Sabendo que precisava explicar a dor que lhe infligira, Regina recuou dando passagem para que Emma entrasse.

— Emma… — ela sussurrou, tentando não tropeçar nas emoções. Respirando fundo, soltou o ar antes de seguir em frente. — Talvez você nunca mais queira voltar a me ver depois que eu lhe contar…

— Eu já sei de tudo, Regina — disse ela, interrompendo-a. — Eu só queria que você tivesse confiado em mim, e me contado o verdadeiro motivo pelo qual rompera comigo e não com ele.

— Sinto muito por não ter falado a verdade. Foi tudo muito rápido, e quando Victor me contou que estava doente, eu…

Incapaz de continuar lutando contra a sua dor, Regina se pôs a chorar descontroladamente, e aquela cena partiu o coração de Emma. Ansiando por passar os dedos pelos cabelos dela e consolá-la, Emma se aproximou devagar e então a abraçou. Com a preocupação estampada nos olhos, Emma se inclinou para frente e estudou o rosto dela.

— Eu entendo, não se preocupe. Eu também sou responsável por todos os dias, horas, minutos e segundos que passamos longe uma da outra.

— Emma…

— Você precisa parar de se castigar, Regina. Já passou — Emma disse, tocando-lhe o rosto gentilmente. — Nós podemos…recomeçar, se você quiser.

Com lágrimas escorrendo, Regina apertou as mãos dela, os pensamentos desordenados.

— Victor e eu ainda somos casados…

— Eu sei. Sei que precisa de tempo para organizar sua vida, sua cabeça. Só quero que saiba que esperarei o tempo que for preciso — disse ela, deixando claro o motivo que a levara até ali.

Recuando alguns passos, Regina olhou para o chão, o coração descompassado no peito. Lentamente, voltou a encarar os olhos verdes dilatados esperando uma resposta.

— Emma, você disse que me amava desde a primeira vez em que me viu, e eu também te amei desde o começo e nunca deixei de te amar. Mas não podemos cometer os mesmos erros do passado. Por isso, gostaria de pedir para que não nos encontrássemos enquanto o divórcio não sair.

Assentindo, Emma fechou os olhos quando Regina se aproximou e deu um beijo suave e demorado em seu rosto. Emma a ouviu respirar fundo como se quisesse se fortalecer, mas, antes que pudesse abrir os olhos. Regina a soltou.

— Como eu disse, esperarei o tempo que for preciso — disse ela, roçando os lábios no topo de sua cabeça.

Com o coração retumbando no peito, Regina a observou se afastar, abrir a porta e sair.

[…]

Depois de estacionar em frente a pizzaria onde se encontraria com Ruby, Emma foi acompanhada pelo garçom que a conduziu até a mesa reservada para elas. Sentindo uma dor de cabeça súbita, tentou analisar os próprios sentimentos enquanto esperava a amiga. Não queria arruinar o relacionamento com seu pai, e se recusava a desistir de Regina. Embora odiasse a expressão “estar entre a cruz e a espada”, era assim que ela se sentia e não era a primeira vez que isso acontecia. Alguns minutos depois, Ruby finalmente apareceu e por um instante, Emma conseguiu ignorar a dor causada por toda aquela situação.

— Você conseguiu falar com ela? — indagou Ruby, enquanto folheava o cardápio.

— Sim. Ela tentou me explicar os motivos que a levaram a se casar com ele, mas eu não quis ouvir. Não queria que ela sofresse ainda mais revivendo aqueles momentos.

— Tem razão…até porque sabemos perfeitamente que ela se casou por pena. Mas o que vai acontecer de agora em diante?

— Não sei. A única certeza que tenho é que nos amamos. Ela me pediu para não procurá-la enquanto o divórcio não sair.

— Creio que seja o mais correto a se fazer.

— É verdade. Esperarei o divórcio e o tempo que precisar.

Assim como na primeira vez, Emma estava segura de que lutar por Regina jamais seria um erro, e não importava quantas pessoas ela pudesse magoar nessa batalha, incluindo ela própria.

— Por quanto tempo você estaria disposta a esperar por ela?

Encarando os olhos azuis da amiga, Emma sentiu uma crescente agitação em seu peito enquanto as lembranças dos doces lábios de Regina se enredavam por seus pensamentos. O aroma do perfume dela permeava seus poros e a intoxicava. Até mesmo agora, pensar nela a deixava sem ar. Por fim, a resposta veio lenta, porém convicta:

— Pra sempre.

[…]

Algumas semanas se passaram e apesar dos insistentes pedidos de desculpas por parte de Victor, Regina foi em frente com o pedido de divórcio.

Estudando seu reflexo no espelho, ela concluiu que, apesar do novo corte de cabelo parecer mais curto do que ela desejava, teria que ficar assim mesmo. Depois de assinar o divórcio, Regina voltou para casa decidida a passar o final de semana arrumando seus pertences que alguns dias atrás trouxera do apartamento de Victor. Roupas, sapatos, bolsas e tantos outros objetos se encontravam espalhados pelo seu quarto. Ao pegar o último item que se encontrava dentro de uma das caixas que ela acabara de esvaziar, o coração quase parou quando ela viu que se tratava de um porta-retratos com a fotografia de Emma. Não tinha sido nem um pouco fácil ter conseguido mantê-la distante dos seus pensamentos as últimas semanas, e agora, do nada, praticamente a tinha nas mãos. Pressionando o objeto contra o peito, ela deixou escapar um longo suspiro. Minutos depois, se viu digitando uma mensagem de texto para o seu maior pesadelo e seu sonho mais indecente.

Depois de muito pensar se deveria ou não enviar a mensagem, ela acabou cancelando o que escrevera e atirando o aparelho em cima da cama. Ao fazer menção de pegá-lo outra vez, o som da campainha a deteve fazendo-a recordar que naquela tarde, Mary viria ajudá-la a colocar tudo em ordem. Quando a porta foi aberta, ela deu de cara com um par de olhos claros, mas não eram aqueles que ela imaginava.

— Emma?

— A senhorita Blanchard me pediu para avisar que não poderá vir ajudá-la com a mudança. Então eu me ofereci para vir no lugar dela.

— Não precisava se incomodar…

— Não é incômodo. Somos amigas, lembra?

Regina deixou escapar o ar que vinha prendendo e sem conseguir formular uma única frase, se afastou para que ela entrasse.

— Nossa, que bagunça hein — comentou Emma, enquanto recolhia as caixas vazias espalhadas pela sala.

— Não precisa me dizer o óbvio, Emma — murmurou Regina.

Baixando a cabeça para disfarçar o sorrisinho, Emma tentava mascarar a excitação que sentia pelo simples fato de ter Regina ali, tão perto. Ficara sabendo que naquela mesma manhã Regina assinara o divórcio. Agora, era uma mulher livre, mas, ainda assim, estava muito cedo para dar início ao recomeço.

No decorrer das horas, Regina ao lado de Emma desempacotou o restante dos seus pertences. O último objeto, numa caixa quase vazia sobre a cama de Regina atraíra a atenção de Emma.

— Esse porta-retratos não é meu, caso esteja se perguntando — disse Regina, claramente sem graça enquanto Emma observava a própria fotografia.

Emma a encarou, divertindo-se com aquela afirmação ao lembrar que dissera o mesmo para justificar a presença de Mérida.

— E quem disse que eu estava?

— E quem disse que você não estava? — indagou Regina, revivendo um momento que já acontecera entre elas. Ao lembrar desse fato, ela se girou e sorriu discretamente.

A resposta inesperada, combativa e sexy, causou arrepios em Emma. Ela deu de ombros como quem não quer nada, e colocou, estrategicamente, o porta-retratos sobre a mesinha de cabeceira.

— Estou faminta! O que acha de pedirmos comida?

Regina piscou várias vezes para ver se acordava do seu quase torpor, ao mesmo tempo em que tentava ignorar o quanto o perfume dela era sedutor. Mediante o silêncio de Regina, Emma imaginou que tivesse forçado a barra, e se sentindo uma idiota, tentou remediar da melhor forma possível.

— Quer dizer, acho que você está cansada então é melhor eu comer em casa…

— Não, Emma. Digo, sim…quero dizer, eu estou cansada e imagino que você também esteja. Então comemos algo aqui mesmo e depois você pode ir.

— Já que você insiste…

Balançando a cabeça ao mesmo tempo em que sorria, Regina chamou o número da lanchonete mais próxima que conhecia, e poucos minutos depois, o aroma de sanduíches e batatas fritas tomaram conta da cozinha.

— Se eu não estivesse vendo com meus próprios olhos, não acreditaria — Comentou Emma.

— Em que?

— Em você comendo essas coisas.

— E o que te faz pensar que eu não comeria essas coisas?

— Sei lá, você parece tão fitness — disse ela, e Regina quase engasgou numa risada.

Naquele momento, Emma teve certeza de que poderia morrer feliz depois de ver o lindo sorriso de Regina. A intensidade explícita do seu olhar deixou Regina sem fala, e então ela os desviou, obrigando-se a olhar para baixo e pensar em outra coisa.

— Bom, acho que é hora de ir… — Emma falou, levantando-se e colocando o prato sobre a pia.

— Eu te acompanho até a porta — disse Regina, procurando alguma coisa que a distraísse do verde flamejante daqueles olhos. — Obrigada, Emma.

Parada diante da porta, Emma estudou o rosto de Regina bem devagar. O simples fato de olhar para ela já dificultava sua respiração. Sorvendo o máximo de ar que os pulmões aguentavam, ela sorriu e finalmente respondeu.

— De nada…

Depois de trancar a porta, Regina se encostou nela e fechou os olhos por alguns instantes, tentando controlar a atração desenfreada por Emma que a cada minuto aumentava dentro dela.

[…]

No decorrer das semanas, Regina manteve a mente ocupada coordenando e controlando todas as atividades da universidade. Emma não quebrara a promessa que fizera e se manteve distante, tanto que nem acreditava nos dias que haviam se passado desde que vira o rosto dela pela última vez.

Finalmente o final de semana chegou, pensava Regina, enquanto se preparava para se exercitar no parque. Estacionando em um canto qualquer, ela não dera nem dois passos e seus olhos cruzaram com os de Emma.

— Emma, que surpresa.

— Como vai, Regina?

— Bem, obrigada. Já está indo embora?

— Sim, não se preocupe. Não vai precisar aguentar a tortura de passar um tempo comigo — disse ela, exibindo seu maravilhoso sorriso de covinhas.

Revirando os olhos, Regina retribuiu o sorriso.

— Que horas você chegou que já está indo embora?

— Na verdade, acabei de chegar. Acontece que esqueci meus fones de ouvido e detesto caminhar sozinha e sem música.

— Bom, se quiser caminhar comigo…

— Já que você insiste…

Revirando os olhos, Regina deu início à caminhada e Emma a seguiu. Enquanto conversavam, a mente de Emma ia repassando as últimas semanas enquanto a exaustão provocada pela saudade deixava seu peito.

— Acho melhor voltarmos porque parece que vai chover — comentou Regina, e segundos depois, os primeiros pingos de chuva lhe tocaram a pele.

— Precisamos desenhar um sol bem rápido — Emma falou, e Regina não pôde deixar de cair na gargalhada.

— O que foi? — ela perguntou, a boca se curvando num meio sorriso. — Vai me dizer que você nunca desenhou um sol quando estava prestes a chover?!

Ainda sorrindo, Regina a observou hipnotizada, dando-se conta de que aquela não era a primeira vez que se admirava de algo que Emma fazia ou dizia. Jamais conhecera alguém tão infantil e ao mesmo tempo tão madura e segura como ela. Desviando o olhar do verde fascinante dos olhos dela, Regina pigarreou e se pôs a correr.

— Não temos tempo para desenhar sol, é melhor correr antes que a chuva se torne mais forte — disse Regina, mas poucos metros adiante, ela acabou escorregando e caindo.

Com o rosto cheio de preocupação, Emma a alcançou e se ajoelhou ao seu lado.

— Regina, você está bem? Se machucou?

— Acho que torci o tornozelo…

— Calma, deixa eu ver…

Cuidadosamente, Emma retirou o tênis dela constatando subitamente o inchaço no pé.

— É melhor irmos ao hospital para ter certeza que se tratou apenas de uma torção.

— Tem razão, mas eu não consigo apoiar o pé no chão…está doendo muito.

— Eu vou chamar uma ambulância porque estamos muito longe do seu carro e do meu.

Felizmente a chuva não passou de uma garoa e minutos depois, a ambulância chegou. No hospital, após um raio x, a enfermeira informou que foi apenas uma torção e que alguns medicamentos que seriam receitados pelo médico resolveria o problema em poucos dias.

— Obrigada, Emma — agradeceu Regina, quando finalmente chegaram ao apartamento dela.

— De nada. Tem certeza que vai ficar bem sozinha?

— Acho que com a ajuda disso eu posso me virar — disse ela, apontando na direção das muletas.

— Está bem. Se precisar de alguma coisa, pode me ligar a qualquer hora — disse Emma, e ao se inclinar para cumprimentá-la com um beijo no rosto, sem querer, mas claramente querendo, os lábios delas se tocaram, causando uma reação em cadeia de saudade, misturada a um desejo ainda maior do que antes.

— Desculpe… — murmurou Emma, e antes que pudesse se afastar, os lábios de Regina roubaram os seus.

Respirando com dificuldade, elas mergulharam uma na boca da outra, loucas para se desfrutarem por completo.

Regina não suportava mais a distância que se interpôs entre elas. Desejava cada minúsculo centímetro de Emma: o cheiro, o gosto adocicado na língua, o hálito quente de encontro à sua pele. Já não importava a situação naquele momento, ela precisava de Emma e não podia mais recuar.

— Não vá embora....por favor — disse ela, ofegante. — Eu preciso de você aqui comigo...hoje, amanhã, depois de amanhã e pelo resto dos dias que estão por vir.