Notas iniciais
Obrigada pelos comentários. Infelizmente não tive tempo para respondê-los. Boa leitura.

Depois de deixar o hospital, Regina se pegou dirigindo por toda a cidade. Parte dela queria desaparecer, no entanto, a razão lhe dizia que sumir não resolveria o problema. Além disso, ela precisava ouvir de Victor o que o levara a inventar uma mentira daquela dimensão. Não se sabe quanto tempo se passou até que ela decidiu voltar para casa. Quando entrou no apartamento, deu de cara com Victor esperando-a.

— Regina, eu posso explicar… — disse ele, e ao fazer menção de se aproximar, ela ergueu a mão para impedi-lo.

— Não se aproxime, Victor. Apenas me responda. Por que você mentiu todo esse tempo? Por que me fez acreditar que estava doente?

— Foi tudo um mal-entendido…houve um erro nos exames e eu realmente pensei que estava doente. Descobri a verdade poucas semanas depois que nos casamos.

— E por que não me contou? — ela perguntou, o coração agitado e a revolta luzindo com ousadia em seus olhos.

— Eu ia te contar…

— Quando?

— Estava esperando o melhor momento…

— Você só pode estar louco se acha que vou acreditar no que está me dizendo!

— Mas é a verdade! Se não te contei antes foi porque tive medo de que você interpretasse mal como está fazendo agora.

— Isso é o melhor que você consegue inventar? — ela respirou fundo, indignada enquanto olhava nos olhos dele com desprezo.

— Regina…

— Pare! — gritou ela, dando um empurrão violento no peito dele. A voz alta e ameaçadora.

Sem dizer mais nada, ela subiu as escadas e caminhou em direção ao quarto. Lágrimas de raiva, mágoa e arrependimento brotavam de seus olhos enquanto ela jogava suas roupas dentro de uma mala. Repassando os últimos meses que passara com Victor, ela se deu conta de que também tinha se transformado numa ótima mentirosa, fazendo o próprio jogo de resistência ao óbvio. Se casara com ele por pena e remorso, sacrificara seus sentimentos por Emma, e no final das contas, se encontrou envolvida em mais uma teia de mentiras.

— Você está indo embora? — indagou Victor, parado logo atrás dela.

— O que você esperava que eu fizesse? — ela riu, mesmo sem o menor indício de diversão.

— Achei que poderíamos resolver essa situação, juntos…

— Victor, eu quero o divórcio — ela disse, encerrando definitivamente aquela conversa. Em seguida saiu arrastando a mala porta a fora.

[…]

— Meu Deus, amiga! Isso para mim é crime. Você não vai denunciá-lo à polícia? — indagou Mary, enquanto entregava uma xícara de chá a Regina.

— Que denunciar que nada, Mary. Eu só quero que ele me dê o divórcio e que me deixe em paz.

— Olha, eu sabia que tinha algo de errado nisso. Ainda bem que você descobriu a tempo.

— Confesso que esses poucos meses de casada me pareceram uma eternidade — passando as mãos pelos cabelos, ela fechou os olhos e então suspirou. — Sinto como se um peso incalculável acabasse de ser removido das minhas costas. Apesar de estar morrendo de raiva por ter sido enganada todo esse tempo, estou também aliviada, Mary.

— Não é pra menos, amiga. Mas já passou…em breve você estará livre desse farsante — disse ela, colocando uma das mãos em seu ombro. — Bom, você vai contar a Emma o que aconteceu?

— Não sei. Não quero que ela vá tomar satisfação com ele. Além disso, Victor não sabe o que aconteceu entre a filha dele e eu.

— Será? E se ele inventou toda essa história de doença porque descobriu o que havia entre vocês?

— Meu Deus, Mary. Não é possível que o Victor seja um homem tão falso.

— Eu não duvido de nada, amiga. É a única explicação que encontro para um comportamento do gênero.

— Talvez você tenha razão. Mas no momento eu só preciso organizar minhas ideias, minha cabeça. Apesar de ter me livrado desse peso, preciso racionar. Não quero voltar a cometer os mesmos erros que acabaram me separando de Emma.

Depois que Mary deixou a sua sala, Regina permaneceu encarando o nada, inexpressiva. Os pensamentos dispersos obviamente não estavam onde deveriam. Nas horas que se seguiram, Regina tentou se concentrar única e exclusivamente no trabalho. No final da tarde, sentia-se física e mentalmente exausta. Vasculhando a bolsa em busca da chave do carro, distraída, acabou esbarrando em alguém no estacionamento do campus.

— Nossa, você está bem? — indagou Emma, estendendo os braços para ampará-la.

Regina sentiu o corpo tremer diante do contato súbito das mãos quentes em seus braços. O perfume que Emma usava, pairando no ar, recompensaram seus sentidos por um momento. A presença dela ali, de pé à sua frente, desnudava uma série de coisas nas quais Regina não queria pensar, pelo menos não naquele momento.

— Sim, eu estou bem — ela respondeu, ainda em estado de choque.

Emma soltou os braços dela e pigarreou. O coração se apertava no peito só de olhar para ela. E diante daqueles lindos olhos castanhos, Emma se perguntava até quando sua promessa duraria.

— Eu passei aqui para saber como posso terminar o curso…como você sabe, faltavam poucos meses para receber o diploma — ela explicou, umedecendo os lábios enquanto tentava desviar a atenção daquele rosto tão lindo.

— Espero que tudo se resolva — murmurou Regina.

— Estou contando com o fato da reitora ser minha amiga e minha…madrasta — disse ela, tentando soar divertida.

— Eu tenho que ir, com licença — disse Regina, a voz embargada e os olhos cheios de lágrimas.

— Espere, Regina! — exclamou Emma, segurando-a pelo braço. — Tem certeza que está bem?

Nervosa, Regina olhou ao redor e em seguida, voltou a olhar nos olhos dela.

— Sim, Emma.

— Por que está chorando?

— Por que tantas perguntas?

— Somos amigas, e amigas fazem perguntas — ela disse, e ao se dar conta de que ainda segurava o braço de Regina, soltou lentamente e recuou dois passos. — Desculpe…eu só estou preocupada com você.

— Agradeço sua preocupação, mas eu estou bem.

Emma assentiu como se estivesse satisfeita com a resposta, ainda que a verdade fosse bem diferente.

— Espero que não tenha se zangado comigo.

— Eu não estou zangada com você, Emma. Com licença.

Quando Emma se afastou, a voz de Regina ecoou em seus ouvidos.

— Emma… — chamou Regina, sem saber exatamente o que deveria dizer. Com as mãos nos bolsos, Emma se virou e a encarou. — Eu só queria dizer que sinto muito, e agradecer pela sua preocupação e por… — ela fez uma pausa, tentando acalmar a respiração e impedir que as lágrimas transbordassem mais ainda dos seus olhos. — Por você não ter se transferido para o Havaí.

— De nada — disse Emma, embora seu desejo fosse chegar mais perto e então abraçá-la. Mas ela teria que se contentar só com a amizade. — Nos vemos por aí, amiga?

Assentindo, Regina entrou no carro e partiu. Emma ficou observando enquanto o veículo desaparecia em meio aos outros carros estacionados no campus.

Alguns dias se passaram desde que Emma vira Regina pela última vez. Apesar do aperto no peito parecer querer sufocá-la cada vez que se encontravam, Emma não conseguia evitar o desejo de vê-la de novo, pelo menos por alguns minutos. Por um instante pensou em lhe enviar uma mensagem, mas percebeu que as palavras não seriam suficiente para suprir sua necessidade de se perder no brilho dos olhos castanhos.

— Como está, papai? — indagou Emma, vasculhando a casa discretamente à procura de Regina.

— Para ser sincero, não muito bem — disse ele, suspirando em seguida. — E você, como está?

— Estou bem — disse ela. — Aconteceu alguma coisa?

Soltando um suspiro derrotado, ele caminhou pela sala cabisbaixo. Depois de passar alguns segundos sem saber o que dizer, Victor ergueu a vista e encarou a filha.

— Regina e eu vamos nos divorciar.

Com o choque estampado no rosto, Emma o fitou surpresa, os olhos cheios de confusão.

— Posso saber o porquê? — ela indagou, sentindo-se péssima pela felicidade que a invadiu mediante àquela notícia.

— Talvez tenhamos nos precipitado um pouco…mas o importante é que vamos nos divorciar amigavelmente.

— Fico feliz — disse ela. — Que o divórcio seja de forma amigável — acrescentou, tentando acalmar as batidas do coração. — Bom, acho que você precisa ficar um pouco sozinho…

— Obrigado, filha. Eu só espero que Regina repense e volte atrás em sua decisão. Eu a amo e não suportaria vê-la ao lado de outra pessoa.

Emma permaneceu imóvel por um momento, tentando controlar as emoções e o tremor em seu corpo. As palavras de Victor lhe atingiram em cheio. Seu rosto magoado e os olhos azuis abatidos torturavam a sua consciência, mas se o divórcio acontecesse, ela não hesitaria em tentar resgatar a sua felicidade ao lado da mulher que os dois tanto amavam.

— Eu sinto muito, papai — disse Emma, abrindo a porta e se retirando rapidamente porque não queria que ele a visse chorar.

Dirigindo sem destino, Emma lutava para afastar o demônio que invadia seus pensamentos, incitando-a a jogar tudo para o alto e correr ao encontro de Regina. Ela sabia que jamais deixaria de amá-la, casada ou não, Regina habitaria em sua alma e em seu coração até o seu último respiro. Incerta do que deveria ou não fazer naquele momento, ela acabou decidindo parar para tomar um café na esperança de que o líquido forte e quente lhe proporcionasse alguns minutos de sossego.

— Emma! Como vai?

— Senhorita Blanchard…vou bem, e você?

— Muito bem, obrigada. Não te convido pra sentar porque já estou de saída.

— Não se preocupe, mas agradeço de qualquer forma.

— Até logo, Emma.

— Até logo…ah, senhorita Blanchard…

— Sim?

— Você tem visto Regina? Tem falado com ela? Sabe se ela está bem?

— Nossa, quantas perguntas — disse Mary, esboçando um sorriso sem graça.

— Desculpe. É que eu soube do divórcio e queria visitá-la para…

— Emma, Regina precisa de um tempo sozinha — Mary a interrompeu. — Depois do que o seu pai fez, não acho prudente…

— O que foi que o meu pai fez? — dessa vez foi Emma quem interrompeu.

— Oras… — murmurou Mary, claramente confusa. — Quem te contou sobre o divórcio?

— Meu pai. Ele me disse que decidiram se divorciar amigavelmente.

— Aaaahhh… — Mary prolongou a interjeição, tentando pensar no que dizer.

— O que está acontecendo, senhorita Blanchard?

— Emma, esse assunto é entre seu pai e Regina.

— Se fosse apenas entre eles dois, você não saberia de nada. Agora se sente aí e me conte o que foi que ele fez.

Sentando-se de frente para Emma, Mary olhou o relógio e após um longo suspiro, revelou o verdadeiro motivo pelo qual Regina sacrificara o relacionamento delas. Enquanto ouvia o relato, Emma fez uma careta de dor e segurou as lágrimas que ardiam em seus olhos.

— Foi uma mentira muito bem bolada com a qual ele conseguiu manipulá-la. Mas já passou…Regina já sabe de tudo, já pediu o divórcio então não vá tomar satisfação com…

Antes que a mente pudesse compreender o que o corpo estava fazendo, Emma se levantou da cadeira e caminhou apressadamente em direção à porta sem esperar que Mary concluísse a sua fala. Minutos atrás ela dirigia sem destino, mas agora, sabia exatamente para onde deveria ir.

— Filha, você não estava indo para casa?

— Como foi capaz, papai? Como foi capaz de inventar que estava doente para que Regina aceitasse se casar com você?

Com uma expressão de dúvida e fúria moldando seu rosto, Victor ergueu uma sobrancelha devagar e fez menção de avançar até ela, mas recuou enquanto respirava fundo na tentativa de acalmar os nervos.

— As coisas não são como você está imaginando.

— Ah, não? E como são? Fale!

— Ela estava me traindo! — rosnou ele, elevando o tom.

O corpo de Emma foi varrido por um tremor involuntário ao imaginar que Victor sabia a verdade e no entanto se calara. Engolindo em seco, ela deu um passo para longe dele. Chocada, Emma perdeu as palavras e apenas o fitou em silêncio enquanto tentava se recompor.

— De repente ela mudou — disse ele, a voz embargada. — Sei que ela mentia para mim. Acho que estava saindo com alguém, não tenho certeza. Mas tive medo de perdê-la. Pensei que depois de casados, eu conseguiria conquistá-la novamente.

Ao que parecia, Victor apenas suspeitava de uma possível traição da parte de Regina.

— O que você está dizendo não faz o menor sentido e nem justifica inventar uma mentira dessas. O que você fez foi muito grave e imperdoável.

— Eu sei. E estou arrependido do que fiz.

Embora se tratasse do seu pai, Emma não conseguia encontrar sinceridade nas palavras dele. Perguntando-se até onde ele iria com aquela farsa caso não tivesse sido descoberto, ela se deu conta de que não o conhecia tão bem quanto imaginava. Emma soltou um suspiro consciente de sua parcela de culpa, mas estava segura de que jamais chegaria a esse ponto, afinal, ela desejava ter Regina ao seu lado por amor, não por pena.

— Bom, eu tenho que ir.

— Espero que você compreenda que o que eu fiz foi por medo de perdê-la…

— É, talvez eu tenha compreendido — ela falou, segurando a maçaneta da porta. — Há algum tempo, eu conheci alguém que amava tanto uma mulher, que também sentiu um medo assim — acrescentou, sem se virar. Os pensamentos vagaram até Regina, e então ela abriu a porta e saiu.

[…]

— Caramba, Emma! Agora tá explicado o motivo dela ter decidido se casar com ele — comentou Ruby, chocada com o que acabara de ouvir.

— Pois é. Mas ela não devia ter feito isso.

— Na verdade, muita coisa não deveria ter sido feita. Mas o que está feito, está feito. Sorte que ela não demorou muito para descobrir a mentira.

— Cedo ou tarde seria descoberto. Ninguém consegue esconder uma falsa doença por muito tempo.

— Depende…seu pai foi um pouco burro ao inventar justo essa.

— Dá um tempo, Ruby.

— É a verdade. Enfim, parece coisa de novela…pai e filha brigando pela mesma mulher — ao ouvir o comentário, Emma olhou de cara feia pra amiga e balançou a cabeça negativamente.

— Ele disse a Regina que descobriu que os exames estavam errados depois do casamento. Mas é mentira. Ele suspeitava que ela estava interessada em outra pessoa e armou tudo isso para manipulá-la — franzindo a testa, ela se levantou de repente e se pôs a caminhar. — Talvez você tivesse razão quando falou que ele estava tentando adiar a conversa com ela.

— Eu te avisei, Emma. Ele desconfiava que a professora iria deixá-lo, então inventou essa merda porque sabia que ela não teria coragem de abandoná-lo com o pé na cova.

— Eu preciso vê-la. Conversar com ela…mas não sei se é o momento apropriado.

— Bom, não vejo mal algum em você ir oferecer o ombro à sua madrasta.

— Fala sério, porra.

— Eu tô falando sério, Emma. Vá atrás dela, diga que sabe de tudo e então tomem uma decisão juntas dessa vez.

Aquelas palavras fizeram Emma se arrepiar dos pés à cabeça. Com o coração disparado, ela se despediu da amiga e se foi, em busca de um possível novo recomeço. Imaginando que Regina teria retornado para o seu antigo apartamento, Emma dirigiu direto para lá e em pouco tempo ela chegou ao lugar desejado. Lenta e vacilante, ela atravessou o portão e avançou em direção à porta.

Quando Emma tocou a campainha e Regina abriu a porta, as duas se perderam uma na outra, e naquele momento, nada mais existia. Regina desviou o olhar, mas Emma ergueu o queixo dela, fazendo-a fitar seus olhos verdes.

— Posso entrar? — Emma perguntou, e o único som que escapou dos lábios de Regina foi um suave arfar.