Os olhos de Emma encontraram os de Regina e como sempre acontecia, o coração se agitou em seu peito. Mesmo distante, ela não pôde deixar de notar que Regina parecia ainda mais estonteante do que se lembrava. Aturdida com tanta beleza, ela só desviou o olhar quando a voz de Mérida ressoou em seus ouvidos.

— É ela? A madrasta?

Assentindo discretamente, Emma lhe segurou a mão e se pôs a caminhar na direção em que Regina e a amiga se encontravam.

— Regina? Você não tá se sentindo bem? — indagou Mary, claramente preocupada. E então se girou devagar ao notar que sua amiga mantinha os olhos fixos em uma direção. — Aquela é Emma? — ela indagou, enquanto seu rosto nada mais registrava do que espanto e curiosidade.

Regina balançou a cabeça e um nó se formou em sua garganta enquanto observava Emma se aproximar. Sentiu as pupilas dilatarem enquanto a distância entre elas diminuía, e o desespero de sair dali aumentava a cada segundo.

— Boa noite — disse Emma, com a voz tranquila e impassível.

— Emma! Boa noite! — Mary exclamou, levantando-se rapidamente na tentativa de quebrar a tensão. — Como foi de viagem? Quando voltou?

— Foi tudo bem, obrigada. Praticamente acabei de chegar — ela falou, com a mais simples naturalidade. — Ah, essa é Mérida, uma amiga. Mérida, essa é a senhorita Blanchard, professora da universidade em que eu estudava aqui em Boston.

— Muito prazer — disse ela, apertando-lhe a mão.

— E essa é…Regina — Emma fez uma pausa, estudando o rosto dela por alguns segundos antes de prosseguir. — Minha madrasta.

Com a respiração se acelerando devido a presença dela, desejada e indesejada, Regina cumprimentou a desconhecida sob o olhar atento de Emma.

Minutos depois de Emma e Mérida se acomodarem numa mesa bastante reservada, Regina e Mary deixaram o restaurante. Durante todo o percurso as duas permaneceram em silêncio, mas quando Regina parou para que a amiga descesse, as palavras de repente surgiram.

— Não permita que a presença dela tire a sua paz.

— Paz? — ela riu, embora sua vontade fosse chorar. — Há muito tempo eu não sei o que significa ter paz.

— Eu sinto muito, amiga. Espero que você consiga ocupar sua cabeça com os assuntos do trabalho e…

— Está tudo bem, Mary. Não se preocupe — disse Regina, aparentemente tranquila, mas a dor em sua expressão era evidente.

Mary se inclinou para dar um abraço nela, e quando a soltou, notou seu olhar cansado e preocupado, no entanto, achou melhor não dizer mais nada, então desceu do veículo e se foi.

Enquanto dirigia de volta para casa, Regina se dava conta de que estivera, de certo modo, fingindo até agora que Emma nunca existira, que quando ela voltasse, sabe-se lá de onde, seria apenas sua enteada, a filha do seu marido e nada mais. Entretanto, bastou revê-la para que o desejo por ela preso dentro de si, incendiário, sufocante, a ponto de explodir, viesse à tona e se manifestasse por todo o seu corpo.

Ao chegar em casa, Victor a esperava na sala enquanto lia um livro. Mas quando se deitaram na cama e se deram boa noite, a solidão varreu-a de novo como um vento impetuoso, misterioso como as lágrimas ralas que lhe cobriam os olhos de repente, ralas demais para serem notadas.

[…]

Na manhã seguinte, Regina abriu os olhos e percebeu que Victor já não estava mais na cama. Inclinando-se para pegar o celular na mesa de cabeceira, seus olhos registraram no aparelho que já passava das nove da manhã. Depois de lavar o rosto, ela desceu em direção à cozinha e quase recuou quando notou a presença de Emma ao lado do pai.

— Meu amor, bom dia — disse Victor, levantando-se da cadeira. — Olha só quem voltou de viagem — acrescentou, conduzindo-a até a mesa.

Emma olhou bem fundo nos olhos castanhos que agora pareciam mais sérios, de certo modo também saudosos. De repente ela baixou os olhos, incapaz de penetrá-los. Mas voltou a mirá-la quando se levantou para cumprimentá-la.

— Como eu não estive presente, quero parabenizá-la agora pelo casamento — disse Emma, e então apertou a mão dela, sentindo a mesma onda de calor que a invadia toda vez que tinha a oportunidade de tocá-la. Ainda era a mulher mais bonita que já vira, pensou Emma, com uma súbita dor da perda.

— Obrigada, Emma — ela respondeu, engolindo em seco. — Seja…bem-vinda de volta — completou, soltando-a por fim.

Regina se sentou e bebericou seu café enquanto Victor disparava mil e uma perguntas sobre a estadia de Emma no Havaí. Sem muito detalhes, ela contou o que basicamente havia feito nesses três meses ausentes, mas em nenhum momento chegou a falar a respeito da moça que a acompanhava na noite anterior. Regina não dissera nada a Victor sobre tê-la encontrado no restaurante, e pelo visto, ela também não comentou.

O coração de Regina deu um salto quando Emma mencionou a possibilidade de se transferir para o Havaí. Embora soubesse que ficar perto de Emma era o máximo da dor autoinfligida, Regina estava disposta a aguentar por um único motivo: ser agraciada pela presença dela.

Desde que Emma partira sem dizer para onde e nem quando voltaria, um vazio apareceu em seu peito e por ali ficou, assombrando-a noite e dia.

— Bom, eu tenho que ir — disse Emma, interrompendo-lhe os pensamentos.

— Ir para onde? — indagou Regina, involuntariamente.

— Ah, esqueci de comentar que estou acompanhada, portanto, não ficarei aqui — ela disse, notando a súbita mudança em seu comportamento. Se Victor também notou, não comentou.

— Acompanhada? — ele perguntou, sorrindo, embora parecesse surpreso.

— É uma amiga, papai.

— Bom, o seu quarto é grande o suficiente para você e sua amiga.

— Depois vemos isso…

— Muito bem, mas ao menos convide sua amiga para jantar conosco. Eu mesmo prepararei o jantar essa noite, está bem?

Os olhos de Emma se voltaram a Regina e notaram os pequenos sinais de enfado, tão sutis que talvez só ela tivesse notado. Se vendo incapaz de pensar por um instante, Emma apenas assentiu e se virou para ir embora. Mas antes de fazê-lo, lançou um último olhar para Regina, penetrante e cheio de desejo, que ficaria gravado na memória dela pelo resto da tarde.

[…]

— Tem certeza que isso é uma boa ideia?

— Meu pai insistiu.

— Quando você não quer fazer uma coisa, você não faz, Emma — disse Mérida, acariciando-lhe o rosto com o dorso da mão. — Mas nesse caso você quer fazer porque ainda é apaixonada pela sua ex professora, e agora madrasta. Você quer ficar perto dela, não é?

A ilusão que Emma criara dela e Regina juntas já não podia estar mais longe da realidade. No entanto, apesar dos meses em que se manteve ausente, ela não conseguiu fazer outra coisa que não fosse fechar os olhos e pensar nela. Enquanto dormia, ou mesmo acordada, Regina continuava vagando pela sua mente.

— Ela não sai da minha cabeça — disse Emma, afastando-se e sentando na cama do quarto de hotel onde Mérida ficaria alguns dias. — Dois meses longe dela só serviram para me enlouquecer de saudade.

— Vou repetir o que eu já disse antes: ou você luta, ou abre mão dela.

— Lutar? Ela está casada com meu pai!

— Você foi pra cama com ela quando eles namoravam.

— É diferente! — ela exclamou, levando ambas as mãos à cabeça. — Casamento é algo mais sério!

— Então desista dela de uma vez. Deixe tudo para trás e venha comigo para o Havaí.

De origem escocesa, Mérida se transferira aos Estados Unidos aos dezesseis anos. Sete anos depois, decidiu compartilhar sua paixão pelo surf e com a ajuda dos pais, conseguiu montar uma pequena escola de surf para iniciantes. Emma a conheceu num festival à beira mar, e ainda que sua intenção fosse somente caminhar para espairecer, ela acabou dividindo aquela noite festiva com Mérida. Descobrira que tinham muitas coisas em comum, mas, apesar disso, e de todos os atributos que ela sem dúvida alguma possuía, Emma não conseguia parar de compará-la a Regina.

— Eu preciso pensar, Mérida — disse ela, levantando-se em seguida. — Vou visitar uma amiga da universidade. Quer vir comigo?

— Adoraria, mas não posso. Tenho que fazer algumas ligações.

— Nos vemos mais tarde então — dito isso, Emma lhe beijou o rosto e saiu.

[…]

— Qual é, Ruby? Você não vai me dar um abraço?

— Eu devia era te dar um soco! — ela protestou, aproximando-se e abrindo os braços para recebê-la. — Porque você não mandou mais notícias?

— Precisava manter distante tudo o que me levasse a Regina — Emma falou, recuando para que seus olhos encarassem os dela. — Se eu continuasse falando com você, eu perguntaria por ela e…

— Eu sei, Emma. Fica tranquila…eu só fiquei preocupada porque você me disse adeus e desligou. Enfim, senti sua falta.

— Eu também senti sua falta.

— Vem, vamos para o meu quarto porque agora você vai me dizer onde esteve e o que andou fazendo todo esse tempo!

Apesar de não ter muito o que contar, visto que sua estadia no Havaí se resumira em caminhar sem rumo por horas e horas, observar o mar e a empolgação das mulheres enquanto passavam bronzeador solar, Emma se demorou nos detalhes de seu encontro casual com Mérida, e na decisão da nova amiga de não deixá-la passar seus últimos dias ali sozinha.

— Não me diga que você se envolveu com essa garota pensando que assim esqueceria a professora…

— É claro que não, Ruby. Não me envolvi com ela. Somos apenas amigas.

— Espere aí. Você me disse que dormiu com ela.

— Dormimos juntas no bom sentido da palavra. Quero dizer, eu dormi no apartamento dela mas não aconteceu nada entre a gente. Eu não consigo me envolver com alguém sem estar apaixonada.

— Uau! Isso sim é difícil de se ver hoje em dia. Mas enquanto não se apaixona por outra pessoa, o que pretende fazer?

— Esperar — ela disse, baixando a vista e pressionando as têmporas. — Esperar que o tempo possa apagá-la da minha memória, ou…

— Ou…?

— Que ela se divorcie e queira recomeçar comigo.

— Se ela não terminou um simples namoro, o que te faz pensar que ela pense em se divorciar?

— Talvez ela possa se dar conta de que o medo do julgamento de terceiros não pode ser o motivo para renunciar a felicidade.

— Emma…além de professora, Regina agora é a reitora da universidade.

A saudade já agoniava o coração dolorido de Emma, mas, de alguma forma, aquela nova informação intensificou muito além de qualquer medida.

— Eu não sabia disso… — ela se esforçou para que a voz não falhasse.

Uma tensão pesada caiu sobre o quarto de Ruby. Aquela notícia foi como um tapa na cara.

— Talvez você só precise aceitar que entre Regina e você acabou. Olhe para ela como sua madrasta e não como a mulher que você ama.

— Acho que você tem razão… — disse Emma, incapaz de controlar as emoções, piscando com lágrimas nos olhos.

Algum tempo se passou até que Emma se despediu de Ruby e foi embora. Ainda pensava se deveria ou não levar Mérida para jantar na casa do seu pai. Embora fossem apenas amigas, não queria que Regina pensasse o contrário. Estava prestes a ligar para Victor e avisar que não iria, mas a mensagem de texto enviada por ele avisando que já estava preparando o jantar, fez com que ela recuasse.

Quando o relógio marcou dezenove horas e trinta minutos, a campainha tocou e segundos depois, Victor abriu a porta. Encantado com a simpatia de Mérida, ele pediu licença e retornou à cozinha. Foi então que Regina apareceu, linda como na primeira vez em que Emma a vira. O corpo se movimentava com a mais pura elegância. Emma tentou impedir os olhos de viajarem pelas curvas sutis do corpo dela, pelos cabelos um pouco crescidos. Lutou para afastar a dor que machucava o seu peito, mas seu corpo continuava reagindo na medida em que ela se aproximava.

— Boa noite — disse Regina.

— Boa noite — Mérida e Emma responderam juntas.

Olhando fundo nos olhos dela, Emma fez menção de dizer alguma coisa, mas Victor apareceu fazendo-a recuar. Enquanto caminhavam até a mesa, o perfume de Regina fez o corpo de Emma tremer, trazendo de volta as lembranças que ela tentava a todo custo arrancar da memória. Respirando fundo, ela se acomodou ao lado de Mérida lutando para ignorar a presença sufocante da sua madrasta.

Apesar da tensão entre Emma e Regina, o jantar iniciou e terminou de forma tranquila, embora Mérida tenha abalado alguns nervos quando mencionou a possibilidade de Emma se transferir para o Havaí com ela. Victor se mostrou entusiasmado dando apoio a ideia, mas Regina, não pareceu nem um pouco contente com aquela possível decisão de sua enteada. Antes de irem embora, Emma se dispôs a ajudar Regina a retirar a mesa enquanto Victor conversava na sala com Mérida.

— Ela não é minha namorada, caso você esteja se perguntando — disse Emma.

— E quem disse que eu estava? — indagou Regina.

— E quem disse que você não estava?

Antes que Regina pudesse responder, Victor apareceu perguntando se precisavam de ajuda. Minutos depois, todos se despediram e elas foram embora.

Uma semana se passou e Emma finalmente decidiu que não se mudaria para o Havaí com Mérida. Agradeceu a companhia, as conversas, a compreensão da parte dela e então a abraçou quando a chamada para o embarque foi anunciada.

— Se precisar de alguma coisa, sabe onde me encontrar — disse ela, e após mais um abraço, Mérida se dirigiu à sala de embarque.

Enfiando as mãos nos bolsos da calça, Emma pegou um táxi e a pedido dela mesma, o veículo só fez metade do caminho. Ela pagou a corrida e desceu aonde tudo começou. Olhando para a universidade onde viu Regina pela primeira vez, ela se perguntou por quanto tempo ainda a amaria.

— Emma? — a voz tão familiar lhe interrompeu os pensamentos. — O que faz aqui?

— Fui acompanhar Mérida ao aeroporto e acabei descendo aqui.

— Quer dizer que você não vai se transferir para o Havaí? — Regina indagou, tentando disfarçar o tom alegre em sua voz.

— Não, meu lugar é aqui.

Reprimindo o instinto de abraçá-la e dizer o quanto a amava, Regina retomou o equilíbrio, enxugou o suor que se acumulava na nuca e deu dois passos hesitantes para trás.

— Eu tenho que ir… — ela disse, ajustando a alça da bolsa em seu ombro.

— Fiquei sabendo que você agora é a reitora da universidade. Parabéns pelo cargo.

Um nó se formou em sua garganta enquanto os olhos se enchiam de lágrimas, e apesar de toda a dificuldade que sentia, Regina conseguiu dizer obrigada sem desabar. E então elas se separaram na calçada. Regina caminhou para um lado, Emma para o outro. E era assim que devia ser, pensou Emma, sem aperto de mão demorado, nem olhares nostálgicos para trás.