A Madrasta
24 Capitulo 24
Cora assistiu o arquejo de Regina ao ouvir a notícia, e sentiu-se aliviada com o fato de que era Emma quem estava com Lily nos braços. Em choque, elas voltaram para dentro do apartamento se perguntando como aquela tragédia teria acontecido.
— Ainda não se sabe o que de fato aconteceu — disse Cora. — O advogado dele foi procurá-lo essa manhã e o encontrou na sala. Quando a polícia chegou, constatou que ele estava morto. Sinto muito, Emma.
Engolindo em seco, os ouvidos de Emma zumbiam com o anúncio de Cora. A respiração ficou presa na garganta e a única coisa que ela conseguiu sentir foi o abraço de Regina.
— Eu sinto muito, meu amor — disse ela, sem conseguir acreditar no que estava acontecendo.
— Vou procurar saber o que aconteceu e…acionar o seguro para que preparem o funeral — Emma falou, com uma pitada de confusão na voz.
— Quer que eu vá com você?
— Não, querida. Não precisa.
Respirando fundo, ela depositou um beijo no rosto de Regina, acariciou os cabelos de Lily e então abriu a porta e saiu.
Com a confusão fluindo do seu corpo como ondas, Emma levou alguns minutos tentando se recompor antes de ligar o carro e partir. Ainda tremia enquanto dirigia e tentava respirar. Em choque diante de tantos acontecimentos, ela estacionou em frente ao edifício e percebeu a movimentação de pessoas e policiais na zona.
— Sou Emma Swan. Victor era o meu pai — disse ela, quando um dos policiais tentou impedir a sua entrada.
— Sinto muito senhorita. Seu pai já foi levado para o IML.
— O que aconteceu? — ela indagou, com a voz embargada e os olhos cheios de lágrimas.
— O delegado falará com a senhorita. Ali vem ele.
Emma fechou os olhos por alguns segundos, respirando fundo enquanto as mãos repousavam dentro dos bolsos da calça. Uma mistura de sensações e sentimentos comprimiam seu peito, arrancando o ar de seus pulmões. Enxugando as lágrimas que ela tentava reter, ela ergueu a vista e encarou o delegado, e naquele momento, temeu que a sua expressão dissesse tudo.
— Você é a filha da vítima? — ele indagou, limitando-se a exibir o distintivo.
— Sim, sou eu. O que aconteceu com o meu pai?
— Pelo que parece, ele morreu devido a uma pancada violenta na cabeça. A autópsia confirmará se foi realmente isso que o levou a óbito. Quando foi a última vez que você teve contato com o seu pai, senhorita…?
— Swan, Emma Swan — disse ela. — Bom, a última vez que nos falamos foi dois dias antes dessa tragédia.
— Saberia dizer se o seu pai tinha algum inimigo?
— Não que eu saiba. Mas por que está perguntando isso?
— Porque talvez tenhamos um assassinato aqui.
O sangue pareceu deixar o seu rosto e ela cambaleou para trás aturdida. Mas então ela se deu conta de que não conhecia o pai como imaginava, e não fazia a menor ideia do que poderia ter acontecido.
— Onde a senhorita estava por volta das vinte e duas horas de ontem?
— Com uma amiga. Nos encontramos em um restaurante aqui perto.
— E como se chama a sua amiga?
— Ruby Lucas.
— Obrigado, senhorita Swan. E sinto muito pelo que aconteceu com o seu pai.
Após o breve interrogatório, Emma se dirigiu ao IML visto que precisava reconhecer o corpo. Quando o médico legista revelou o cadáver, Emma tentou ignorar a pontada de dor em seu peito, mas foi inútil. Com muito pesar, ela confirmou que se tratava do seu pai. Depois de deixar o instituto médico, ela entrou em contato com o seguro, assinou a papelada necessária e então voltou para casa.
Assim que abriu a porta do apartamento, os olhos de Emma foram capturados pelo sorriso entristecido de Regina. Com passos apressados, ela se aproximou e a envolveu num abraço.
— Meu amor…não queria que nada disso tivesse acontecido — murmurou Regina, afagando-lhe os cabelos.
— Eu sei, querida — disse Emma, com a mão livre, afastou os cabelos dela do rosto.
— Mas o que aconteceu?
— Não se sabe ao certo, Regina. Ele recebeu uma pancada violenta na cabeça…a polícia está investigando se foi um acidente ou não.
— Sinto muito, amor. Apesar de tudo, jamais desejei que isso acontecesse.
Uma parte de Emma estava arrasada pelo que havia acontecido, afinal, Victor era o seu pai. A outra parte, embora confusa, sentia-se aliviada porque agora Regina não sofreria diante da possibilidade de perder a filha. Sentindo-se tonta devido a confusão em sua cabeça, ela foi até o quarto, deitou-se na cama e chorou.
[…]
O funeral foi realizado no dia seguinte. Os colegas de trabalho dele, alheios aos últimos acontecimentos, aproximavam-se de Emma para dar-lhe as condolências. Ao lado dela estava Regina, a madrasta, pensavam eles.
— O delegado me interrogou ontem no final da tarde. Eu confirmei que estávamos juntas, embora não seja verdade. — murmurou Ruby, a voz num sussurro.
— Obrigada — disse Emma, discretamente.
— Emma…não foi você quem fez isso, foi? — indagou Ruby, enquanto o choque dava lugar à ideia de que talvez sua melhor amiga tivesse perdido a cabeça e cometido aquela atrocidade.
Olhando para ela, Emma fez menção de falar, mas a chegada repentina de Mary bloqueou sua fala. Abraçando-a, ela recebeu os pêsames da melhor amiga de Regina e minutos depois, sem retomar aquela conversa, todas elas foram embora.
Alguns dias se passaram e tudo parecia voltar a normalidade. Com a morte de Victor, Cora pediu que o processo fosse arquivado e assim aconteceu. Regina decidiu que era hora de batizar a filha, e como já era previsto, Mary seria a madrinha. A cerimônia transcorreu de forma tranquila, e pouco tempo depois, elas já se encontravam em casa.
Com a ajuda de Emma, Cora preparava o almoço enquanto Regina e Mary terminavam o banho de Lily.
— Ainda bem que uma madrinha é o suficiente para batizar uma criança, porque se fosse obrigatória a presença de um padrinho, vocês estavam ferradas. Como é possível que vocês não tenham um amigo homem? Ou gay… — indagou Mary, encenando uma falsa surpresa ao mesmo tempo em que sorria.
Revirando os olhos para a amiga, Regina sorriu, tomou a filha nos braços e seguiu em direção à cozinha. Parada e encostada no batente da porta, testemunhou a familiaridade entre a mulher que lhe dera a vida, e a outra que a completava. Como se sentisse a presença dela, Emma se virou e se sentiu agradecida por não ter que abrir mão do amor de Regina, do seu fôlego roubado, e não pôde deixar de se sentir agradecida também por receber de Cora o carinho de uma mãe no momento em que acabara de perder o pai.
— Gente, será que não dava para acelerar esse negócio? Eu estou faminta — Regina falou, arrancando-a de seus devaneios.
— Falta pouco — disse Emma. — Mas por mim não tem problema se você quiser comer a sobremesa antes do almoço.
Regina quase engasgou numa risada enquanto observava Cora cruzar os braços e balançar a cabeça numa falsa reprovação às palavras de Emma. Poucos minutos depois o almoço finalmente ficou pronto, mas antes mesmo de se acomodar à mesa, Emma novamente ligou para Ruby, no entanto, ela não atendeu.
— Não consigo falar com Ruby. Ela já devia estar aqui — Emma falou, puxando uma cadeira ao lado de Regina.
— Bom, podemos esperar mais um pouco — disse Cora, embora Mary já estivesse se servindo.
— Ela deve estar presa no trânsito e não vai se incomodar se começarmos sem ela — murmurou Regina, seguindo a amiga e atacando a salada caprese que a mãe preparara.
Concordando com o que Regina dissera, todas elas começaram a desfrutar de uma farta refeição preparada por Cora.
Com uma expressão de curiosidade, Mary e Emma ouviam as histórias de Cora sobre como aprendera a cozinhar pratos diversificados, desde a culinária italiana, até as iguarias portuguesas.
— Essa é a única vantagem que encontrei em namorar um requintado chef — disse ela. — Quando um homem domina uma cozinha, ele começa a pensar que tem colhão de ouro. Coitados!
Dali a segundos, a mesa inteira explodiu numa sinfonia de risadas que pouco durou quando o som da campainha se fez presente.
— Finalmente Ruby chegou — disse Emma, e ao fazer menção de se levantar, Mary a deteve.
— Eu abro, Emma. Não se preocupe.
Um momento depois, a conversa entre elas foi novamente interrompida quando Mary retornou acompanhada, mas seus acompanhantes nada tinham a ver com quem elas esperavam. Emma se ergueu e avaliou Graham Humbert, o delegado que lhe interrogara semanas atrás.
— Sinto muito interromper o almoço em…família — disse ele, ostentando um sorriso sarcástico que não passou despercebido por nenhuma delas. — A senhorita Swan vai ter que nos acompanhar até a delegacia.
— Por quê? — indagou Regina, colocando-se na frente dela como que tentando protegê-la.
— Por ser a principal suspeita do assassinato de Victor Swan.
Com o coração aos saltos e os olhos arregalados denotando a surpresa causada por aquela afirmação, Regina abandonou os olhos dele e se virou, fitando os verdes gélidos de Emma, esperando que saísse qualquer palavra da boca dela que lhe trouxesse alívio à angustia que sentia.
— Emma seria incapaz! — exclamou Cora, igualmente assustada.
— Veremos…se ela conseguir explicar o motivo que a levou a mentir em seu depoimento, e nos mostrar um álibi válido na hora em que aconteceu o assassinato, não há o que temer — ele falou, e bastou um rápido meneio de cabeça para que um dos agentes ao seu lado se aproximasse de Emma, girasse o corpo dela para enfim, algemá-la.
Com uma imensa dificuldade de pronunciar as palavras, Regina interveio quando o policial tentou conduzir Emma para fora do apartamento. Agarrando o colarinho da camisa dela, Regina olhou bem no fundo dos seus olhos verdes, confusa, uma carranca maculando seu rosto.
— Diga que você não fez isso, Emma… — balbuciou Regina, lembrando-se que havia algo de estranho com Emma naquela noite. Algo muito profundo nas suas entranhas lhe dissera isso, no entanto, ela não queria fazer suposições equivocadas. — Por favor, Emma…
A ausência de uma resposta pareceu confirmar o que Regina tanto temia, mas ela continuou insistindo. Querendo arrancar a resposta de dentro dela, Regina tentou abraçá-la na intenção de transmitir seu calor para ela, entretanto, o delegado a afastou, abriu caminho e saiu conduzindo-a para onde a viatura os esperava.
— Não responda a nenhuma pergunta sem a minha presença, Emma — alertou Cora, antes dela desaparecer porta a fora.
Com o coração trovejando dentro do peito, Regina recebeu um abraço da mãe e se pôs a chorar.
— Fique calma, meu amor — murmurou Cora, olhando para Regina, os olhos castanhos iguais aos da filha revelavam grande sabedoria. — Emma não seria capaz de uma atrocidade dessas.
— Ela me disse que estava com Ruby àquela noite, mamãe…
— Eu estou indo para a delegacia agora e quando eu voltar com notícias, você verá que tudo não passou de um mal-entendido.
— Sua mãe tem razão, Regina… — Mary falou. — Emma não seria capaz.
Depois de pegar a bolsa e a chave do carro, Cora ficou mais tranquila ao saber que Mary permaneceria com Regina até que ela voltasse, e então saiu, às pressas, pois temia que Emma fosse pressionada a dar um depoimento autodestrutivo.
Tomando as bochechas da amiga entre as mãos, Mary se inclinou para falar ao seu ouvido:
— Vai dar tudo certo, amiga…tenha fé.
Pegando a mão da sua melhor amiga, Regina assentiu e se levantou sobressaltada ao lembrar da filha. Lily havia adormecido no carrinho de bebê ao lado de sua cadeira. Com as palmas das mãos suadas e o corpo tremendo, ela a pegou em seus braços e caminhou até o quarto fazendo um enorme esforço para não desmaiar.
…
Assim que chegou à delegacia, Cora deu de cara com Ruby deixando o local ao lado do pai.
— Senhora Mills, eu sinto muito — disse ela. — Eu tentei ajudar Emma, mas…
— Vamos embora, Ruby — David interrompeu. — Você já se meteu em problemas demais por causa dessa…gente.
Depois de abrir a porta do carro, ele praticamente empurrou a filha para dentro do veículo, entrou e saiu em disparada. Ignorando a cena lamentável, Cora retomou sua caminhada com passos apressados.
— Vamos acabar de uma vez com isso, senhorita Swan — dizia Graham. — Ninguém teria tantos motivos para matar aquele homem do que você.
— Ele era meu pai!
— Eu sei. Sei também que você teve um caso com a sua madrasta, e insatisfeita, roubou a mulher do próprio pai — disse ele, esboçando um sorrisinho. — Ah, e também sei que o seu pai entrou com um pedido na justiça pela guarda do filho que teve com a senhorita Mills. Então, para que perdermos tempo, hum? Confesse de uma vez que o matou!
— Não vou confessar um crime que eu não cometi.
— Foi a sua madrasta quem deu a ordem, não foi?
— Ela não é minha madrasta!
— Oh, desculpe. Agora ela é sua amante…
— Já chega, delegado! — a voz grave de Cora irrompeu na sala. — O que está fazendo com a minha cliente não é correto!
— Só estou fazendo o meu trabalho — ele deu de ombros, se recostando na cadeira.
Antes de permitir que Emma desse o seu depoimento, elas foram conduzidas a uma sala onde poderiam conversar a sós.
— Eu não o matei! Eu saí sim àquela noite na intenção de procurá-lo para pedir pela última vez que acabasse com aquela história. Mas eu sabia que seria em vão, então desisti no meio do caminho.
— E para onde você foi depois?
— Eu parei no central parque e caminhei um pouco. Precisava organizar os pensamentos.
— Você tem certeza que foi isso o que aconteceu? Porque eu não poderei te ajudar se você estiver mentindo.
— Eu não estou mentindo.
— Muito bem…preciso investigar se aquela zona possui câmeras de segurança que comprovem que no momento do assassinato, você estava ali.
— Quando eu cheguei, Ruby estava na sala do delegado. Ela não tem culpa de nada.
— Não se preocupe, Emma. Ela já confessou que vocês não estavam juntas e o pai pagou a fiança. Então está tudo bem. Agora vamos, você vai dar o seu depoimento, mas só responda o que eu lhe disser para responder, certo?
Assentindo, elas retornaram para a sala do delegado onde o depoimento dela foi recolhido. Apesar de no momento não existir nenhuma prova concreta da suposta culpa de Emma, ela ficaria detida até segunda ordem.
[…]
— Emma ficou presa? — indagou Regina, tentando acalmar os pensamentos turbulentos.
— Infelizmente, sim. Mas não se preocupe, querida. Nós vamos provar que ela não cometeu esse crime.
— Eu preciso vê-la, mamãe.
— Amanhã você poderá visitá-la, está bem?
Quando a noite chegou, Regina ficou parada no vão da porta do quarto delas, observando a cama vazia. Com lágrimas nos olhos, sentiu o coração partir e se consertar de uma só vez. Ela acreditava na inocência de Emma, mas estava apavorada com a possibilidade de perdê-la.
…
Na manhã seguinte, depois de dar banho e amamentar sua filha, Regina a entregou aos cuidados de Mary, visto que faria uma visita a Emma.
Enquanto Cora conversava com o delegado, Regina foi conduzida até a cela onde Emma se encontrava. Sua vista nublou quando os olhos se cruzaram. Sem fôlego, diante da mulher que amava, cabisbaixa com os punhos fechados em torno das grades de ferro, ela caminhou devagar em sua direção. Involuntariamente, ergueu uma das mãos, trêmula, e tocou em seu rosto. O contato fez seu corpo inteiro vibrar.
— Você não deveria ter vindo — disse Emma.
— Eu não podia deixar de vir aqui e dizer que eu te amo, que eu sinto muito e que acredito em você, na sua inocência.
Emocionada, Emma acariciou as mãos dela e estava prestes à beijá-la, mas a chegada de Cora ao lado de Graham a obrigou a recuar.
Poucos minutos se passaram até que o delegado deu por encerrada a visita.
No dia seguinte, as análises das câmeras de segurança do central parque foram concluídas e serviram como um álibi mais do que suficiente para provar que Emma não se encontrava no local onde aconteceu o assassinato. E naquele mesmo dia, enquanto finalizava os últimos detalhes da soltura de Emma, Cora teve acesso ao exame de DNA do sangue encontrado no corpo e na casa da vítima.
— Como? Zelena é a professora de inglês da universidade onde Regina trabalha como reitora. O que ela tem a ver com o meu pai? — questionou Emma, claramente confusa.
— É isso o que a polícia está tentando descobrir — disse Cora. A tensão pairava no ar e não passou despercebida por Emma.
— Senhora Mills, está tudo bem? — Emma perguntou, com uma expressão desconfiada. — A senhora parece meio…fora do ar.
— Emma, tem mais uma coisa que você precisa saber…
— Por favor, fale…a senhora está me assustando.
— Como você sabe, a polícia chegou até essa tal Zelena a partir de um teste de DNA com o sangue encontrado no local do assassinato…
— Sim, eu sei. E…?
— Bom, como também foi encontrado vestígios de pele humana nas unhas dele e cabelos no tapete da sala…
— Senhora Mills, por favor. Vá direto ao ponto.
— Emma, Victor não é o seu pai biológico.
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