A Madrasta
20 Capitulo 20
Notas iniciais
— O que você está fazendo aqui, Victor?
— Acho que você sabe perfeitamente o motivo da minha presença aqui — disse ele, aproximando-se dela com as mãos enfiadas nos bolsos. — Achou que eu não descobriria nunca?
— Não sei do que você está falando, portanto, diga logo o que veio fazer aqui e vá embora.
— Sei que está esperando um filho meu.
— Quem te disso isso?
— Não importa. Só vim dizer que embora tenhamos nos separado, vou assumir a criança e…
— Não estou esperando nenhum filho seu — ela o interrompeu. — Você não precisa assumir nada.
Victor balançou a cabeça, e com um sorriso malicioso, deu um passo à frente.
— O médico que bateu a sua ultrassonografia é meu amigo. Ontem ele me ligou para me dar os parabéns. Vai continuar negando que não está grávida?
— Em nenhum momento eu neguei. Estou grávida sim, mas o filho não é seu.
Um outro sorriso ainda mais largo brotou nos lábios dele ao ouvir o que Regina dissera. Passando as mãos pelos cabelos, ele olhou para o lado e em seguida para ela.
— Sei que você está muito próxima de Emma. E sei também das…preferências dela. Não quero acreditar, aliás, não quero nem imaginar que você tenha sido capaz de se deitar com a minha filha, mas se por acaso isso aconteceu, não acredito que ela disponha daquilo que é necessário para engravidar uma mulher.
— Não seja ridículo, Victor. Agora, por favor, deixe-me em paz.
— Regina, você sabe que eu tenho direitos. E para o bem de todos, é melhor fazemos as coisas amigavelmente — disse ele, caminhando em direção à porta. — De agora em diante, estarei presente em todas as consultas e quando essa criança nascer, terá meu sobrenome — dito isso, ele abriu a porta e saiu.
Tentando não se abalar pelo que ele dissera, Regina se acomodou em sua cadeira e se pôs a pensar. Apesar de terem se divorciado, ela sabia que não podia evitar a presença dele nem antes, nem depois do nascimento da criança. A ansiedade começava a tomar conta dela, mas antes que pudesse pensar demais a respeito do que poderia fazer, o telefone tocou tirando-a de seus devaneios.
Os projetos que seriam aplicados na universidade onde Regina atuava como reitora mantiveram seus pensamentos ocupados demais, e pelo menos naquele momento, ela conseguiu ignorar a visita insuportável de Victor. Mas enquanto dirigia de volta para casa, as palavras dele martelaram sua cabeça.
Ao chegar em casa e abrir a porta, o aroma de lasanha a atingiu em cheio. Emma apareceu em seu campo de visão e com um sorriso, se aproximou e a beijou.
— Como foi seu dia? — ela indagou, enquanto a ajudava a retirar o casaco.
— Um pouco cansativo, mas correu tudo bem. E o seu dia? Se divertiu fazendo a mudança?
— Nossa, me diverti e muito! Só faltou você aqui pra completar a diversão — disse Emma, num tom divertido, enquanto retornava para a cozinha.
Regina não conteve o riso, e uma cálida sensação de conforto se apoderou do seu corpo. Depois de segui-la, Regina a abraçou por trás, e como já havia retirado os sapatos altos, ficou na ponta dos pés e pousou o queixo em seu ombro.
— Que cheirinho bom…precisa de ajuda?
— Não, meu amor. Está tudo sob controle. Porque não vai tomar banho pra relaxar um pouco?
— Está bem, eu não demoro.
Beijando-a no rosto, Regina se dirigiu ao banheiro enquanto pensava se deveria ou não mencionar a visita de Victor. Foi então que ela se deu conta de que o amor delas havia superado as mentiras, e a confiança vencido a desconfiança. Respirando fundo, ela desligou o chuveiro, e minutos depois, caminhou hesitante ao encontro dela.
— Victor apareceu na universidade — disse ela, e imediatamente o corpo de Emma entrou em alerta. — Ele sabe que estou grávida.
Detectando a preocupação na voz de Regina, Emma parou o que estava fazendo e se aproximou dela.
— O que ele disse?
— Que a partir de agora estará presente em todas as visitas médicas…e que dará seu sobrenome ao meu filho.
— Não se pode fazer nada para evitar isso, não é?
— Eu acho que não.
— Não se preocupe. Nada disso vai interferir em nossos planos, além disso, ele não vai a nenhuma visita médica com você porque não vamos avisá-lo nada disso.
— Emma…
— Vocês estão separados. Quando a criança nascer, ele poderá visitá-la. Mas enquanto isso não acontece, ele terá que se manter afastado. Agora vem, vamos esquecer isso, está bem?
— Está bem, meu amor.
— Você confia em mim, Regina.
— Completamente.
— Então não se atormente mais.
Assim que terminaram o jantar, Emma a conduziu até o quarto e juntas se acomodaram sobre o macio colchão da cama. Com um notebook sobre as coxas, Emma se pôs a mostrar os temas mais divertidos para a decoração do quarto do bebê. Surpresa e emocionada com o interesse dela, Regina afastou o notebook das pernas dela e a puxou para um beijo.
— Quando olho pra você, tenho a sensação de olhar para a metade de mim mesma…obrigada por fazer parte da minha vida, Emma.
Emma não disse nada, apenas a beijou com mais intensidade enquanto as palavras dela se gravavam em seu coração e na sua memória. Emma prendeu a respiração ao sentir o deslizar das unhas de Regina em seu pescoço, descendo pelo abdômen até alcançar a barra da camisa.
— Faça amor comigo — Regina pediu, levantando a camisa dela, tirando-a pela cabeça.
Depois de atirar a camisa de Emma no chão, Regina continuou deslizando as mãos pelo corpo dela em direção ao cós das calças moletom. Seus dedos provocaram a pele da barriga dela, pairando por ali antes de mergulhar por baixo do tecido. Regina deixou escapar um gemido ao sentir o corpo de Emma enrijecer, e se sentiu mais do que satisfeita ao constatar a umidade crescente entre as pernas dela. A cabeça tombou para trás, os olhos se fecharam enquanto os dedos de Regina se movimentavam dentro dela. Ao ver aquele lindo rosto se contorcer de prazer, e o corpo se remexer de encontro aos seus dedos, Regina alternou os movimentos, intensificando a necessidade para além de qualquer controle que ainda possuía. E então sentiu o corpo dela tremer como uma folha ao vento.
— Eu te amo, Regina — disse Emma, ainda ofegante, levando a mão à face dela, o gesto tão gentil quanto o seu olhar. — Faça amor de novo comigo…
— Sempre, Emma…sempre.
[…]
— Credo, Regina. Você está nervosa desse jeito porque sua mãe vem te visitar?
— A conversa que terei com ela não será tão simples, Emma.
— Na verdade, será simples sim. Você quer que eu vá com você?
— Você tem uma entrevista de emprego dentro de uma hora, esqueceu?
— Verdade…mas posso cancelar.
— Não precisa, meu amor. Está tudo bem.
Emma roçou os dedos pelos cabelos curtos dela e após beijá-la, a abraçou. Depois que ela saiu, Regina trocou de roupa, retocou a maquiagem e deixou o apartamento para ir encontrar sua mãe que chegaria dentro de algumas horas. Enquanto dirigia, Regina pensava na reação de Cora quando soubesse tudo o que acontecera. Assim que estacionou e desceu do veículo, avistou sua mãe parada ao lado da porta do saguão de entrada.
— Querida, tudo bem? Fiquei preocupada quando ouvi o seu recado na secretaria telefônica. O que foi que aconteceu? — indagou Cora, enquanto a abraçava.
— Conversamos em casa, mamãe. Fale-me, como foi a viagem? — Regina perguntou, conduzindo-a até o carro.
Nos minutos que se seguiram até em casa, Regina se manteve em silêncio enquanto ouvia Cora falar sobre sua vida e seu trabalho na Inglaterra. Quase uma hora de viagem e elas finalmente chegaram. Regina não estava muito certa de que aquele fim de tarde lhe traria muita paz.
— Quer tomar um banho e descansar da viagem? Podemos conversar mais tarde — sugeriu Regina.
— Eu estou bem, querida. Agora se sente aqui e me fale o que está acontecendo… — disse Cora, percebendo o nervosismo, a palidez e a inquietação no rosto da filha.
— Não sei por onde começar…
— Que tal pelo começo?
— Mamãe…eu me separei de Victor porque estou apaixonada pela filha dele.
O rosto de Cora exibiu a mais pura expressão de choque. Ela abriu a boca, mas não conseguiu escolher as palavras entre tantas que voavam pela sua mente dispersa. Um silêncio tenso tomou conta do ambiente antes de Regina retomar sua fala, e explicar tudo o que acontecera nos últimos meses, desde o dia em que se envolvera com Emma, até a descoberta da falsa doença de Victor, e por fim, a notícia sobre a gravidez.
— Na opinião de muitas pessoas, a forma como começamos não foi correta, mas eu não me importo. Eu a amo, mamãe…
Enquanto Regina falava, as lágrimas encharcavam os cílios de Cora. Incapaz de testemunhar o sofrimento da filha, ela chegou mais perto e a abraçou.
— Oh, querida…me perdoe — Cora murmurou, o coração se partindo em mil pedaços. — No dia do seu casamento, eu senti que algo não estava certo pois você não me parecia feliz. Mas então eu me apaguei ao fato de que você já não era mais uma menina, no entanto, aquele aperto no peito que senti ao ouvi-la dizer “sim” tão desprovida de sentimentos, era um alerta que eu não podia ter ignorado — afastando-se para que pudesse olhar no fundo dos olhos de Regina, Cora deslizou a mão pela face tentando conter os soluços. — Eu sinto tanto, meu amor…você pode me perdoar?
Assentindo, Regina a puxou para um abraço e chorou no ombro dela, sentindo-se aliviada e agradecida por ter ganhado uma mãe que ela jurava ter perdido ao longo do caminho.
[…]
Quando Emma girou a maçaneta e abriu a porta, encontrou a sala vazia. A princípio, ela imaginou que Regina ainda não tivesse chegado com a mãe, mas então um barulho vindo da cozinha lhe chamou a atenção. Sorrindo, ela se aproximou de mansinho e a abraçou por trás.
— Quando eu te vejo aqui, tão distraída assim, me dá vontade de comer a sobremesa antes do jantar!
— É mesmo, mocinha? — disse Cora, e embora sentisse muita vontade de rir, ela manteve a postura séria ao se virar para Emma.
— Oh, meu Deus! — Emma exclamou, afastando-se abruptamente que quase tropeçou na cadeira atrás de si. — Senhora Mills, me desculpe…eu pensei que…
Encarando-a, Cora ergueu uma das sobrancelhas e cruzou os braços como se esperasse uma explicação pelo que acabara de acontecer.
— Eu juro que eu pensei que fosse Regina… — justificou-se, sentindo o rosto queimar de vergonha enquanto gotículas de suor se formavam em sua testa.
— Entendo. Só não entendi o que você quis dizer com “comer a sobremesa antes do jantar”. Poderia me explicar?
Emma mordeu o lábio inferior. Seus brilhantes olhos verdes assustados revelavam mais do que deveriam. Sem saber o que dizer, ela deu um sorriso afetado e passou a mão pelos cabelos. Estava prestes a sair correndo quando de repente, Cora soltou uma gargalhada e a puxou para um carinhoso abraço.
— É um prazer conhecê-la, Emma — disse ela, recuando em seguida.
— O prazer é meu, senhora Mills. E desculpe pela confusão…
— Que confusão? — a voz de Regina ecoou pelo cômodo. — O que é que vocês duas estão aprontando?
— Essa mocinha aqui, chegou me agarrando e falando algo sobre comer a sobremesa antes do jantar.
— Emma?! Isso são modos de falar com a minha mãe? — assistindo o rosto dela corar, Regina cruzou os braços, e não conseguiu evitar uma risada na qual Cora fizera questão de acompanhá-la.
…
— Nunca passei tanta vergonha em toda a minha vida — dizia Emma, enquanto colocava o pijama.
— Aonde você estava com a cabeça?
— Ah, dá um tempo! Você e sua mãe são idênticas! Ainda mais de costas. Juro que pensei que era você.
— Não exagera, Emma. Mas da próxima vez, preste atenção antes de sair por aí agarrando as pessoas.
— Regina!
— Eu tô brincando!
…
Na manhã seguinte, enquanto tomavam o café da manhã, Cora se desculpou pela brincadeira do dia anterior deixando claro que não tinha a menor intenção de assustá-la. Em meio aos risos, e diante da aceitação de sua sogra, Emma sentiu a felicidade se espalhar por seu peito.
— Sua mãe vai ficar aqui com a gente até o bebê nascer?
— Não, meu amor. Ela deixará a Inglaterra e voltará a morar em Boston, não exatamente aqui conosco.
— Que ótimo! Por um momento eu pensei que ela ficaria aqui.
— O que foi? Ficou traumatizada depois que a confundiu comigo?
— Talvez eu tenha ficado sim. Mas mudando de assunto…
Regina se contraiu ao sentir a respiração quente de Emma em seu pescoço. Ela tentou em vão, detê-la, imaginando que Cora pudesse bater à porta interrompendo-as no meio do caminho, mas Emma a acalmou informando que sua sogra tinha acabado de sair.
Regina a beijou com desejo, mordeu-lhe o lábio e em seguida se sentou e despiu a camisola. Um sorriso malicioso se formou em sua boca quando Emma se aproximou feito uma mariposa atraída pela chama. A pulsação e a respiração das duas se aceleraram quando Emma se despiu e os corpos ardentes de desejo se tocaram.
— Eu te amo — Emma disse, roçando a ponta do nariz pelo rosto dela. — Você é a grávida mais linda desse mundo.
— Eu também te amo — murmurou Regina, ofegante, a voz entrecortada. — Preciso de você mais do que da próxima batida do meu coração.
Emma quase se derreteu mediante as palavras dela, descongelando sob seu calor.
O desejo e o amor entre elas fazia-se evidente em cada carinho trocado, em cada palavra proferida. As pulsações lentas e agoniantes delas, os beijos profundos e mais apaixonados do que antes deixavam claro que as inseguranças tinham sido jogadas fora, e que todas as dúvidas foram finalmente desvendadas.
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