Henry, leve por favor Amélia ao jardim.

– Mas...

– Leve sua irmã ao jardim.- Henry também desejava ouvir, mas era melhor eles irem ao jardim e esperar. Eles eram muito agitados e era melhor Alfred e Anne explicar tudo para eles depois.

Mesmo não desejando eles foram ao jardim. Mas isso não significava que explicar para Alfred e Anne seria mais fácil. Poderia ser também muito difícil.

– Mamãe, é verdade que podemos ir para o exílio e sermos desgraçados?

– Annie, não é assim que uma dama fala. Mas é sim verdade, porém não se preocupem, sua mãe e eu temos tudo sob controle.

– Sim, minhas crianças, o duque de Manchester e Lord Carlisle sabem muito bem como nos defender. Sua preocupação é sem sentido.- Frederik teria que concordar que Anne conseguia ser bem convincente, já que ela também estava preocupada.

Mas isso não foi o suficiente para Alfred.

– Mas o que garante que eles vão nos ajudar?

– Nada garante isso. Nada também garante que vamos vencer. Mas temos confiança Alfred. E a confiança é o suficiente.

– Mas mamãe por que não nos falar? Eu já tenho dezessete anos, acho que já posso ajudar nesse tipo de situação.- Era isso então que estava irritando eles, e principalmente Alfred, o fato de eles não poderem fazer nada, eles serem excluídos.

– Mamãe, nós também estamos com medo, e não podemos fazer nada.

O que eles sentiam era muito compreensível, a importância nunca era desejável.

– Entendemos vocês crianças, mas não é um assunto que deva preocupar vocês. Está tudo sob controle.- Depois de Frederik falar eles pareciam mais calmos, pelos menos Anne.

Alfred continuava preocupado, talvez por ele ser o mais velho.

– Não se preocupe, Alfred. Ainda não é sua hora, mas quando for será horrível, então aproveite para se tornar mais sábio. Não quero você com problemas antes do tempo.- Agora com as palavras de Anne, Alfred estava mais tranquilo.

Eles entenderam que se preocupar com algo que não era próprio para eles seria ruim, até mesmo traumatizante.

– Está certo então, eu e Alfred estamos agora mais calmos.

– Sim estamos. Mas mamãe eu prometo então que quando eu for marquês irei fazer meu melhor para resolver todos esses problemas.

Muito comovente da parte de Alfred falar isso. Mas a conversa não poderia ser mais prolongada, eles iriam se atrasarar claramente. Então depois de um beijo nas crianças eles saíram.

E na carruagem Anne voltou a repetir o lema de sua família. Depois de tudo isso Frederik já estava acostumado.

– São crianças muito preocupadas não é, Anne?- Crianças não deveriam ser assim. Até mesmo príncipes tinha uma infância sem preocupações.

– São Tudor-Habsburg estão sempre preocupados.- Anne parecia não estar falando necessariamente de suas crianças, parecia incluí elas e suas irmãs.– Mas pobre Alfred, ele desejava resolver algo que irá demorar muito para ser resolvido. Vai precisar de muitos marqueses de Bristol.

Talvez fosse uma verdade, mesmo se Anne ganhasse, um grande estrago iria ser feito, um que seria muito difícil de resolver.

*****

O Palácio de Westminster, o palácio mais antigo da Inglaterra, e o maior símbolo de poder da nação. Um palácio que suportou a Anarquia, as duas Guerras dos Barões, as Guerras Civis do século 15 e do século 17, a Comunidade e muitas outras ameaças.

Um palácio que foi de casa real a parlamento da nação mais liberal do mundo. E era também o lugar onde o destino dos Tudor-Habsburg sempre era decidido, primeiro quando foi decidido a vinda deles para a Inglaterra, depois quando a sucessão de Anne foi decidida, e agora seria decidido se eles iriam ou não serem devolvidos a Áustria.

Anne realmente nunca imaginou que iria entrar nesse lugar. Ela nunca teve o desejo de estar nesse lugar como um par. E a partir de hoje Anne teria um grande trauma desse lugar.

O palácio parecia completamente vazio e sem ninguém. Anne duvidava que os comuns estavam em seção. Depois de a carruagem chegou por onde Anne iria entrar. Eles foram recebidos pelo conde de Carlisle.

– Sua Alteza, seja bem-vinda a Westminster.- O modo como o conde falou não mostrava a maior alegria, mas quando o conde parecia feliz?– Creio que chegou a hora de se despedir das damas, minha senhora.

Anne obedeceu a isso e se despediu de suas damas, as que estavam com ela pelo menos, o mais difícil de tudo isso foi mostrar confiança da parte de Anne, confiança de que elas iriam se ver novamente.

– Há algo que precisamos saber milorde?- Anne deixou a Frederik a tarefa de fazer essas perguntas, se preparar para o que viria ainda era algo que Anne fazia.

– Como imaginávamos foram muitos os argumentos, o conde de Farfild não foi tão eficiente como St. Martin, mas falou muito.- O que ele queria dizer com isso, não seria o duque de St. Matin?– Os seus rostos mostram então que não sabem. O duque de St. Matin ficou doente, ele não se move, nem fala, uma pena na verdade. Acho que foi algo envolvendo o cérebro.

Certamente era uma pena, Anne não gostava nem um pouco do duque, mas ela também não desejava que o duque morresse. Mas ele não morreu, ainda não pelo menos, Anne não iria ficar tão triste.

– Vamos esperar então que o duque não morra, se ele morrer Lord Clarke irá ser duque e não precisamos de outro Martin.

– Sim, minha senhora. Há também uma outra coisa.- Poderia ser ruim ou boa.– O Lord Guardião foi feito barão Henley para atuar como Lord High Steward.
Anne não sabia se um novo par ser criado para seu julgamento era algo bom ou ruim. Talvez iria depender do resultado.

Logo Anne chegou na entrada real da Câmara da Rainha, geralmente seria em Westminster Hall mas pelo que parecia Anne era tão especial como Charles I.

– Seja confiante, Anne, vamos sobreviver a isso.- As palavras de Frederik eram muito boas e controladoras.– Vou estar no meio, atrás de todos mas é melhor do que na Câmara Pintada.

– Vamos vencer certamente.- Lord Carlisle e Frederik então deixaram Anne. E logo depois as portas foram enfim abertas para ela.

A sala estava completamente cheia, em todos os três lados haviam lords, Anne se surpreendeu com isso, parecia que todos os pares do reino desejavam ver sua ruína ou vitória.

Mas não foi apenas Anne que se surpreendeu com os lords, mas eles também. Quando Anne entrou na sala, ela pode ouvir todos os cochichos sobre ela, sobre sua roupa e sobre seu cabelo, como os ofensivos sobre ele ser um ruivo desbotado.

Apesar de tudo isso Anne sabia qual era o seu dever nesse momento: se sentar e ouvir tudo pacientemente, sem falar nada. E foi isso que Anne fez, sentou-se na cadeira que lhe foi preparado, logo abaixo do trono do rei. Um lugar que era reservado aos filhos se pares.

E logo os pares iniciaram o que Anne classificava como uma discussão de acusações e repostas. Um jogo de tênis horrível, mas que Lord Carlisle e o duque pareciam jogar muito bem, assim como o conde de Farfild e o marquês de Hilton, infelizmente.

Anne na verdade não prestou atenção a tudo que eles falavam, algumas coisas não precisavam de atenção. Mas algumas Anne sim ouviu:

– A sua acusação, honorável conde de Farfild, que a marquesa é uma traidora é completamente injusta e sem razão.

– Sua Graça, é uma acusação sim justa. Quem que compacta com o inimigo é um traidor, isso é um fato.

– Mas a Áustria não é nosso inimigo, os franceses são nossos inimigos.

– Certamente, mas os austríacos também não são amigos dos franceses? Não haviam tropas austríacas na invasão de Hanover ano passado? Me diga então sua resposta. Respondam também o motivo de apesar de tudo isso, a marquesa continuar escrevendo a Maria Theresa.

– A marquesa escrevia para sua prima Maria Theresa, não para a imperatriz, uma correspondência familiar, se formos declarar isso traição, nosso rei também está cometendo isso. Ele também não tem parentes alemães?

Isso parecia ser o grande trunfo do duque, mas um que Lord Farfild não desejava dar.

– O rei é o rei, não podemos fazer nada a respeito. Ele é o maior símbolo de unidade da nação, suas ações como homem não interferem nas de como rei.

– Mas e os vários lords aqui presentes que tem parentes franceses? Eles também não deveriam ser acusados de traição, estão mantendo correspondência com o verdadeiro inimigo, a França.

O conde parecia ter perdido, os lords reagiram da forma como o duque pareciam desejar. Mas não foi o fim. Logo também o conde de Carlisle teve sua voz e Anne percebeu que tudo isso também era motivado pela influência de Anne, pelo status de Anne, algo que vários lords não gostavam nem desejavam.

Mas logo tudo isso chegou ao fim. E era então a hora de Anne falar. De Anne se defender.

– Minha senhora, a marquesa de Bristol, a senhora está sendo dada a oportunidade de se defender ou de se declarar culpada e nos livrar de todas as inconveniências.- Anne havia se preparado muito bem para esse momento, e já sabia como responder a Lord Henley.– A senhora está sendo acusada de traição contra a nação e de compactuar com o inimigo. Como a senhora se declara?

– Eu sou inocente, e não considero esse julgamento uma ação legal perante a lei em meu status como uma princesa consorte.- As reações foram as mais diversas, alguns pareciam surpresos, outros furiosos e alguns até acharam divertidos.– Porém, apesar de meus pensamentos, não vim hoje aqui como uma princesa, estou aqui para ser julgada, julgada como uma britânica, como uma nobre britânica.

Isso foi o suficiente para os fazer se acalmar.

– Eu fui acusada de traição, acusada de trair meu povo. E fui acusada disso por manter correspondência com Maria Theresa da Áustria, isso foi visto como algo ruim, uma traição. Também fui acusada por ser uma mulher orgulhosa e arrogante, uma mulher que não sabe ser apenas uma mulher. Mas milordes eu lhe digo que sou apenas isso, uma mulher, uma mulher frágil e fraca, uma mulher que tem seus defeitos e que também tem seus pecados. Mas eu posso garantir que meus únicos crimes são apenas ser orgulhosa e arrogante.- Anne fez seu melhor para parecer doce e frágil, principalmente agora.– Mas eu não me preocupo com isso, pois eu sei que os milordes aqui presentes são homens honrados, homens justos, homens que não julgarão uma mulher apenas pelas suas falhas. Sei também que não irão me culpar apenas por escrever para minha amada prima. Mas, meus senhores, de qualquer forma meu destino está nas suas mãos e sei que os milordes irão ser justos.

Com isso Anne então saiu da sala, não sem antes ver a reação deles. Eles ficaram encantados, alguns até emocionados. Então funcionou. Embora tenha custado muito a Anne.

– Anne você foi impressionante, não acredito que aquelas palavras saíram da sua boca.‐ Depois de alguns minutos Frederik finalmente a encontrou, e Anne poderia dizer que também não acreditava.

– Mas eu falei, eu devo vencer. E se para vencer eu tenha que me humilhar, assim farei.- Era como a duquesa disse, as vezes devemos deixar de lado o orgulho para sermos felizes, mas para Anne era também deixar de lado o orgulho para se salvar.

Logo eles estavam novamente em uma carruagem, e Anne esperava nunca mais entrar nesse palácio.