— Amiga, fica calma e me responde: seu ciclo está regular? — Mary perguntou, os olhos claros se suavizaram, mas se mostravam claramente preocupados.

— Não, não sei! — ela exclamou, nervosa. — Já deveria ter vindo… — acrescentou, apoiando-se no mármore frio.

— Acho melhor irmos embora daqui e passar numa farmácia para comprar um teste de gravidez. Assim acabamos de uma vez com a dúvida.

Já soando frio, Regina assentiu e as duas deixaram o banheiro. Mary pediu a conta e embora não tivessem tocado no que haviam pedido, ela se dispôs a pagar, no entanto, o responsável pelo estabelecimento recusou o pagamento.

Depois de comprar o teste, as duas se dirigiram ao apartamento de Regina.

— Comprei dois para que não tenhamos dúvidas — disse ela, entregando as caixinhas a Regina.

Regina se dirigiu ao banheiro acompanhada da amiga. Sentando-se no vaso sanitário, ela segurou os dois exames sob o fluxo da urina enquanto Mary cobria a bancada da pia com um papel toalha.

Gotículas de suor se formavam em seu rosto enquanto ela lavava as mãos e observava atentamente enquanto as linhas ganhavam cor. Sentindo-se tonta, os olhos se enchiam de lágrimas na medida em que as linhas se mostravam cada vez mais vermelhas brilhantes.

— Deu positivo… — ela murmurou.

— Regina…eu não sei o que dizer. Não sei se te dou os parabéns ou…

— Meu Deus, Mary…eu estou grávida do pai de Emma. Eu estou carregando o irmão dela no meu ventre…

Com os olhos cheios de lágrimas, Regina levou a mão à boca na tentativa de abafar o choro. Dando-se conta da gravidade da situação, ela se perguntou se Emma a abandonaria quando recebesse a notícia. Tentando controlar o pânico que a invadia, ela sequer tivera tempo para pensar no que dizer e como dizer, pois a voz de Emma chamando o seu nome ecoou em seus ouvidos.

— Você não precisa contar a ela agora, Regina.

— Eu não posso esconder isso dela, Mary. Não quero mais mentiras entre nós.

— Tem razão, amiga…

Respirando fundo, Regina acompanhou a amiga até a porta, e depois de agradecê-la, caminhou até o quarto onde Emma certamente estava.

— Meu amor, achei que você não estivesse em casa. Te chamei e você não respondeu — disse Emma, indo ao seu encontro e beijando-lhe os lábios. Seus olhos seguiram o contorno daquele lindo rosto e subitamente captaram algo de estranho na expressão dela.

— Regina, o que aconteceu? — cheia de preocupação, Emma lhe tomou o rosto entre as mãos.

A voz suave de Emma não conseguiu interromper seus pensamentos, nem despertá-la do que ela desejava que fosse um pesadelo. Sentindo o toque carinhoso dela em seu rosto, Regina respirou fundo sem saber por onde começar.

— Emma…preciso lhe contar uma coisa — ela balbuciou, os olhos se enchendo de lágrimas. — Eu…eu estou grávida.

Com o choque estampado em seus olhos, Emma recuou e as mãos abandonaram o rosto dela.

— Grávida? — ela repetiu, os olhos focados no nada enquanto os pensamentos se misturavam em sua cabeça sem controle.

Sentindo-se sufocada, Regina esperou que ela dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Apenas rezava para que não fosse o que ela tanto temia.

— Você tem certeza? — Emma questionou, engolindo em seco ao vê-la assentir.

Emma ergueu a vista e não suportou a expressão de culpa, medo e angustia no rosto de Regina. Por uma fração de segundos, ela chegou a sentir raiva da situação que fora jogada em cima delas, mas tentaria atenuar aquele fato da melhor forma possível.

— Acho que vamos precisar de um apartamento maior — disse Emma, e o coração se apertou em seu peito quando Regina se atirou em seus braços e chorou descontroladamente.

Recuando, Emma deslizou os polegares pelo rosto dela secando-lhe as lágrimas. Em seguida a beijou, primeiro nos lábios, depois o topo da cabeça.

— Por um momento…eu pensei que… — murmurou Regina entre soluços. Só de imaginar que Emma talvez não fosse capaz de lidar com aquela pressão toda, seu coração se comprimia no peito, deixando-a sem fala e aos pedaços.

— Sei que não estava em nossos planos — ela começou, envolvendo-a novamente entre seus braços. — E que talvez surjam alguns contratempos, mas acredito que juntas poderemos lidar com essa situação.

— Obrigada, meu amor — disse Regina, e embora os nervos tivessem se acalmando, ela não conseguia parar de chorar.

— Eu te amo, Regina. Não importa o que aconteça, juntas daremos um jeito.

[…]

— Puta que pariu! Você está de brincadeira, não está?

— É, Ruby. Me deu na telha brincar com uma coisa dessas.

— Cacete, Emma…é que…caramba! Sua namorada está carregando o seu irmão na barriga! Parece mentira, cara.

— Eu sei, é um pouco estranho.

— Pouco?

— Ah, dá um tempo!

— O seu pai já sabe?

— É claro que não. E por mim Regina não diria nada.

— Ele tem direito de saber.

— Você tem razão. Mas a presença dele colocaria Regina numa posição ruim.

— E você também. Não consigo imaginar…é uma situação muito louca, não sei se conseguiria lidar com isso.

— No dia em que você se apaixonar de verdade, você conseguirá lidar com situações como essa. Eu amo Regina, nós duas erramos e essa criança, embora seja fruto do nosso erro, não tem culpa de nada.

— Você tem razão, Emma. Bom, sabe que se precisar de alguma coisa pode contar sempre comigo, não sabe?

— Sim, eu sei. Embora você fale algumas merdas de vez em quando…obrigada.

— Olha só, eu falo merda e você só faz merda. Quem é a pior?

— Na minha opinião, a pior é você e foda-se! — Ruby soltou uma gargalhada e foi acompanhada por Emma. Alguns minutos depois se despediram com um forte abraço, e então Emma se foi.

[…]

Passava das dezoito horas quando Emma abriu a porta do apartamento e entrou. Regina não a ouviu chegar e nem precisava. A presença tranquilizadora dela anunciava sua chegada. Emma a abraçou por trás e ao beijar seu rosto, percebeu que ela chorava.

— Meu amor, aconteceu alguma coisa? — indagou Emma, claramente preocupada, colocando-se de frente para ela.

Balançando a cabeça negativamente, Regina respirou fundo enquanto tentava segurar as lágrimas piscando rapidamente. Os olhos verdes de Emma percorreram-na por inteira e se fixaram no porta-retratos que ela apertava contra o peito. Ao pegar o objeto das mãos dela, Emma captou a nítida semelhança.

— É a sua mãe?

— Sim — ela sussurrou e mais lágrimas rolaram.

— Sinto muito por nunca ter perguntado sobre a sua família…você pode me falar a respeito agora? — Emma indagou, conduzindo-a até a cama depois que ela assentiu.

Em meio ao silêncio, Regina se aninhou nos braços dela e o peso em seu peito diminuiu, já não sufocante, já não fatigante.

— O nome dela é Cora. Foi mãe solteira — ela começou, o nó se formando na garganta enquanto as lágrimas queimavam seus olhos. — Mesmo grávida e sozinha, trabalhou duro e conseguiu terminar a faculdade. Eu sempre a ouvia dizer que nunca permitiria que nada me faltasse…só não tinha percebido que a presença dela não estava inclusa nessas palavras.

Embora estivesse mais feliz do que podia imaginar, Regina não podia deixar de sentir o vazio que ia se ancorando em seu peito. A ausência da mãe pairava como uma tempestade, trazendo uma nuvem escura e solitária de tristeza.

— Eu poderia contar nos dedos em quantas reuniões escolares ela esteve presente, quantos aniversários passamos juntas… — com um suspiro, ela se levantou da cama e parou em frente a janela, observando as poucas estrelas no céu. — E quando ingressei na universidade, ela se transferiu para a Inglaterra e nunca mais voltou.

As emoções de Emma viajaram até um lugar que ela evitava revisitar já havia muito tempo. As situações envolvendo suas respectivas mães eram bastante similares, a única diferença se dava ao fato da mãe de Regina estar viva.

Com os olhos marejados, e o coração instantaneamente apertado, Regina suspirou ao sentir os braços de Emma envolvendo o seu corpo.

— Eu sei o que significa a ausência de uma mãe em nossas vidas — disse ela, apertando-a bem forte contra o seu corpo. — Quanto tempo faz que vocês não se veem?

— Alguns meses…ela esteve em meu…casamento. Sabe, eu pensei que a ausência dela me tornaria forte, segura, porque no final das contas eu tive que passar por tudo sozinha. Mas não, eu vivo ancorada em um mar de confusão, de medo, de erros.

— Entendo…mas você pode mudar isso, Regina. Ou pelo menos pode tentar mudar.

Virando-se devagar, Regina a encarou.

— Não entendi… — disse ela.

— Procure-a. Conte sobre sua vida, explique o que tem acontecido e diga que sente a sua falta e que precisa dela. Perdoe os erros que ela cometeu e se apegue a qualquer palavra de sabedoria que ela tenha dito.

— As vezes eu me pergunto se você é real…

— Você consegue me sentir? Porque se você consegue, então eu sou real — Emma falou, exibindo seu maravilhoso sorriso de covinhas.

Regina abriu um sorriso triste que subitamente morreu.

— Eu te amo tanto, Emma…e espero que um dia você me perdoe.

— Pelo que?

— Por ter separado o caminho que deveríamos ter traçado juntas. Por quase apagar o nosso relacionamento.

— Não há nada para perdoar, Regina. E nossos caminhos se cruzaram outra vez e não permitiremos que os separem de novo — disse Emma, beijando-lhe os lábios em seguida na esperança de conseguir destruir todos os fragmentos de culpa e tristeza que pudessem ter ocupado um espaço significativo em seu coração. — Não quero mais ver lágrimas nesse rostinho lindo. Se continuar assim, corremos o risco do nosso filho nascer com cara de choro.

Regina não conteve a risada, mas então seu rosto endureceu ao se dar conta do que Emma acabara de dizer.

— Nosso filho? — ela indagou, estupefata com o que ouvira.

— Bom, visto que você está grávida, que estamos juntas e que nos amamos, posso considerá-lo como meu filho também…

O coração de Regina se aqueceu e quase explodiu de tanta felicidade porque finalmente encontrara alguém que a aceitaria em qualquer circunstância.

— Quero que você venha morar aqui comigo. Quero dividir cada segundo da minha vida com você e o nosso filho.

Emma tomou o rosto dela entre as mãos e a beijou com todo o carinho.

— Nem precisa insistir como costuma fazer porque eu já estava cansada de dirigir até a minha casa só para tomar banho e trocar de roupa.

— Desculpe fazê-la passar por isso — Regina disse, a princípio séria, mas em seguida deixou escapar um sorrisinho.

— Está perdoada, senhorita Mills. Mas…eu preciso perguntar uma coisa.

— Pergunte, Emma.

— Você não vai dizer ao meu pai que está grávida?

— Não pretendo.

— Por quê?

— Depois do que aconteceu, tenho a sensação de que não posso confiar em Victor. Não sei explicar…

— Tudo bem, ele não precisa saber mesmo.

— Mas você ficaria chateada se ele soubesse?

— Não, Regina. Estou do seu lado no que você decidir.

— Por ora deixemos as coisas como estão, certo?

— Certo. Agora que você me fez um convite para morar aqui e eu aceitei, quero te fazer um convite também e espero que você aceite.

— Estou ouvindo…

— Quer jantar fora comigo essa noite?

— Ah, era isso…

— Nossa, que forma mais entusiasmada de dizer sim — disse Emma, levando a mão ao peito como se tivesse sido ferida.

— Não foi isso que eu quis dizer — respondeu Regina, aos risos. — É que imaginei outra coisa, mas é claro que eu aceito, meu amor.

— O que foi que você imaginou, hein?

— Bobagem, deixa pra lá! Acho melhor nos apressarmos porque já passa das sete.

— Nós vamos assim? Quer dizer, por mim não tem problema. Mas o restaurante é um pouco elegante então pensei que…

— Você já fez a reserva?

— Sim, fiz essa tarde.

— Então cancele. Essa noite eu não quero nada de restaurantes. Quero caminhar pelas praças, comer um cachorro quente na rua, quero sentir o vento frio no rosto, quero me sentir livre e em paz comigo mesma, com você, com nós duas…

A emoção nublou o rosto de Emma, e sorrindo, ela estendeu a mão em direção à Regina.

— Sendo assim, posso lhe oferecer um cachorro quente, senhorita Mills?

— Já que você insiste…

[…]

Sentada no consultório médico ao lado de Emma, Regina repassava os momentos que vivera na noite anterior. Se sentira uma adolescente em seu primeiro encontro, e sentira também que havia ganhado alguns quilinhos depois da quantidade de cachorro quente e refrigerante que devorara, sem contar com os doces que Emma comprava ao longo do caminho. As imagens circulavam em sua mente e lhe arrancavam discretos sorrisos, mas os pensamentos foram interrompidos quando a recepcionista lhe entregou os formulários que seriam preenchidos.

Depois de preencher a papelada, Regina foi levada para bater um ultrassom. Felizmente, o médico não fez qualquer questionamento a respeito do pai, apenas explicou que o barulho estranho que elas ouviam se tratava das batidas do coração do bebê.

— Aquele pontinho ali — disse o médico, apontando para a tela da máquina. — É o bebê. Ainda é muito cedo para vê-lo completamente e para senti-lo.

Regina não conteve o sorriso, e sorriu mais ainda por saber que era Emma ali ao seu lado. Quando a ultrassonografia terminou, o médico as acompanhou até a sua sala e após alguns minutos de esclarecimentos, elas foram embora.

— Bom, enquanto você está no trabalho, eu farei a minha mudança — disse Emma, beijando-lhe os lábios.

— Se você esperar pelo fim de semana, eu posso te ajudar.

— De jeito nenhum! Você está grávida, não pode se esforçar.

— Não seja boba. Muitas mulheres só param de trabalhar quando estão prestes a ter o bebê.

— Infelizmente é verdade. Mas com você não será assim.

— Obrigada, meu amor. Nos vemos mais tarde, então.

— Sim, nos vemos mais tarde.

Após um longo beijo e algumas trocas de carinhos, Regina pegou o elevador e desceu até a garagem. Com um sorriso satisfeito e o coração palpitando de felicidade, ela entrou em seu carro e poucos minutos depois chegou a universidade. Ao entrar na sala da reitoria, ela quase tropeçou quando seus olhos deram de cara com Victor, esperando-a.