— Como está a situação com o retorno de Emma? — indagou Mary, enquanto tomava um café na sala de Regina.

— Não sei explicar…ela está morando na casa de campo e só as vezes vem fazer uma visita.

— Quer dizer que ela não te persegue mais como antes?

— Mary.

— Regina.

— Não. Ela não me persegue. Quer dizer, ela me olha daquele mesmo modo, mas se mantém distante.

— Regina, já tem algum tempo que eu quero te perguntar uma coisa…

— O que?

— Você não acha um pouco estranho que o Victor não faça visitas médicas e ainda assim a doença dele parece não se manifestar?

— Ele toma os remédios em casa, Mary. Remédios pra aliviar a dor. Já te expliquei que ele não quer se submeter a nenhum outro tipo de tratamento. Porque está me perguntando isso?

— Por nada. Só acho um pouco estranho.

Regina pareceu pensativa e quando fez menção de falar, o telefone de sua sala tocou. Mary se levantou enquanto se despedia num sussurro, e com o aparelho já em mãos, Regina atendeu a ligação.

Na semana que se seguiu, Regina não conseguia parar de pensar na conversa que tivera com Mary. Já havia se passado alguns meses desde que Victor revelara sobre sua doença, mas ela não se lembrava de nenhuma queixa da parte dele depois que se casaram. Suspirando, ela se dirigiu à cozinha para tomar um copo de água antes de sair para se exercitar no parque central de Boston. Era sábado, e o sol brilhava como nunca naquela manhã.

— Já estou indo, Victor. Acho que não vou almoçar em casa — disse ela.

— Está bem, querida.

— Precisa de alguma coisa? De algum remédio?

— Não, não se preocupe.

— Então nos vemos mais tarde.

— Não vai me dar um beijo?

Relutante, ela se aproximou e pressionou rapidamente os lábios contra os dele, e com a mesma velocidade em que ela os tocou, se afastou, abriu a porta e caminhou até seu carro.

O clima naquela manhã estava agradável. Depois de estacionar o veículo nas proximidades do parque, Regina colocou os fones de ouvido e deu início a sua caminhada. Sentindo que já estava aquecida, ela se pôs a correr, no entanto, ao se distrair enquanto mudava a música atual no telefone, acabou esbarrando em alguém. Com o choque, seu telefone escapou da mão e caiu. Então ela se ajoelhou para pegá-lo, mas antes que pudesse fazê-lo, a pessoa na qual ela tinha esbarrado já estendia a mão em sua direção.

— Obrigada, e desculpe por… — a voz falhou quando o seu olhar cruzou com o de Emma.

Regina quase perdeu o fôlego ao vê-la naqueles trajes tão à vontade: short preto esportivo e regata da mesma cor.

— Você se machucou? — indagou Emma, se perguntando se Regina havia sentido a conexão entre elas quando seus dedos se roçaram no momento em que ela lhe entregara o celular.

— Não, não. Nem meu celular, por sorte… — disse ela, sorrindo timidamente.

— Não sabia que você gostava de correr ao ar livre — Emma falou.

— Nem eu sabia que você também gostava.

Um silêncio inquietante pairou entre elas. Era como se toda vez que elas se encontrassem, ocorresse uma contradição distorcida: por mais que sentissem a necessidade de fugir, elas também se sentiam inegavelmente atraídas uma pela outra.

— Regina… — Emma começou. — Eu queria me desculpar pelo meu comportamento, principalmente na última vez em que nos vimos antes de eu viajar — acrescentou, abaixando a voz ao mesmo tempo em que engolia em seco. — Não estou me desculpando por ter me apaixonado por você, que fique claro.

— Emma… — Regina tentou se pronunciar, mas Emma ergueu a mão, silenciando-a.

— Em diversas ocasiões eu a deixei numa situação muito desconfortável, e prometo que isso não vai se repetir — disse ela, recordando as abordagens na universidade, a pressão e a ousadia mesmo na presença de Victor. Lembrou-se também que quase revelara diante de todos o que havia se passado entre as duas, e embora não estivesse arrependida de nada do que fizera, Emma se sentia na obrigação de se desculpar com ela.

Com a respiração presa na garganta, Regina fez menção de falar, no entanto, fora interrompida pela voz de Emma mais uma vez.

— Eu só quero que você saiba que eu ainda te amo, que ainda sou perdidamente apaixonada por você — Emma revelou, respirando fundo. — Você é a mulher mais bonita e mais fascinante que eu já vi na minha vida. Você mexe comigo de uma forma que eu não sei explicar e talvez jamais consiga. Sei que se as pessoas soubessem disso, diriam que é errado e que eu estou louca porque você é minha madrasta. Mas são os meus sentimentos e eu não tenho como negá-los ou arrancá-los de mim. A única coisa que posso fazer é colocar esses sentimentos de lado e ser sua amiga.

Respirando bem fundo, Regina engoliu o choro mas não conseguiu acalmar as batidas violentas do seu coração. Com a respiração superficial e trêmula, ela pensava no que dizer, já que as palavras de Emma pareceram bloquear seus pensamentos. Notando a confusão no comportamento e na expressão dela, Emma abriu um pequeno sorriso e lhe estendeu a mão.

— Amigas? — disse ela.

Assentindo, Regina apertou sua mão e o contato fez despertar o conhecido arrepio por todo o corpo. Quase perdida no brilho dos olhos verdes de Emma, Regina puxou delicadamente a mão, e os dedos formigaram com a ausência do toque dela.

[…]

— Como foi o passeio no parque? — Victor perguntou, tomando o rosto dela com as mãos para logo em seguida, roubar-lhe um beijo.

— Foi ótimo — ela disse, afastando-se rapidamente. — O dia estava muito bonito.

— Não tenho dúvidas — disse ele. — O que acha de jantarmos fora essa noite?

Embora não sentisse a menor vontade, Regina disse sim ao convite.

Enquanto tomava banho, as palavras de Emma ressoavam em sua mente e ela sorriu de felicidade pela certeza de que ela ainda a amava.

Após a longa chuveirada morna, ela se dirigiu ao quarto sem muito interesse em escolher um vestido para àquela noite, no entanto, tudo mudou quando o seu celular tocou em cima da cama informando que uma nova mensagem de texto havia chegado. Ao digitar a senha do aparelho, ela quase perdeu o equilíbrio quando leu o conteúdo.

Queria saber se você aceitaria ir ao cinema amanhã com a sua nova amiga. Ass: Emma.

Por longos minutos, Regina manteve o aparelho nas mãos, e apesar do sorriso, ela não sabia o que responder. Soltando a respiração bem devagar, ela digitou as primeiras palavras que surgiram em sua cabeça:

Aceito. Mas a amiga que convida é a mesma que paga os bilhetes e a pipoca.

Assim que o telefone vibrou em sua mão, Emma abriu a mensagem e não conteve o sorriso. Em poucos segundos ela respondeu:

Pensei que as amigas dividiam a conta. Mas tudo bem…eu já estava mesmo pensando em esvaziar o meu porquinho.

Mordendo o lábio na tentativa de conter o riso, Regina balançou a cabeça enquanto os dedos deslizavam com agilidade pelo teclado:

Ótimo! Então nos vemos amanhã no cinema, amiga?

Após longos segundos, a resposta de Regina chegou. Sorrindo, Emma escreveu de volta:

Sim, nos vemos amanhã no cinema, amiga.

[…]

Regina consultou as horas em seu relógio de pulso mais uma vez. Embora já tivesse anoitecido, os ponteiros pareciam estar congelados. Dentro de duas horas ela se encontraria com Emma em frente ao cinema. Sentindo-se uma adolescente ansiosa pelo primeiro encontro, ela deu uma última olhada no espelho. Passou a mão pelos cabelos tentando lhes dar um pouco mais de volume sem exagerar no laquê.

— Você está linda — a voz de Victor atraiu sua atenção. — Tem certeza que vai ao cinema com Mary? — ele indagou, num tom brincalhão.

— Sim, Victor. Eu vou ao cinema — disse ela, ocultando a verdadeira acompanhante.

— Estou brincando, querida. É que ontem fomos jantar e você não se vestiu assim pra mim.

— Eu me visto para mim, Victor. Não para você.

— Uau! Não está mais aqui quem falou.

— Desculpe…eu não quis ser grosseira.

— Eu entendo, não se preocupe. Bom filme — ele falou, pressionando suavemente seus lábios contra os dela.

— Nos vemos mais tarde — dito isso, Regina abriu a porta e saiu.

Enquanto dirigia, Regina tentava se concentrar na estrada, mas não conseguia evitar pensar em Victor, em Emma, na infelicidade que os cercava, e se sentir culpada por isso. Parando no sinal vermelho, ela fechou os olhos e tentou pensar em outra coisa, afinal, só lhe restava seguir o mesmo caminho que Emma encontrara: colocar os sentimentos de lado e serem amigas. Cinco minutos depois, ela chegou ao local combinado.

No segundo em que Regina se aproximou da porta de entrada, seus olhos encontraram os de Emma. Um sorriso surgiu em seu rosto e os pensamentos conflitantes desapareceram quando sua enteada caminhou ao seu encontro. Ela estava impressionante trajando seus jeans rasgados cortados à perfeição.

— Oi… — disse Emma, os olhos ansiando centímetro por centímetro daquele corpo.

Regina estava estonteante usando um vestido tomara que caia preto que destacava o colo. Tons de cinza esfumaçado cintilavam em suas pálpebras enquanto os lindos olhos castanhos dela fitavam os verdes de Emma.

— Oi… — murmurou Regina, tentando se recompor.

— Você está muito bonita — Emma falou.

— Obrigada — disse ela, nervosa. — Você também está ótima.

— Obrigada. Vamos? Já comprei os bilhetes. Só faltam as pipocas e o refrigerante — ela deu um sorriso carinhoso indicando o caminho.

— Vou substituir o refrigerante por uma garrafa de água.

— Eu até que gostaria de fazer o mesmo, mas não resisto a uma coca cola geladinha.

— Não me surpreende… — murmurou Regina, contendo o sorrisinho.

Apesar de a surpresa por passar aquele tempo com Emma, Regina a seguiu até a fila onde as pessoas aguardavam para comprar refrigerantes e pipocas. Uma vez dentro da sala, as duas se acomodaram em suas respectivas cadeiras e involuntariamente, os braços se roçaram. Emma pigarreou e se remexeu na cadeira enquanto tentava segurar o riso ao perceber que Regina olhava para ela de soslaio.

— Chegamos bem na hora. O filme já vai começar — disse Emma, observando as horas em seu relógio de pulso.

Assentindo, Regina colocou o celular no modo silencioso e logo depois, o filme iniciou.

Sentindo-se um pouco mais relaxada com a situação como um todo, Regina começou a comer sua pipoca, mas logo parou quando as cenas emocionantes do filme Hidden Figures lhe arrancaram algumas lágrimas. Os olhos de Emma abandonaram o telão e se concentraram no rosto dela, banhado e tocado pela tristeza. Embora desejasse secar aquelas lágrimas com seus beijos, Emma se limitou a entregá-la um lenço de papel.

— Obrigada — balbuciou Regina, a voz embargada pelo choro.

Depois de alguns sorrisos e muitas lágrimas, o filme terminou. Enquanto seguiam até o estacionamento, Regina agradecia a Emma pelas horas agradáveis que haviam passado juntas.

— Fazia muito tempo que eu não vinha ao cinema — disse ela, abrindo a porta do carro.

— Fico feliz que tenha gostado. Eu também gostei muito — Emma falou.

— Então…boa noite, Emma.

— Boa noite, Regina.

Respirando bem fundo, Emma a observou ajustar o cinto de segurança e em seguida partir. Enquanto caminhava até seu carro no outro lado do estacionamento, a cabeça foi ficando agradavelmente confusa. O coração batia mais forte contra o peito enquanto o desejo por sua madrasta só aumentava. Depois daquela noite, ela se deu conta do quão difícil seria deixar seus sentimentos de lado e ser amiga de Regina, mas estava disposta a manter sua promessa.

[…]

Na manhã seguinte, Regina tentou se concentrar no café que preparava em um esforço inútil para tirar Emma de sua cabeça. Depois de sorver alguns goles do líquido quente, ela se dirigiu ao quarto para buscar sua bolsa que deixara em cima da cama. Ajustando a alça em seu ombro, ela fez menção de se retirar, mas se deteve quando o celular de Victor vibrou em cima da mesa de cabeceira. O remetente lhe chamou a atenção, e movida pela curiosidade, ela abriu a caixa de mensagens e se surpreendeu com o conteúdo.

Como é possível que Victor tenha um agendamento para doar sangue? Se perguntava Regina, e ao perceber que ele desligara o chuveiro, ela marcou a mensagem como não lida e se retirou do quarto.

Perdida em pensamentos, ela dirigiu até a universidade e tão logo adentrou sua sala, discou o número de alguns hospitais. As informações que recebera só confirmaram o que de fato ela já sabia: nenhum doador de sangue pode ser portador de tal enfermidade.

Atordoada, Regina se levantou da cadeira e caminhou angustiada pela sala. Sem querer acreditar que Victor estivera mentindo todo esse tempo, ela tentou se agarrar ao fato de que aquela mensagem poderia se tratar de um engano. Desse modo, ela resistiu à vontade de questioná-lo a respeito disso, e esperou até o dia seguinte, data em que supostamente ele faria a doação.

No final da tarde quando chegou em casa, Regina se trancou no escritório com a desculpa de que havia muitos projetos universitários para serem estudados por ela, e com esse argumento, ela conseguiu evitar a presença dele.

Na manhã seguinte, conforme planejara, Regina o seguiu até o posto de atendimento. Depois de esperar alguns minutos dentro do carro, ela se dirigiu até a porta de entrada, mas recuou quando uma voz atrás de si lhe chamou pelo nome.

— Regina?

— Kathryn?

— Nossa! Quanto tempo! Como você está? — ela indagou, cumprimentando-a com beijos no rosto e um rápido abraço.

— Estou bem, e você?

— Estou ótima, obrigada. O que faz aqui?

— Ah…eu esqueci as chaves de casa no carro do meu marido e preciso delas. Ele veio doar sangue.

— Que bacana! Não sabia que você tinha se casado.

— Pois é, eu me casei. Você poderia me levar até ele? Preciso urgentemente dessas chaves.

— Claro, Regina. Qual é o nome dele?

— Victor. Victor Swan.

— Deixa eu ver… — ela murmurou, enquanto observava alguns papéis em suas mãos. — Sim, ele está na lista de doadores. Vem, te acompanho até ele.

Com algumas passadas rápidas, Regina atravessou um corredor e deu de cara com Victor sentado numa poltrona ao lado de outros doadores. Uma ruga de reprovação se formou entre as sobrancelhas enquanto ela secava uma lágrima do rosto. Sem saber o que dizer, olhando para aqueles olhos azuis assustados e surpresos que a encaravam, Regina apenas balançou a cabeça e sem dizer uma só palavra, foi embora.