A Madrasta
4 Capitulo 4
Notas iniciais
— Eu estava perguntando a senhorita Mills qual é a maneira mais fácil de solucionar um problema — disse Emma, colocando um sorriso artificial no rosto. — E ela me respondeu que era fugir. Você concorda, papai?
— Sinceramente, não — disse ele. — Enfrentar um problema é melhor do que fugir…é um risco necessário.
— Exatamente! — Emma exclamou. — Eu sou completamente a favor de assumir riscos. Acho que deixa a vida um pouco mais…emocionante.
Regina sabia perfeitamente a que ela se referia, e ao perceber que Victor pretendia dizer mais alguma coisa, ela se adiantou e mudou o rumo da conversa. Nas horas que se seguiram, Emma não disse mais nada, e nem precisava. Seus olhos verdes, fixados na mulher à sua frente falavam por si só.
[…]
Observando o próprio reflexo no espelho, Regina chegou a conclusão de que estava pronta para retomar as aulas na universidade e acabar com qualquer aproximação indevida por parte de Emma.
Ela é somente uma estudante como outra qualquer. E não será uma menina como ela que me fará perder o controle do meu próprio corpo, pensava Regina, mantendo uma conversa séria consigo mesma. Na noite anterior, tinha gostado de sentir as mãos de Emma tateando sua pele mais do que deveria, e a indiscrição que elas cometeram a rasgou assim que ela fitou os olhos azuis de Victor, e por isso, não estava disposta a permitir que algo parecido voltasse a se repetir entre as duas. Ao entrar na sala de aula, seus olhares se cruzaram mas, Regina desviou o olhar, ignorando por completo a presença dela.
— Hoje teremos um teste e quero todo mundo concentrado porque vai valer metade da nota da prova — disse ela, de forma ríspida, sem se abalar com as queixas dos alunos por não terem sido avisados.
Depois de entregar os testes para cada um deles, Regina retornou para sua mesa e tentou se concentrar no conteúdo que seria aplicado na próxima aula, mas o celular iluminando-se dentro da bolsa lhe chamou a atenção. Digitando a senha para desbloqueá-lo, ela franziu o cenho mediante uma mensagem de um número desconhecido.
“Você fica ainda mais bonita quando está zangada”
Erguendo a cabeça de súbito e olhando na direção de Emma, seu coração disparou. Lá estava ela, fitando-a com um sorriso discreto e desinibido enquanto os demais, alheios ao que acontecia, se mantinham concentrados no teste.
Ignorando-a, Regina voltou sua atenção ao computador, mas uma nova mensagem chegou fazendo o telefone vibrar em cima da mesa.
“Estou dificultando as coisas pra você? Desculpe. Acontece que quando você está por perto, eu perco o pingo de autocontrole que ainda me resta”
Nervosa, Regina olhou novamente para ela. O sorriso de Emma oscilava entre obscenidade e travessura, e toda vez que ela a olhava daquela forma, Regina sentia o calor em seu corpo aumentar. Sem pensar, Regina retribuiu o olhar carregado de desejo dela, demonstrando rastros de desafio enquanto tentava recuperar o fôlego.
Agora já chega, Emma, pensou Regina, levantando-se e caminhando até ela.
— Não é permitido o uso de celular dentro da sala de aula, principalmente quando são aplicados provas e testes — disse ela, puxando o papel da carteira de Emma.
— Mas eu ainda não terminei — Emma contestou.
— Não é problema meu, senhorita Swan. Retire-se da sala, por favor — disse Regina, indicando a porta ao lado.
Emma sentiu que Regina falara aquilo a sério, e resolveu sair sem contestar. Com isso, ela fechou a porta atrás de si, mas não sem antes dirigir um outro olhar para ela.
[…]
— Se você não chegou a escrever nada no teste, significa que já está em recuperação — afirmou Ruby, enquanto ajustava o cinto de segurança.
— Ficar em recuperação significa passar mais tempo com a senhorita Mills — disse Emma, sem conter o sorriso.
— Cacete! Você está agindo como uma louca…
Emma olhou para ela por um longo tempo, enquanto lampejos de Regina lhe invadiam a mente. Depois, olhando para o outro lado, ela abriu um pouco mais a janela do carro.
— Você tem razão — disse ela, a voz tão desprovida de emoção que Ruby se chocou. — Eu estou agindo como uma louca.
— Emma…desculpa. Eu só estou preocupada com você.
— Eu sei. Mas isso vai se resolver…
Ruby achou melhor não dizer mais nada, apenas assentiu e deu partida. Em poucos minutos chegaram ao prédio onde Emma habitava.
— Obrigada pela carona — dito isso, Emma abriu o portão e entrou.
Sentindo a cabeça latejar, Emma tomou um comprimido e em seguida se jogou embaixo do chuveiro, esperando que a água morna aliviasse a tensão que sentia. Embora soubesse que ainda faltavam algumas horas para Regina chegar em casa, ela queria estar lá, à sua espera quando ela chegasse.
…
Enquanto se dirigia ao estacionamento, Regina observava atentamente tudo ao seu redor, o rosto cheio de preocupação só de imaginar que Emma pudesse abordá-la no meio do caminho. Para seu alívio, Mary a esperava há alguns metros e juntas caminharam na direção de seus respectivos carros.
— Como estão as coisas?
— Pior do que eu imaginava — respondeu Regina, suspirando pesadamente. — Olha isso — acrescentou, mostrando as mensagens que recebera naquela manhã.
— Minha nossa, Regina…essa menina está obcecada por você. Não pretende mesmo falar com o pai dela?
— Não, isso só traria problemas para todos nós. Mas não se preocupe, eu vou resolver isso.
— O que vai fazer?
— Serei dura com ela…direi que vou falar com o reitor, não sei. Mas vou resolver.
— Se precisar de alguma coisa, conte comigo amiga.
— Obrigada, Mary. Até amanhã.
Nos exatos vinte minutos que se passaram até sua casa, Regina chegou a conclusão de que a única certeza que tinha era que Emma começava a se tornar um segredo veemente circulando dentro dela. Deixando escapar um longo suspiro, ela acionou o alarme do carro e pegou o elevador. Quando a porta do elevador se abriu, ela quase perdeu o fôlego ao cruzar com os brilhantes olhos verdes de Emma fixos nos seus, de braços cruzados, encostada na parede e a expressão dura como aço.
— O que você está fazendo aqui? — Regina perguntou.
— Esperando você. Podemos conversar, senhorita Mills?
— Não temos nada para conversar, Emma.
— Cinco minutos.
— Não!
— Está com medo de ficar sozinha comigo?
— Emma, vá embora.
— Deixe-me entrar. Não vou tomar mais que cinco minutos do seu tempo, eu prometo.
Regina engoliu em seco, querendo recusar, mas seus esforços foram em vão e ela acabou cedendo. Emma a observou tentando enfiar a chave na fechadura com as mãos trêmulas, então pôs a mão sobre a mão dela para acalmá-la. Quando a porta finalmente se abriu, Emma a fechou e permaneceu de pé no vão de entrada.
— Você está apaixonada pelo meu pai, Regina?
— Lá vem você com essa pergunta de novo?!
— Sim.
— Não te devo explicações, Emma.
— Tudo bem, eu vou mudar a pergunta — disse ela, aproximando-se lentamente. — Você é feliz com ele?
— Sim, eu sou feliz com ele.
— Por quê?
— O que quer dizer com “por quê”?
— Porque ele te faz feliz?
— Suas perguntas não tem fundamentos.
— Você diz que é feliz com ele mas não consegue dizer que é apaixonada?
— Seus cinco minutos acabaram, Emma. Agora por favor, vá embora.
— Ainda tenho dois minutos — argumentou, observando as horas em seu relógio de pulso. — Quero que você diga olhando nos meus olhos que é apaixonada por ele.
Embora se sentisse atraída pelo lindo brilho daqueles olhos verdes, Regina optou por destruir qualquer possibilidade de ser aprisionada sob o seu feitiço.
— Eu sou apaixonada por Victor. Eu o amo, e em breve vamos nos casar.
As palavras de Regina quase arrancaram o ar dos seus pulmões, e sem dizer nada, Emma se aproximou com rapidez, a pegou pela cintura e pressionou os lábios contra os dela com força, a língua os entreabrindo e deslizando para dentro da boca dela.
A respiração de Regina ficou presa na garganta e o corpo esquentou mais ainda quando Emma lhe segurou os cabelos, inclinando a cabeça dela para trás. Os lábios dela abandonaram os de Regina e passearam de leve pelo rosto, descendo devagar pelo pescoço até se arrastarem pela mandíbula e encostar levemente na orelha.
— Felicidades… — Emma sussurrou, recuando, a soltou. Sem outra palavra, ela se virou, abriu a porta e foi embora.
Com os olhos arregalados e quase sem fôlego, Regina ergueu a mão e acariciou os próprios lábios com a ponta dos dedos. Ainda que não admitisse, ela se sentira tão bem sendo beijada e tocada por Emma. Com o coração pesado e a sensação de culpa se manifestando em sua cabeça, ela se atirou no sofá cobrindo o rosto com as mãos.
[…]
Antes de dar início a sua primeira aula naquela manhã chuvosa, Regina tomou uma xícara de café preto sem açúcar na lanchonete da universidade. O líquido quente e amargo deslizou pela garganta, no entanto, o único sabor que ela sentia em sua língua era o gosto do beijo de Emma.
Quando Regina abriu a porta da sala, seus olhos foram capturados por um verde gélido, bem frio. De imediato, ela sentiu o coração martelando no peito e um súbito nervosismo se apoderar do seu corpo. Iniciando o conteúdo, Regina percebeu que Emma manteve o olhar fixo nas páginas do livro todo o tempo, e quando o sinal tocou informando que a aula havia chegado ao fim, ela foi uma das primeiras a se retirar da sala.
— Emma, tudo bem? — indagou Ruby. — Hoje você não esperou a turma sair pra ficar sozinha com a senhorita Mills. Desistiu dela?
— Ontem eu fui ao apartamento dela.
— Sério? E o que aconteceu?
— Pedi para ela dizer olhando nos meus olhos que era apaixonada pelo meu pai.
— E ela disse?
— Não só disse, como afirmou que em breve irão se casar.
Chocada, Ruby permaneceu em silêncio. Na verdade, estava sem palavras mediante o semblante derrotado de sua amiga.
— Emma, eu sinto muito.
— Não sinta — disse ela, rindo. — Embora ela tenha me dito isso, ficou claro que sente algo por mim quando retribuiu meu beijo.
Os olhos de Ruby se arregalaram de incredulidade.
— Vocês se beijaram?
— Sim. Na verdade, eu a beijei, mas ela correspondeu.
— Se ela correspondeu, porque você está desistindo dela?
— Porque eu prometi que não insistiria mais no assunto se ela dissesse que o amava.
— E você vai cumprir essa promessa?
— Tentarei cumprir…
Na sala dos professores, Regina não conseguia pensar. Tentando se acalmar, ela respirou fundo, passou as mãos pelos cabelos e ia se levantar, mas a chegada de Mary a deteve por alguns instantes.
— Você tá se sentindo bem, Regina?
— Sim, Mary. Só estou um pouco cansada…não tive uma boa noite de sono.
— Não conseguiu resolver aquele problema?
— Acho que sim… — ela disse, soltando o ar que prendera sem ao menos perceber.
— Mesmo?
— Sim…ela esteve ontem eu meu apartamento.
— E vocês conversaram?
— Mais que isso…
— O que você quer dizer? Meu Deus, Regina…não me diga que vocês transaram — disse Mary, tapando a boca ao mesmo tempo em que arregalava os olhos.
— É claro que não, Mary, está louca?
— Então desembucha, mulher.
— Ela me beijou…na boca.
— Beijou?
— Sim.
— Beijo mesmo? De língua?
— Sim, Mary!
— E como foi?
— Como assim, como foi?
— Ué, você disse que gostava da forma que ela te encarava e não sei mais o quê. Então, gostou do beijo também? — Mary perguntou, com a curiosidade estampada nos olhos que beirava o pânico.
— Gostei, Mary — ela confessou, suspirando em seguida. — Mas isso não voltará a acontecer. Além disso, ela está cumprindo o que me prometeu e hoje sequer me dirigiu o olhar na sala de aula.
Formando uma linha reta com os lábios tensos, Mary a fitou preocupada.
— Regina, não existe a possibilidade de você estar mais interessada nela do que no pai dela?
Remexendo-se desconfortavelmente na cadeira, Regina não tinha certeza do que poderia responder à amiga. Ainda que Emma conseguisse provocar reações e sensações em seu corpo que jamais sentira com outra pessoa, se envolver com ela seria um erro.
— O que não existe é a possibilidade de me envolver com ela, Mary. Seria algo claramente destinado ao fracasso.
— Se bem me lembro, você já se relacionou com mulheres.
— Isso foi na adolescência! Mas a questão não é essa. Emma é minha aluna e sou quase dez anos mais velha que ela.
— Que exagero, amiga. Emma tem vinte e três anos e você tem trinta. São apenas sete anos de diferença. Além disso, daqui a pouco ela terminará a universidade.
— Mary, nunca vi um envolvimento entre aluno e professor terminar bem. Então vamos mudar de assunto porque eu não quero mais falar sobre isso.
Dando a conversa por encerrada, Regina deixou a sala dos professores e se dirigiu ao auditório onde suas duas últimas aulas seriam realizadas aquela manhã. Com a mente rejeitando os próprios sentimentos, ela tentou ignorar o quanto a presença de Emma lhe afetava. Ainda que Emma tivesse apenas vinte e três anos, era impossível ignorar o brilho dos olhos verdes penetrantes, o charme que emanava dos seus passos lentos e inquietos, da pose displicente da cabeça, na linha nervosa das sobrancelhas que ora registravam irritação, ora serenidade.
— Bom dia — disse Regina, e os lábios de Emma se curvaram num sorriso.
— Você não parece muito feliz em me ver, senhorita Mills — comentou Emma, e Regina franziu as sobrancelhas, notando sua súbita mudança de comportamento.
— Impressão sua, Emma — disse ela, tentando soar divertida. — Não faço distinção ou favoritismo entre os meus alunos.
— Acontece que eu sou mais que uma aluna pra você — ela falou em voz alta, e os olhares curiosos e inquisitivos se voltaram para elas antes de Emma completar. — Em breve serei também sua enteada e você minha madrasta.
— Não pense que você terá privilégios só porque a senhorita Mills namora o seu pai — disse Ruby, disfarçando com um sorriso enquanto os demais também sorriam fazendo comentários do gênero.
Regina forçou um sorriso tentando não se mostrar inquieta quando seu olhar encontrou o de Emma encarando-a sem pudor. Entreabrindo os lábios para acalmar a respiração acelerada, ela finalmente iniciou a aula lutando contra todos os demônios sexuais que lhe tentavam para não deixar a oportunidade passar.
Fale com o autor