Notas iniciais
Agradeço aos comentários, mensagens e favoritos. Devido a falta de tempo, pretendia postar apenas nos finais de semana, porém, decidi fazer um esforço e tentar atualizar todos os dias. Sei que é chato esperar atualização e depois nem lembrar mais do que se tratava o capítulo anterior. Enfim, boa leitura!

— Emma, você está brincando com fogo — comentou Ruby, enquanto seguia ao lado dela para a sala de aula.

— A senhorita Mills sente algo por mim, eu sei. Eu sinto — disse ela, as palavras cheias de convicção.

Com reprovação no olhar, Ruby ficou boquiaberta.

— Você tem consciência de que ela é namorada do seu pai, não tem?

— Ela não ama o meu pai. Do que adianta estar com ele se não o ama? Não é bom para ela, muito menos para ele.

— Ela também não ama você.

Foi então que Emma se perguntou o que seria amar alguém. O que era exatamente o amor e por que acabava ou não acabava. Essas eram as verdadeiras perguntas das quais as respostas transbordavam pelo seu coração através das emoções.

— Qual é a sua, Ruby?

— Qual é a minha? — indagou ela, franzindo o cenho. — Só estou tentando te fazer enxergar a furada em que você está se metendo.

Mordendo o lábio, Emma permaneceu em silêncio. Não sabia exatamente o que dizer quando o assunto era Regina. A única coisa que ela sabia era que não conseguia identificar muito sentido nas próprias emoções, mas naquele momento não importava. Sentia o que sentia e bastava. Quando entraram na sala de aula, Emma encontrou sua atenção mais uma vez atraída pela graciosa professora de direito ambiental.

Comichões inéditos percorriam seu corpo e uma ansiedade estranha causada pela proximidade permeava seus ossos ainda mais do que antes. Mais uma vez, Emma esperou que todos se retirassem, e antes que Regina fizesse o mesmo, ela a deteve.

— Podemos conversar alguns minutos, senhorita Mills?

— Se tem alguma dúvida sobre a matéria, procure-me na sala dos professores mais tarde — disse ela, girando o corpo, mas fora bloqueada pelo corpo de Emma à sua frente.

— Minha dúvida é outra.

Com o coração disparado, Regina pensou em recuar, mas respirou fundo tentando esconder o nervosismo estampado em seus olhos.

— Fale, Emma — disse ela, embora um nó se formasse em sua garganta quase deixando-a sem ar.

— Você se sente atraída por mim, senhorita Mills?

Com o choque explícito em seus olhos, Regina sorriu na tentativa de mascarar sua inquietação.

— Que raios de pergunta é essa?

— A que eu estou lhe fazendo — rosnou ela.

— Você só pode estar louca.

— Talvez…agora mexa esses lindos lábios e responda a minha pergunta.

— Não vou te responder nada!

— Por que não? — indagou Emma, dando um passo adiante, passando o braço em torno da cintura dela, colando-a a seu quadril sem se importar com os pertences que caiam pelo chão.

— O que você está fazendo? Solte-me, Emma.

Ao encostá-la na parede, Emma a encarou com os olhos verdes pensativos, a expressão dura como rocha.

— Eu estou apaixonada por você — Emma falou, de supetão. — Você não sai da minha cabeça desde o dia em que te vi pela primeira vez.

Apesar do tremor que se apossou do seu corpo após aquela confissão, Regina levou as mãos até os ombros de Emma e tentou empurrá-la, mas não obteve sucesso. Com o peito arfando e o coração acelerado, ela sentiu os lábios de Emma roçando na sua orelha e quase desfaleceu.

— Emma, por favor…alguém pode ver… — ela sussurrou, num tom quase inaudível.

Tocando-lhe gentilmente o queixo obrigando-a a encará-la, Emma olhou fundo nos seus olhos, e aquele castanho selvagem incendiaram os dela.

— Diga que não sente nada por mim, que é apaixonada pelo meu pai e eu juro que não toco mais no assunto.

As palavras quase deixaram Regina sem fôlego. Ela parecia estar a ponto de desfalecer e ia dizer alguma coisa, mas a porta da sala se abriu e rapidamente as duas se afastaram.

— Emma, o professor já está na sala e hoje terá teste em grupo. Vamos? — disse Ruby.

Em questão de segundos, Regina apanhou seus pertences do chão e saiu apressadamente da sala. Ruby ouviu Emma soltar um suspiro pesado e em seguida cruzar os braços, como se esperasse alguma coisa.

— Porque você fez isso, Ruby? Hoje não tem teste nenhum.

— Fiz isso pra salvar a sua pele porque a senhorita Blanchard estava procurando a senhorita Mills! Já pensou se ela flagra essa maravilhosa cena entre vocês?

— Ela me quer, não tenho dúvidas disso — afirmou Emma, ignorando o aviso da amiga.

— Porra, Emma! — disparou Ruby. — Pare com essa merda! Você está é com uma enorme paixonite por ela! Você não acha uma bobeira danada? É como essas paixonites que as colegiais tem!

— Não é paixonite! — ela exclamou, didática e magoada, fazendo uma pausa enquanto sentia o estômago revirar recordando a primeira vez que a vira. — Eu não tenho dúvidas de que a amo, de que estou loucamente apaixonada por ela.

Ruby deixou escapar um suspiro profundo, levando as mãos à nuca.

— Emma, nos conhecemos há pouco tempo mas já te considero minha melhor amiga, então serei brutalmente sincera com você — ela fez uma pausa, soltando o ar com força. — Seu pai está planejando pedir a senhorita Mills em casamento.

Mais uma vez, quase sem ar, Emma engoliu em seco e se encostou na parede. O coração se apertava em seu peito diante daquela ideia.

— Quem te disse isso?

— Não sei se você sabe, mas o seu pai trabalha com o meu pai e comentou alguma coisa. Ele não te disse nada?

— Não. De qualquer forma, não acredito que terá casamento porque ela não o ama.

— Mas está com ele pelos motivos dela. Enfim, você precisa esquecê-la, arrancá-la da sua cabeça de uma vez por todas.

Hesitante, Emma respirou fundo e baixou um pouco a voz.

— Não acho que consiga.

— Emma, isso vai acabar em desastre. Sério, você precisa pensar no que está fazendo.

As palavras de Ruby não podiam ser mais verdadeiras, no entanto, Emma não conseguia fazer outra coisa que não fosse fechar os olhos e pensar em Regina.

[…]

A causa de um resfriado, Regina tirou alguns dias de licença na universidade e aproveitou para estudar a melhor forma de pôr um fim ao assédio de Emma. As visitas de Victor em seu apartamento lhe pouparam situações embaraçosas que a filha dele parecia não se importar em provocar, entretanto, a ausência dela não lhe trouxera o alívio esperado.

Vestindo uma calça moletom cinza e uma blusa básica branca de mangas curtas, Regina se atirou no sofá com um Notebook apoiado nas coxas. Suspirando enquanto procurava algo nos arquivos, ela tentava ignorar a última conversa que tivera com sua aluna. Porém, o que não podia ignorar era a ansiedade que crescia dentro dela, sabendo que mais cedo ou mais tarde estaria novamente cara a cara com Emma. Um anseio indefinido, do qual tivera apenas uma vaga consciência em ocasiões anteriores, tornou-se agora um desejo quase identificável. Mas era um desejo tão absurdo, tão constrangedor, que Regina o afastou rapidamente de sua cabeça.

O som da campainha interrompeu seus devaneios e seu corpo rapidamente entrou em alerta. Com cuidado, ela observou através do olho mágico e subitamente relaxou.

— Como está a professora mais amada daquela universidade?

— Não seja boba, Mary — disse ela, sorrindo. — Estou bem, e você como está? — acrescentou, afastando-se para que ela entrasse.

— Eu estou bem. Mas e você, Regina? Tem certeza que está bem?

Encostando-se na porta fechada atrás de si, Regina respirou fundo e baixou o olhar. Seria mentira dizer que estava tudo bem. Mary a conhecia desde que ambas ingressaram na universidade com um único sonho: se tornar educadora.

Com o peito apertado e as emoções girando num redemoinho descontrolado, Regina ergueu a cabeça com muita vontade de chorar. Havia algo morto no silêncio que se interpôs entre elas, e Mary pareceu ficar ainda mais preocupada.

— Senta aqui, amiga — disse ela, indicando o posto ao seu lado. — O que está acontecendo, Regina?

Depois de ponderar se devia ou não contar sobre o que estava acontecendo com Emma, Regina decidiu fazê-lo. Afinal, Mary era sua melhor amiga.

— Emma… — ela respondeu, engolindo em seco. — Emma é o problema.

Tentando conter as lágrimas que insistiam em escapar dos seus olhos, Regina lhe contou cada detalhe do que vinha acontecendo desde que Emma entrou naquela sala de aula pela primeira vez. A princípio, ela não deu tanta importância imaginando que não passava de um comportamento típico de estudantes daquela idade, afinal de contas, não era a primeira vez que ela recebia olhares luxuriosos, elogios, presentes e até mesmo convites para sair com seus alunos, mas nenhum deles havia ultrapassado o limite que Emma ultrapassara.

— Regina você precisa falar com a direção da universidade sobre isso.

— Não posso fazer isso, Mary. Com que cara eu vou dizer ao reitor que uma das minhas alunas está dando em cima de mim?

— Então fale com o pai dela! Afinal, ele é seu namorado.

— Pior ainda!

— Então o que pretende fazer?

— Eu não sei… — ela murmurou, cobrindo o rosto com as mãos por alguns segundos. — O pior de tudo é que…

— O que, Regina? — Mary perguntou, claramente apreensiva.

— No fundo eu gosto do jeito que ela fica me encarando, e odeio isso. E odeio também não conseguir parar de encará-la de volta. Odeio o fato dela ser a filha do meu namorado — ela se virou para Mary, os olhos cheios de lágrimas.

Colocando a mão no ombro de Regina, a expressão de choque no rosto de Mary se suavizou.

— Você está apaixonada por ela?

A mandíbula de Regina se contraiu de um modo quase imperceptível. O sangue deixou seu rosto quando pensamentos conflitantes invadiram sua cabeça. Regina estava consciente de que Emma lhe estimulava as emoções, os nervos e todos os sentidos. Ela podia até desejá-la, mas sabia que não devia ter sentimentos tão imprudentes, sobretudo por estar comprometida com o pai dela. Regina nunca se sentira tão impotente na presença de alguém como na presença de Emma, e odiava o fato dela ter ressuscitado sentimentos que por tanto tempo viveram enterrados.

— Não sei se estou apaixonada…mas ela mexe comigo mais do que deveria — ela confessou, a perplexidade se estampou em seu rosto.

— Amiga, eu não sei o que dizer. Ela é sua aluna, é filha do seu namorado. Enfim, é uma situação muito complicada.

Regina não sabia como, mas precisava estar bem com Victor, com Emma, e sobretudo com a sua própria vida. Ela sabia que o destino não estava jogando limpo com nenhum dos três, e talvez, coubesse a ela dar um basta nisso.

Alguns minutos mais de conversa e Mary foi embora. Regina tentou relaxar um pouco, no entanto, diante de tantas emoções conflitantes, relaxar parecia uma tarefa impossível.

— Droga… — ela murmurou, analisando as horas em seu relógio de pulso. Victor tinha avisado que passaria para visitá-la e que faria o jantar, caso ela não se importasse em ceder a cozinha. Dando-se conta de que faltava pouco mais de meia hora para que ele chegasse, ela resolveu tomar um banho quente na tentativa de acalmar a tensão de seu corpo. Tudo em vão, pois quando abrira a porta, a tensão voltou ainda mais forte que ela chegou a senti-la roçando em sua pele.

— Senhorita Mills, se sente melhor? Todos na sala de aula estão sentindo a sua falta — disse Emma, olhando fixamente para ela.

Tentando esconder a surpresa e o suposto desagrado mediante a presença de Emma, Regina forçou um sorriso e se afastou para que ela entrasse.

— Estou melhor sim, obrigada.

— Fico feliz que esteja melhor, querida — Victor falou, beijando-lhe os lábios rapidamente.

— Bom, talvez fosse melhor pedirmos o jantar…

— De jeito nenhum, meu amor — disse Victor. — Não se preocupe, vou cuidar bem da sua cozinha — acrescentou, num tom divertido, e sem hesitar colocou um avental.

— Enquanto papai cuida da cozinha, eu cuido da minha futura madrasta — Emma falou.

Sentindo o coração disparar, Regina sequer tivera tempo para se recompor e sentiu o braço de Emma em volta de sua cintura, conduzindo-a até o sofá.

— Hoje nós dois vamos te paparicar, meu amor. Assim você se recupera mais depressa.

— Isso mesmo — Emma concordou, sentindo-se uma cobra por se aproveitar da situação. — Amanhã você voltará a dar aulas e precisa estar…relaxada. E nada como uma boa massagem para iniciar o dia bem, não concorda, papai?

— Emma tem razão, meu amor — disse ele, aproximando-se e lhe beijando a testa. — Cuide bem dela, filha. Estarei na cozinha caso precisem de algo — dito isso, ele se retirou.

Com o cenho franzido, Regina sentiu o ar ficar cada vez mais pesado mediante o cinismo de Emma. Quando Victor desapareceu do alcance de sua visão, ela se levantou do estofado e encarou os olhos verdes que pareciam se cravar nela, sugando todo o oxigênio dos seus pulmões.

— Como você consegue ser tão perversa? — questionou Regina. Em silêncio, Emma se posicionou atrás dela, e sem pedir permissão, suas mãos deslizaram lenta e suavemente pelos braços até alcançar os ombros.

— Não sou perversa…sou apaixonada por você — ela sussurrou, os dedos subindo pela nuca e retornando aos ombros.

— Você perdeu o juízo…pare com isso, Emma — Regina suplicou, arfando ao sentir a pressão das mãos quentes e macias em sua pele.

Fechando os olhos, Regina tentou se concentrar na voz de Victor cantarolando no outro cômodo, mas o hálito doce e quente de Emma, tão perto, tornava tudo muito difícil.

— Você merece ser amada como eu te amo — Emma sussurrou, roçando os lábios pela orelha dela.

Regina respirava com dificuldade tentando ignorar a eletricidade que formigava por todo o seu corpo. As carícias em sua pele combinadas com a voz sedutora de Emma fizeram a dor do desejo se espalhar mais depressa, deixando sua respiração ainda mais pesada. Sentia os seios subindo e descendo, e de alguma forma notou os olhos de Emma neles. Aquele contato físico entre elas estava ficando insuportável. Temendo o pior, Regina a empurrou e se afastou rapidamente, o coração quase escapando pela boca.

— Acha que fugir é a solução? — indagou Emma.

— Fugir de que? Quem está fugindo? — Victor perguntou, aproximando-se delas, e por um instante Regina sentiu o coração congelar.