A Madrasta
8 Capitulo 8
Notas iniciais
— Mas que ideia maluca foi essa de voltar a pilotar aquela moto? — questionava Victor, andando de um lado para o outro dentro do quarto onde Emma se encontrava em observação.
Deixando escapar um suspiro melodramático, Emma olhou para as unhas e em seguida o encarou.
— A motocicleta é minha, sou maior de idade e tenho habilitação para pilotar — disse ela, sem se abalar.
— Desde quando você se tornou tão rebelde?
— Não sou e nem me tornei rebelde. Só estou cansada de ser tratada como uma criança.
— Está se comportando como uma…
— Chega, papai! Não aconteceu nada demais. Amanhã receberei alta e fica tudo certo — disse ela, claramente alterada. — Pode me emprestar seu celular? Devo ter perdido o meu na queda.
Victor atravessou o quarto, se aproximou da cama e lhe entregou o aparelho.
— Vou tomar um café e já volto — dito isso, ele se retirou.
Olhando a lista de chamadas, um sorriso largo brotou nos lábios de Emma ao ver o nome de Regina. Aproveitando que seu pai havia saído, Emma discou o número dela, e ainda que tivesse chamado diversas vezes, Regina não atendeu. Suspirando, ela apagou a chamada e resolveu ligar para sua amiga Ruby.
— Alô?
— Sou eu, Ruby…Emma — disse ela, na outra linha.
— Cacete, Emma! Onde foi que você se meteu?
— Sofri um pequeno acidente e estou no hospital. Mas amanhã mesmo…
— Qual hospital? Me diz o nome que eu vou aí agora.
— Estou no Boston Medical Center. Porque você está tão eufórica?
— Te explico quando chegar aí — dito isso, ela encerrou a ligação.
— Ruby? Aconteceu alguma coisa? Alô? Porra…
Conforme os minutos iam passando, Emma tentava se convencer de que não havia nenhum problema, no entanto, seus pensamentos foram sendo consumidos e uma repentina angústia lhe apertava o coração. Será que alguma coisa aconteceu com Regina? Ela se perguntava, enquanto o lado mais calmo do seu cérebro lhe mandava relaxar. Diante da ansiedade que crescia, Emma resolveu ligar novamente pra Ruby, mas antes que pudesse agir, a porta do quarto se abriu e sua amiga entrou acompanhada de Victor.
— Só vim buscar meu celular. Vou deixá-las conversar à vontade — disse ele, e ao pegar o aparelho, se retirou.
Com a mandíbula cerrada, Emma esperou que seu pai deixasse o quarto, e quando a porta se fechou, as duas se encararam.
— Desembucha, Ruby. Você quer me matar de preocupação? O que aconteceu?
— Cara, você tá ferrada. Ou melhor, tem alguém tentando ferrar com a gente.
— De que merda você está falando?
— Alguém saiu espalhando na universidade que você e eu havíamos feito uma aposta…
— E…?
— E que essa aposta consistia em…dormir com a senhorita Mills.
— Como é que é? — ela riu, balançando a cabeça.
— É isso mesmo, Emma. E se eu fosse você tirava esse sorrisinho da boca porque a senhorita Mills ficou sabendo, e pelo que a professora Mary Margaret falou, ela está arrasada!
— Espere aí! Regina não pode ter acreditado nessa mentira!
— Mas ela acreditou, Emma. Assim como o reitor que já me alertou das consequências, assim como a professora Mary que me deu o maior esporro…enfim, todo mundo tá acreditando nessa merda!
Engolindo em seco, Emma ergueu os braços e passou as mãos nervosas pelos cabelos.
— Eu tenho que falar com ela agora mesmo — disse Emma, e ao fazer menção de levantar da cama, Ruby a deteve.
— Está louca? Você não pode sair assim do hospital. Além disso, o seu pai está aí!
— Eu preciso explicar a ela que tudo isso é uma mentira!
— Ora, dê um tempo! Faça isso amanhã, quando receber alta. Não piore as coisas, Emma.
Depois que Ruby foi embora, Victor se acomodou no sofá-cama, já que passaria a noite no hospital com a filha. Perdida em pensamentos, Emma rezava para que o sono chegasse. Precisava dele assim como precisava de oxigênio para respirar, mas tinha certeza de que ele não viria. Sabendo que seria uma das piores noites da sua vida, ela se perguntava quem teria inventado aquela história de aposta à Regina.
[…]
— Tem certeza que está bem para ir à aula?
— Sim, papai. Essa semana terá uns trabalho importantes e não posso faltar — disse ela, enquanto pegava a mochila.
— Tudo bem então. Quer que eu te dê uma carona?
— Não, Ruby vai passar aqui.
— Ah, ok. Boa aula então, querida. Nos vemos mais tarde.
Emma assentiu e Victor se dirigiu à porta. Minutos depois o interfone tocou, era Ruby esperando-a lá embaixo.
— Achei que fosse ficar de atestado alguns dias em casa — comentou Ruby, dando partida.
— Não foi nada demais. Só uns arranhões. Além disso, eu tenho que falar com Regina.
— Antes de tudo temos que ir falar com o reitor.
— Tá, tudo bem. O que eu quero é que Regina acredite em mim…
Depois de quase meia hora de conversa com Archie, Emma e Ruby se dirigiram à sala de aula sob a promessa de que se desculpariam com a professora Mills pela péssima brincadeira.
— Como é que ela vai acreditar em mim se acabamos de assumir a culpa por algo que não fizemos? — questionava Emma, num tom quase inaudível, enquanto Archie as acompanhava até a sala de aula.
— O reitor estava disposto a investigar essa história e poderia perfeitamente descobrir que vocês duas passaram o fim de semana juntas — explicava Ruby, entre sussurros. — Seria bem pior, não acha?
Respirando fundo, Emma tentava se recompor e acalmar o nervosismo depois de todos esses acontecimentos. Duas batidas à porta e Archie pediu licença, adentrando a sala de aula onde Regina revisava o conteúdo.
— Bom dia a todos — disse ele, posicionando-se entre as duas alunas. — A senhorita Swan e a senhorita Lucas tem algo a dizer.
Com os braços cruzados, Regina tentou ignorar a pontada de dor em seu peito quando seus olhos cruzaram com os olhos de Emma.
— Bom… — Ruby começou, atraindo a atenção de todos, inclusive de Regina. — Eu…nós queríamos nos desculpar com a professora Mills…pela brincadeira da aposta. Estamos muito envergonhadas pela brincadeira de mau gosto — disse ela, dirigindo seu olhar a Regina. — Desculpe senhorita Mills…não vai se repetir — finalizou, cutucando discretamente o braço de Emma que simplesmente assentiu, concordando com a amiga.
O coração quase falhou quando ela assistiu a expressão decepcionada de Regina, e mentalmente, suplicou aos céus para que esse não fosse o motivo para perdê-la.
Tentando esconder a mágoa, Regina aceitou o pedido de desculpas e deu continuidade à aula quando o reitor se retirou.
Ignorando por completo a presença dela, Regina manteve os olhos fixos na tela do seu Macbook, atenta a cada minuto que passava. Ela sabia que Emma tentaria abordá-la quando a aula acabasse, e antes do sinal tocar, ela fechou o computador, recolhei seus pertences e se despediu de todos com um simples: “até a próxima aula”.
— Ela me odeia… — sussurrou Emma, a expressão abatida e derrotada.
— Dê um tempo e depois converse com ela — sugeriu Ruby.
— Maldito reitor! Onde é que ele pensa que estamos? Num jardim de infância, porra?
— Eu sempre desconfiei que ele não bate bem da cabeça, mas vê se relaxa um minuto. Tenho certeza que quando a poeira baixar, ela vai te ouvir.
Ciente de que seria impossível conversar com Regina em meio a tanta gente, Emma deixou o campus e seguiu direto para o apartamento dela. Não sabia a que horas ela chegaria, mas queria estar lá, esperando-a, quando ela aparecesse.
Como quase sempre acontecia, o choque percorreu os membros de Regina quando as portas do elevador se abriram e lá estava ela, Emma, implacável e impassível.
— Precisamos conversar… — disse ela, dando um passo à frente.
— Não me diga… — rebateu Regina, empurrando a chave na fechadura com firmeza.
— Deixe-me explicar…
Regina levantou a mão para silenciá-la e segurou a maçaneta. Abriu a porta, e ao fazer menção de entrar, Emma lhe segurou o braço.
— Me escute! Não é nada do que você está pensando.
— Eu sei, Emma — disse ela, atirando a própria bolsa no chão da sala. — Sei que não é nada do que eu estava pensando — acrescentou, e sorriu. — Como uma idiota eu acreditei em você, eu confiei em você.
— Não, Regina…não houve aposta nenhuma, é tudo mentira! — Emma exclamou, com a voz alterada, mal conseguindo controlá-la.
Enojada com tanto cinismo, Regina ergueu a mão e lhe deu um tapa com tanta força, que Emma cambaleou atordoada.
— Da próxima vez que eu te encontrar aqui, juro que chamo a polícia — dado o aviso, Regina entrou em seu apartamento e trancou a porta.
Encostada na madeira fria da porta, Regina permitiu que as lágrimas finalmente escapassem de seus olhos. Não tinha dúvidas de que ainda a amava, mas o medo que sentira no início se mostrou verdadeiro. Para Emma, ela não passava de um joguete.
[…]
— Ela nem me deixou explicar. Mas eu já sabia…pedir desculpas por algo que não fizemos só piorou as coisas — dizia Emma, andando de um lado para o outro.
— Espera a poeira baixar e depois tenta falar com ela de novo — disse Ruby, encostada no próprio carro.
— Não vou conseguir dormir sabendo que ela está com uma ideia equivocada de mim — soltando um suspiro derrotado, Emma sentou-se na calçada.
— E se a gente falasse com a professora Mary? Ela e a senhorita Mills são muito amigas, não?
— Cacete, você é um gênio! — exclamou Emma, saltando da calçada.
— Eu sei, você já disse isso — Ruby falou, pigarreando em seguida. — Só que tem um problema.
— Qual?
— Você sabe o endereço da professora Mary?
— Isso é o de menos! Vamos à universidade e descobrimos.
[…]
— Como foi que vocês duas conseguiram meu endereço? — indagou Mary, afastando-se para que elas entrassem.
— Isso é o de menos, professora. Apenas saiba que foi por uma boa causa — disse Emma.
— Não houve nenhuma aposta. Jamais faríamos isso com a senhorita Mills e nem com ninguém — Ruby falou. — Vai, Emma! Explica o que estava acontecendo entre você e…
— Eu sei o que estava acontecendo entre Regina e você, Emma — interrompeu Mary, capturando o choque imediato nas expressões delas.
— Você sabia que nós duas…
— Sim, Emma. E ainda não acredito que você foi capaz de brincar assim com ela.
— Eu não brinquei com ela. Essa história de aposta é mentira…juro por Deus.
— Então porque se desculparam diante de toda a sala se não houve aposta nenhuma?
Respirando fundo, Emma passou a explicar tudo o que acontecera depois que ela e Regina deixaram a casa de campo, desde o acidente que a deixou incomunicável, até a notícia do boato que se espalhara pela universidade. Nenhuma delas fazia ideia de quem poderia ter inventado aquela história, visto que apenas Ruby e Mary tinham conhecimento do que estava acontecendo entre elas. Embora estivesse triste por Regina, Mary conseguiu notar a sinceridade nas palavras de Emma. Dessa forma, se dispôs a conversar com ela e tentar esclarecer o que Emma não havia conseguido.
— Está mais tranquila? — indagou Ruby, estacionando em frente ao prédio em que Emma residia.
— Não. Só ficarei tranquila quando ela disser que acredita em mim.
— Vai dar tudo certo. A professora Mary vai conversar com ela.
— Tomara…bom, obrigada por tudo.
— De nada. Nos vemos amanhã na aula.
Tentando se recompor e mascarar a tristeza que sentia, Emma abriu a porta do apartamento e deu de cara com seu pai ao telefone. Com as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans, ela deu boa noite e subiu para o quarto às pressas, agradecendo ao fato dele estar entretido.
Atirando os tênis em um canto qualquer do quarto, Emma se deitou sobre a cama se perguntando quanto tempo o coração conseguiria suportar a ausência de Regina. Fechando os olhos com força, ela rezou para que Mary conseguisse convencer a amiga de que tudo não passava de um mal-entendido, caso contrário, faria as coisas do seu jeito sem se importar com as consequências que suas atitudes pudessem gerar.
…
Na manhã seguinte, Mary cumprira o que prometera na noite anterior, e enquanto tomava um café com Regina na lanchonete da universidade, ela mencionou a visita das alunas.
— Elas me pareceram sinceras, Regina.
— Imagino. Ela também parecia sincera enquanto dizia que estava apaixonada por mim.
— Talvez, se vocês conversassem…
— Nós não temos mais nada para conversar. Bom, tenho que ir. Nos falamos mais tarde.
Antes de se dirigir à sala de aula, Mary foi abordada por Emma em um dos corredores. Pela expressão dela, Emma percebeu que a conversa não surtira nenhum efeito, no entanto, não estava disposta a desistir, não agora.
Acomodando-se em sua carteira, Emma percebeu que Regina lhe lançara um olhar gélido do qual ela retribuíra com um discreto sorriso. Tentando ignorar o quanto aquele sorriso lhe afetava, Regina deu início a aula, mas fora interrompida minutos depois quando um dos jardineiros do campus bateu à porta e lhe entregou um buquê de rosas que acabara de chegar para ela.
Entre risos, assovios e comentários dos alunos, Regina leu o cartão e não se surpreendeu ao descobrir que se tratava de um presente enviado por Emma.
Apoiando as rosas em cima da mesa, ela pediu silencio e deu continuidade à aula.
…
— Fico feliz que tenha gostado das rosas — disse Emma, abordando-a no estacionamento.
— Sim, eu adorei. Gostei tanto que olha só o que eu faço com elas — disse Regina, atirando-a nos chão e pisoteando-as em seguida.
— É por essas e outras que te chamo de Regina Má.
— Vai se foder, Emma!
— Falando assim você me excita, senhorita Mills.
— Sai da minha frente ou juro que…
— Que o que? Vai gritar? Grita. Aproveito e grito também. Gritarei aos quatro cantos do país que sou loucamente apaixonada por você e que você prefere acreditar numa maldita mentira do que acreditar em mim! — disse ela, num fôlego só. — Vamos conversar, Regina…por favor.
— Emma, alguém pode nos ver aqui…
— E qual o problema? Professor e aluno podem conversar tranquilamente, não? Mas tudo bem…estarei te esperando na esquina do café a duas quadras daqui. Você me pega lá e vamos conversar em outro lugar.
— Não vou a lugar nenhum com você, Emma.
— Estarei te esperando, Regina. E não sairei de lá até você aparecer — dito isso, Emma se afastou, deixando-a para trás perdida em pensamentos.
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