A Madrasta
23 Capitulo 23
Notas iniciais
A voz profunda e surpresa de Ruby se intrometeu nos pensamentos perversos que consumiam a cabeça de Emma desde sua última conversa com Victor. Na noite anterior, ela quase não tinha dormido porque seus olhos estavam velando o sono de Lily e Regina, ambas adormecidas ao seu lado. Muito embora observá-las diminuísse parte da raiva que ela sentia, Emma não tinha certeza se conseguiria se livrar do caminho destrutivo que aquela situação lhe mostrava.
— O quê? — indagou Ruby, olhando para ela com uma expressão confusa.
— Isso mesmo que você ouviu. Ele entrou na justiça com um pedido de guarda total da criança.
— Cacete! Seu pai deveria investir na carreira de ator.
— Dá um tempo, caralho! Não é hora para piadinhas sem graça!
— Não é piada, porra. Estou falando sério — disse Ruby, hesitando por um momento antes de se aproximar dela. — Seu pai fingiu todo esse tempo que não sabia o que estava acontecendo entre vocês duas. Você acha que é fácil fazer uma coisa dessas? É preciso ter muito sangue frio, Emma. Outra coisa, se você conversar cinco minutos com o meu pai sobre o seu pai, ele dirá que o admira, que Victor é um exemplo de homem, de amigo, de pai, e a porra toda! E sabe por quê? Porque o seu pai sabe interpretar muito bem o personagem que ele criou para atuar lá fora!
Soltando um longo suspiro, Emma fechou os olhos e varreu o rosto com as próprias mãos. Ruby dissera aquelas palavras com a maior simplicidade, mas a verdade delas atravessou o peito de Emma como uma bala.
— Desculpa, Ruby. Você tem razão — ela falou, recostando-se na cadeira onde estava sentada. A cabeça estava agitada e a cada segundo os pensamentos se tornavam mais confusos.
— Não tem que se desculpar. Sei que é um momento difícil, mas você precisa parar e se acalmar um pouco. A mãe dela é uma ótima advogada e vai conseguir resolver isso.
— É, eu sei. Mas o que também me preocupa é que ele pretende expor Regina. Ele quer tirar camada por camada dela, expondo partes que nenhuma mulher deveria ter de expor.
— Eu entendo. Mas acho que o mais importante nesse momento é não perder a guarda da criança.
Assentindo, Emma se despediu da amiga, mas antes de voltar para casa, ela passou numa loja de brinquedos porque alguns dias atrás, um brinquedinho lhe chamara a atenção.
— Mas o que é isso? — indagou Regina, os olhos se estreitando em total confusão.
— É uma caixinha de música. Quando o bebê começar a chorar, você abre a caixinha, a música toca e ela se cala — disse Emma.
— Simples assim? — Regina perguntou, cruzando os braços depois de deitar a filha no carrinho de bebê.
— Simples assim — Emma falou. Com um sorriso radiante de covinhas, ela desembrulhava o presente sob o olhar atento de Regina.
— Acho que você jogou alguns dólares no lixo. Ou existe alguma coisa que comprove que a música dessa caixinha tem uma magia capaz de acalentar um bebê?
— Descobriremos isso agora — disse Emma, colocando o objeto em cima do sofá para logo em seguida, puxar a chupeta da boca de Lily sem muita delicadeza.
Como ela havia imaginado, a ausência da borracha na boca fez a criança chorar.
— Emma! — Regina a repreendeu pelo gesto e fez menção de tomar a chupeta da sua mão, mas Emma levantou o braço impedindo-a de alcançá-la.
— Abre a caixinha de música, Regina. É a nossa chance de saber se funciona.
Fuzilando-a com o olhar, Regina bufou sem acreditar no que estava prestes a fazer. Alcançando a caixa no sofá, ela quase perdeu o fôlego quando a abriu e notou que em meio à bailarina que girava ao som da melodia, encontrava-se um diamante redondo encravado em platina com brilhantes menores ao redor. Antes que Regina pudesse piscar ou dizer alguma coisa, Emma devolveu a chupeta à boca de Lily, e a pegou em seus braços, aliviada por ela ter parado de chorar, afinal, seria difícil fazer uma declaração a Regina com o choro de Lily como música de fundo.
— Eu te amo, Regina. Amo tudo o que faz parte de você — disse ela, notando os olhos dela marejados. — Pode parecer clichê, mas eu acredito no “para sempre” e aconteça o que acontecer, eu vou te amar até o último dia da minha vida. Sei que estamos passando por um momento complicado mas não podemos permitir que isso nos limite. Nosso amor não pode ter limites porque é muito forte, mas eu preciso torná-lo indestrutível. Eu gostaria de saber se você aceita se casar comigo.
Paralisada diante das palavras de Emma, o coração de Regina disparou, alvoroçado de tantas emoções.
— Amo você, Emma — disse ela, a voz embargada e os olhos cheios de lágrimas. — Vamos tornar o nosso amor indestrutível.
— Isso significa um sim?
Assentindo, Regina exibiu um grandioso sorriso quando Emma tomou a sua mão para colocar o anel de noivado. Ela fez menção de dizer alguma coisa, mas então recuou ao perceber que Lily se agitava, talvez pela forma desajeitada com que Emma a segurava enquanto lhe colocava o anel.
Levando Lily ao colo, Regina se aproximou de Emma e pressionou seus lábios contra os dela.
— Não tenho palavras para descrever como você me faz feliz todos os dias.
— E quem disse que precisa de palavras? A única palavra que eu precisava ouvir já saíram dessa boquinha linda.
Regina a beijou uma última vez, de forma suave e carinhosa antes de sentir o som da campainha invadir a sala. Uma Mary sorridente, mas com resquícios de preocupação em seus olhos, apareceu diante de Regina.
Depois de alguns minutos paparicando sua futura afilhada, Mary se viu sozinha com Regina quando Emma se recolheu para o quarto com Lily em seus braços.
— Eu sinto muito, amiga. Mas não acredito que Victor consiga a guarda de Lily.
— Não sei o que pensar, Mary. Só sei que estou com medo.
— Eu entendo, Regina. Mas continuo achando que ele não vai conseguir nada. Você é uma pessoa maravilhosa. Se toda aquela universidade fosse interrogada, não haveria uma só pessoa que não falasse bem de você.
— Eu não teria tanta certeza — disse ela, sorrindo. — Esqueceu de Zelena?
— Aquela amargurada não passa de uma invejosa. Olha, amiga…fica tranquila que tudo vai dar certo. E saiba que se precisar de alguma coisa, pode contar sempre comigo.
— Obrigada, Mary. Você é uma amiga de ouro. Mas mudando de assunto…você não está curiosa para saber se eu aceitei o pedido de casamento de Emma? Até agora estou surpresa por não ter sido a sua primeira pergunta.
— Não faço perguntas óbvias, amiga. Não haveria a menor chance de você recusar — ela disparou e as duas gargalharam.
Aproveitando que Regina estava acompanhada da melhor amiga e que Lily finalmente adormecera, Emma deixou o apartamento com a desculpa de que iria às compras porque àquela noite ela faria o jantar. Sua justificativa não deixava de ser verdadeira, mas antes de se dirigir ao mercado, ela parou em frente ao edifício onde sua sogra residia.
— Falei com a direção do hospital onde o seu pai afirmou ter feito os exames que apontaram a falsa doença — disse Cora.
— E o que disseram?
— Realmente houve um erro e acabaram trocando os exames. Se essa troca foi proposital ou não, não temos como provar. No entanto, consegui uma cópia da carta onde o hospital se desculpava pelo erro, e podemos usar isso para mostrar ao juiz que Victor sabia que não estava doente e que ainda assim, manipulou Regina para mantê-la ao lado dele.
— Ele pode perfeitamente dizer que não recebeu essa carta — disse Emma, levantando-se de supetão.
— Não seja tão pessimista, mocinha.
— A questão não é ser pessimista ou não! É óbvio que ele sabe que usaremos isso a nosso favor e tenho certeza de que ele já tem um plano!
— Emma, eu tenho tudo sob controle. Você não tem porque se alterar.
A incapacidade de fazer alguma coisa a sufocava enquanto ela tentava se apegar às palavras de Cora, mas não estava funcionando.
— Você pode retardar essa audiência? — Emma perguntou, tentando se mostrar inexpressiva.
— Sim. Regina ainda está no período do resguardo e é mais do que recomendável que ela permaneça em repouso.
— Ótimo.
— O que é que você está pretendendo fazer, Emma? — Cora indagou, claramente desconfiada.
Antes que ela pudesse responder, o celular vibrou em seu bolso. Era Regina pedindo para que ela comprasse algumas fraldas para Lily porque a última ela havia acabado de usar.
— Eu tenho que ir. Obrigada, senhora Mills.
— De nada, Emma. Vai dar tudo certo, tenha fé.
Assentindo, Emma lhe dirigiu um rápido meneio de cabeça e em seguida se retirou.
…
As semanas haviam sido tranquilas, embora Victor não tivesse ficado nada satisfeito ao saber que a audiência fora adiada.
A notícia sobre o pedido de casamento que Emma fizera a Regina, reuniu mais uma vez a família e os poucos amigos que elas tinham, e naquele momento, em meio aos risos e felicitações de Cora, Mary e Ruby, os empecilhos que tentavam desestruturá-las foram esquecidos.
Depois que todos foram embora, Regina trancou a porta e fez menção de se dirigir ao quarto de Lily, no entanto, Emma apareceu na sua frente fazendo-a desviar o caminho.
— Ela já dormiu — Emma sussurrou, deleitando-se com seu rosto divino e puxando-a para um beijo.
Regina soltou um gemido quando os lábios de Emma abandonaram os seus e roçaram sensualmente por seu maxilar. Fechando os olhos por alguns instantes, Regina sentiu o corpo vibrar quando a língua dela deslizou pela orelha, e os dentes prenderam o lóbulo fazendo-a arder de prazer.
— Hoje é dia de matar a saudade — disse Emma, olhando nos olhos dela, o fôlego roubado como sempre.
— Não acho que você consiga fazer isso em apenas uma noite — provocou Regina, arfando enquanto mergulhava nas carícias dela.
— Prometo tentar, senhorita Mills… — Emma sussurrou, correndo a língua macia de forma dolorosamente lenta pelos lábios entreabertos dela.
Regina tombou a cabeça para trás ao sentir a boca de Emma descendo pelo seu pescoço e em seguida subir pelas bochechas ruborizadas. O som dela inalando o seu cheiro fez crescer uma sensação de necessidade que desceu direto à calcinha úmida. Com o coração disparado no peito, ela sentiu os dedos de Emma se entrelaçarem nos seus, guiando-a cautelosamente até a cama. Ao lado do leito, Emma se ajoelhou diante dela e passou as mãos de leve por suas panturrilhas antes de lhe arrancar os sapatos. Apoiando-se nos ombros dela, Regina mordeu o lábio quando ela beijou sua barriga, enquanto um tremor involuntário percorria-lhe o corpo.
Depois de tirar os sapatos dela, as mãos de Emma deslizaram pelas coxas e se infiltraram por baixo do vestido. Regina arquejou e quase perdeu o equilíbrio quando sentiu que ela lhe tirava a calcinha.
Cravando as unhas nos ombros dela, Regina agarrou o tecido da camisa e a puxou para junto do seu corpo. Ao ficar de pé, Emma mal tivera tempo de piscar e sua boca foi tomada pela boca faminta de Regina.
Nenhuma das duas conseguia pensar, apenas sentiam o desejo crescente a cada toque enquanto as roupas batiam no chão frio de madeira, deixando os corpos quentes se chocarem sem qualquer barreira. Tomadas pelo desejo, as duas desabaram na cama trocando beijos e carícias, o calor se intensificando na medida em que os segundo se passavam. A respiração rápida e arquejante delas ecoava pelo quarto enquanto emoções intensas as dominavam.
Regina se agarrou aos travesseiros e levou uma das peças à boca na intenção de mordê-la para abafar o grito no exato momento em que Emma deslizou corpo abaixo e pôs a boca no meio de suas pernas, movendo a língua rápida e suavemente. Os movimentos dos lábios e da língua dela tornavam-se mais intensos à medida que os gemidos longos de Regina se dissolviam em gritos. Com as mãos trêmulas, Regina a puxou para um beijo e pôde sentir seu próprio sabor na língua dela. Enquanto se beijavam, os corpos se movimentavam em sincronia, e em questão de segundos, os sexos pulsaram violentamente quando o orgasmo as arrebatou.
[…]
Os raios de sol matutino tentavam se infiltrar através das persianas e alcançar a figura de Regina que dormia profundamente em sua cama.
— Mas vejam só quem ainda está dormindo! Não vou ser alimentada hoje, mamãe? — brincou Emma, sentando-se na beirada da cama com Lily em seus braços.
— Bom dia, meus amores — murmurou Regina, abrindo os olhos lentamente. — Que horas são?
— Já passa de meio dia, sua dorminhoca!
— Oh, meu Deus, Emma! Porque você não me acordou? — ela indagou, sobressaltando-se da cama.
— Relaxa que eu já dei o café da manhã dela. Daqui a pouco ela dorme de novo, afinal, é o que os bebês fazem de melhor: comer e dormir.
— Que café da manhã você deu a ela, Emma? — questionou Regina, desconfiada.
— O que geralmente comemos no café da manhã, Regina? Ovos, bacon, panquecas cobertas de mel…
— O que?!
— Eu tô brincando!
Embora estivesse aliviada, Regina ficou boquiaberta. As brincadeiras de Emma conseguiam assustar até um serial killer prestes a receber sua pena de morte. Depois de lavar o rosto e tomar um café, Regina sugeriu um passeio no shopping center e Emma sequer cogitou a possibilidade de recusar o convite. Embora não fosse seu passatempo favorito, ela faria qualquer coisa para ver Regina serena.
Faltava um pouco mais de uma semana para o dia da audiência, e durante esse período, Emma a manteve entretida e relaxada com sua presença, com sua dedicação e amor. Piqueniques nos dias de sol, passeios nos parques de diversões ainda que Lily fosse muito pequena para sequer imaginar do que se tratava todo aquele alvoroço de pais e crianças correndo de um lado para o outro. As “reuniões” em família e com amigos aqueciam e fortaleciam o ambiente delas, e nas horas oportunas, Emma não deixou de procurar o seu pai para pedi-lo que desistisse daquela infâmia, mas como imaginava, ele não quis acordo.
E então os dias continuaram passando por mais que Emma rezasse para que o tempo parasse. Ressurgindo do banheiro, ela observou Regina se sentar na cama e algo na sua postura a alarmou. Chegando por trás dela, colocou as mãos em seus ombros e se pôs a massageá-los tentando remover a tensão que ali pairava. A audiência seria na manhã seguinte, e tudo o que Emma mais desejava era amenizar seu conflito interno.
— Você está bem? — Emma perguntou, beijando-lhe o rosto com doçura.
— Sim, meu amor. Está tudo bem — disse ela.
Emma sabia que ela não estava, mas como queria mantê-la o mais calma possível, lhe dirigiu um sorriso e assentiu.
— Você vai ficar bem se eu sair por alguns minutos?
— Aonde vai a essa hora, Emma? — Regina perguntou, virando-se para que pudesse encará-la.
— Ruby me mandou uma mensagem. Está com um problema e me pediu para encontrá-la daqui a pouco.
— Está bem, mas não demore. Já são quase dez da noite.
— Eu não vou demorar…prometo.
Depois de beijá-la na boca, Emma hesitou por um momento antes de se virar em direção à porta e sair.
[…]
Regina despertou com o barulho do chuveiro ligado. Levantando-se, ela foi ao quarto de Lily dando-se conta de que a filha ainda dormia. Ao retornar para o seu quarto, ela sorriu quando Emma apareceu só de roupão enxugando os cabelos úmidos com uma toalha.
— Bom dia, meu amor — disse ela, recebendo um beijo doce com gostinho de creme dental.
— Bom dia, moreninha. Você dormiu bem?
— Surpreendentemente…sim. Estava muito cansada. A propósito, nem te vi chegar. Há que horas voltou para casa, espertinha?
— Não lembro, amor. Mas não foi muito tarde. Bom, é melhor você ir tomar banho…sairemos dentro de uma hora.
— É, eu sei.
— Fique tranquila, Regina. Vai dar tudo certo.
Mais de meia hora se passou até que Regina se encontrava pronta para enfrentar um momento que a assustava muito mais do que os piores pesadelos que tivera ao longo de toda sua vida. Quando Regina saiu do quarto e Emma segurou sua mão, o coração afundou como uma pedra ao sentir o toque frio e trêmulo, denotando um medo que, infelizmente, ela já passara a reconhecer com facilidade.
— Juro que tudo vai ficar bem, meu amor — sussurrou Emma, as palavras saíram de modo tão instintivo quanto o amor que sentia por ela.
Assentindo, Regina abriu a porta e quando estavam prontas para sair, Cora apareceu com uma notícia que mudaria a vida delas para sempre.
— Não teremos audiência — disse ela, engolindo em seco enquanto seus olhos assustados iam de Regina à Emma. — Victor foi encontrado morto essa manhã.
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