A Madrasta
25 Capitulo 25
Notas iniciais
O rosto de Emma exibiu a mais complexa expressão de choque. Ela empalideceu e ficou de queixo caído. Seus olhos verdes vivos foram sombreados como por um manto. A voz, no entanto, se embaraçou nos seus pensamentos agitados, e as palavras grudaram na língua como açúcar queimado.
— Sinto muito, querida — disse Cora, envolvendo-a num abraço. — É muita informação, muitos acontecimentos. Vamos para casa, para sua família e depois esclareceremos isso.
Engolindo em seco, Emma se deixou conduzir pela sogra até o carro. Com o olhar preocupado, Cora examinou o rosto dela mas se manteve em silêncio por todo o caminho.
Quando a campainha tocou e a porta foi aberta, Emma sentiu o corpo se aquecer ao receber o abraço apertado de Regina.
— Graças a Deus você está bem, meu amor — sussurrou ela, e apesar do sorriso que Emma esboçou, Regina percebeu que havia algo a mais por trás daquele sorriso.
Ao fazer menção de dizer alguma coisa, Cora acenou para que ela não o fizesse. Tentando disfarçar a preocupação, Regina a segurou pela mão acompanhando-a até o quarto.
— Onde está Lily? — indagou Emma, enquanto tirava parte da roupa.
— Mary a levou para passear um pouquinho — pressionando os lábios contra os dela, Regina a ajudou a desabotoar a camisa. — Enquanto você toma um banho, vou preparar algo para você comer, está bem?
Assentindo, Emma a beijou uma última vez e entrou no banheiro. Foi então que Regina correu ao encontro da mãe, e quase não acreditou nas palavras que os lábios dela revelaram.
— Como é possível que ele não seja o pai biológico dela?
— Ele simplesmente não é, filha. Agora é melhor você se sentar porque isso não é tudo…
— Ah, meu Deus…fala de uma vez, mamãe.
— A principal suspeita do assassinato dele é sua colega de profissão.
— Mary? Não pode ser! — com os olhos arregalados, ela se sobressaltou do sofá.
— É claro que não, Regina! Estou falando daquela ruiva que te torrava a paciência na universidade.
— Zelena? Como assim? O que ela tem a ver com o Victor?
— Todos nós estamos nos fazendo a mesma pergunta.
Ainda chocada diante de tantos acontecimentos e revelações, Regina observou Emma caminhar em sua direção. Esquecera completamente de preparar alguma coisa para ela comer, e estava prestes a se desculpar por isso quando Cora se adiantou e falou na sua frente.
— Vou preparar aquela salada que você tanto gosta — disse ela, e Emma lhe sorriu.
— Obrigada, senhora Mills.
Quando Cora se retirou, Regina tomou a mão dela e a conduziu até o sofá. Apoiou a cabeça dela em suas coxas e se pôs a afaga-lhe os cabelos.
— Mamãe me contou o que aconteceu. Não sei o que dizer, meu amor. Seu pai que não é seu verdadeiro pai, Zelena envolvida nessa tragédia…meu Deus, não sei o que pensar.
— É…nada disso faz sentido.
Emma se via numa estrada que não imaginava percorrer tão cedo em sua vida. No entanto, precisava acreditar que havia um motivo para tudo isso que vinha acontecendo. E na medida em que os segundos se transformavam em minutos, e os minutos em horas, sua única certeza era que necessitava descobrir quem era o seu verdadeiro pai, e a razão pela qual sua mãe e o próprio Victor lhe escondera esse fato. Talvez ela fosse adotada, pensou Emma, mas essa ideia desapareceu de sua cabeça ao se lembrar das fotografias de Ingrid no período da gravidez.
— Eu tenho um amigo detetive muito eficiente. Se você quiser, podemos contratar os serviços dele para descobrir quem é seu verdadeiro pai — Cora sugeriu, e sem pensar duas vezes, Emma aceitou a sugestão dela.
Conforme os dias foram passando, Emma tomou conhecimento de que a polícia estava próxima de encontrar o paradeiro de Zelena, principal suspeita do assassinato de Victor. Por outro lado, o detetive contratado por Cora não demorou muito a trazer notícias, e numa manhã ensolarada de sexta-feira, Emma ao lado da sogra e Regina, estacionava em frente a um hotel em Portland, local onde se encontrariam com a única pessoa capaz de esclarecer pelo menos a parte mais importante da história.
— Eu fui advogada da sua mãe por muitos anos — dizia Eugênia, enquanto sorvia um gole de café. — Foi uma dura perda porque Ingrid era uma mulher fantástica.
— Obrigada, Dra. Eugênia — Emma falou, sentindo o toque suave e reconfortante da mão de Regina em sua perna. — A senhora sabe a razão que me trouxe aqui, não sabe?
— Sim, eu sei. O detetive que me procurou adiantou algumas coisas…
— Então vamos direto ao ponto, se a senhora não se importar.
Eugênia assentiu e esvaziou a xícara de café em apenas um gole. Soltando um breve suspiro, o rosto dela se enrugou e se Emma não estava enganada, havia traços de tristeza na sua expressão.
— Seu pai era um bom homem…se chamava James, e faleceu dias depois de receber a notícia da gravidez de sua mãe.
Emma se retraiu como se aquelas palavras a tivessem atingido. A respiração se acelerou e um calafrio invadiu o seu corpo antes de Eugênia prosseguir:
— Ele voltava do trabalho quando perdeu o controle da direção e se chocou contra um caminhão na autoestrada. Ele ainda respirava quando o socorro chegou, mas infelizmente faleceu a caminho do hospital.
Um silêncio tenso tomou conta do aposento antes de Emma piscar os cílios pesadamente. Com a boca entreaberta, ergueu os olhos marejados para Eugênia, esperando que ela continuasse.
— Alguns meses após a morte do seu pai, e faltando poucas semanas para o seu nascimento, sua mãe conheceu esse homem, Victor Whale. Se tornaram amigos, e quase um ano depois que você nasceu, os dois se casaram.
— Não entendo porque ela nunca me falou que ele não era o meu verdadeiro pai — disse Emma.
— Porque Victor não queria que ela contasse a verdade.
— E por quê? Eu tinha o direito de saber.
— Já que chegamos até aqui, acho melhor irmos até o fim.
— Do que está falando?
— Você sabe que a sua mãe estava doente, e que veio a óbito por causa da doença, não sabe? — Eugênia indagou, e quando Emma assentiu, ela retomou sua fala. — Sua mãe se casou com separação total de bens, mas isso não agradou em nada a Victor. Ele não tinha onde cair morto, e embora tivesse se casado com ela, todos os bens de Ingrid seriam deixados pra você. Foi então que ele sugeriu registrá-la como filha legítima, porque a partir do momento em que ela morresse, ele teria o controle dos bens pelo simples fato de você ser de menor.
— A senhora está querendo dizer que…
— Eu estou querendo dizer que esse homem nunca amou sua mãe, tampouco amou você. Ele só estava de olho no dinheiro dela. A propósito, o sobrenome Swan não o pertence. É o sobrenome da sua mãe que ele usou para obter algumas vantagens, se é que você me entende.
— Como é que a senhora sabe de tudo isso? E se sabia, porque não alertou a minha mãe?
— E você acha que eu não tentei, mocinha? Minhas tentativas de alertá-la sobre o caráter daquele homem custaram o meu trabalho, e sobretudo, a minha amizade com ela.
Enquanto as lágrimas se formavam nos olhos de Emma, ela notou uma lágrima deslizar pelo rosto de Eugênia e cair sobre a madeira rústica da mesa.
— Eu perdi a minha melhor cliente, e uma grande amiga…
[…]
— Cacete, Emma! Esse cara que se dizia o seu pai era um filho da puta manipulador! — exclamou Ruby, pasma ao tomar conhecimento dos fatos sobre Victor. — Manipulou sua mãe, a senhorita Mills, e você por todos esses anos.
— Pois é…mas nenhuma máscara dura para sempre — Emma falou, ainda ressentida com tudo o que descobrira.
— Mas e a professora de inglês, hein? Será que eles eram amantes?
— Olha, eu não duvido mais de nada. A polícia ainda está procurando por ela.
— Bom, eu tenho que ir. Você sabe, meu pai ficou meio bolado depois que eu fui detida por dar um depoimento falso.
— É, eu sei. Preciso me desculpar com ele e com você também por ter te colocado nessa encrenca.
— Não tem que se desculpar. Amigas são pra essas coisas.
— Então tá. Obrigada por tudo, Ruby. A gente se vê por aí…
Alguns meses depois…
A capacidade de discernir o que a vida significava e de como poderia acabar a qualquer momento, foi convertida para sempre no dia em que Emma assistiu o caixão de Victor ser baixado na cova. Dois dias antes do assassinato dele, eles haviam discutido, e em menos de quarenta e oito horas, ele desaparecera para sempre. O tempo não tem fim, ele é o fim. Ninguém possui um manual de instruções sobre como viver e aproveitar o tempo antes que chegue o momento de dar o último suspiro, mas todas as pessoas do mundo possui uma razão pela qual deseja viver. Sua razão era Regina e a pequena Lily.
Depois de tantos acontecimentos, desejados e indesejados, a serenidade parecia estar de volta. Zelena havia sido detida e na tentativa de aliviar sua pena, acabara confessando o crime. Em seu depoimento, ela revelou que se aproximara de Victor com a intenção de obter informações sobre Regina. Segundo Zelena, seu único irmão se suicidara depois de ser condenado a pagar uma indenização de meio milhão de dólares a uma família que ele atropelara ao dirigir sob o efeito do álcool, onde uma das vítimas acabou ficando paraplégica. Na época, Cora Mills foi quem conduziu o caso e conseguiu sua condenação. Sem recursos para pagar o valor estimado e temendo a prisão, seu irmão optou por tirar a própria vida. Foi então que sua sede de vingança lhe apresentou a Victor. Querendo ganhar a confiança dele, ela passou a comunicá-lo sobre todos os passos de Regina, revelando o envolvimento dela com Emma, e sugerindo a solução para que o casamento acontecesse. Para ela, tornar a vida de Regina um inferno seria só inicio. Mais adiante, a vida dela seria interrompida e Cora derramaria as mesmas lágrimas que ela derramara pelo irmão. Por fim, Victor levaria a culpa e ela sairia ilesa. Mas tudo mudou quando ele desistiu de ir em frente com o pedido da guarda total da filha de Regina, e ao ver que seus planos estavam prestes a fracassar, ela descarregou sua raiva nele com apenas um golpe. Um golpe certeiro que custou a vida dele, e a sua liberdade.
[…]
Encostada no batente da porta da cozinha onde poderia ter uma ampla visão de toda a sala, Regina se perguntava aonde os últimos oito meses haviam ido parar. O sorriso se formou em seus lábios e o olhar amoroso pousou sobre Lily, sentada sobre a barriga de Emma, tentando acertar o rosto dela com um martelo de borracha.
— Au! Essa doeu! — exclamou Emma, levando uma das mãos ao nariz. — Eu preferia a sua versão de burrito do que essa de mini Regina Má.
— É nisso que dá comprar esses brinquedos violentos — comentou Regina, aproximando-se enquanto sorria. — Você tem sorte que esse martelo é de borracha.
Com uma alegria infantil, Regina pegou Lily em seus braços e se girou para deixar a sala, mas se deteve quando Emma se levantou, a agarrou pela cintura e a conduziu até o quarto da filha.
— Isso aí é pra você — disse ela, mostrando as sacolas em cima da cama
— O que é tudo isso? E quando foi que você colocou aí?
— É um presente que você vai usar essa tarde. Coloquei ainda agora enquanto você cozinhava. Espero que goste.
— Nós vamos sair?
— Sim. Sua mãe chegará daqui a pouco para ficar com Lily.
— E posso saber para onde você pretende me levar?
— Surpresa.
— Você sabe que eu detesto surpresas.
— Sim, eu sei. Mas não posso evitar, então acho melhor você ir se acostumando porque essa é apenas mais uma surpresa de muitas que virão — Emma falou, tocando os lábios dela com os seus. — Como você demora muito no banho, me dá essa fofura aqui e mãos à obra.
Sorrindo, Regina assentiu enquanto lhe entregava a menina e tomava as sacolas de sua mão, se dirigindo ao quarto delas com a curiosidade mais do que atiçada. Depois de rasgar o papel que escondia as peças, ela se deparou com um belo vestido coluna em estilo clássico, branco, de um ombro só. Um par de escarpin também branco junto à bolsa de mão nude e brincos de brilhantes. Claramente surpreendida, Regina encostou o elegante vestido de encontro ao peito enquanto mirava no espelho de corpo inteiro, admirada pelo conhecimento de Emma em relação ao seu vestuário.
Alguns minutos se passaram e enquanto Regina tomava banho, Cora apareceu. Lily já estava pronta para sair com a avó, e quando elas finalmente saíram, foi a vez de Emma se preparar.
— Para onde é que você está me levando mesmo? — questionou Regina, tomada pela curiosidade enquanto a observava dar a volta elegantemente até o seu lado do carro e ajustar o cinto de segurança antes de acelerar e partir.
Ela estava incrível vestindo um par de calças soltas, de corte reto, na cor azul-celeste, e um blazer na mesma cor. Por debaixo, um bustier preto, liso e sexy, exibindo discretamente a sua feminilidade.
— Já falei que é uma surpresa, senhorita Mills — disse ela, roubando-lhe um rápido beijo. — E me agradeça por não vendar os seus olhos outra vez.
Alguns minutos na estrada e a silhueta de Boston começava a desaparecer dando lugar às árvores floridas e as imensas rochas que margeavam o caminho. Um longo tempo se passou até que ela viu Emma atenta ao retrovisor antes de passar para o acostamento e adentrar os portões abertos de uma bonita casa numa zona montanhosa.
Descendo rapidamente do veículo, ela abriu a porta do lado de Regina e a ajudou a descer, exibindo seu sorriso de covinhas que sugeria intenções muito travessas.
— É a primeira surpresa — Emma falou, indicando a casa diante delas.
— Você está querendo dizer que comprou essa casa?
— Na verdade, foi uma troca. Troquei a minha casa de campo por essa aqui. Acho que tem mais espaço pra correr e se esconder da mini Regina Má. Você gostou?
Depois de soltar uma risada pelo que Emma dissera, Regina assentiu e se virou para ela.
— Claro que gostei. É linda! E eu adoro as montanhas em torno.
— Boa resposta. Isso significa que eu acertei na troca.
— Exato! Estou curiosa para saber qual é a segunda surpresa.
— Achei que estivesse curiosa para conhecer a casa.
— Isso também.
— Então vamos por partes: fazemos um tour pela casa, e depois eu te mostro a segunda surpresa.
Assentindo, Regina não conseguiu decidir para que lado olhar primeiro quando a porta de entrada fora aberta. O chão era de madeira, reluzente de tão polido. Uma lareira adornada em mármore e madeira esquentava a ampla sala, embora o tempo lá fora não estivesse tão frio. Os móveis requintados e modernos em harmonia com as cores das paredes, faziam a antiga casa de campo de Emma parecer um alojamento de velharia.
Segurando a mão dela, Emma a conduziu para dentro da cozinha decorada com móveis de madeira e mármore, dignos de um master chef.
— Não imaginava que você tinha tanto bom gosto. É tudo muito perfeito, Emma — comentou Regina, puxando-a para um beijo.
— Digamos que eu tive uma ajudinha da minha querida sogra — ela confessou, puxando-a para atravessar o cômodo. — O restante do tour nós faremos mais tarde porque o reverendo tem hora marcada para ir embora.
— Reverendo? — questionou Regina, e antes que pudesse processar o sentido daquela palavra citada, a porta laqueada da cozinha se abriu, revelando um enorme jardim. Embora o gramado impecável e as macieiras em filas circundando o jardim lhe tivessem golpeado, no bom sentido da palavra, o pequeno altar montado ao lado da piscina foi o que de fato lhe prendeu a atenção. De pé, próximos ao reverendo, estavam Mary com Lily no colo, Ruby ao lado do namorado Killian, e Cora. Todos exibiam a mais pura alegria.
— Chegou a hora de darmos esse último passo juntas… — Emma se pronunciou baixinho, olhando para a própria mão entrelaçada na de Regina. Enquanto as lembranças a empurrava de volta ao primeiro segundo em que a vira, Emma não foi capaz de esconder um esboço de sorriso. E então, com passos lentos, elas caminharam rumo ao tão desejado final feliz.
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