A Madrasta
5 Capitulo 5
Notas iniciais
No decorrer dos dias, Emma evitou a presença de Regina, pelo menos fora da sala de aula. Estava consciente de que não conseguia parar de pensar nela, por mais que tivesse passados os últimos dias tentando. Mesmo assim, queria manter a promessa e não procurá-la mais, ainda que isso exigisse de sua parte uma força sobre-humana e todo o seu autocontrole. Embora estivesse distante fisicamente, a mente não conseguia impedir a imagem dela de aparecer em seus pensamentos incoerentes e nos sonhos enquanto dormia.
— Emma, não acho que sair de casa toda vez que a senhorita Mills aparece vai resolver alguma coisa.
— Preciso me manter afastada dela, caso contrário, não poderei cumprir com a minha promessa.
— Bom, e quando eles se casarem?
— Não sei.
— Quer saber? Acho que você deveria partir pra outra.
— Como assim, Ruby?
— Ué, se relacionar com alguém. Sei lá, alguém da sua idade e tal. Talvez assim você tire a senhorita Mills da cabeça.
Emma lhe lançou um sorriso contagioso e estalou os dedos como quem acabara de decifrar um enigma.
— Como é que eu não pensei nisso antes? Ruby, você é um gênio!
— Não tenho dúvidas de que sou um gênio, mas obrigada por me lembrar isso — disse ela, e num gesto infantil, Emma lhe mostrou o dedo do meio. — Mas não entendi o porque dessa euforia.
— Se eu começar a me envolver com alguém, a senhorita Mills ficará com ciúmes e…
— Espere aí, Emma — Ruby a interrompeu. — A ideia de você se envolver com alguém não tinha esse propósito.
— Pois agora tem. E você será a minha namorada.
— Nem pensar! Além disso, eu já tenho namorado.
— Killian não vai se importar. Ele sabe que somos amigas.
— Emma, isso não vai dar certo…
— Vai sim, e começaremos a atuar agora mesmo porque ali vem ela — disse Emma, puxando a amiga para um beijo.
Diante da cena, Regina estancou no meio do caminho, fitando-as, sem saber se era ciúme, raiva ou espanto que de repente estava confundindo tudo. Desviando o olhar, ela retomou sua caminhada até seu carro, entrou e partiu.
[…]
— Boa noite, papai. Achei que fosse jantar com a…senhorita Mills.
— Irei, mas estava esperando você porque precisamos conversar — disse Victor, e diante do seu semblante sério, ela engoliu em seco enquanto suposições apareciam em sua cabeça.
— Aconteceu alguma coisa?
— Fiquei sabendo que você estava aos beijos com uma outra garota na universidade.
— Ah, era isso.
— Sim. Porque nunca conversou comigo sobre…sobre isso?
— Porque eu deveria falar sobre isso com você?
— Porque você é minha filha?
— Minha vida privada só diz respeito a mim, papai.
— Eu sei. Mas não acho correto você fazer isso em público.
Fez-se um longo silêncio até que Emma pareceu se recuperar do choque provocado por aquelas palavras.
— Por quê? É algo de que se envergonhar?
— É. E você sabe disso, não sabe? — perguntou Victor, na voz distinta e firme. — Aos olhos do mundo é uma aberração.
A maneira como ele disse aquilo fez Emma sorrir de uma forma debochada e descrente. Pelo visto, ela desconhecia o lado conservador do seu pai.
— Você não acredita nisso, acredita?
— As pessoas lá fora acreditam.
— As pessoas lá fora não são todo mundo.
— Já bastam. Estou falando pelo seu bem, Emma. O ser humano é cruel.
— Eu sei.
— Bom, eu tenho que ir. Fique bem e apenas seja discreta.
Um silêncio desconfortável caiu sobre ao apartamento antes de Emma se recolher para o quarto e se jogar em sua cama. Sentindo uma dor de cabeça súbita, ela tentou analisar os próprios sentimentos, ao mesmo tempo em que se perguntava o que seu pai diria se soubesse que ela desejava Regina. Que seu corpo ansiava pela mulher que ele escolhera para passar o resto dos seus dias. Sua cabeça rodava enquanto a dor causada por toda aquela situação a oprimia.
[…]
— Até eu me surpreendi. Quer dizer, pelo que você falava do seu pai, não pensei que ele fosse reagir dessa forma — comentou Ruby. — Mas acho que ele só está preocupado com o que as pessoas dirão ou pensarão a seu respeito.
— Talvez…só não entendi como ele ficou sabendo — disse Emma.
— Vai a ver a senhorita Mills comentou.
— Não creio.
— Ela foi a única que nos viu se beijando. Além disso, quem diabos faria fofoca ao seu pai?
— Não sei…mas se foi ela, isso só prova que ela está com ciúmes.
— E falando no diabo…
Minha nossa, como ela é linda…pensou Emma, enquanto Regina caminhava e o corpo se movimentava com elegância sob um vestido preto acima dos joelhos. O par de sandálias de salto alto adornando os pés dela deixavam suas pernas ainda mais bonitas. Os cabelos negros, apesar de curtos, se desalinhavam com o vento, e o simples gesto dos seus dedos arrumando os fios detrás da orelha, provocava sensações inimagináveis no corpo de Emma.
— Caramba, Emma. Fecha a boca — sussurrou Ruby, contendo um sorrisinho.
— Eu vou falar com ela.
Sem dizer mais nada, Emma atravessou aquele labirinto de estudantes espalhados pelos corredores e a seguiu até o toilete reservado aos professores.
— O que você está fazendo aqui? — Regina perguntou, quando seus olhos cruzaram com os olhos de Emma através do espelho.
— Preciso falar com você — disse Emma, fechando a porta e ficando a poucos centímetros de distância.
— Aqui não é o lugar e nem o momento, Emma.
— Você foi dizer ao meu pai que eu estava aos beijos com Ruby?
— O que? Poupe-me! Tenho mais o que fazer. Além disso, o que você faz com a sua…amiguinha, é problema seu!
O tom de voz de Regina chamou a atenção de Emma, acelerando seu coração como nas outras vezes.
— É impressão minha ou você está com ciúmes, senhorita Mills?
Com o choque brilhando em seus olhos, Regina sorriu com deboche.
— Olha, Emma…eu não disse nada ao seu pai e tampouco estou com ciúmes. Agora se me der licença.
— Eu tentei, Regina — disse ela, a expressão séria enquanto a fitava. — Só Deus sabe o quanto eu tentei me manter afastada de você. As últimas semanas foram um inferno — ela revelou, capturando a mudança imediata no rosto de Regina. — Quando eu te vejo, sinto como se minha mente fosse possuída e não consigo ignorar a sua presença. Eu estou apaixonada por você…loucamente apaixonada por você.
As palavras de Emma foram seu ponto de ruptura. Regina não conseguia mais negar os seus sentimentos, nem para ela, nem para si mesma. Chegara ao seu limite e já não tinha mais forças para recuar. Foi então que Regina atirou os braços em volta do pescoço dela e a puxou para sua boca, dando início a um beijo igualmente feroz e possessivo de ambas as partes. Quando os lábios se afastaram, Regina ia falar alguma coisa, mas Emma a puxou para dentro de uma das cabines e lhe tapou a boca com a mão. Com os olhos arregalados, o coração de Regina acelerou quando passos e vozes se fizeram presentes.
Quando as vozes cessaram, Emma foi afastando sua mão bem devagar enquanto se olhavam.
— Vamos conversar hoje em seu apartamento — sussurrou Emma, e ainda tremendo, Regina assentiu.
[…]
— Meu Deus, Regina…você está ficando tão inconsequente quanto essa menina. Alguém poderia ter flagrado vocês duas no banheiro.
— Eu sei, eu sei! Me deixei levar pelo momento, mas…não vai se repetir.
— Para o seu próprio bem é bom que não se repita mesmo — disse Mary, mantendo o olhar fixo em uma única direção. — Olha só quem está de volta.
Girando-se lentamente, Regina deu de cara com Zelena. Desde que entrara naquela universidade, há quase três anos, Zelena parecia ter declarado guerra contra ela. Dessa forma, bastaria uma única suspeita da parte dela para arruinar sua carreira.
— Era só o que me faltava.
— Pois é. Ela não pouparia esforços para expor seu relacionamento com Emma.
— Eu não tô em um relacionando com Emma.
— Mas logo estará. Depois de tudo o que você falou, ainda pensa que será diferente?
— Hoje conversaremos em meu apartamento.
— Bem melhor do que aqui. De qualquer forma, tenha cuidado. Você sabe…as paredes tem ouvidos.
…
Sentindo-se nua sob o olhar de Emma enquanto revisava o conteúdo que seria aplicado nas provas, Regina se acomodou em sua cadeira aliviada quando o alarme tocou informando que a última aula havia chegado ao fim. Enquanto os alunos se retiravam, Emma fez menção de se aproximar, mas com duas sacudidas silenciosas de cabeça, Regina acenou para que ela não o fizesse. Relutante, Emma assentiu e se retirou, afinal, elas se encontrariam mais tarde num lugar indiscutivelmente menos perigoso.
Pegando as chaves do automóvel na bolsa, Regina logo alcançou o seu carro no estacionamento e seguiu direto para casa. Precisava relaxar o corpo e a mente antes de tomar a decisão que poderia mudar sua vida para sempre.
…
Passava das vinte horas quando a campainha tocou. Sobressaltada, ela se levantou do sofá e caminhou hesitante em direção à porta. Ao abri-la, a confusão nublou sua mente.
— Victor?
— Sim, sou eu — disse ele, num tom brincalhão. — Está esperando alguém?
Engolindo em seco, Regina olhou para ele por um longo instante enquanto os pensamentos iam até Emma. Ela não pode aparecer agora, pensou Regina, saindo do seu quase torpor.
— Não, não. É só que você sempre avisa quando vem…
— É verdade, me desculpe.
— Não tem que se desculpar…entra — disse ela, nervosa, dando um passo atrás com relutância para deixá-lo entrar.
— Adoraria, querida. Mas só passei pra te dar um beijo e te convidar para jantar amanhã com alguns amigos. É um jantar de noivado de um deles e queria que você viesse comigo.
— Victor, não sei se poderei. Próxima semana começarão as provas e eu tenho muita coisa pra organizar.
— Eu entendo…mas prometo que não voltaremos tarde.
Sem querer prolongar aquela conversa, Regina suspirou e assentiu. Como quem acabara de ganhar um prêmio, ele bateu palmas e sorriu, beijando-a em seguida. Segundos depois, chamou o elevador e foi embora.
Capturando as horas em seu relógio de pulso, Regina percebeu que Emma estava atrasada, e embora detestasse atrasos, ela agradeceu infinitamente o ocorrido rezando para que pai e filha não se encontrassem no portão de entrada. Seus pensamentos foram interrompidos quando o som da campainha invadiu o ambiente. Nervosa, dessa vez ela se aproximou do olho mágico e o coração disparou quando seus olhos viram Emma do outro lado da porta.
— Desculpe o atraso. Eu…
— Entra — disse ela, puxando-a rapidamente e fechando a porta. — Seu pai acabou de sair daqui. Você o encontrou no elevador?
— Não. Eu vim pela escada.
— Ah… — ela murmurou, suspirando aliviada.
— Você está muito nervosa, senhorita Mills…
— Não me chame assim.
— Por quê?
— Emma… — ela começou e fez uma pausa, como se buscasse coragem para continuar. — O que está acontecendo entre nós tem que acabar.
— Não está acontecendo nada entre nós, Regina. Mas vai acontecer…
Regina tentou desviar o olhar mas o toque suave dos dedos de Emma erguendo-lhe o rosto acabaram com sua tentativa de mirar o chão. A respiração ficou presa na garganta e o coração começou a acelerar quando Emma tomou o rosto dela entre as mãos com ternura.
— Emma…
— Pare de fugir de mim, Regina — murmurou Emma, tão ofegante quanto ela. Os hálitos cálidos misturando-se.
Emma chegou mais perto. Os braços abandonaram o rosto dela e lhe enlaçaram a cintura, puxando-a para o calor do seu corpo. Os lábios se roçaram antes de Emma se abaixar um pouco para beijá-la. Quando as línguas se tocaram, Emma sentiu a doçura das maçãs nos lábios dela. Era o mesmo sabor que sentia quando a beijara em seus sonhos. Na medida em que o beijo se aprofundava, Emma a empurrava para junto do sofá e em questão de segundos, lá estavam elas, deitadas, uma sobre a outra.
— Nunca me senti tão apaixonada por alguém… — Emma sussurrou, e Regina quase desfaleceu ao ouvir aquelas palavras.
A cabeça dela pendeu para trás quando a boca de Emma deslizou pelo seu pescoço e ela abafou um gemido mordendo o próprio lábio. Mas de repente, a imagem de Victor surgiu em sua mente e uma onda de culpa a invadiu.
— Emma…eu não posso… — disse ela. — Não podemos…não enquanto eu estiver comprometida com o seu pai.
Recuando, seus olhos verdes dilatados a estudaram por alguns instantes. Assentindo, Emma se afastou devagar enquanto procurava as palavras adequadas para aquele momento.
— Isso quer dizer que você vai terminar com ele?
Passando as mãos pelos cabelos, inquieta, Regina se levantou e caminhou de um lado para o outro, relutante, enquanto Emma esperava ansiosamente uma resposta.
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