O olhar amoroso de Regina caiu sobre a filha que chorava nos braços de Emma. Sorrindo, ela enrolou a toalha nos cabelos molhados e optou por secá-los mais tarde, visto que já fazia alguns minutos que Lily chorava e embora tentasse acalentá-la, Emma não conseguia.

— Vem, meu amor. Me dá ela aqui… — disse Regina, pegando-a em seus braços.

— Acho que ela está com fome — Emma falou, observando Regina amamentá-la. — E eu também estou com fome.

— Você tomou café da manhã não tem nem meia hora.

— Estou com fome de outra coisa.

Compreendendo a que ela se referia, Regina revirou os olhos mas não conteve o sorriso. Lembrava-se que ao completar o oitavo mês de gravidez, o médico recomendara que o sexo fosse suspenso. O período de resguardo tinha apenas começado, portanto, tanto ela quanto Emma teriam que se contentar apenas com os beijos.

— Quando o resguardo acabar, daremos um jeito nessa fome, está bem? — sussurrou Regina, fazendo um sinal para que ela se aproximasse e então a beijou.

— Está bem. Mas já adianto que estarei com uma fome de leão! — Emma exclamou, num tom divertido.

As duas compartilharam do mesmo riso que pouco durou, já que o som do telefone celular de Emma tocando interrompeu aquele momento. Enquanto ela atendia a chamada, Regina se dirigiu ao quarto para colocar Lily no berço.

— Quem era? — Regina perguntou, enlaçando o pescoço dela com seus braços.

— A imobiliária. Queriam informar sobre um comprador para a casa de campo.

— Você quer vender a casa de campo? Por quê?

— Decidi que não quero nada do passado entre nós.

— Meu amor, mas você ama aquela casa…

— Futuramente compraremos outra. Agora eu preciso sair, está bem?

— Aonde vai?

— Tenho um assunto para resolver com Ruby.

Depois de beijá-la suavemente nos lábios, Emma abriu a porta para sair, mas se deteve quando o porteiro saiu do elevador e entregou uma notificação que acabara de chegar para Regina. Achando aquele envelope no mínimo estranho, Emma decidiu esperar para ver do que se tratava.

— Não pode ser… — murmurou Regina, sentando-se no sofá enquanto cobria a boca com uma das mãos.

— O que é isso, Regina? — questionou Emma, claramente preocupada. — Ei, o que foi?

— Victor está acionando a justiça para ficar com a guarda total da minha filha.

Incrédula, e com a expressão tensa, Emma deu um passo à frente e se sentou ao lado dela.

— Ele não pode fazer isso, meu amor. Nenhum juiz nesse mundo tiraria o filho de uma mãe sem um motivo realmente válido.

Por um breve segundo, Regina tentou se prender ao que Emma dissera, mas em seguida, a realidade do que Victor estava disposto a fazer voltou a atacar seus nervos.

— Eu estou com medo, Emma. Eu não quero perder a minha filha — confessou ela, com a voz falha, as lágrimas começando a se formar em seus olhos.

— Você não vai perdê-la, Regina. Eu não vou permitir — Emma falou, levantando-se em seguida enquanto vasculhava os bolsos à procura do celular.

— O que está fazendo?

— Vou ligar agora mesmo para sua mãe. Sei que você é advogada mas a sua especialização está muito longe do que teremos que enfrentar. Sua mãe é a pessoa certa para cuidar disso — disse ela, deixando transparecer sua irritação e seu desconforto.

Enquanto Emma adiantava a situação para a sogra por telefone, Regina se dirigia ao quarto. Fitando sua filha que dormia tranquilamente no berço, ela se sentiu perdida com tantas emoções invadindo-a ao mesmo tempo. Minutos depois, Emma apareceu e a fitou em silêncio. Seus músculos enrijeceram imediatamente enquanto a adrenalina corria por suas veias.

— Sua mãe já está vindo — disse ela.

Com o corpo todo em estado de alerta, Regina tencionou o maxilar e roçou os dedos pela face dela, olhando fundo em seus olhos.

— Obrigada.

Com o coração acelerado, Emma a puxou para um abraço. Uma eletricidade carregada de raiva se irradiou por seus nervos quando sentiu as lágrimas de Regina molharem seu ombro. O som da campainha interrompeu aquele abraço, e as duas se encararam, os olhos igualmente doloridos. Entrelaçando seus dedos nos dela, Emma a conduziu até a sala e em seguida abriu a porta.

— Certamente ele usará o relacionamento de vocês para tentar convencer o juiz de que não é um ambiente apropriado para uma criança. Embora o preconceito ainda tenha muita força, não creio que o juiz seja tão ignorante a ponto de tirar a guarda da sua filha, meu amor — Cora falou, segurando-lhe as mãos com firmeza.

— Victor não é bobo, mamãe. Ele tem alguma carta na manga para manipular o juiz como me manipulou ao inventar que estava doente.

— Filha, nesse momento você precisa se acalmar, está bem? Esse farsante não vai tirar essa criança de você.

Ouvindo o diálogo em silêncio, Emma se levantou devagar enquanto o peito se comprimia a cada respiração irregular de Regina.

— Senhora Mills, poderia ficar com Regina por algumas horas? Eu tenho um assunto para resolver — disse Emma.

— Claro, querida. Não se preocupe — Cora falou.

— Você vai se encontrar com Ruby, não é? — indagou Regina.

— Sim, Regina.

— Prometa que não vai procurar o Victor.

O silêncio ficou sufocante enquanto Emma tentava ficar inexpressiva.

— Eu prometo — disse ela, embora estivesse segura de que não manteria a sua promessa.

Apesar da resposta que Emma lhe dera, Regina sentiu um aperto no peito quando ela pegou a chave do carro em cima da mesa. O toque reconfortante da mão de Cora em seu ombro a deteve, e sem contestar, ela observou Emma abrir a porta e sair.

[…]

Dividida entre a necessidade de enfrentar o seu pai e de não querer fazer Regina sofrer ainda mais, a confusão torturava a cabeça de Emma. Imersa em seus pensamentos, ela trincou os dentes até doer, e então acelerou furiosamente, desviando o caminho pois sabia que àquela hora Victor não estaria em casa, mas o encontraria em qualquer lugar que ele estivesse.

Em poucos minutos ela chegou aonde queria. Depois de fechar a porta do carro com violência, ela se dirigiu ao elevador e rapidamente apertou o botão do andar onde Victor trabalhava como consultor financeiro.

— Emma? Como vai? — indagou David, pai de Ruby.

— Olá, senhor Lucas. Vou muito bem, obrigada — disse ela, varrendo o local com os olhos.

— Imagino que esteja aqui por causa do seu pai. Ele está na sala dele…é a primeira no corredor à direita.

— Obrigada, senhor Lucas. Com licença.

Sem se dar ao trabalho de bater, Emma abriu e fechou rapidamente a porta. Erguendo a vista, Victor estreitou os olhos ao dar de cara com a filha.

— O que é que você está fazendo aqui, Emma?

Enquanto Emma fitava os olhos do homem sem alma que já não conseguia considerar como pai, vislumbres de Regina temendo perder a filha faziam seu sangue ferver em seu corpo.

— Como ousa procurar a justiça para requerer a guarda total da filha de Regina? Porque está fazendo isso com uma mulher que você dizia amar?

Com a respiração pesada, Victor a encarou em silêncio. A expressão dele era feroz, e seu olhar a percorria por inteiro.

— Regina me privou das consultas médicas, não me avisou que a minha filha tinha nascido. Eu fiquei sabendo uma semana depois. O que você quer que eu faça?

— A criança nasceu antes do previsto! Com tantos problemas ela esqueceu de avisar. Isso não é motivo para procurar a justiça.

— Você tem razão, Emma. O motivo pelo qual eu procurei a justiça é outro bem diferente.

Lutando contra a fúria que a invadia, ela deu um passo à frente e o encarou.

— Você não tem nenhum motivo para fazer isso. Só um monstro é capaz de arrancar um filho de uma mãe!

— É mesmo? E o que você acha do filho que rouba a mulher do pai? — ele indagou, sorrindo com deboche ao constatar a surpresa nos olhos dela. — Você acha que eu não sei, Emma? Você pensou mesmo que eu não sabia que você estava perseguindo e seduzindo Regina bem embaixo do meu nariz?

Sombras da mais fria hostilidade transcorriam seu rosto e ela se sentiu culpada por uma parcela daquela raiva que Victor exibia nos olhos. Exceto pela respiração acelerada dele, o silêncio pairava no ar até que ela se pronunciou:

— Regina e eu nos apaixonamos. Erramos, sim. Não vou negar — disse ela, a cabeça erguida e os olhos fixados nos dele. — Eu errei mais do que ela porque o primeiro passo foi dado por mim.

— Não precisa me dizer que a culpa é sua porque eu sei perfeitamente disso! Você a assediava descaradamente. Você confundiu a cabeça dela sem se importar com o fato de que eu e ela estávamos juntos!

— Não fale como se todos nós fôssemos adolescentes! Eu a procurei, sim! Eu insisti, sim! Mas não confundi a cabeça de ninguém! Além disso, ela estava pronta para terminar com você, mas como poderia? — ela riu, balançando a cabeça negativamente. — Você estava muito ocupado planejando um golpe baixo para fazê-la aceitar seu maldito pedido de casamento! — ela exclamou, sem conseguir conter o tom elevado de sua voz.

Emma sabia que estava abrindo espaço para mais sofrimento, mas uma parte dela precisava passar por aquilo.

— O que eu fiz foi errado. O que você fez foi errado. Nós três erramos…talvez um mais do que o outro, no entanto, isso não importa mais — disse Emma, calmamente agora. — Siga com a sua vida, deixe Regina seguir com a vida dela. Podemos colocar uma pedra no passado e tentar conviver amigavelmente. Porque não vem comigo conhecer a sua filha? Eu tenho certeza que Regina não vai impedi-lo de vê-la, ou de visitá-la de vez em quando.

Engolindo em seco, Victor não possuía as palavras adequadas para expressar seu estado mental naquela manhã. A única certeza que ele tinha era que precisava ferir Regina tanto quanto ela o havia ferido.

— Avise a Regina que eu tenho fotos e testemunhas que comprovam que vocês duas eram amantes. Qualquer juiz entenderá a minha preocupação e o meu cuidado para que a minha inocente filha não cresça num ambiente desse nível — ele falou, a voz cheia de ódio e veneno.

Emma se retraiu chocada com o discurso dele. Uma leve tensão se irradiou pelos nervos dela enquanto se aproximava. Ela não soube dizer por quanto tempo olhou fundo nos olhos raivosos e sem vida de Victor.

— Você não se importa nem um pouquinho com essa criança, não é? Você só está fazendo isso por despeito e vingança. Mas eu juro por tudo o que é mais sagrado, que você não vai conseguir o que quer — Emma falou, a menos de trinta centímetros de distância. — Eu vou impedi-lo…nem que seja a última coisa que eu faça.

Um sorriso sarcástico se formando no rosto dele foi a última coisa que Emma viu ao se virar e sair da sala.

[…]

— Ele disse que tem fotos e testemunhas que podem comprovar que eu e Regina estávamos juntas quando eles ainda eram namorados — disse Emma, a voz não passava de um sussurro.

— Talvez ele só queira assustá-las — Cora falou, certificando-se de que Regina ainda estava no banho.

— E se ele estiver dizendo a verdade? Isso é ruim, não é?

— Infelizmente…sim. Regina era sua professora naquele período e quebrou as regras da universidade ao se envolver amorosamente com uma de suas alunas. Certamente ele usará isso para denegrir a reputação da minha filha.

Caminhando em círculos pela sala, Emma passou as mãos pelos cabelos enquanto recordava a conversa que tivera com Victor. A princípio, ela quis acreditar que as palavras dele não passavam de ameaças vazias, mas o ódio explícito em seus olhos que ele não fizera o menor esforço para esconder, deixavam claro que ele estava disposto a saciar sua sede de vingança. Suspirando, Emma hesitou por alguns momentos antes de se virar na direção de Cora.

— Regina não pode saber disso. Ela já está muito nervosa e preocupada.

— Ela saberá de qualquer forma, Emma. É melhor preveni-la porque o crápula do seu pai não hesitará em bancar a vítima diante do juiz.

— A audiência será daqui a duas semanas. Pensarei em algo ou voltarei a falar com ele para tentar convencê-lo a desistir disso. Se eu não conseguir nada, então contamos a ela um ou dois dias antes da audiência, está bem?

— Está bem, Emma. Acho que Regina já saiu do banho então vamos mudar de assunto.

Depois de se despedir da filha e da neta com um beijo, Cora foi embora já estudando uma maneira de derrubar qualquer argumento que Victor pudesse usar para denegrir a imagem de Regina como mãe e mulher. Enquanto Regina amamentava o bebê, Emma se dirigia ao banho. Com as emoções à flor da pele, estava ciente de que quando acabasse, deveria entrar no quarto passando alguma ilusão de tranquilidade. Dez minutos depois de desligar o chuveiro e vestir o pijama, ela entrou no quarto e o coração palpitou como sempre acontecia quando olhava para Regina. Sentindo a presença dela, Regina ergueu a cabeça e abriu um lindo sorriso.

— Se você quiser eu posso ir dormir na sala — Emma falou, retribuindo o sorriso encostada na parede.

— Quero que você durma aqui, conosco. Quero nós três juntas como se fôssemos apenas uma.

Mais uma vez, o ar pareceu ser arrancado dos pulmões de Emma. Ainda que dormir juntinha das duas criaturas que ela tanto amava fosse um dos momentos mais bonitos que vivenciaria, ela sabia que Regina estava com medo, e esse fato destroçava seu coração. Foi então que Emma se deu conta de que por Regina, abriria mão da liberdade, até mesmo da própria vida. Regina era a mulher que ela amava um milhão de vezes mais do que alguns minutos antes, e não havia uma única coisa da qual não abriria mão por ela.