A Madrasta
2 Capitulo 2
Notas iniciais
— Como é que é? Você só pode estar de sacanagem comigo, Emma — sibilou Ruby, na outra linha.
— Quem me dera fosse isso…mas não. A namorada misteriosa do meu pai é a senhorita Mills — disse Emma, perguntando-se como seria capaz de passar o feriado tão perto de Regina sem pirar completamente.
— Isso é um sinal para que você tire da cabeça a ideia absurda de conquistar a professora.
— Talvez. Bom, eu tenho que desligar.
— Tudo bem, mas me mantenha informada e não perca a cabeça — dito isso, a ligação foi encerrada.
Emma respirou fundo antes de voltar para a sala onde seu pai e Regina terminavam de preparar a mesa para o jantar. Seria difícil fingir autocontrole quando o seu maior desejo estava ali, diante dos seus olhos e ao mesmo tempo tão fora do seu alcance.
— Emma… — a voz de Regina bem atrás de si fez o corpo dela vibrar.
— Pois não, senhorita Mills — disse ela. A voz soou mais arfante do que pretendera.
— Sei que deve estar sendo um pouco complicado pra você — ela fez uma pausa e sorriu. — Não quero que se sinta desconfortável, nem aqui, nem em sala de aula, está bem? Quero que fique à vontade e pode me chamar de Regina.
Mantendo seus os olhos grudados nos dela, Emma sabia que aquilo seria impossível. Descendo os últimos degraus das escadas, ela se esforçou para que sua voz e todo o corpo se mostrassem indiferentes àquela situação, embora tivesse quase certeza de ter falhado em seu objetivo.
— Está tudo bem, senhorita…quer dizer, Regina. Não se preocupe.
Poucos minutos antes do jantar, Mary Margareth, melhor amiga de Regina e também professora da universidade, chegou e se juntou a eles. Enquanto Victor parecia concentrado no que ela dizia, os olhos de Emma estudavam Regina, travando uma guerra interior. Uma excitação inexplicável, incontrolável, tentava tomar conta dela cada vez que seus olhares se cruzavam. E durante as horas que se seguiram, o máximo que Emma falou foi um “boa noite” antes de decidirem que era hora de dormir.
…
Já passava das duas horas da manhã e Emma rolava inquieta na cama. Embora fosse tarde da noite, ela não tinha sono, e por essa razão, levantou da cama e resolveu tomar um pouco de ar puro. Mas tão logo abrira a porta, não dera nem dois passos e seus olhos de súbito capturaram os olhos de Regina.
— Vejo que não sou a única que não consegue dormir essa noite — disse ela.
— Pois é…vou deixar você ter um pouco de privacidade… — murmurou Emma, e ao fazer menção de se retirar, Regina lhe tocou o ombro.
— De forma alguma. Esse jardim é grande o suficiente para nós duas. Venha, sente-se aqui.
Alguns minutos se passaram enquanto as duas ouviam o som das folhas se movendo. O céu estava límpido, estrelado, e o vento bastante agradável.
— Seu pai me contou que você adora a natureza — Regina quebrou o silêncio entre elas.
— É verdade. Algumas das melhores recordações que tenho da minha mãe foram vividas no campo, em meio ao verde… — disse ela, respirando fundo enquanto desviava o olhar.
— Sinto muito pela sua perda… — um peso invadiu o peito de Regina ao lembrar da história que Victor lhe contara sobre o falecimento da mãe de Emma.
— Obrigada — disse ela, com os olhos cheios de lágrimas.
Sem hesitar, Regina inclinou o corpo e secou as lágrimas dela. O modo como o polegar deslizou sobre a sua pele fez Emma se esforçar para controlar as emoções que ameaçavam transbordar do seu corpo. Ela lambeu os lábios enquanto a fitava percebendo o quão bonita Regina era, embora seu rosto fosse agora um borrão porque Emma não conseguia mais aguentar olhar diretamente para ele.
— Talvez devêssemos entrar…está ficando frio — disse Regina, desviando o olhar.
— Tem razão. Obrigada pela companhia…professora — disse Emma, lançando-lhe um sorriso luminoso, fitando os seus lábios enquanto tentava afastar do seu corpo o fascínio que sentia por ela.
Depois que voltou para o quarto, Emma se jogou em sua cama, sem fôlego, tentando racionalizar a atração visceral que Regina exercia sobre ela.
[…]
O dia seguinte não foi muito diferente dos dias anteriores desde que Emma vira Regina pela primeira vez. Assim como sempre acontecia, seu corpo entrou em estado de alerta quando ela apareceu. Olhando para ela, Emma sorriu.
— Quer café?
— Quero sim, obrigada — disse Regina.
Emma serviu o café e ao lhe entregar a xícara, deixou propositalmente seus dedos roçarem nos dela. Seus olhos verdes desceram rapidamente às coxas de Regina e logo voltaram ao rosto.
— Seu café — ela disse, arqueando a sobrancelha e esboçando um sorriso malicioso, notando uma súbita imobilidade, como um choque no rosto dela. Emma já o notara outras vezes, quando sustentava o olhar dela ou quando lhe fazia algum elogio. Só faltava descobrir se ela ficava satisfeita ou contrariada com aquilo.
Passando as mãos pelos cabelos, aparentemente nervosa, Regina colocou a xícara sobre a mesa e caminhou apressada em direção à cozinha.
— Aconteceu alguma coisa? Você parece preocupada. — comentou Mary.
— Não, não. Está tudo bem — ela disse, levando a mão à nuca e sorrindo forçadamente.
De repente, o feriado já havia acabado e todos retornaram às tarefas cotidianas. Victor apresentava sintomas de pura felicidade, Regina parecia concentrada nas suas aulas, e Emma, continuava em oposição às suas emoções. Ela teria que se contentar em ter Regina como professora e possivelmente como futura madrasta.
— Não consigo tirá-la da cabeça. É sério…não consigo.
— Emma, eu não sei o que dizer. Só sei que você está ferrada porque ela é namorada do seu pai — Ruby falou, tocando-lhe o ombro gentilmente.
— É, eu sei. Mas…
— Mas…?
— As vezes tenho a impressão de que ela gosta da forma que olho para ela.
— Por quê? Ela te deu algum sinal?
— Não sei explicar. Mas ela sustenta o olhar como se me desafiasse…
— Talvez se você levar um fora dela, essa obsessão saia da sua cabeça — disse Ruby, e as duas acabaram sorrindo.
Nas semanas que se seguiram, Emma tentava se afogar nos estudos apesar de não ter sido nem um pouco fácil. Toda vez que os olhos delas se cruzavam, Emma desejava se apossar deles e morar ali para sempre.
As aulas no auditório começariam essa tarde e sem que pudesse evitar, ideias insanas circulavam sem freio pela sua cabeça.
— Não me espere quando a aula acabar… — murmurou Emma, enquanto vestia sua jaqueta.
— Por quê? — questionou Ruby, claramente confusa.
— Quero ficar a sós com ela no final da aula…
— Emma, essa universidade é cheia de câmeras de segurança. Você pode complicar a sua vida e a vida da senhorita Mills.
— Você tá falando como se eu fosse atacar a professora. Enlouqueceu?
— Você está me perguntando se eu enlouqueci? — indagou Ruby, incrédula. — Você não tem outro assunto que não seja Regina Mills, você está ignorando o fato dela ser namorada do seu pai. Quem foi que enlouqueceu aqui, hein?
Mediante o silêncio de Emma, Ruby deu de ombros e entrou na sala. Enquanto Regina apresentava a definição do bem ambiental, Emma a observava quase que devotamente. Como quase sempre acontecia, os olhos delas se cruzaram e Emma não fez questão alguma de mascarar a excitação que sentia pelo simples fato de vê-la ali, demonstrando total segurança com a cabeça erguida e um sorriso discreto.
— Quero ver todo mundo dominando o conteúdo porque não trabalho com provas objetivas — dizia Regina, enquanto fazia algumas anotações no quadro.
Embora dominasse o conteúdo, Emma demorou mais do que o necessário para responder as duas questões que Regina havia passado. Os colegas deixavam o auditório zombando de sua ineficiência em formular as respostas, mas nada disso importava porque a sua incapacidade proposital lhe renderia alguns minutos a sós com a professora de direito ambiental.
— O que aconteceu, Emma? Está com uma alguma dúvida? — questionou Regina.
Fez-se um longo silêncio durante o qual Emma mais uma vez olhou para ela daquele jeito intenso e inquisidor. E Regina notou que ela mordia o lábio como se quisesse impedir sua própria boca de perguntar algo indevido.
— Você é apaixonada pelo meu pai, senhorita Mills?
A mudança na postura de Regina se deu quase que imediatamente. Os olhos endureceram como estilhaços de vidro.
— Porque está me perguntando isso?
— Porque eu gostaria de saber.
— Se eu estou com seu pai é porque tenho sentimentos por ele — disse ela, embora percebesse a ausência de convicção por trás das próprias palavras.
Com um movimento fluido, os olhos de Emma passaram aos lábios de Regina e depois voltaram aos olhos.
— Não foi isso que eu perguntei.
— A aula acabou — disse Regina, encerrando o assunto sem cerimônias e estendendo a mão para receber o papel com as respostas. — Revisarei o assunto na próxima aula já que você parece não ter entendido — acrescentou, e ao fazer menção de se retirar, Emma lhe segurou o braço.
— Não vai me responder?
— Solte-me…senhorita Swan — ela falou, por entre dentes.
— Está fugindo de mim, senhorita Mills? Do que tem medo?
Regina parecia imóvel, muda como uma estátua enquanto tentava recuperar o fôlego. Aquele momento de tensão durou pouco, para seu alívio, quando Mary abriu a porta do auditório e entrou.
— Regina, eu queria… — disse ela, mas sua voz foi silenciada quando notou a presença de Emma. — Ah, não sabia que ainda estava em aula…
— Não, Mary…nós já terminamos. Emma estava de saída — murmurou Regina, tentando esconder o nervosismo explícito no tom de voz.
Com um suspiro, ela abriu as janelas em torno na esperança de que o ar fresco acalmasse o caos em sua mente.
Emma deixou o auditório, mas não hesitou em se girar e encarar Regina por mais alguns segundos. Sem dizer nada, Regina recuou mais um pouco, as palmas das mãos suadas se acomodaram na superfície fria da mesa.
— Regina, está acontecendo alguma coisa entre você a filha do seu namorado? — indagou Mary.
— É claro que não. Porque você acha que está acontecendo algo entre nós? — respondeu Regina, o coração batendo tão forte que ela jurava que dava pra ouvir.
— Olha, eu já havia percebido antes, na casa de campo do pai dela. Mas achei que fosse só uma impressão minha.
— Eu não sei do que você está falando, Mary.
— Várias vezes a flagrei te olhando enquanto você tomava um café na lanchonete. E quando estávamos na casa de campo do pai dela, ela praticamente te comia com os olhos. Você não percebeu?
Engolindo com dificuldade, Regina respirou fundo e assentiu.
— Acho que ela está confusa porque o pai dela decidiu seguir em frente depois da morte da esposa…não sei, Mary. Talvez ela só queira saber se sou uma boa companhia para o pai dela, não sei. Sinceramente eu não sei o que está acontecendo — ela explicou, deixando escapar o ar que vinha prendendo e tentando restaurar seus batimentos a um ritmo normal.
Naquele mesmo dia, Regina recusara o convite de Victor para que jantassem fora, no entanto, não conseguiu escapar da insistência dele em passar um sábado em família, embora ele tivesse alegado que logo após o almoço Emma sairia.
— Senhorita Mills, é sempre um prazer — disse Emma com um sorriso, afastando-se para que ela entrasse.
— Como vai, Emma? Está mais calma? — questionou Regina, mantendo uma postura séria.
— É impossível ficar calma tendo você por perto — disse ela, e os lábios de Regina se abriram de uma maneira espantada.
— Meu amor, que bom que você chegou. Estou preparando o seu prato favorito — disse Victor, beijando-lhe os lábios rapidamente.
— É mesmo? E posso saber como descobriu qual é o meu prato favorito?
— Emma me disse. Mas eu insisti para que ela me dissesse, tá?
A expressão de Regina se fechou enquanto ela se girava na direção de Emma. Quando seus olhos castanhos cruzaram com os verdes dela, Emma ergueu uma das sobrancelhas, incapaz de se manter séria diante do que seu pai acabara de dizer. Um sorriso inocente e infantil surgiu em seus lábios, mas logo desapareceu quando ela sentiu o desprezo nas feições de Regina, como a ardência de um tapa no rosto.
Poucos minutos depois o almoço foi servido, ainda que Victor tivesse comentado sobre os seus dotes culinários, Regina não imaginou que os pratos feitos por ele eram dignos de um chef renomado. Embora não se sentisse inteiramente confortável com a presença de Emma, Regina tentou ignorar o desconforto e agradeceu o empenho de Victor com um beijo rápido, porém, aparentemente apaixonado. Mas quando ele se retirou para buscar a sobremesa na cozinha, os olhos de Emma se concentraram no canto dos lindos lábios de Regina, onde havia uma manchinha de molho. Sem pensar, ela ergueu a mão e limpou com o polegar. Sobressaltada com o gesto inesperado, Regina se encolheu.
— Tinha um pouco de molho no seu lábio — justificou Emma, e sem se importar com o que Regina pensaria, ela chupou o próprio dedo.
Exibindo seu sorriso cheio de covinhas, Emma se endireitou na cadeira quando Victor retornou com a sobremesa em mãos.
Respirando bem fundo, Regina observou Emma pedir licença e se retirar da mesa. Depois que ela saiu, sua cabeça foi ficando cada vez mais confusa, pensando em tudo o que vinha acontecendo em relação ao comportamento inesperado de sua enteada.
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